As moedas do século 21, capítulo final

Tempo, atenção, silêncio, intimidade e privacidade. Vivemos em um mundo onde a noção do que é “valioso” está em transformação. Historicamente, chamamos de “precioso” ou “valioso” coisas que são raras e especiais: alguns minerais como ouro, prata, platina, cristais rochosos como diamantes e rubis. Seguindo a mesma lógica, esses itens impalpáveis, imateriais, são muito raros e especiais, e estão tornando-se as “commodities” mais valiosas do século 21. Vamos falar aqui sobre cada uma dessas novas medidas de valor e sua influência no mundo atual.

Para concluir esta série, a possibilidade de ter uma vida privada será o item mais valioso no século 21. À medida que a tecnologia digital avança e se torna cada vez mais integrada a tudo, incluindo os objetos de uso cotidiano, será cada vez mais difícil criar “biombos” que protejam a vida privada de olhares e desejos externos.

A névoa digital que nos circunda e nos permeia hoje pode ser usada para infinitos fins, e a privacidade é sempre sacrificada em nome da “segurança nacional” e do empreendedorismo.

Os pioneiros da internet tinham ideias libertárias e incrivelmente ingênuas sobre como a rede mundial de computadores iria provocar um cataclismo social, uma “revolução de neon” para a espécie humana, que poderia finalmente se livrar do jugo de governos e corporações. As pessoas iriam colaborar em um nível inédito na história, de indivíduo para indivíduo, entre pequenos grupos, criando uma comunhão planetária.

Os donos do poder riram de pena dessas ideias. É certo que ficaram incomodados com a fugaz onda liberadora do início das redes digitais, quando o campo parecia ter sido nivelado. Mas sempre foram donos da infraestrutura e das patentes, e sempre tiveram dinheiro e influência para sufocar qualquer levante.

Assim, a internet hippie durou apenas um verão há mais de 25 anos, e, em seguida, os governos e corporações assumiram o controle – para sempre?

O mundo digital tem uma economia própria que é cada vez mais baseada no comércio de informações pessoais. Negócios multimilionários são montados sobre esquemas que captam e filtram os mínimos detalhes da vida de cada pessoa conectada, e são muitos bilhões de pessoas conectadas.

Os algoritmos modernos são capazes de gerar perfis instantâneos dos usuários, baseados nos rastros digitais de cada um de nós. Históricos de visitas a sites, históricos de compras online, filmes vistos, músicas ouvidas. No subsolo, circulam informações sobre movimentações bancárias e dados de saúde, e muitos outros aspectos pessoais que a maioria das pessoas nem sonha estarem disponíveis no mercado.

Os Estados Unidos, que sempre serviram de base e exemplo para políticas da era digital no mundo, estão agora dando sinais perigosos de um conluio entre um governo federal altamente invasivo e empresas “amigas” (o chamado “crony capitalism”, o capitalismo de compadrio). De um lado, o governo concede o direito às operadoras de telefonia e internet a venderem informações pessoais de usuários para terceiros, sem autorização das pessoas. Na outra ponta, uma política xenófoba de fronteiras ensaia exigir acesso total à vida privada dos visitantes e turistas, mesmo aqueles vindos de nações aliadas.

Garantir a privacidade tornar-se-á algo muito especial e exclusivo nas próximas décadas. É fácil imaginar quem terá mais acesso a esse privilégio: a mesma casta que se empenha hoje em subtrair esse direito essencial da maioria da população mundial. Seja um presidente americano ou um general chinês, ou um capitalista alemão ou um “druglord” colombiano (só para citar alguns clichês como exemplos); um fino estrato da população terá muitos biombos digitais à disposição, para tornar invisíveis seus passos e ações, ocultando seus passos e movimentos, excluindo suas ações do perfilamento feito em escala mundial por máquinas frias.

Quanto custará ser invisível em uma sociedade de visibilidade panóptica?

Foto: Bruno Creste, colaborador do Jornal 140.

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Sergio Kulpas é escritor e jornalista, com 25 anos de atividade em redações. Passou pela Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Gazeta Mercantil, Diário do Comércio, Meio & Mensagem e vários sites especializados em comunicações e mídia.
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Sergio Kulpas é escritor e jornalista, com 25 anos de atividade em redações. Passou pela Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Gazeta Mercantil, Diário do Comércio, Meio & Mensagem e vários sites especializados em comunicações e mídia.
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