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Negócios 3 MIN DE LEITURA

Mariza Dias Costa, um apanhado vivo de uma autora póstuma

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Em 1984, participei da organização da exposição da desenhista e ilustradora Mariza Dias Costa, falecida na semana passada, dia 28 de março.

A ideia e coordenação foi do meu sócio Oswaldo Pepe, que era responsável pela curadoria de um espaço alternativo ao mundo das artes em S. Paulo, a Humberto Tecidos, uma das primeiras lojas de decorações da alameda Gabriel Monteiro da Silva. Este espaço ficou conhecido e ganhou algum prestígio na cena dos anos 80. Dois anos antes, o Pepe organizou, com a minha ajuda em RP, uma exposição com o artista plástico argentino, León Ferrari, a primeira de seu exílio no Brasil, além de muitas outras exposições que levaram prestígio à alameda Gabriel Monteiro da Silva, com o apoio financeiro de um jovem empresário, o Alberto Loewenheim.

O nome da exposição era quilométrico – “Sic transit gloria gráfica” ou “O milagre dos peixes em off-set” – e de certa maneira transmitia um pouco da personalidade e caráter da artista. A ideia era apresentar os desenhos originais da Mariza (60 trabalhos) e 25 ampliações em “copy proof”, além dos mesmos trabalhos ao lado dos textos publicados no jornal Folha de S. Paulo exclusivamente para os artigos da coluna “Diário da Corte”, assinada pelo jornalista Paulo Francis.

Francis era uma sensação no jornalismo na década de 80, adorado por muitos (vendia jornal) e odiado. Era polêmico, tinha opiniões radicais, era fanfarrão, culto. As ilustrações de Mariza funcionavam como bolas de lavas medievais em seus textos eivados de sarcasmos e perorações.

Quando conheci Mariza pela primeira vez levei um susto. Magra, de baixa estatura, parecia um cantor de rock cabeludo, óculos escuros, nariz fino; era dona de gestos desconexos. Quando abria a boca desferia ironias finas, ácidas, engraçadas e inteligentes. Soube depois que falava várias línguas entre elas árabe, russo e grego, acho que por influência de sua família de diplomatas.

Levei um susto ainda maior ao vê-la desenhando. A primeira impressão que tive é que ela não seria capaz de escrever o seu nome, tamanha era a descoordenação motora. Um milagre da natureza se revelava e os traços escandalosamente belos e barrocos, quase medievais de tão bem elaborados, surgiam de maneira copiosa. A gravurista e desenhista Renina Katz me disse na época que Mariza era uma grande desenhista, “a maior desenhista brasileira”, achei um exagero. Hoje vejo que ela estava certa (achava que a Renina também tivesse preparado um texto de apresentação desta exposição de Mariza, ao lado do Francis, mas não encontrei nada que comprove esta lembrança). Mariza era mais do que uma desenhista: seus trabalhos eram elaborados a partir de sobras, fotografias ou reproduções que íam recebendo acréscimos sofisticados como desenhos com personagens e criaturas esotéricas que lembravam Robert Crumb (mas ela tinha um estilo único) e eram finalizados como um past-up,

Combinamos que a exposição da Mariza seria apresentada pelo Paulo Francis que se prontificou a enviar o texto de Nova York, onde morava. Lembro que a chegada do texto no telex foi comemorada como gol em final de Copa do Mundo.Na época a Art Presse havia acabado de conseguir o seu primeiro equipamento de telex, uma máquina enorme de envio e recebimentos de textos. Vinha sem acento e em algumas situações era necessária uma interpretação. Obtive um trecho do Francis, de fina ironia: “Tenho o privilégio de ter meus artigos comentados pelos desenhos de Mariza na Folha. Vejo o comentário com um misto de prazer – pela qualidade – e suspeita. É a suspeita de que são muito melhores do que o que ilustram: meus artigos”.

Encontrei a Mariza mais de 30 anos depois. Estava abatida, soturna, ficou contente quando me viu, eu também. Vendia pequenas ilustrações a preço de banana, estava passando dificuldades. Comprei um desenho. Anos depois encontrei com o Toninho Mendes que me disse que iria organizar um livro sobre a sua obra. Corri para obter um exemplar e fiquei decepcionado: eram obras coloridas e em nada lembravam a genialidade da grande inventora e desenhista que foi Mariza Dias Costa.

Em psicodélica matéria (não assinada) na Folha de S. Paulo, no dia da abertura da exposição na Humberto Tecidos, intitulada “Reinvenções & mutações de Mariza Dias“, o autor do texto diz que (Jorge Luiz) Borges enviou um telegrama para Mariza perguntando a ela se a exposição era a sombra de um sonho gráfico, ao que ela respondeu: “não, é um apanhado póstumo de uma autora viva”.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.

Fundador da Art Presse, 140 Online e do Jornal 140, empresário de comunicação, jornalista de formação e digital de paixão. Teve participação fundamental no lançamento da internet banda larga no Brasil em 1999. É autor do livro "Domingo no Sancho" (2018), Amazon Kindle.

Marketing 4 MIN DE LEITURA

Um compromisso ético que Machado de Assis me obriga a enfrentar

O quanto as marcas contribuem para que os consumidores sejam atendidos nos seus legítimos desejos e necessidades?

Jaime Troiano

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Foto: Francisco Kroner / Jornal 140

Faz tempo, que um dos contos do Machado de Assis me persegue. Não sei julgar o quanto ele é melhor avaliado do que dezenas de outros do autor, pelos especialistas em nossa literatura. Alguém saberá dizer. Mas o que me interessa é o porquê “O Espelho – esboço de uma nova teoria da alma humana ” é um conto de que eu não consegui me libertar.

Ele me inquieta pelas várias conexões que faço com nossa vida pessoal e, acreditem, com minhas investidas diárias na vida profissional. Quem me conhece bem, sabe disso. Não vou descrevê-lo, mas apenas pontuar o essencial para que vocês mesmos leiam e tirem suas conclusões. Jacobina é um alferes, no Rio de Janeiro do século 19. O seu fardamento é o que faz com que ele mesmo se reconheça como pessoa e suponha ser reconhecido socialmente também. Sem o fardamento, sua própria imagem desvanece. Diante do espelho ele não se vê. De divãs de psicanálise a treinamentos corporativos, esse é um texto quase obrigatório. Não percam.

Bem, a conexão que eu faço com o conto é a seguinte: marcas são “fardamentos”. Recursos que deveriam contribuir para configurar nossa identidade e atender necessidades, de diversos níveis. Mas nunca para apagar o que somos como sujeitos, acima de tudo. Nunca para nos ocultar, por meio de uma persona com a qual elas, as marcas, nos vestem.

E daí, vem a delicada pergunta que eu vivo me fazendo. No mundo do branding, que é meu dia a dia profissional, qual é nosso papel? Alimentar o Jacobina que existe dentro de nós, impondo de forma sedutora e autoritária uma identidade que, no fim das contas, contribui pouco para nossos autênticos projetos de felicidade? Seria isso mesmo?

Quantas vezes o “consumidor Jacobina” não consegue se identificar consigo mesmo, ou não se vê no espelho social, quando não tem acesso às marcas que ele admira?

Durante décadas, eu tenho vivido essa tensão. Uma tensão entre o que nós fazemos nesta profissão, contribuindo para alimentar os negócios de empresas que, em última instância, também desenvolvem a economia, e o quanto consumidores são atendidos nos seus legítimos desejos e necessidades.

Por que temos encarado tão poucas vezes essa delicada pergunta? Uma vez ou outra, surge algum pensador que resolve mexer nesse vespeiro, como é o caso do inspirador e corajoso Martin Lindstrom em seu livro Brandwashed. (Lançado pela HSM no Brasil).

A pergunta não se cala, e a resposta mais comum que costumo ouvir é do tipo evasiva. Algo assim: nós não estamos atropelando os desejos e necessidades dos consumidores com as marcas que eles acabam comprando. Ou, eles têm sempre o livre arbítrio a seu favor para decidir o que, de fato, querem e podem adquirir. Ou, alguns enfrentam a pergunta de outro jeito: nós não criamos desejos inexistentes nos outros, mas apenas identificamos aquilo que eles querem, mesmo que não tenham consciência disso.

E há os que, simplesmente, viram as costas para essa dúvida. Porque o importante seria, acima de tudo, a eficácia comercial da marca e sua capacidade de multiplicar os negócios da empresa em seu mercado. Por outro lado, há os seus opostos: os que veem um papel perverso nas marcas ao dirigir o comportamento do consumidor, como se elas fossem uma tutora de almas infantis que não sabem decidir por si. São os que afirmam, por exemplo, que as marcas deveriam estar sob suspeição por alimentarem a inadimplência das famílias. A bíblia desse grupo são livros como o No Logo da Naomi Klein.

Esses dois grupos dormem em paz com sua consciência. Afinal, suas respectivas convicções não exigem qualquer esforço intelectual nem tensões morais. Eu não! E muitos que trabalham comigo ou já trabalharam tem essa inquietação à flor da pele. Não pertencemos a nenhum dos dois grupos.

Nós não acreditamos que o indicador supremo de qualidade e êxito de uma marca seja, acima de tudo, sua eficácia comercial. Ela só será bem sucedida, e por mais tempo, se não for apenas um “fardamento” social. Se atender necessidades, sejam elas funcionais, objetivas ou emocionais, mas autênticas.

Nós, somos a única espécie animal que procura um sentido para as decisões que tomamos na vida. Não somos movidos por instintos, mas por escolhas que deem um sentido ao que fazemos. Desculpe-me a Naomi Klein, marcas dão significado a nossas decisões.

Impossível ignorar que existe, em maior ou menor grau, um Jacobina em cada um de nós. O que pode mudar é a natureza do “fardamento” que alimentará nosso projeto de felicidade como indivíduos, no seu sentido mais amplo. Nossa responsabilidade ética nesta profissão não nos permite escapar para nenhum dos dois extremos. Nem imaginar que marcas nunca cometam “pecados” contra seus clientes e tampouco imaginar que sem elas possamos dar um sentido às nossas escolhas.

A tensão que emerge para quem vive e pensa entre esses dois polos não chega a nos paralisar. Mas exige um compromisso de eterna vigilância. E também a clareza de que não trabalhamos para atender a volúpia do mercado, mas a sociedade acima de tudo.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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Jaime Troiano: Conceito de Place Branding e o case do Baixo Pinheiros

Um dos principais especialistas em Branding do país fala sobre Place Branding

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Foto: Francisco Kroner / Jornal 140

Jornal 140 entrevista o Presidente da TroianoBranding, Jaime Troiano, que explica o conceito de Place Branding e conta o case do Baixo Pinheiros. Para saber mais sobre o projeto do Baixo Pinheiros, clique aqui.

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