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Negócios 4 MIN DE LEITURA

Trekonomics, a economia do futuro de “Jornada nas Estrelas”

Sergio Kulpas

Publicado

em

Há mais de 50 anos, a nave estelar Enterprise se aventurou pelo espaço sideral, com o capitão Kirk e sua tripulação dedicados a explorar novos mundos e encontrar novas civilizações. “Jornada Nas Estrelas” gerou seis séries para a TV (sete, contando o desenho animado), uma dúzia de longas-metragens, livros, discos, DVDs, e muitos milhões de fãs ao redor do mundo. O universo de Star Trek é cada vez mais familiar e próximo de nosso cotidiano. Atualmente, a série “Discovery” pode ser vista no Netflix.

Série de ficção-científica singular em muitos aspectos, Star Trek é o tema de vários estudos sérios escritos ao longo de décadas por cientistas políticos, sociólogos, físicos, engenheiros e até teólogos. Vários executivos e pesquisadores do Google (um ninho de fãs da série) dizem que o objetivo da empresa é criar tecnologias similares às da nave Enterprise para aumentar o conforto e facilitar a vida das pessoas. O Dr. Martin Cooper da Motorola declarou que se inspirou no comunicador usado por Kirk e Spock para criar o primeiro telefone celular. Várias tecnologias que usamos hoje também são inspiradas por objetos fictícios da série ou dos filmes de Star Trek.

Acima de tudo, Star Trek se passa em um universo onde a guerra, a fome e a pobreza foram eliminadas, bem como outras mazelas sociais, incluindo a discriminação e o racismo. É uma utopia audaciosa, onde a abundância gerada pela tecnologia eliminou também o capitalismo e outros modelos econômicos — e até mesmo o dinheiro (o “capital” continua existindo, mas definido de outro modo).

A ideia de uma sociedade não-monetária, ou “anumismática”, é dos maiores destaques da saga de Jornada nas Estrelas. É um elemento mais relevante que as ideias tecnológicas na narrativa, como o teletransporte, o tricorder, os torpedos fotônicos, e as naves que voam mais rápido que a luz.

Foi justamente esse aspecto do ambiente de Jornada nas Estrelas despertou o interesse de Manu Saadia, que escreveu um livro chamado “Trekonomics”, para discutir a economia e a sociedade humana do século 23. A ideia para o livro surgiu a partir de conversas entre Saadia e Chris Black, que foi roteirista da série “Star Trek: Enterprise”, e de textos publicados sobre o assunto no site Medium. O livro foi publicado pela plataforma Inkshares e Saadia disponibilizou a introdução e o primeiro capítulo do livro.

Em “Trekonomics”, Saadia examina a “pós-economia” do universo da Federação Unida de Planetas, onde o dinheiro é desnecessário porque tudo pode ser produzido em “replicadores”, máquinas que convertem energia em matéria e sintetizam desde alimentos até peças para naves espaciais. E de graça. A Terra do século 23 eliminou a escassez através da tecnologia.

A “ausência de escassez” produz uma sociedade onde dinheiro, preços ou mercados são irrelevantes. E também não existe lucro. Num mundo assim, por que as pessoas dedicariam suas vidas a projetos, carreiras e invenções, sem a expectativa de retorno material? Como avaliar as opções e mensurar os resultados do trabalho sem uma unidade monetária quantificável?

Saadia admite que é um grande salto de otimismo, mesmo para o fã mais devotado de Jornada nas Estrelas neste começo do século 21, imaginar que um mundo assim pode emergir de nossa sociedade obcecada pelo consumo e pela acumulação de bens.

O livro de Saadia pretende avaliar as possibilidades de chegarmos a esse mundo utópico, usando os enredos de episódios das séries e dos filmes de Star Trek como ponto de partida para estimular a discussão, bem como ideias de pensadores como Adam Smith e Jeremy Bentham. Talvez o resultado não seja um tratado fundamental de economia ou política financeira, mas deve ser uma leitura interessante.

Saadia observa que os roteiristas de Jornada nas Estrelas foram cuidadosos ao estabelecer que embora a economia interna da Federação seja não-monetária, essa união de planetas se relaciona com outras civilizações e sociedades que são monetárias, e que mantém regras de valor e preços em suas relações comerciais.

Saadia disse que na sociedade de Star Trek, a natureza do trabalho não dependerá mais do consumo, ou a mera subsistência. A chave para isso é dissociar o trabalho do pagamento, da recompensa monetária. Essa é a mensagem da série, disse Saadia.

Em entrevista ao Washington Post, Saadia disse que em vez de trabalhar para aumentar sua riqueza ou acumular bens, as pessoas em uma sociedade “anumismática” do futuro se esforçarão para aumentar sua reputação. A recompensa do trabalho será o prestígio. Para conquistar esse prestígio, você vai se esforçar para ser o melhor capitão de espaçonave da galáxia, o melhor médico, o melhor cientista, o melhor artista, etc. E vai competir com outros pela mesma distinção. Seria uma meritocracia em sua expressão mais pura, sem as desigualdades sociais de hoje.

Gene Roddenberry, o criador de Star Trek, reconhece que se inspirou nas histórias do escritor de ficção-científica Isaac Asimov para criar muitos dos elementos que se tornaram famosos na série. Mas Roddenberry era um visionário também, e sua visão humanista do futuro venceu até os preconceitos que eram os valores dos anos 1960. Muitas ideias “políticas” que estavam nos roteiros da série original foram vetadas, mas para horror dos executivos da rede NBC, Gene insistiu em colocar na ponte da Enterprise uma oficial negra (a tenente Uhura), um jovem gênio russo (em plena Guerra Fria!), um timoneiro japonês e um alienígena, em papéis de protagonistas. As tecnologias de Star Trek estão se tornando realidade, uma a uma. Talvez a sociedade sem dinheiro sonhada por Gene não esteja tão distante assim.

O vídeo para promover o livro “Trekonomics”:

Foto: Stefan Cosma / Unsplash.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.

Sergio Kulpas é escritor e jornalista, com 25 anos de atividade em redações. Passou pela Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Gazeta Mercantil, Diário do Comércio, Meio & Mensagem e vários sites especializados em comunicações e mídia.

Empreendedorismo 4 MIN DE LEITURA

Startups: quando uma boa ideia não basta

Nascidas de um sonho que reúne pessoas aparentemente com o mesmo objetivo, uma em cada quatro Startups não sobrevive ao primeiro ano.

Isabel Franchon

Publicado

em

Franck V. / Unsplash

Segundo dados de pesquisa feita pela Fundação Dom Cabral, uma em cada quatro Startups (25%) fecha em menos de um ano de funcionamento e 50% não sobrevivem a quatro anos. Os números da pesquisa do Sebrae em parceria com o Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, não são muito diferentes: três em cada dez empresas que atuam na área de tecnologia fecham em um ano, na média.

Os motivos vão da falta de capital a divergência entre os sócios, passando pela falta de planejamento, inexperiência em gestão, ausência de processos e problemas com o time. A conclusão a que se chega é que “Uma boa ideia não basta”. É preciso adquirir conhecimentos sobre o negócio, aprender a liderar, criar ferramentas de gestão e aprimorar cada vez mais o time – ainda que seja só de quatro pessoas. Essa é a diferença entre um sonho apenas, e criar um business ancorado em uma visão de futuro sólida. Como fazer isso e ao mesmo tempo começar seu negócio? Ou apenas aprimorar uma Startup que está começando, ao resolver os problemas?

Bem, você pode fazer dúzias de cursos – foi o que um consultor sugeriu a uma Coachee que está começando a empreender preparando-se para sair do emprego. Sua lista incluía contabilidade, finanças, marketing digital e tantas outras especialidades que ela se aposentaria antes de começar.

Ou, como dizem alguns, na Internet tem de tudo. Mas mesmo que você passe 12 horas por dia pesquisando online não dominará tudo que precisa – ninguém dá nada de graça e informações (ou formação) pela metade é igual ou menor que zero.
Há ainda a opção – se tiver bastante capital – de contratar vários especialistas que darão conta de tudo e farão sua empresa funcionar. Será?! E onde fica a visão sistêmica do negócio? Em qual categoria se encaixa seu sonho? Você vira espectador? Meu avô dizia que “o gado só engorda com o olhar do dono”.

Coaching pode ser a melhor parceria

Meu primeiro Coachee de Startup foi há 3 anos. De lá para cá muitas coisas mudaram: apareceram as aceleradoras, investidores-anjo, consultorias especializadas, mentorias, incentivos governamentais; o vocabulário se sofisticou…… mas a dor continua a mesma!

Trabalhamos juntos por quase 6 meses. Quando chegou ele vivia um momento profundo de angústia. A Startup de tecnologia, criada com um amigo em sociedade com uma empresa americana, havia passado por uma fusão com um grupo de investidores nacional que passou ao controle. Ir de uma participação de 25% a 15% não foi o problema: o que pesava era a maneira como o negócio vinha sendo conduzido.

Mal feito, por falta de experiência, o acordo previa o custeio da empresa por 6 meses, prazo em que a empresa deveria atingir o break-even – missão quase impossível, principalmente porque o grupo, além de não reforçar a equipe de desenvolvedores, assumiu a parte comercial e a mesma equipe dividia sua atenção entre todas as empresas das quais fazia parte. Passado o prazo, todos começaram a bancar o custeio da Startup proporcionalmente às suas cotas.

O sonho virou pesadelo. Os criadores, sem voz ativa nas decisões, viram um negócio promissor ir pelo ralo – principalmente se considerarmos que há 3 anos o mercado tinha muito espaço para crescer.

Sem valores nem missão compartilhados, a filosofia dos novos sócios se resumia a resolver quando der problema, vamos vender depois vemos como entregar, e nem pensar em investir em equipe. Meses depois a Startup dos sonhos resvalou para o vale da morte, ou death valley, e meu Coachee partiu para outra, com novos aprendizados.

Com experiência de mais de 10 anos em Coaching tenho cada vez mais clientes vindo de Startups, com a consciência de que não basta ter uma boa ideia para ter sucesso, superando a cultura de acerto e erro: um começo sólido, sem achismos, e com muita autoconsciência pode fazer toda a diferença no futuro.

Conduzir uma Startup ao sucesso através do Coaching é uma questão de metodologia. O ponto de partida é sempre um levantamento para análise do cenário: QUAL É O PROBLEMA?

Dar uma direção clara e rápida ao negócio? Entender qual valor está entregando ao usuário/cliente? Necessidade de conhecer seu potencial de empreendedor e como pode melhorar? Resolver problemas rapidamente e testar protótipos? Validar produto? Estratégias? Plano de Crescimento? Apresentação para investidor? Mudanças na equipe? Análise de cenário? Gestão de pessoas? Comunicação? Estilo de Liderança? Programa de Compliance na medida para a captação de investidores estrangeiros? Sem problemas! Enfim, são dezenas e dezenas de ferramentas aprendidas, testadas e vivenciadas.

Com o conhecimento do negócio, ferramentas certas para cada situação, treinamentos customizados e, mais importante que tudo, no ambiente correto para a autoaprendizagem e o auto aperfeiçoamento, o processo de Coaching faz toda a diferença: pode ser individual, com o time ou em grupo com outros empreendedores que enfrentam a mesma situação.

Para quem não sabe – ou tem uma visão distorcida – Coaching é um processo estruturado, com começo, meio e fim, que utiliza ferramentas de diversas disciplinas para conduzir uma pessoa, ou time, na realização de seus objetivos em qualquer área da vida – pessoal, profissional ou nos negócios. O objetivo, sempre, é levar o cliente de onde está para onde quer chegar. Autoconhecimento faz parte.

Empresas são organismos vivos que vão crescer, e conhecer cada aspecto profundamente é essencial para o sucesso. Quem somos? Onde queremos chegar? Qual nossa cultura? Que valores são importantes para nós? Quais nossos limites? Estamos prontos para gestar e criar? Sabemos realmente qual a dor do nosso cliente que vamos atender? Simplesmente não dá para descobrir tudo durante a caminhada.

Num ponto muito especial do caminho, indivíduo e empresa se confundem para logo mais criar independência: é aí que reside a diferença entre sonho e visão.

Todos nós temos desejos e sonhos. Às vezes realizáveis, outras não. Na maioria, apenas alimentados dia-a-dia quando o pensamento voa. Transformar o sonho em visão é garantir que aconteça estabelecendo uma meta clara, colocando um prazo realista, definindo estratégias, criando um plano de ação e executando.

Sonhar é preciso. Mas não suficiente.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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Marketing 4 MIN DE LEITURA

Um compromisso ético que Machado de Assis me obriga a enfrentar

O quanto as marcas contribuem para que os consumidores sejam atendidos nos seus legítimos desejos e necessidades?

Jaime Troiano

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em

Foto: Francisco Kroner / Jornal 140

Faz tempo, que um dos contos do Machado de Assis me persegue. Não sei julgar o quanto ele é melhor avaliado do que dezenas de outros do autor, pelos especialistas em nossa literatura. Alguém saberá dizer. Mas o que me interessa é o porquê “O Espelho – esboço de uma nova teoria da alma humana ” é um conto de que eu não consegui me libertar.

Ele me inquieta pelas várias conexões que faço com nossa vida pessoal e, acreditem, com minhas investidas diárias na vida profissional. Quem me conhece bem, sabe disso. Não vou descrevê-lo, mas apenas pontuar o essencial para que vocês mesmos leiam e tirem suas conclusões. Jacobina é um alferes, no Rio de Janeiro do século 19. O seu fardamento é o que faz com que ele mesmo se reconheça como pessoa e suponha ser reconhecido socialmente também. Sem o fardamento, sua própria imagem desvanece. Diante do espelho ele não se vê. De divãs de psicanálise a treinamentos corporativos, esse é um texto quase obrigatório. Não percam.

Bem, a conexão que eu faço com o conto é a seguinte: marcas são “fardamentos”. Recursos que deveriam contribuir para configurar nossa identidade e atender necessidades, de diversos níveis. Mas nunca para apagar o que somos como sujeitos, acima de tudo. Nunca para nos ocultar, por meio de uma persona com a qual elas, as marcas, nos vestem.

E daí, vem a delicada pergunta que eu vivo me fazendo. No mundo do branding, que é meu dia a dia profissional, qual é nosso papel? Alimentar o Jacobina que existe dentro de nós, impondo de forma sedutora e autoritária uma identidade que, no fim das contas, contribui pouco para nossos autênticos projetos de felicidade? Seria isso mesmo?

Quantas vezes o “consumidor Jacobina” não consegue se identificar consigo mesmo, ou não se vê no espelho social, quando não tem acesso às marcas que ele admira?

Durante décadas, eu tenho vivido essa tensão. Uma tensão entre o que nós fazemos nesta profissão, contribuindo para alimentar os negócios de empresas que, em última instância, também desenvolvem a economia, e o quanto consumidores são atendidos nos seus legítimos desejos e necessidades.

Por que temos encarado tão poucas vezes essa delicada pergunta? Uma vez ou outra, surge algum pensador que resolve mexer nesse vespeiro, como é o caso do inspirador e corajoso Martin Lindstrom em seu livro Brandwashed. (Lançado pela HSM no Brasil).

A pergunta não se cala, e a resposta mais comum que costumo ouvir é do tipo evasiva. Algo assim: nós não estamos atropelando os desejos e necessidades dos consumidores com as marcas que eles acabam comprando. Ou, eles têm sempre o livre arbítrio a seu favor para decidir o que, de fato, querem e podem adquirir. Ou, alguns enfrentam a pergunta de outro jeito: nós não criamos desejos inexistentes nos outros, mas apenas identificamos aquilo que eles querem, mesmo que não tenham consciência disso.

E há os que, simplesmente, viram as costas para essa dúvida. Porque o importante seria, acima de tudo, a eficácia comercial da marca e sua capacidade de multiplicar os negócios da empresa em seu mercado. Por outro lado, há os seus opostos: os que veem um papel perverso nas marcas ao dirigir o comportamento do consumidor, como se elas fossem uma tutora de almas infantis que não sabem decidir por si. São os que afirmam, por exemplo, que as marcas deveriam estar sob suspeição por alimentarem a inadimplência das famílias. A bíblia desse grupo são livros como o No Logo da Naomi Klein.

Esses dois grupos dormem em paz com sua consciência. Afinal, suas respectivas convicções não exigem qualquer esforço intelectual nem tensões morais. Eu não! E muitos que trabalham comigo ou já trabalharam tem essa inquietação à flor da pele. Não pertencemos a nenhum dos dois grupos.

Nós não acreditamos que o indicador supremo de qualidade e êxito de uma marca seja, acima de tudo, sua eficácia comercial. Ela só será bem sucedida, e por mais tempo, se não for apenas um “fardamento” social. Se atender necessidades, sejam elas funcionais, objetivas ou emocionais, mas autênticas.

Nós, somos a única espécie animal que procura um sentido para as decisões que tomamos na vida. Não somos movidos por instintos, mas por escolhas que deem um sentido ao que fazemos. Desculpe-me a Naomi Klein, marcas dão significado a nossas decisões.

Impossível ignorar que existe, em maior ou menor grau, um Jacobina em cada um de nós. O que pode mudar é a natureza do “fardamento” que alimentará nosso projeto de felicidade como indivíduos, no seu sentido mais amplo. Nossa responsabilidade ética nesta profissão não nos permite escapar para nenhum dos dois extremos. Nem imaginar que marcas nunca cometam “pecados” contra seus clientes e tampouco imaginar que sem elas possamos dar um sentido às nossas escolhas.

A tensão que emerge para quem vive e pensa entre esses dois polos não chega a nos paralisar. Mas exige um compromisso de eterna vigilância. E também a clareza de que não trabalhamos para atender a volúpia do mercado, mas a sociedade acima de tudo.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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