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Negócios 8 MIN DE LEITURA

Quora, existe vida inteligente nas redes sociais

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Muita gente que reclama da patrulha ideológica e da falta de inteligência nas Redes Sociais deve conhecer e se inscrever no Quora, site de perguntas e respostas administrado pela própria comunidade.

Eis um exemplo de algumas das perguntas que os usuários fazem no Quora:

Por que os economistas não são investidores ricos e bem-sucedidos? Um garoto jogou uma pedra no meu carro. Eu confrontei sua mãe – que estava por perto. Ela disse que eu não posso provar que foi o filho dela. Como eu deveria reagir? Existem costumes no Brasil que não seriam compreendidos em outros países? As respostas são postadas por especialistas ou pessoas de ótimo nível intelectual. O advogado Carlos Fujita, em abril de 2018, deixou uma longa resposta sobre a primeira pergunta (sobre os economistas) e obteve 99 “votos” positivos, um compartilhamento e um comentário.

Lançado em junho de 2010 por dois ex-funcionários do Facebook, Adam D´Angelo e Charlie Cheever, o site se diferenciou das demais plataformas ao adotar uma série de regras para evitar a trajetória perniciosa das Fake News. Para começar os usuários têm de se registrar com os seus nomes verdadeiros, ainda que não se exija comprovação; caso haja a constatação de nome falso a própria comunidade se encarrega de denunciar este tipo de perfil. Na maioria das vezes as pessoas, como o Carlos Fujita, se apresentam embora seja possível deixar respostas de maneira anônima.

Os exemplos são riquíssimos e a discussão é bastante elevada. O Jornal 140 recomenda a leitura das respostas para todos os brasileiros que viajam ou estão residindo fora do país. Além de ilustrativas, são aulas de etiqueta, daquilo que podemos ou devemos fazer ou nos portar quando nos confrontamos com outras culturas ou hábitos diferentes.

Portugueses “intimidadas” pelas brasileiras

Colhemos aqui alguns exemplos. Veja o que Cândida Brites, com licenciatura em Design, pela Universidade de Aveiro, Portugal, respondeu sobre a pergunta “O que os portugueses, em geral, ou pelo menos a maioria deles, pensam sobre nós brasileiros?”:

“O pessoal da minha geração (millennials), pura e simplesmente não pára para pensar no assunto – os vossos hábitos, num mundo globalizado, são semelhantes aos nossos. Os nossos colegas de escola brasileiros faziam o mesmo que nós e davam-se normalmente connosco, adaptando-se à nossa cultura – tenho inclusivamente um amigo que veio para cá aos 14-16 anos e praticamente perdeu o seu sotaque original nos primeiros 2 anos.

Há grupos que têm algumas tensões: algumas portuguesas de meia-idade (do campo), sentem-se intimidadas pelas brasileiras, que julgam vir roubar-lhes os maridos – alguns desses problemas surgiram a partir de alguns incidentes com casas de alterne já bastante antigos – e claro, a culpa tinha de ser das brasileiras e não dos maridos infiéis. Este tipo de mulheres sente também isto porque a maior parte das estrangeiras da mesma faixa etária arranja-se e veste-se melhor.

Os homens portugueses acima dos 40 gostam das brasileiras, o que contribuí para agravar a situação acima descrita.

Os homens portugueses também gostam dos brasileiros: uma dose de brasileiros no clube de futebol preferido é sempre uma mais-valia.

E acho que é isto.”

Uma abominação chamada Catupiry

Dia desses a redação do Jornal 140 obteve respostas fantásticas sobre “o que não fazer na Itália”, de Lucas Galli. Veja isso:

São tantas coisas que estrangeiros fazem que irritam os italianos…

No restaurante

Não peça pra colocarem limão, laranja ou qualquer outra coisa no seu refrigerante. É um costume bizarro para eles e atrapalha o serviço de mesa;

Não peça absolutamente nada para colocar em cima da sua pizza, exceto azeite de oliva (em italiano, simplesmente olio) ou pimenta moída (pepe);

Atenha-se aos sabores de pizzas que estão no cardápio, do jeito que estão ali. Se você está perigosamente faminto e acha que “pizza italiana tem pouco recheio”, peça uma capricciosa, que leva uns duzentos ingredientes e te faz perder o melhor da pizza italiana;

Ainda no quesito pizza, não peça pizza “meio a meio”. As pizzas italianas são, geralmente, individuais e de apenas um sabor. As exceções ficam por conta de lugares como Roma, que possuem sua própria variação regional de pizza, servida fatiada (pizza a taglio);

NÃO EXISTE A ABOMINAÇÃO CHAMADA CATUPIRY NA ITÁLIA!

A menos que você esteja num local onde servem sucos mistos (sim, existem locais específicos pra isso), não peça sucos de fruta misturados. É outra coisa que atrapalha o serviço quando não é habitual fazerem isso no estabelecimento;

Não grite nem converse alto dentro de restaurantes. Apesar de italianos terem fama de falar alto e serem escandalosos, em restaurantes a regra é manter a discrição, a menos que o clima do local seja propício. Na dúvida, tente observar e seguir o comportamento dos locais;

Não chupe o macarrão que ficou pendurado na boca. No oriente é um hábito comum e incentivado, mas é meio nojento pros italianos;

Não existe pasta Alfredo, ainda que alguns estabelecimentos péssimos o sirvam. Claro que são frequentados apenas por brasileiros e americanos que ignoram qualquer princípio da boa mesa;

Não faça barulho ao tomar sopa;

Não peça “saideira” em bares. Isso não existe na Itália. E ponto final;

Não sinta-se obrigado a dar gorjeta, embora seja hábito quando o serviço foi bem prestado;

Não espere que lhe tragam a conta sem que você peça. Diferentemente dos EUA, na Itália o cliente não é chutado pra fora antes de estar pronto;

Para pedir algo num café, comece a frase com buongiorno/buonasera (bom dia/boa tarde) e só depois peça o que quer, de preferência sendo específico (existe uma variedade grande de bebidas com café que se pode pedir na Itália). Terminar de modo gentil, ajuda muito e melhora o tratamento recebido do barista quase sempre. Por exemplo:

Buongiorno! Un espresso ristretto, per cortesia.

Bonus: em Napoli, se quiser ser visto como um cavalheiro respeitabilíssimo, ao terminar de tomar seu café, deixe um café pago para a próxima pessoa que entrar.

Na rua, no convívio social

A menos que tenha liberdade com a pessoa, não toque nos outros, nem fique muito próximo. Embora alguns italianos não cumpram essa regra, é de bom tom respeitar o espaço individual de cada um;

Algumas cidades como Gênova, Palermo, Napoli, Catania, Roma, Milão, Bari, entre outras, possuem níveis de criminalidade um pouco acima da média italiana. Napoli é um exemplo bastante famoso, com zonas que mais parecem o Rio de Janeiro;

Se você suspeitar que uma discussão ou briga envolve membros do crime organizado, saia imediatamente de perto, de forma discreta, sem correr e não faça contato visual com ninguém. Políticos, juízes e empresários já foram assassinados à luz do dia, num piscar de olhos;

Não tenha pressa! Programe-se corretamente para não ter que fazer tudo correndo debaixo do sol (o verão italiano é particularmente cruel), aproveite as caminhadas e aceite o fato de que não se pode fazer ou ver tudo;

Não se espante com o horário de almoço prolongado (geralmente das 13 às 16) de algumas lojas, especialmente fora dos grandes centros. É normal e salutar.

Idioma

Procure evitar chamar um desconhecido de tu (o pronome pessoal equivalente a você em português). Prefira a forma cortês Lei (o equivalente a senhor/senhora em português). Sim, se escreve com inicial maiúscula para se diferenciar do pronome feminino da terceira pessoa do singular (lei) e se conjuga nesta pessoa;

Quando quiser comprar algo num estabelecimento, não diga eu quero (io voglio), mas sim eu gostaria (io vorrei). É mais educado;

Não repita os gestos que os italianos fazem, sem ter certeza de seu significado, especialmente o clássico da mão com todos os dedos unidos, apontando para cima;

Não fale em tom jocoso, evite rir e não repita as ofensas regionais que os italianos proferem uns aos outros. A mais famosa, provavelmente, é terrone, uma palavra horrível, usada como termo genérico para ofender a todos os italianos do sul. É o mesmo que usar os termos cabeça chata ou baiano, no Brasil, por exemplo;

Da mesma forma, não repita as blasfêmias que você escuta eventualmente sem certificar-se de que o ambiente permite. Embora em regiões do norte, como Toscana e Vêneto, seja um hábito relativamente comum, a maioria dos italianos é extremamente católica e vai se sentir ofendidíssima ao ouvir um porco Dio ou Madonna puttana. Lembre-se que o código penal italiano trata blasfêmias em público como uma contravenção;

Tente manter os bons modos e use sempre palavras corteses, a menos que esteja entre amigos e que tenha liberdade para falar de um jeito mais despojado. Essa regra é flexível, dependendo do contexto e, especialmente, da região. Mas é melhor pecar pelo excesso do que pela falta;

No transporte

Ao comprar um bilhete para o trem, jamais se esqueça de validá-lo (obliterare) antes de subir ao vagão já que, depois de subir, não haverá mais oportunidade de fazê-lo. Alguns bilhetes comprados pela internet podem ser validados online. Informe-se corretamente antes pois, se você for flagrado com um bilhete sem validação a bordo (ou vencido), além de passar uma vergonha enorme, ainda pode pagar multa e ser preso;

Não faça “cambalachos” nos ônibus. Na Itália não há trocadores/cobradores nos coletivos, portanto é obrigação de cada passageiro validar seu bilhete na máquina de bordo ou certificar-se que seu bilhete é válido. Informe-se antes, pois o modelo de cobrança muda de cidade a cidade;

Seja civilizado. Dê a preferência para gestantes, idosos e pessoas com dificuldade de locomoção, cumprimente o motorista (ainda que ele te ignore), não grite ou escute música alta sem fones, não fique na passagem ou nas portas, respeite a direção do fluxo etc;

Não tente parar um táxi na rua, não funciona assim na Itália. Os táxis saem exclusivamente dos pontos de parada;

Evite comer no transporte público. Sei que acabar com a viagem de todos a bordo com um cheiro detestável de óleo e largar o coletivo imundo é uma instituição brasileira, mas resista. É incômodo para os outros passageiros e pouco higiênic

Existem muitos outros pontos, coisas a fazer e a não fazer na Itália. Mas acredito que cobri os principais. Porém, não se esqueça de que a coisa que você não deve fazer, em hipótese alguma, é deixar de divertir-se e evitar as armadilhas de turista. Eu tenho uma relação de amor e ódio com a Itália, mas devo admitir que é um país belíssimo, com gastronomia sensacional e uma cultura emocionante. Aproveite!”

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.

Os artigos publicados em nome da Redação 140 são de responsabilidade dos responsáveis por este site de notícias. Entre em contato caso tenha alguma observação em relação às informações aqui contidas.

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Empreendedorismo 4 MIN DE LEITURA

Startups: quando uma boa ideia não basta

Nascidas de um sonho que reúne pessoas aparentemente com o mesmo objetivo, uma em cada quatro Startups não sobrevive ao primeiro ano.

Isabel Franchon

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Franck V. / Unsplash

Segundo dados de pesquisa feita pela Fundação Dom Cabral, uma em cada quatro Startups (25%) fecha em menos de um ano de funcionamento e 50% não sobrevivem a quatro anos. Os números da pesquisa do Sebrae em parceria com o Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, não são muito diferentes: três em cada dez empresas que atuam na área de tecnologia fecham em um ano, na média.

Os motivos vão da falta de capital a divergência entre os sócios, passando pela falta de planejamento, inexperiência em gestão, ausência de processos e problemas com o time. A conclusão a que se chega é que “Uma boa ideia não basta”. É preciso adquirir conhecimentos sobre o negócio, aprender a liderar, criar ferramentas de gestão e aprimorar cada vez mais o time – ainda que seja só de quatro pessoas. Essa é a diferença entre um sonho apenas, e criar um business ancorado em uma visão de futuro sólida. Como fazer isso e ao mesmo tempo começar seu negócio? Ou apenas aprimorar uma Startup que está começando, ao resolver os problemas?

Bem, você pode fazer dúzias de cursos – foi o que um consultor sugeriu a uma Coachee que está começando a empreender preparando-se para sair do emprego. Sua lista incluía contabilidade, finanças, marketing digital e tantas outras especialidades que ela se aposentaria antes de começar.

Ou, como dizem alguns, na Internet tem de tudo. Mas mesmo que você passe 12 horas por dia pesquisando online não dominará tudo que precisa – ninguém dá nada de graça e informações (ou formação) pela metade é igual ou menor que zero.
Há ainda a opção – se tiver bastante capital – de contratar vários especialistas que darão conta de tudo e farão sua empresa funcionar. Será?! E onde fica a visão sistêmica do negócio? Em qual categoria se encaixa seu sonho? Você vira espectador? Meu avô dizia que “o gado só engorda com o olhar do dono”.

Coaching pode ser a melhor parceria

Meu primeiro Coachee de Startup foi há 3 anos. De lá para cá muitas coisas mudaram: apareceram as aceleradoras, investidores-anjo, consultorias especializadas, mentorias, incentivos governamentais; o vocabulário se sofisticou…… mas a dor continua a mesma!

Trabalhamos juntos por quase 6 meses. Quando chegou ele vivia um momento profundo de angústia. A Startup de tecnologia, criada com um amigo em sociedade com uma empresa americana, havia passado por uma fusão com um grupo de investidores nacional que passou ao controle. Ir de uma participação de 25% a 15% não foi o problema: o que pesava era a maneira como o negócio vinha sendo conduzido.

Mal feito, por falta de experiência, o acordo previa o custeio da empresa por 6 meses, prazo em que a empresa deveria atingir o break-even – missão quase impossível, principalmente porque o grupo, além de não reforçar a equipe de desenvolvedores, assumiu a parte comercial e a mesma equipe dividia sua atenção entre todas as empresas das quais fazia parte. Passado o prazo, todos começaram a bancar o custeio da Startup proporcionalmente às suas cotas.

O sonho virou pesadelo. Os criadores, sem voz ativa nas decisões, viram um negócio promissor ir pelo ralo – principalmente se considerarmos que há 3 anos o mercado tinha muito espaço para crescer.

Sem valores nem missão compartilhados, a filosofia dos novos sócios se resumia a resolver quando der problema, vamos vender depois vemos como entregar, e nem pensar em investir em equipe. Meses depois a Startup dos sonhos resvalou para o vale da morte, ou death valley, e meu Coachee partiu para outra, com novos aprendizados.

Com experiência de mais de 10 anos em Coaching tenho cada vez mais clientes vindo de Startups, com a consciência de que não basta ter uma boa ideia para ter sucesso, superando a cultura de acerto e erro: um começo sólido, sem achismos, e com muita autoconsciência pode fazer toda a diferença no futuro.

Conduzir uma Startup ao sucesso através do Coaching é uma questão de metodologia. O ponto de partida é sempre um levantamento para análise do cenário: QUAL É O PROBLEMA?

Dar uma direção clara e rápida ao negócio? Entender qual valor está entregando ao usuário/cliente? Necessidade de conhecer seu potencial de empreendedor e como pode melhorar? Resolver problemas rapidamente e testar protótipos? Validar produto? Estratégias? Plano de Crescimento? Apresentação para investidor? Mudanças na equipe? Análise de cenário? Gestão de pessoas? Comunicação? Estilo de Liderança? Programa de Compliance na medida para a captação de investidores estrangeiros? Sem problemas! Enfim, são dezenas e dezenas de ferramentas aprendidas, testadas e vivenciadas.

Com o conhecimento do negócio, ferramentas certas para cada situação, treinamentos customizados e, mais importante que tudo, no ambiente correto para a autoaprendizagem e o auto aperfeiçoamento, o processo de Coaching faz toda a diferença: pode ser individual, com o time ou em grupo com outros empreendedores que enfrentam a mesma situação.

Para quem não sabe – ou tem uma visão distorcida – Coaching é um processo estruturado, com começo, meio e fim, que utiliza ferramentas de diversas disciplinas para conduzir uma pessoa, ou time, na realização de seus objetivos em qualquer área da vida – pessoal, profissional ou nos negócios. O objetivo, sempre, é levar o cliente de onde está para onde quer chegar. Autoconhecimento faz parte.

Empresas são organismos vivos que vão crescer, e conhecer cada aspecto profundamente é essencial para o sucesso. Quem somos? Onde queremos chegar? Qual nossa cultura? Que valores são importantes para nós? Quais nossos limites? Estamos prontos para gestar e criar? Sabemos realmente qual a dor do nosso cliente que vamos atender? Simplesmente não dá para descobrir tudo durante a caminhada.

Num ponto muito especial do caminho, indivíduo e empresa se confundem para logo mais criar independência: é aí que reside a diferença entre sonho e visão.

Todos nós temos desejos e sonhos. Às vezes realizáveis, outras não. Na maioria, apenas alimentados dia-a-dia quando o pensamento voa. Transformar o sonho em visão é garantir que aconteça estabelecendo uma meta clara, colocando um prazo realista, definindo estratégias, criando um plano de ação e executando.

Sonhar é preciso. Mas não suficiente.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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Marketing 4 MIN DE LEITURA

Um compromisso ético que Machado de Assis me obriga a enfrentar

O quanto as marcas contribuem para que os consumidores sejam atendidos nos seus legítimos desejos e necessidades?

Jaime Troiano

Publicado

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Foto: Francisco Kroner / Jornal 140

Faz tempo, que um dos contos do Machado de Assis me persegue. Não sei julgar o quanto ele é melhor avaliado do que dezenas de outros do autor, pelos especialistas em nossa literatura. Alguém saberá dizer. Mas o que me interessa é o porquê “O Espelho – esboço de uma nova teoria da alma humana ” é um conto de que eu não consegui me libertar.

Ele me inquieta pelas várias conexões que faço com nossa vida pessoal e, acreditem, com minhas investidas diárias na vida profissional. Quem me conhece bem, sabe disso. Não vou descrevê-lo, mas apenas pontuar o essencial para que vocês mesmos leiam e tirem suas conclusões. Jacobina é um alferes, no Rio de Janeiro do século 19. O seu fardamento é o que faz com que ele mesmo se reconheça como pessoa e suponha ser reconhecido socialmente também. Sem o fardamento, sua própria imagem desvanece. Diante do espelho ele não se vê. De divãs de psicanálise a treinamentos corporativos, esse é um texto quase obrigatório. Não percam.

Bem, a conexão que eu faço com o conto é a seguinte: marcas são “fardamentos”. Recursos que deveriam contribuir para configurar nossa identidade e atender necessidades, de diversos níveis. Mas nunca para apagar o que somos como sujeitos, acima de tudo. Nunca para nos ocultar, por meio de uma persona com a qual elas, as marcas, nos vestem.

E daí, vem a delicada pergunta que eu vivo me fazendo. No mundo do branding, que é meu dia a dia profissional, qual é nosso papel? Alimentar o Jacobina que existe dentro de nós, impondo de forma sedutora e autoritária uma identidade que, no fim das contas, contribui pouco para nossos autênticos projetos de felicidade? Seria isso mesmo?

Quantas vezes o “consumidor Jacobina” não consegue se identificar consigo mesmo, ou não se vê no espelho social, quando não tem acesso às marcas que ele admira?

Durante décadas, eu tenho vivido essa tensão. Uma tensão entre o que nós fazemos nesta profissão, contribuindo para alimentar os negócios de empresas que, em última instância, também desenvolvem a economia, e o quanto consumidores são atendidos nos seus legítimos desejos e necessidades.

Por que temos encarado tão poucas vezes essa delicada pergunta? Uma vez ou outra, surge algum pensador que resolve mexer nesse vespeiro, como é o caso do inspirador e corajoso Martin Lindstrom em seu livro Brandwashed. (Lançado pela HSM no Brasil).

A pergunta não se cala, e a resposta mais comum que costumo ouvir é do tipo evasiva. Algo assim: nós não estamos atropelando os desejos e necessidades dos consumidores com as marcas que eles acabam comprando. Ou, eles têm sempre o livre arbítrio a seu favor para decidir o que, de fato, querem e podem adquirir. Ou, alguns enfrentam a pergunta de outro jeito: nós não criamos desejos inexistentes nos outros, mas apenas identificamos aquilo que eles querem, mesmo que não tenham consciência disso.

E há os que, simplesmente, viram as costas para essa dúvida. Porque o importante seria, acima de tudo, a eficácia comercial da marca e sua capacidade de multiplicar os negócios da empresa em seu mercado. Por outro lado, há os seus opostos: os que veem um papel perverso nas marcas ao dirigir o comportamento do consumidor, como se elas fossem uma tutora de almas infantis que não sabem decidir por si. São os que afirmam, por exemplo, que as marcas deveriam estar sob suspeição por alimentarem a inadimplência das famílias. A bíblia desse grupo são livros como o No Logo da Naomi Klein.

Esses dois grupos dormem em paz com sua consciência. Afinal, suas respectivas convicções não exigem qualquer esforço intelectual nem tensões morais. Eu não! E muitos que trabalham comigo ou já trabalharam tem essa inquietação à flor da pele. Não pertencemos a nenhum dos dois grupos.

Nós não acreditamos que o indicador supremo de qualidade e êxito de uma marca seja, acima de tudo, sua eficácia comercial. Ela só será bem sucedida, e por mais tempo, se não for apenas um “fardamento” social. Se atender necessidades, sejam elas funcionais, objetivas ou emocionais, mas autênticas.

Nós, somos a única espécie animal que procura um sentido para as decisões que tomamos na vida. Não somos movidos por instintos, mas por escolhas que deem um sentido ao que fazemos. Desculpe-me a Naomi Klein, marcas dão significado a nossas decisões.

Impossível ignorar que existe, em maior ou menor grau, um Jacobina em cada um de nós. O que pode mudar é a natureza do “fardamento” que alimentará nosso projeto de felicidade como indivíduos, no seu sentido mais amplo. Nossa responsabilidade ética nesta profissão não nos permite escapar para nenhum dos dois extremos. Nem imaginar que marcas nunca cometam “pecados” contra seus clientes e tampouco imaginar que sem elas possamos dar um sentido às nossas escolhas.

A tensão que emerge para quem vive e pensa entre esses dois polos não chega a nos paralisar. Mas exige um compromisso de eterna vigilância. E também a clareza de que não trabalhamos para atender a volúpia do mercado, mas a sociedade acima de tudo.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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