Seremos animais de estimação da Inteligência Artificial?

Co-fundador da Apple diz que a I.A. vai nos tratar como “animais queridos”. Já o dono da fábrica de carros elétricos Tesla Motors diz que desenvolver a Inteligência Artificial será “invocar o Demônio”.

Durante o evento Freescale Technology Forum 2015, o co-fundador da Apple Steve Wozniak surpreendeu o público com uma mudança radical em sua opinião sobre o impacto da Inteligência Artificial sobre a humanidade. Wozniak havia declarado em outras ocasiões que a chegada da I.A. seria muito negativa para os humanos, porque máquinas inteligentes poderiam decidir eliminar nossa espécie – afinal, somos lentos, ineficientes e temos maus instintos.

No fórum no Texas, Wozniak disse que o surgimento da I.A. pode ser bom para os humanos. Pode demorar ainda séculos para que uma inteligência artificial verdadeira se torne real, mas serão entidades tão espertas que vão reconhecer a necessidade de preservar a natureza – e nós fazemos parte da natureza, disse Wozniak. E completou dizendo que a I.A. vai ajudar a espécie humana, uma vez que no mínimo seremos vistos como seus “deuses criadores”.

Wozniak previu que os humanos seriam os “animais de estimação” dessas máquinas inteligentes. Animais queridos, que devem ser bem tratados, e atendidos em suas necessidades. A “boutade”, a gracinha, de Wozniak causou uma onda de repercussões na web. Mas a resposta mais espirituosa veio do famoso astrofísico Neil deGrasse Tyson e de Elon Musk, o bilionário sul-africano dono da empresa de carros elétricos Tesla Motors e da SpaceX, que está produzindo naves espaciais.

No programa de entrevistas Star Talk de Tyson, os dois discutiram como seria a vida humana na condição de “bicho de estimação” das máquinas inteligentes. Elon Musk disse em tom de gozação que o ser humano seria o “cão Labrador” das I.A.s, uma “criatura amigável e domesticada”. Tyson respondeu que essas inteligências sintéticas passariam logicamente a preservar apenas os humanos “dóceis” e eliminar os “violentos”, da mesma forma que fazemos com várias espécies de animais domésticos. Assim, seríamos de fato meros “bichinhos” das máquinas.

Falando a sério, Elon Musk disse durante o Centennial Symposium do M.I.T. que o surgimento da Inteligência Artificial pode ser “a maior ameaça existencial” para a espécie humana. Disse que os cientistas estão cada vez mais preocupados em criar um órgão internacional de supervisão para a área de inteligência artificial, para evitar que se cometam erros catastróficos. E Musk vai além, comparando as atuais pesquisas sobre a I.A. com a invocação do Demônio. Disse que os cientistas não vão conseguir controlar o ser infernal usando “pentagramas, velas e água benta”.

Nas universidades, centros de pesquisas civis e militares e em empresas, a Inteligência Artificial é uma das áreas mais complexas e rarefeitas. Existem muitas linhas de estudo e elas têm pouca integração umas com as outras. De fato, muitas chegam a ser divergentes e rivais, em um campo muito sensível e estratégico do conhecimento científico. Há muitos segredos nas pesquisas, especialmente devido ao imenso potencial da I.A. para aplicações militares, financeiras ou até na publicidade e varejo.

Tanto que as previsões sobre a data do surgimento da Inteligência Artificial variam enormemente: de poucos anos ou décadas no futuro, até muitos séculos. Ou nunca.

Muitos cientistas concordam que surgirão sistemas altamente especializados, com algoritmos muito sofisticados e capazes de “parecer” inteligentes, em todos os aspectos práticos. Mas dizem que nunca seremos capazes de criar uma consciência artificial completamente autônoma, capaz de exibir instintos, emoções ou sentimentos análogos aos humanos. Essa (im)possibilidade seria melhor debatida pela filosofia do que pela tecnologia.

Há uma alternativa a respeito do surgimento ou não da I.A. Trata-se da ideia de fundir o humano e a máquina, o ser e a coisa. Há algumas décadas, o conceito de ciborgue evocaria a imagem de um ser grotesco – um monstro de Frankenstein, o Homem de Seis Milhões de Dólares, ou o Arnold Schwarzenegger. Hoje já podemos contemplar opções muito mais elegantes e sexy.

Os elementos fundamentais da computação estão cada vez menores, mais poderosos, menos metálicos e mais orgânicos. Talvez um dia seja possível unir nossos cérebros com essas extensões fabricadas, e expandir nossas consciências em um modelo híbrido. Não seria uma I.A., mas uma gigantesca expansão da inteligência humana.

O Diabo, é claro, está nos detalhes.

P.S.: Trilha sonora para ler a coluna: “Pets”, do grupo Porno for Pyros:

Foto: Liam Charmer / Unsplash

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