As moedas do século 21, parte 2

Tempo, atenção, silêncio, intimidade e privacidade. Vivemos em um mundo onde a noção do que é “valioso” está em transformação. Historicamente, chamamos de “precioso” ou “valioso” coisas que são raras e especiais: alguns minerais como ouro, prata, platina, cristais rochosos como diamantes e rubis. Seguindo a mesma lógica, esses itens impalpáveis, imateriais, são muito raros e especiais, e estão tornando-se as “commodities” mais valiosas do século 21.  Vamos falar aqui sobre cada uma dessas novas medidas de valor e sua influência no mundo atual.

Em inglês, a expressão “undivided attention” não se traduz muito bem para o português. “Atenção exclusiva” ou “atenção não dividida” não parecem dar conta desse conceito – possivelmente porque é mais uma questão cultural do que linguística.
A “atenção exclusiva” natural é a atenção do amor, do afeto, do cuidado e do carinho. É o conceito romântico, que é tema de muitos poemas imortais, em todas as línguas. Por exemplo, o Soneto da Fidelidade do Vinicius de Moraes, cujos versos iniciais dizem:

“De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.”

Essa é uma “atenção” que não se compra. Ela surge do sentimento, do espírito, e não é traduzível como “commodity”, levando em conta que “não seja imortal, posto que é chama/ Mas que seja infinito enquanto dure”.

Por outro lado, a atenção como serviço não é algo novo. Na ausência da atenção genuína, originada pelo sentimento, sempre existiram substitutos disponíveis mediante alguma forma de compensação. A atenção de cortesões, conselheiros e assessores que sempre gravitaram e gravitam as figuras de poder. A atenção de sacerdotes, curandeiros e profissionais de saúde, que se dedicam a resolver as carências, aflições e enfermidades das pessoas.

Ao estudar o tema atenção, deparei-me com um conceito interessante na cultura japonesa, chamado “omotenashi”. Em uma tradução grosseira, omotenashi significa “hospitalidade”, um tipo de dedicação respeitosa às pessoas em redor, sejam elas amigos, hóspedes ou estranhos. O Japão é um país muito pequeno, um arquipélago de ilhas montanhosas, com poucas áreas disponíveis para o surgimento de comunidades. As vilas e cidades japonesas sempre foram muito apinhadas, e um código de cortesia evoluiu ao longo de séculos para minimizar o impacto da convivência forçada com vizinhos muito próximos.

O omotenashi é uma forma de “atenção exclusiva” institucionalizada, de forma respeitosa e não hipócrita. Oferecer atenção é algo muito valorizado na cultura japonesa, e sua contrapartida é a retribuição equivalente – o “giri”, ou “dever de honra”, outro conceito importante na sociedade nipônica. Na sociedade global do nosso século, “atenção” se tornou uma moeda corrente.

Nos parágrafos iniciais do romance de ficção-científica “Count Zero”, o autor William Gibson resume em poucas linhas o significado e o valor da atenção no século 21. No livro escrito em 1986, Gibson relata um momento do protagonista: “His credit chip was a rectangle of black mirror, edged with gold. People behind counters smiled when they saw it, nodded. Doors opened, closed behind him. Wheels left ferroconcrete, drinks arrived, dinner was served” (“Seu chip de crédito era um retângulo espelhado com bordas douradas. Os funcionários nos balcões sorriam ao ver o cartão de crédito, acenavam afirmativamente. As portas se abriam para ele entrar, fechando-se em seguida. Comportas de segurança eram destravadas, drinques eram servidos, o jantar surgia na mesa”)

Gibson foi presciente em vários aspectos ao escrever os romances “Neuromancer”, “Count Zero” e “Monalisa Overdrive” nos anos 1980. No futuro imaginado pelo autor, a atenção é um bem precioso, que só os muito ricos podem acessar. O cenário principal desses livros é uma super-gigalópole de mais de 100 milhões de habitantes, que engloba todas as cidades da Costa Leste dos EUA, de Boston (e incluindo Nova York) no norte até Atlanta no sul: o “Boston-Atlanta Metropolitan Axis”, ou BAMA. Nesse cenário, os super-ricos migraram há tempos para fora da Terra, ocupando condomínios luxuosos em estações orbitais privadas.

Cidades gigantes e desumanas, ambientes poluídos e perigosos são o cotidiano da maioria absoluta nessas histórias. Fica claro que, no futuro imaginado por Gibson, a atenção é um artigo de alto luxo, que somente os mais afluentes têm acesso – o termo “afluente” é uma apropriação do inglês “affluent”, com o sentido de riqueza, opulência.

Parece que rumamos a passos largos para esse futuro, e a atenção se torna um item muito precioso em uma sociedade pressionada por resultados cada vez maiores, com cada vez menos contrapartidas e compensações, com um encolhimento do tempo disponível para as interações afetivas que são vitais para os seres humanos. Maior tempo de trabalho, muitas vezes enfadonho e repetitivo, e menos tempo disponível para aproveitar a vida.

A atenção é importantíssima na nossa sociedade. A falta de atenção é a razão para muitas aflições e enfermidades atuais, em indivíduos e também em comunidades. As alarmantes taxas de suicídio em muitos países industrializados como a Suécia, Japão ou Coreia do Sul estão relacionadas com a falta de atenção, com a solidão e o abandono. Serviços como o CVV existem em muitas nações para mitigar minimamente esse grande problema. Os voluntários desses centros de apoio oferecem um tipo de omotenashi extremo, um pronto-socorro para crises agudas de falta de atenção.

Os muito ricos sempre podem comprar atenção, é claro. Em várias modalidades, com diferentes finalidades.

Já aqueles destituídos de capital para comprar essa preciosa mercadoria devem ser inventivos e radicais. Sair da sociedade industrial é a opção mais frequente; de modo geral, isso quer dizer fugir para o mundo “natural”, sair do espaço geográfico da sociedade moderna. Criar comunidades alternativas, isoladas. Ou então buscar opções dentro da própria cultura, criando e participando de grupos de apoio emocional para prevenir e remediar as aflições causadas pela falta de atenção.

De qualquer modo, a atenção como mercadoria será algo cada vez mais valorizada nos próximos anos e décadas, dado o passo acelerado de nossa sociedade, que é terreno fértil para angústias intensas.

Dessas angústias podem emergir novos nichos de mercado. Na verdade, já existem serviços especializados em oferecer diversos tipos de atenção para os residentes das incipientes BAMAs de hoje. Estão nessa categoria todos os terapeutas que atendem em domicílio, os cuidadores de idosos e enfermos (cujas famílias não encontram tempo ou disposição para cuidar pessoalmente), os passeadores de cães, os “pet-sitters”. As próprias babás e governantas, que são uma tradicional forma de delegar a atenção que as crianças precisam. “Amigos de aluguel” já existem de fato, não é apenas uma piada sinistra – é um mercado. Também existem máquinas que abraçam, máquinas que beijam e uma infinidade de sites onde os usuários trocam ou comercializam atenção de modo virtual. A prostituição é assunto para outro texto, mas fica claro que já existem muitos serviços que oferecem simulacros de atenção e afeto.

Existe um elevado risco da sociedade humana do século 21 vir a sofrer de um tipo de “autismo coletivo”, um tipo de dessensibilização ou embotamento generalizado, causado por um mundo progressivamente hostil aos sentimentos e emoções.

Foto: Bruno Creste, colaborador do Jornal 140.

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Sergio Kulpas
Sergio Kulpas é escritor e jornalista, com 25 anos de atividade em redações. Passou pela Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Gazeta Mercantil, Diário do Comércio, Meio & Mensagem e vários sites especializados em comunicações e mídia.
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Sergio Kulpas é escritor e jornalista, com 25 anos de atividade em redações. Passou pela Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Gazeta Mercantil, Diário do Comércio, Meio & Mensagem e vários sites especializados em comunicações e mídia.
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