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Inovação

Caminhos da invenção

Rafael Sartori

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Há pouco tempo atrás o editor geral Ricardo Braga foi apresentado ao Flavio Boabaid, criador do banheiro de bolso, um produto para homens e mulheres de todas as idades poderem urinar em qualquer lugar que ofereça um mínimo de privacidade. Essa semana eu conheci o Paulo Gannam, um inventor que trabalha há 7 anos com criação, desenvolvimento e proteção intelectual de novos produtos por meio de pedidos de patente.

Estes encontros chamaram atenção do Jornal 140 e nós produzimos este artigo sobre quais são os desafios do inventor brasileiro para transformar uma ideia em patente.

PATENTE

A partir do momento em que o inventor tem uma ideia que julga inédita, é necessário realizar um levantamento no banco de dados do INPI para verificar a produção tecnológica anterior à ideia concebida que pretende patentear.

Se o levantamento apontar esse grau de ineditismo da ideia, é necessário realizar um pedido de patente redigido por um advogado especializado em propriedade intelectual. O site do INPI abre margem para que o próprio inventor redija o pedido, mas a chance de erro é maior.

Após o pedido ter sido protocolado, o inventor precisa realizar um acompanhamento da tramitação desse pedido no INPI. Um processo demorado, caro e que muitas vezes torna a ideia do inventor obsoleta com o tempo, pela demora em se analisar o pedido dele. Dependendo do tipo de produto, a aprovação da carta patente leva de 7 a 12 anos.

MERCADO

Com a patente em mãos, o inventor tem alguns caminhos para levar o produto ao mercado.

A primeira opção é o próprio inventor angariar recursos para fabricação e comercialização, sendo essa a opção mais remota, pois normalmente os inventores não trazem consigo as competências e parceiros necessários para viabilizar o produto por conta própria.

A segunda opção e mais desejável, é o licenciamento da patente, no qual o inventor autoriza que uma empresa fabrique e comercialize o produto, processo ou composto protegido em determinados territórios. Em troca dessa permissão de exploração, o inventor recebe uma participação por unidade vendida (Royalties), que costuma oscilar entre 3% e 6% sobre os lucros obtidos por unidade vendida.

A terceira opção seria o inventor se afiliar a algum empreendedor ou startup, com ótima visão comercial para criar planos e modelos de negócios interessantes. Muitas vezes o inventor não tem a visão comercial para tornar o seu produto um sucesso de vendas e o empreendedor pode ter um papel fundamental nessa etapa de construção e viabilização do negócio.

A última opção é vender a patente para alguma empresa, ou seja, o inventor transfere em carácter definitivo todos os direitos de exploração industrial e comercial do produto. Em troca o inventor recebe um valor fixo avaliado em relação ao potencial que a patente tem sobre vendas e escalabilidade.

INVESTIDORES

Nos Estados Unidos, Europa, Japão e Coreia do Sul, existem os brokers de propriedade intelectual, pessoas que compram patentes do pequeno inventor e vendem a grandes corporações. Nos Estados Unidos ainda tem investidores que financiam ações de infração movidas pelo pequeno inventor e empresas cujo objeto social consiste exclusivamente na detenção de patentes.

Já no Brasil, não existe nenhum programa de apoio ao inventor independente e também não existe nenhum programa de aceleração, estudo de viabilidade econômico financeira e validação do conceito do produto voltado a pessoas físicas. No Brasil, o inventor precisa encontrar um investidor com perfil e com apetite pelo risco maior do que a média, pois o investidor terá de fazer uma análise comercial e jurídica bastante complexa sobre as chances da carta patente ser ou não concedida.

Afinal, o investidor não vai querer investir em um produto que lá na frente tenha a patente negada. A patente é um dos elementos mais importantes para permitir que a exploração do produto tenha exclusividade e esteja livre de concorrência por um determinado período de tempo.

DADOS GERAIS

De acordo com o boletim do INPI, no acumulado de janeiro a novembro de 2018, os inventores, pessoas físicas, foram responsáveis pelo depósito de 1.886 pedidos de patente de invenção no Brasil (43%) e por 1.513 pedidos de patente de modelos de utilidade (66%). Neste mesmo acumulado, foram apresentados 875 pedidos de averbação de contratos, sendo que 88% por empresas de médio e grande porte, 10% por micro-empreendedores e somente 0,5% por pessoas físicas.

Isso significa que os inventores são a classe que mais depositam patentes no Brasil sem nenhuma contrapartida municipal, estadual ou federal, para que eles possam desenvolver seus projetos e atingir a etapa necessária para tornar viável sua fabricação e comercialização. Pessoas físicas são as que contribuem com a maior parte dos depósitos de patente e as que menos conseguem fechar negócios.

INVENÇÃO À BRASILEIRA

Após passar por um aperto para conseguir urinar no carnaval de 2006, Flavio Boabaid teve a ideia ao visitar uma farmácia e ver um pacote de fraldas compacto. Boabaid iniciou sua pesquisa e levou mais de três anos para chegar ao protótipo de sua ideia.

“Uma embalagem plástica, com uma manta interna, absorveria a urina e não deixaria vazar. Fiz pesquisa no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) e vi que não havia nada parecido com isso”.

Batizado de Número 1, o produto pode ser usado em espaços públicos, desde que em locais com um mínimo de privacidade. O revestimento de plástico evita o mau cheiro e o material absorvente é equivalente a celulose ecológica, ou seja, biodegradável. O próximo passo que vem sendo estudado em parceria com outros pesquisadores, é colocar sementes nos produtos. Assim, após serem descartados, as sementes podem germinar com os resquícios da urina.

Em 2018, o N-1 teve 60 mil unidades vendidas e rendeu um faturamento de R$ 70 mil.

Enquanto Flavio resolve o problema do Número 1, a fundação Bill & Melinda Gates já investiu mais de US$ 200 milhões em pesquisas de produtos para saneamento, destinados a destruir bactérias e prevenir doenças.

A ideia de Bill Gates é revolucionar a tecnologia de saneamento, como por exemplo, a utilização de uma privada que não precisa de água ou encanamento para funcionar, armazenando os dejetos internamente para depois convertê-los em materiais reutilizáveis. Um dispositivo barato, principalmente para utilização em a regiões de baixa-renda.

FUTURO

Considerando que existem 6 mil startups no Brasil, segundo levantamento da ABStartups, e que elas estão procurando por boas ideias, o cenário deveria ser melhor, porém como há uma demora na concessão ou negativa da patente, a possibilidade do inventor captar investimento é pequena, então é natural que o inventor brasileiro tenha sucesso e retribuição depositando a patente no exterior.

Para mudar esta situação, é necessário compreender a importância do trabalho dos inventores e a capacidade que eles tem de fomentar a economia, negócios e novos empregos a partir dos produtos desenvolvidos.

O Paulo Gannam é inventor e também incentiva novos inventores a oficializar legalmente suas criações, para conhecer o seu trabalho, clique aqui. Se você quiser experimentar o banheiro de bolso N-1 do Flavio Boabaid, clique aqui.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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Inovação

Da garagem hippie ao governo

Rodrigo Sassi

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Como o setor mais jovem da economia mundial ascendeu de hippies à Forbes?

Hoje, o mundo é impulsionado, administrado, regulado e até mesmo, vigiado por sistemas das mais variadas formas e complexidades, não existindo um setor sequer que esteja isento dos feitos da tecnologia.

Mas, antes de falarmos sobre o mundo que conhecemos, vamos falar sobre suas raízes! A década era de 60, o movimento era a contracultura hippie. Os jovens com espíritos liberais, arraigados na busca por sua consciência e quebra de paradigmas sociais, procuravam novas formas de se relacionar com o mundo e seu novo discurso de paz.

Enquanto os festivais de músicas e as viagens de mochila moldavam os jovens, os computadores pessoais (PCs) se tornavam mais acessíveis e alcançavam a população em geral. Os estudantes, especialmente de Stanford, encantavam-se com as possibilidades da nova tecnologia, que proporcionava liberdade criativa e potência para solução de problemas matemáticos.

Vale lembrar que, na época, não era permitido o patenteamento de softwares pelo governo norte americano e, por isso, as empresas que então dominavam o mercado, precisavam compartilhar seus códigos fontes com seus consumidores. Pergunto aos mais jovens, se já imaginaram este “mundo”.

Os hippies high tech que tinham o desejo latente de derrubar os ícones do sistema regente, organizavam-se em suas garagens e começavam a desenvolver soluções ainda melhores e mais completas que as dos fabricantes. Toda vez que algo novo surgia, todos simplesmente compartilhavam seus códigos em nome da ciência e da colaboração – ou seja, sem almejar grandes ganhos financeiros com a sua descoberta.

Por exemplo, o primeiro software de planilhas eletrônicas, o VisiCalc – criado por Dan Bricklin e Bob Frankston – revolucionou o uso dos PCs e os possibilitou a ser uma ferramenta empresarial. Inclusive, segundo Steve Jobs, fundador da Apple, o Mac-II só se tornou um sucesso graças ao sistema de Dan e Bob! E acreditem, eles quebraram logo em seguida, graças ao seu código aberto e livre de patentes.

O cenário começou a mudar no ano de 1976, quando o jovem e voraz Bill Gates – que lançara seu primeiro sistema operacional e estava retendo seus lucros – escreveu a famosa Carta Aberta aos Hobbistas.

Nesta carta, ele repudiou a comum prática de cópias e compartilhamento de sistemas, chamando até mesmo seus colegas de profissão (programadores) de ladrões e piratas, pois estes estariam “acabando” com o seu sustento.

Este fato fez com que os inúmeros jovens que trabalhavam em suas garagens, substituíssem a visão de comunidade para uma pretensão real de grandes lucros financeiros. Com a nova motivação, nos anos 80, iniciou-se o processo de transformação dos escritórios-garagens para uma estrutura negocial mais eficiente, no que vieram a ser conhecidas como “startups”.

O objetivo era que suas aplicações estivessem no maior número de PCs e que, consequentemente, trouxessem um maior retorno para seus negócios. Logo, a missão inicial da causa praticamente deixou de existir. Além disso, o crescente apetite pelos números, incitou os nossos agora jovens adultos (nem tão hippies mais), a desenharem o sistema vigente. Contudo, ao analisarmos, observa-se que este é apenas uma versão moderna do que eles lutavam contra.

De lá para cá, segundo o Instituto de Pesquisa “Statista”, a indústria de softwares se diversificou e ganhou corpo, sendo responsável por uma receita de US$456,6 bilhões apenas em 2018. Entre as cinco marcas mais valiosas do mundo, quatro são empresas de tecnologia e software. Duas delas tiveram suas fundações em garagens dos anos 60. Elas cresceram e se consolidaram pelas facilidades que proporcionaram aos clientes, capacidade de inovação e usam desta capacidade para saciar seus investidores e deslumbrar seus fiéis consumidores.

O que dizer sobre isso?

Atualmente, estas mesmas empresas que criaram raízes tão profundas em nossa sociedade, têm influência direta e indireta sobre toda cadeia global de valor e seus setores da economia global. Assim como, percebe-se sua extrema importância como medidor de performance política em quase todos os governos. Se a economia vai bem, muito provavelmente sua política também. No caso do Brasil, somente este setor representa, aproximadamente, 7% de nosso PIB e tem 17.000 empresas de grande impacto atuantes – desde o Agronegócio ao Prestador de Serviços!

Definitivamente, os “pais fundadores” foram bem sucedidos em suas missões. De construção de uma comunidade até a dominaram o âmbito econômico.
Moldaram e seguem moldando o mundo que conhecemos com suas praticidades, designs e apresentações memoráveis. Impulsionando de carros autônomos à misseis de alta precisão!

Isto posto, pergunto: onde perdemos o companheirismo dos nossos hippies high tech e suas colaborações de soluções?

Digo, pois quero encontrar onde morreu o desejo pela ciência e por soluções de qualidade! Como é possível a maioria das empresas do setor entrarem em guerras de preços que destroem e acabam com a qualidade de suas entregas? Como é possível implementar códigos que tornam aparelhos inutilizáveis propositalmente?

É possível. Como é possível.

Sei que os tempos mudaram e nosso setor se tornou o próprio sistema. Mas, acredito que as pessoas dentro dele, podem, mais uma vez, reconstruí-lo. Sou empresário e negar a busca pelo lucro seria hipocrisia, já que dependemos de recursos para criar melhores técnicas e soluções, porém, não podemos negar qualidade e efetividade de tudo que é desenvolvido.

Ante ao exposto, digo: meus amigos de profissão, contem comigo!

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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Smarthome, uma casa chamada robô

Redação 140

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Fica cada vez mais clara a estratégia das grandes plataformas e desenvolvedores, como o Google e a Apple, de ampliar a presença das marcas dentro das residências dos usuários com a oferta não de produtos e serviços e sim de soluções “smart”. Começou com os smartphones, evoluiu para as smarTVs e, bingo, agora temos as novas smart homes.

O Google anunciou ontem em Mountain View durante o I/O Live 2019, encontro anual com desenvolvedores, a sua nova central inteligente para “smart homes”, chamado de Nest Hub Max. E aqui no Brasil, alguns usuários do Google Home receberam, também ontem, um email da empresa apresentando o Google Nest (aqui).

Vale lembrar que em 2014 o Google comprou a Nest por 3,2 bilhões de dólares e muitos investidores acharam que seus gestores tinha enlouquecido por causa do evaluation de uma pequena empresa cujos principais méritos tinham sido desenvolver um simples termostato e um dispositivo identificador de fumaça de cigarro.

Agora a estratégia do Google mostra a que veio: o futuro, ou parte dele, inclui as smart homes e o nome da empresa que conduzirá os cidadãos a estas novas . Estas unidades habitacionais serão cada vez mais conectadas e sensíveis a interações entre o humano e a máquina. A oferta do Nest inclui produtos como o termostato, cameras, assistente pessoal, campainhas, alarmes, fechaduras e detetores de fumaça e o recém lançado Nest Hub, um super assistente pessaoal que funciona como uma central de inteligência que consegue interagir com os usuários em diversas dimensões, incluindo com reconhecimento facial.

O objetivo do Google é “facilitar” a vida das pessoas, tornar a suas experiências com as maquinas mais úteis, simples e seguras e fazer com que os robôs ajudem efetivamente seus usuários a terem uma vida melhor.

O Jornal 140 entrou no site da sua concorrente Apple (aqui) e viu uma lista de produtos que já estão disponíveis ou ainda serão lançados incluindo aparelhos de TV (“em breve”), caixas de som, iluminação, interruptores, tomadas, termostatos, janelas e coberturas, ventiladores, condicionadores de ar, umidificadores, purificadores de ar, sensores, segurança, fechaduras, câmeras, campainhas, controles de garagem e pontes de conexão. A Apple criou selos de certificação – como Apple HomeKit -mostrando que opera no modelo de “homologadora” de produtos produzidos por terceiros credenciados.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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