As moedas do século 21, parte 3

Tempo, atenção, silêncio, intimidade e privacidade. Vivemos em um mundo onde a noção do que é “valioso” está em transformação. Historicamente, chamamos de “precioso” ou “valioso” coisas que são raras e especiais: alguns minerais como ouro, prata, platina, cristais rochosos como diamantes e rubis. Seguindo a mesma lógica, esses itens impalpáveis, imateriais, são muito raros e especiais, e estão tornando-se as “commodities” mais valiosas do século 21. Vamos falar aqui sobre cada uma dessas novas medidas de valor e sua influência no mundo atual.

SILÊNCIO

O silêncio é o verdadeiro “padrão-ouro” do século 21. Desde a Revolução Industrial, as cidades foram se tornando cada vez mais ruidosas.

Um estudo realizado em 99 ruas na cidade de Nova York mostrou que a média de intensidade sonora chega a 73,4 decibéis, com variação entre 55,8 e 95,0 decibéis. Segundo o National Institute on Deafness and Other Communication Disorders, do Departamento de Saúde dos EUA, a partir de 85 decibéis de ruído no ambiente, os danos à audição se tornam cumulativos e permanentes. Além da perda de audição, o excesso de ruído está associado com vários problemas de saúde. Estamos usando os dados norte-americanos porque suas estatísticas são geralmente confiáveis, mas podemos imaginar níveis de ruído similares ou maiores em cidades como São Paulo, Pequim, Nova Déli, Nairóbi ou Bancoc. O século 20 marcou a grande transição do ambiente rural para a vida nas cidades, e atualmente a esmagadora maioria da humanidade vive em centros urbanos, vários deles com mais de 10 milhões de habitantes.

Morar em grandes centros urbanos é viver exposto a um volume elevado e descontrolado de barulho. O próprio poder público, que deveria fiscalizar e coibir o ruído excessivo, é um grande gerador de poluição sonora, como por exemplo, as obras de infraestrutura que são realizadas nas madrugadas.

O trânsito é uma das maiores fontes de ruído nas cidades. O tráfego intenso provoca camadas de som que se propagam a longas distâncias, e gera um “som de fundo” permanente, um rumor que os moradores das cidades deixam de perceber com o tempo, e só percebem (sua ausência) quando estão fora do ambiente urbano.

Há dentro das cidades uma eterna queda-de-braço entre grupos de moradores, cada um reivindicando o direito ou de fazer barulho (carros de som, clubes noturnos, festas, carnavais, festivais) ou de permanecer em um ambiente silencioso. É uma batalha vã para os dois lados, porque a vida nas cidades aboliu o espaço de separação mínimo para a convivência harmoniosa. A cultura urbana exige um compromisso de civilização e cortesia que pouquíssimos são capazes de oferecer.

O silêncio se torna moeda quando apenas os mais ricos podem ter acesso a ele. 99% dos moradores de São Paulo ou Xangai sonham com ambientes silenciosos, no campo ou na praia, onde os únicos ruídos são os sons naturais, bem abaixo do limiar dos 85 decibéis. Somente os “afluentes” (para usar aqui o neologismo para os VIPs) podem comprar “bolhas de silêncio”, em ambientes naturais ou mesmo dentro das cidades. “Let us have the luxury of silence” (“Vamos nos permitir o luxo do silêncio”) escreveu Jane Austen em seu romance Mansfield Park.

Os muito ricos podem “fabricar” silêncio. Investimentos em construções à prova de ruído, tecnologias de cancelamento de som e, acima de tudo, camadas e camadas de proteção contra o ambiente externo. Mansões hermeticamente fechadas, limusines estanques, ambientes corporativos totalmente impermeáveis ao meio ambiente.

O excesso de silêncio também pode se tornar um risco para a saúde?

Foto: Alexander Dummer / Unsplash

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