O que aprendi na profissão de comissária de vôo

Apesar de amar viajar, nunca me imaginei sendo comissária de bordo até o dia em que o desemprego fez aniversário de um ano em minha vida. Após me desligar da empresa para a qual eu trabalhava anteriormente e partir para um intercâmbio, eu simplesmente não conseguia recolocação após o retorno. Foi quando um amigo me apresentou a famosa empresa aérea internacional que recruta até hoje no Brasil, além de oferecer todo o treinamento para as certificações necessárias para a profissão.

Pois bem, com 23 anos e de mala arrumada, me vi dizendo adeus a amigos e a família no Brasil e partindo para literalmente um novo mundo de descobertas e aventuras. Poderia discursar muito sobre as adaptações de cultura, alimentação e a saudade, porém vou focar no que aprendi com a nova profissão.

Ser Pontual: na aviação, quando não nos apresentamos “on-time” para um dia de trabalho, simplesmente voltamos pra casa. Entre outros motivos, estar atrasado significa perda de alocação de horário para decolagem. Um efeito dominó que, além de gerar custos, impacta conexões, prejudica pessoas e pode até mesmo infringir a legislação observada de horários trabalhistas, sendo necessária a reposição de alguns colaboradores para garantir o acionamento de um seguro, se for o caso. Comissários são em gerais pontuais e valorizam a disponibilidade de tempo própria e das pessoas.

Respeito ao Corpo: aprendemos a ler o nosso corpo como ninguém e apreciar aos momentos de sono. Dormir à noite é considerado um privilégio e a qualidade de sono nesse horário é especial. Caso não tenha fome por estar se recuperando de uma doença, a ordem é respeitar o corpo e entender que nesse momento a concentração de energias está difusa a outra área além da digestão.

Respeito a Senioridade: observado em vários momentos. Na fila do check in em hotéis, a prioridade é dada aos colaboradores por ordem de hierarquia. A pessoa que desempenha a função há mais tempo que você merece essa cortesia, ela também já fez o mesmo.

Trabalho em Equipe: seja um funcionário da classe executiva ou econômica, chefe de cabine ou piloto, sabe que é impossível salvar grande quantidade de vidas ou mesmo gerenciar um grande número de pessoas sozinho. Precisamos uns dos outros e aprendemos na marra como é isso.

O Cuidado com a Aparência: dizer não ao desleixo e saber que pequenos detalhes de higiene pessoal contam muito. Você é observado o tempo todo e está muitas vezes na mira das fotos em locais públicos. O colaborador representa a empresa para a qual trabalha e existe grande responsabilidade nisso.

Controle Emocional: imagine um dia de cabine cheia e um pouco de turbulência. Crianças chorando, uma passageira que tem pânico de voar; alguns chateados porque sua opção de refeição preferida não está mais disponível e um caso médico para socorrer. São quatro horas da manhã e você tem fome e sono. Como fica o controle emocional nesse caso? Após tal treinamento de choque, no geral, é preciso muita coisa para tirar um comissário do sério.

Organização do Tempo e Multitasking: essa é de deixar os gerentes de projeto com inveja. É necessário muito sincronismo com o time a bordo e equipes de solo para que um voo saia no horário. Tudo isso diariamente. Muitas vezes a preparação para o serviço de bordo começa juntamente com inspeções de segurança em solo, bem como recepcionar aos passageiros e observar se algum pode apresentar sintomas de que não está bem fisicamente para viajar, prevendo e evitando desvios de rota. Para isso, checklists são utilizados e briefings diários antes dos vôos. Daily Scrum muito antes do Agile.

Naturalidade ao lidar com VIPs: frequentemente recebemos celebridades como passageiros nas mais diversas classes de cabine. O tratamento é feito com cortesia, porém habitualmente.

Respeito a Bagagem das Pessoas: não se precipite em tirar conclusões. Nem todos viajam a trabalho ou por motivo de férias. Muitos saem a realizar tratamentos médicos seríssimos, outros para prestar um último adeus à pessoas queridas. Sua sensibilidade em momentos como esses faz toda a diferença e a história de uma pessoa pode agregar muito à sua vida e vice-versa.

Valorizar Amigos e ser Amigo: quando se está sempre viajando e perdendo datas especiais, tendemos a valorizar muito quem segue investindo na amizade, muitas vezes após horas sem resposta nossa devido à profissão.

Ser flexível e Lidar bem com Imprevistos: acredito que essa capacidade é auto-explicativa.

Apesar das qualidades acima serem transferíveis, muitas vezes recrutadores não as conseguem enxergar. Sou grata a Meraas Holding, uma empresa do governo de Dubai e o departamento de Recursos Humanos, que após investirem em uma ex-colega da aviação, resolveram me dar uma chance. Acredito que deixamos um bom legado, pois mais dois colegas foram recrutados. Todos em posição de liderança. Hoje continuo desempenhando outra atividade profissional, mas os valores absorvidos me acompanharão em qualquer fase e ainda despertam a curiosidade dos colegas por onde passo. Meu sincero respeito aos aeroviários.

neoONBRAND / Unsplash

  • Últimos Posts
Tatiana Perez é Tecnóloga em TI e graduada em administração de empresas pela Coventry University, Inglaterra. Apaixonada por inovação, tecnologia e aviação, passou a traduzir artigos acadêmicos e outros materiais da área, escreve para o Jornal 140 e para o blog Found in Translation. Possui vivência internacional de 11 anos entre Emirados Árabes e Indonésia, maior pólo de startups do mundo.
×
Tatiana Perez é Tecnóloga em TI e graduada em administração de empresas pela Coventry University, Inglaterra. Apaixonada por inovação, tecnologia e aviação, passou a traduzir artigos acadêmicos e outros materiais da área, escreve para o Jornal 140 e para o blog Found in Translation. Possui vivência internacional de 11 anos entre Emirados Árabes e Indonésia, maior pólo de startups do mundo.
Últimos Posts