Disjointed: a maconha e a tevê nos EUA

Atualmente, o consumo de maconha está deixando de ser estigmatizado em várias partes do mundo, depois de quase um século de intensa repressão. A Europa foi pioneira em iniciativas de descriminalização, e hoje países tão díspares como os Estados Unidos e o Uruguai estão na vanguarda da liberalização do uso da canabis, tanto para fins medicinais como recreativos.

Meu tema aqui é a comédia “Disjointed” (“Desenrolados”, em português), cuja primeira temporada está disponível no Netflix.

Chuck Lorre (criador dos mega-hits da TV tradicional “Two And a Half Men” e “The Big Bang Theory”) produziu para a plataforma Netflix uma sitcom com um tema muito interessante, em vários aspectos.

“Dijsointed” é estrelada pela excelente atriz Kathy Bates, ganhadora do Oscar de melhor atriz em 1991 por “Misery” (“Louca Obsessão”). É o primeiro papel de Bates para televisão. Ela interpreta Ruth Whitefeather Feldman, que é dona de uma loja de “marijuana medicinal” em um centro comercial em Los Angeles.

O cenário da loja funciona como um microcosmo da sociedade americana em um grande centro urbano, e também como uma metáfora social e política mais ampla. A personagem de Kathy Bates é uma hippie septuagenária, com um filho negro que é seu sócio na loja. Os outros personagens são caricaturais e esquemáticos: o cultivador que foi criado em uma comunidade “alternativa” fechada, o segurança que é um veterano da guerra do Iraque com síndrome pós-traumática, a asiática que abandonou o curso de medicina para trabalhar na loja, e o casal de maconheiros hardcore que posta vídeos no YouTube e tem centenas de milhares de seguidores online.

Os críticos de TV dos Estados Unidos malharam essa comédia de modo impiedoso. As piadas sobre cocô e tamanho de pênis, os estereótipos raciais e o próprio tema da série irritaram profundamente os ditos especialistas em televisão.

Tudo bem, a série não é nenhuma obra-prima e muitas das piadas e gags são primárias, até infantis. Mas a crítica parece não ter entendido o que há de realmente novo em “Disjointed”: é a primeira série de TV a “normalizar” o hábito de fumar marijuana, como uma atividade legalizada. Depois de décadas de filmes e séries onde a maconha é apresentada como um delito ou como um hábito censurável, esse programa mostra o cotidiano de um estabelecimento comercial genuíno, que paga impostos e emite nota fiscal. Não por acaso (mas sem perceber as implicações mais profundas) um crítico comparou a comédia a “Cheers”, uma série de grande sucesso nos anos 1980 e 90 que era ambientada em um bar. Em “Disjointed”, os relacionamentos entre os funcionários e frequentadores dão a tônica da narrativa, como naquela série clássica.

Mas “Disjointed” tem outros aspectos inéditos. A comédia é engraçada para o público “normal”, mas é certamente hilariante para os usuários de canabis. De fato, assistir a série sob o efeito de maconha deve ser uma experiência muito diversa do que vê-la “careta”. Há várias animações psicodélicas que dão indicações dessa intenção por parte dos criadores, e as piadas mais simplórias podem causar acessos incontroláveis de riso nos espectadores.

Um lado sério da produção é que ela revela o “limbo” jurídico que o comércio de marijuana vive nos Estados Unidos. Apesar de muitos estados já terem aprovado a regularização da venda de canabis (seja para fins medicinais ou recreativos), os comerciantes esbarram em uma legislação federal que continua considerando a maconha como entorpecente, com uma agência do governo dedicada a combater a produção e o consumo (a Drug Enforcement Agency foi criada em 1973 e conta com orçamento anual superior a US$ 1 bilhão). As lojas de marijuana penam para operar dentro de um sistema que considera seu faturamento como “lavagem de dinheiro”, dificultando a abertura de contas bancárias e a manutenção de registros fiscais tradicionais. Mesmo um estabelecimento perfeitamente legalizado em algum estado americano pode sofrer uma blitz federal, com poder de confiscar toda a mercadoria e o dinheiro. Essa política federal dos EUA é tão ampla que até o comércio de maconha em outros países pode ser prejudicado, como é o caso do Uruguai – as lojas uruguaias de canabis estão sendo boicotadas pelas filiais locais de bancos americanos, e até mesmo pelo brasileiro Itaú.

De qualquer modo, é saudável o lançamento que uma série de TV sobre esse tema, com produção caprichada e pelo menos uma grande estrela de Hollywood no elenco. Foi criada para a Netflix (poderia estar na Amazon, Hulu ou outro serviço de streaming), indicando que o alvo é o público mais jovem, que já não assiste nem a TV aberta nem os canais a cabo tradicionais.

Uma segunda temporada já está em produção, e seria interessante ver mais opiniões sobre essa comédia.

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Sergio Kulpas é escritor e jornalista, com 25 anos de atividade em redações. Passou pela Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Gazeta Mercantil, Diário do Comércio, Meio & Mensagem e vários sites especializados em comunicações e mídia.
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Sergio Kulpas é escritor e jornalista, com 25 anos de atividade em redações. Passou pela Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Gazeta Mercantil, Diário do Comércio, Meio & Mensagem e vários sites especializados em comunicações e mídia.
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