Seu passado pode estar arruinando suas decisões hoje

Imagine que você comprou ingressos para uma peça de teatro que vai acontecer hoje. Você acordou e o dia estava nublado. Durante a tarde começou uma chuva forte. Algumas horas antes da apresentação o trânsito na cidade estava caótico, com vários pontos de alagamento e vias interditadas. Quando, mesmo nesse cenário, você decide enfrentar as condições adversas para não perder a peça, para a psicologia econômica você tomou uma atitude com base na chamada falácia dos custos irrecuperáveis (em inglês chamado sunk cost effect ou sunk cost fallacy).

Richard Thaler, psicólogo especialista em economia comportamental e ganhador do prêmio Nobel registrou vários estudos em que não reagimos racionalmente quando a situação envolve dinheiro. A falácia dos custos irrecuperáveis é uma delas.

O que demonstra como o comportamento está relacionado ao dinheiro é que, se ao invés de ter comprado o ingresso você o tivesse ganhado de presente, provavelmente você não enfrentaria uma tempestade para prestigiar os atores.

Acontece que não damos o dinheiro realmente perdido se pudermos seguir com o plano original, mesmo que ele não pareça mais tão bom quanto no momento da aquisição. Assim como, por exemplo, se você está com algum bem encostado em casa, não dá o dinheiro que pagou como perdido: você tem algo, mesmo que não use. Agora, caso você resolva vender o bem, por mais que recupere parte do dinheiro investido, terá uma sensação de perda. Racionalmente você ganha mais vendendo o bem do que deixando-o encostado, mas o que sente é outra história.

A psicanalista e psicóloga especialista em psicologia econômica Vera Rita de Mello Ferreira também sobre o efeito, em seu canal do youtube. Ela comenta que a falácia dos custos irrecuperáveis não se aplica apenas a dinheiro, mas também a tempo e esforço: por exemplo, se você se inscreveu em um curso de dois anos e, passado um ano, percebeu que não gosta nada daquilo. Em vez de mudar logo para outra área, pode decidir continuar colocando seu tempo – e até dinheiro também – no curso para não dar o primeiro ano como perdido. Com isso, pode ser que ganhe um diploma e pode ser também que acabe perdendo não um mas dois anos de sua vida.

Nos casos mencionados acima, a contribuição da psicologia econômica é de nos fazer perceber que todos temos esse mecanismo, que faz cair em ciladas em vez de tomar atitudes que podem melhorar o nosso bem-estar. Podemos então racionalizar e dar mais peso para o presente e ao futuro do que às atitudes já passadas.

Foto: Lucian Andrei (Unsplash). 

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Jornalista especializada em economia, escrevi para alguns dos principais veículos sobre fintechs e atualmente escrevo sobre a fascinante interface entre economia e psicologia no meu site Desconsumo.
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