Guia do líder do século XXI, parte 2

Escrevi no último artigo que, em termos de gestão e de liderança, vivemos em um cenário de convivência de dois mundos. O Mundo 1, das empresas centralizadas, hierárquicas, pesadas e com processos rígidos. Já o Mundo 2 é aquele das empresas fluidas, ágeis, com hierarquias achatadas ou até sem hierarquias e operando em redes distribuídas, conceito que prometi esclarecer neste artigo. Esta divisão entre os “mundos” é meramente didática, há muita coisa entre os extremos, mas ela serve para desenvolver as ideias abaixo.

O Mundo 1 acima foi construído a partir do paradigma industrial e das regras do conglomerado industrial-financeiro. A liderança neste paradigma segue as ideias de Taylor e Fayol, as chamadas Teorias Clássicas de Gestão. A maneira de liderar se baseava em três pilares fundamentais: a) Há regras ideais de funcionamento das organizações, que devem ser estabelecidas e seguidas; b) A organização é um sistema fechado, centrado na tecnologia e nos processos e na busca da eficiência; c) O indivíduo deve adaptar-se à máquina, complementá-la e contribuir decisivamente para a otimização do sistema. Estas premissas levaram ao desenvolvimento de um líder que planejava, organizava, comandava, coordenava, estabelecia indicadores e os controlava, dando instruções precisas de execução a seus subordinados hierárquicos.

O Mundo 2 surge a partir do advento da internet. É o mundo do paradigma digital, das conexões rápidas e fluidas, da interação ilimitada, da chamada liderança ágil. As bases do chamado manifesto ágil do desenvolvimento de softwares, dão uma boa ideia das premissas desta cultura e das diferenças para a anterior: a) Indivíduos e interações são mais importantes do que processos e ferramentas. É a atividade humana fluida e sem obstruções que resolve problemas crônicos de comunicação. Processos, regras de funcionamento e ferramentas são importantes, mas devem ser simples e úteis; b) O maior indicador de que sua equipe realmente criou e produziu algo é o produto funcionando e o cliente o usando. Processos de alta qualidade, documentação, indicadores e métricas também são importantes, mas que seja somente o necessário e que agregue valor; c) A organização é um sistema totalmente aberto e a colaboração com o cliente é mais importante do que contratos que estabeleçam limites. A atuação deve ser com o cliente, com tomada de decisões em conjunto e trabalho em equipe; d) Responder a mudanças é mais importante do que seguir um plano. O que deve ser feito é aprender com as informações e feedbacks e adaptar o plano a todo momento.

O paradigma industrial surge com as máquinas industriais. Já o paradigma digital se inicia com o advento da internet. Com esta, as possibilidades de conexão aumentaram. Abaixo apresento o diagrama criado por um cientista chamado Paul Baran e que norteia as próximas ideias.

Diagrama de Baran: redes de comunicações não podem cair caso um nó da rede seja corrompido.

 

Baran foi convidado junto com outros cientistas a elaborar uma rede de comunicações que não caísse no caso de qualquer nó da rede ser corrompido. As duas redes da esquerda têm esta fragilidade. Na rede centralizada, da esquerda, para qualquer nó da rede se comunicar com outro precisa passar pelo ponto central. A rede do meio, a descentralizada, é aquela na qual estamos mais acostumados, pois representa o organograma tradicional das empresas. Perceba que há um ponto central, o CEO por exemplo, pontos intermediários, os gerentes e os pontos operacionais. Já na rede da direita, você precisa fazer um exercício de imaginação. Na rede chamada distribuída todos os pontos precisariam estar conectados a todos os outros. Se fizermos isso teremos um fundo preto.

Por incrível que pareça, quando eu comecei a trabalhar no mundo executivo há 35 anos atrás, as regras da rede centralizada eram pétreas. Eu não podia falar com um colega de outra área sobre temas sensíveis sem pedir autorização a meu chefe, ele falar com o gerente de outra área e eles dois ligarem os pontos. Rede descentralizada. Os nós da rede não podem falar com outros nós sem passar por um ponto. Na tecnologia da informação a chamada arquitetura cliente servidor. Nas organizações a hierarquia de caixinhas. Na vida, fluxos obstruídos.

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