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Cultura

Disjointed: a maconha e a tevê nos EUA

Sergio Kulpas

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em

Atualmente, o consumo de maconha está deixando de ser estigmatizado em várias partes do mundo, depois de quase um século de intensa repressão. A Europa foi pioneira em iniciativas de descriminalização, e hoje países tão díspares como os Estados Unidos e o Uruguai estão na vanguarda da liberalização do uso da canabis, tanto para fins medicinais como recreativos.

Meu tema aqui é a comédia “Disjointed” (“Desenrolados”, em português), cuja primeira temporada está disponível no Netflix.

Chuck Lorre (criador dos mega-hits da TV tradicional “Two And a Half Men” e “The Big Bang Theory”) produziu para a plataforma Netflix uma sitcom com um tema muito interessante, em vários aspectos.

“Dijsointed” é estrelada pela excelente atriz Kathy Bates, ganhadora do Oscar de melhor atriz em 1991 por “Misery” (“Louca Obsessão”). É o primeiro papel de Bates para televisão. Ela interpreta Ruth Whitefeather Feldman, que é dona de uma loja de “marijuana medicinal” em um centro comercial em Los Angeles.

O cenário da loja funciona como um microcosmo da sociedade americana em um grande centro urbano, e também como uma metáfora social e política mais ampla. A personagem de Kathy Bates é uma hippie septuagenária, com um filho negro que é seu sócio na loja. Os outros personagens são caricaturais e esquemáticos: o cultivador que foi criado em uma comunidade “alternativa” fechada, o segurança que é um veterano da guerra do Iraque com síndrome pós-traumática, a asiática que abandonou o curso de medicina para trabalhar na loja, e o casal de maconheiros hardcore que posta vídeos no YouTube e tem centenas de milhares de seguidores online.

Os críticos de TV dos Estados Unidos malharam essa comédia de modo impiedoso. As piadas sobre cocô e tamanho de pênis, os estereótipos raciais e o próprio tema da série irritaram profundamente os ditos especialistas em televisão.

Tudo bem, a série não é nenhuma obra-prima e muitas das piadas e gags são primárias, até infantis. Mas a crítica parece não ter entendido o que há de realmente novo em “Disjointed”: é a primeira série de TV a “normalizar” o hábito de fumar marijuana, como uma atividade legalizada. Depois de décadas de filmes e séries onde a maconha é apresentada como um delito ou como um hábito censurável, esse programa mostra o cotidiano de um estabelecimento comercial genuíno, que paga impostos e emite nota fiscal. Não por acaso (mas sem perceber as implicações mais profundas) um crítico comparou a comédia a “Cheers”, uma série de grande sucesso nos anos 1980 e 90 que era ambientada em um bar. Em “Disjointed”, os relacionamentos entre os funcionários e frequentadores dão a tônica da narrativa, como naquela série clássica.

Mas “Disjointed” tem outros aspectos inéditos. A comédia é engraçada para o público “normal”, mas é certamente hilariante para os usuários de canabis. De fato, assistir a série sob o efeito de maconha deve ser uma experiência muito diversa do que vê-la “careta”. Há várias animações psicodélicas que dão indicações dessa intenção por parte dos criadores, e as piadas mais simplórias podem causar acessos incontroláveis de riso nos espectadores.

Um lado sério da produção é que ela revela o “limbo” jurídico que o comércio de marijuana vive nos Estados Unidos. Apesar de muitos estados já terem aprovado a regularização da venda de canabis (seja para fins medicinais ou recreativos), os comerciantes esbarram em uma legislação federal que continua considerando a maconha como entorpecente, com uma agência do governo dedicada a combater a produção e o consumo (a Drug Enforcement Agency foi criada em 1973 e conta com orçamento anual superior a US$ 1 bilhão). As lojas de marijuana penam para operar dentro de um sistema que considera seu faturamento como “lavagem de dinheiro”, dificultando a abertura de contas bancárias e a manutenção de registros fiscais tradicionais. Mesmo um estabelecimento perfeitamente legalizado em algum estado americano pode sofrer uma blitz federal, com poder de confiscar toda a mercadoria e o dinheiro. Essa política federal dos EUA é tão ampla que até o comércio de maconha em outros países pode ser prejudicado, como é o caso do Uruguai – as lojas uruguaias de canabis estão sendo boicotadas pelas filiais locais de bancos americanos, e até mesmo pelo brasileiro Itaú.

De qualquer modo, é saudável o lançamento que uma série de TV sobre esse tema, com produção caprichada e pelo menos uma grande estrela de Hollywood no elenco. Foi criada para a Netflix (poderia estar na Amazon, Hulu ou outro serviço de streaming), indicando que o alvo é o público mais jovem, que já não assiste nem a TV aberta nem os canais a cabo tradicionais.

Uma segunda temporada já está em produção, e seria interessante ver mais opiniões sobre essa comédia.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.

Sergio Kulpas é escritor e jornalista, com 25 anos de atividade em redações. Passou pela Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Gazeta Mercantil, Diário do Comércio, Meio & Mensagem e vários sites especializados em comunicações e mídia.

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Literatura

O ano em que disse sim: 5 motivos para ler antes do ano novo

Por que não começamos essa nova década dizendo sim? Sim para tudo que nos aflige.

Êrica Blanc

Publicado

em

Talvez você saiba quem é Shonda Rhimes. Talvez, não. Para que não reste dúvidas, Shonda Rhimes é uma roteirista incrível, criadora de séries como How to get away with murder, Scandal e, a mais famosa, Grey’s Anatomy. Shonda também criou a Shondaland, uma produtora de televisão americana. Tem três filhas e o céu é o limite para ela. Mas, Shonda sofria com a auto sabotagem e negava absolutamente tudo que lhe fosse assustador. Tudo que lhe tirasse da zona de conforto. Tudo mesmo! Entrevistas, eventos, palestras, sessões de foto. Shonda tinha pavor só de pensar. Até que sua irmã mais velha soltou uma frase que doeu mais do que um soco no meio do rosto, “Você nunca diz sim para nada”. Era verdade? Óbvio! Por isso doeu tanto.

Era véspera de virada de ano, praticamente. O ano de 2014 estava batendo na porta e, como uma resolução de ano novo, Shonda prometeu que diria sim para tudo que lhe assustasse. Tudo. E, com essa promessa, ela embarcou em uma jornada de autoconhecimento, novas aventuras e, é claro, a criação de uma Shonda que lhe faz muito mais feliz. O ano em que disse sim é um registro dos “sims” mais importantes e que transformaram a vida dela em um ano. É um livro incrível, que pode transformar sua vida, tanto quanto transformou a dela. Tem resenha completa aqui, mas em 5 itens eu consigo te apresentar motivos básicos e necessários para você ler O ano em que disse sim agora mesmo.

Minorias, sintam-se representados!

Se você considerar que esse livro é escrito por uma mulher negra, provavelmente já sabe que ele vai falar bem diretamente com as minorias sociais. Em um bate-papo de igual para igual, mulheres, nerds, gordos, negros, LGBTQs podem se sentir devidamente representados. Por que Shonda é como nós, curando feridas que a pressão social causou. Shonda é um de nós, que alcançou o outro lado. O lado em que somos livres das pressões e da opinião alheia. E, melhor do que isso, nos ensina e nos pega pela mão, para chegamos lá, junto com ela.

Sim ao não, sim a conversas difíceis

Eu não sei você, mas saber que vou precisar passar por uma conversa difícil me afeta de um jeito absurdo. Esses dias mesmo, precisei encerrar contrato com uns clientes que senti que me destrataram e mesmo sabendo que eu estava no meu direito, minha ansiedade foi ao limite. Parecia que eu tinha levado um soco no estômago e meu corpo estava gelado, suando frio. Shonda não era diferente. Shonda dizia sim para todo mundo, só para não passar pelo processo difícil de dizer não para alguém. Mas, no O ano em que disse sim, ela aprende a dizer sim, ao não. E tudo se transforma. É bem legal acompanhar esse processo dela e entender como precisamos aplicar isso em nossa vida também, sem dor ou sofrimento. E, dependendo da reação da outra pessoa, a gente percebe que na verdade, a pessoa nem merecia o nosso esforço ou amizade.

Pare com a auto sabotagem agora mesmo

Esse é outro ponto que eu me identifico da cabeça aos pés. Por que, sendo bem sincera, a minha pior inimiga, é a minha própria cabeça. Crio monstros, antes de por projetos em prática e desisto sem tirá-los do papel. Ou seja, auto sabotagem é um demônio que preciso matar todos os dias. E percebo que isso não é um problema só meu. Muito provavelmente você aí, que está lendo isso, sabe que é assim e também precisa de um ano para dizer sim e sair dessa de uma vez. Acima de qualquer coisa O ano em que disse sim, começou por que Shonda se sabotava e sua irmã percebeu. Então, durante a leitura, a gente tem a chance de se reavaliar e começar a querer sair desse ciclo horroroso de auto sabotagem.

Sim, para a pessoa mais importante da sua vida: V-O-C-Ê

Você sofre por sempre colocar as outras pessoas em primeiro lugar? Você costuma ajudar os outros antes mesmo de se ajudar? Então, esse livro é para você. Nessa jornada de autoconhecimento da Shonda, a gente consegue entender melhor sobre como ter esse tipo de atitude é prejudicial para todos aqui. Shonda aprende a se pôr em primeiro lugar. Dizer sim a sua saúde. Dizer sim a cuidar do corpo, tanto quanto cuida da mente. A dizer não a coisas que lhe fariam mal. Dizer sim a novas possibilidades. Tudo isso transformou Shonda e lhe fez cada dia mais feliz. Lhe trouxe de volta a vida. Pois, no fundo, O ano em que disse sim é sobre amor. Amor mesmo. Amor por você.

O ano está virando mais uma vez, vamos dizer sim juntos?

Sejamos sinceros, 2019 está no fim. 2020 vem aí. Toda virada de ano pensamos em tudo o que queremos fazer diferente no ano em que está por vir. Tudo o que queremos mudar em nós, para sermos mais felizes. Por que não começamos essa nova década dizendo sim? Sim para tudo que nos aflige. Sim para nos colocarmos em primeiro lugar. Sim para termos responsabilidade emocional com nós mesmos. Sim para uma década mais feliz. Mais cheia de vida. Sim para sair do piloto automático e recuperar a alegria em cada um dos dias que estão por vir. Eu vou embarcar no MEU ano de dizer sim. Você vem comigo?

Conta nos comentários para o que você tem mais medo de dizer sim!

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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Quadrinhos

Mangás: gêneros e classificações

O termo que designa histórias em quadrinhos, está inserido no cotidiano japonês de tal forma que, 40% de todo papel impresso no Japão é destinado a esse estilo de leitura.

Jorge Massarollo

Publicado

em

Foto: Martijn Baudoin / Unsplash

Mangás, fenômeno cultural que faz parte de um imenso mercado de entretenimento que movimenta milhares de fãs. O termo que designa histórias em quadrinhos, está inserido no cotidiano japonês de tal forma que, 40% de todo papel impresso no Japão é destinado a esse estilo de leitura.

Adultos, jovens, crianças, são todos tomados pelo espírito das breves páginas semanais/mensais, feitas com papel barato e histórias excêntricas. Embora esse mercado pareça estar voltado ao público infantojuvenil, onde mais de ⅓ deste é destinado ao consumidor adulto, resultando nas mais variadas temáticas.

Essa diversidade permite a formação de grupos que compartilham do mesmo gosto e apreciam aquele, ou outro mangá, sendo possível a classificação de diferentes categorias de indivíduos, de acordo com o tipo de produto que consome. O que para as editoras facilita bastante quando falamos de público alvo.

Obviamente assim como as grande produções hollywoodianas e as HQ americanas, os mangás são classificados por gêneros, tais como fantasia, ficção, aventura, ação, comédia. Entretanto existe uma classificação referente ao público alvo, ou seja, a quem está destinado aquele produto e enredo específico , que se relaciona diretamente com características do consumidor.

Essa divisão é clara no mercado japonês, e recebem nomes e classificações específicas como veremos a seguir:

SHONEN
Termo japonês que designa a palavra menino.
Público Alvo: Meninos de 10 a 18 anos
Descrição: É a categoria mais famosa mundialmente, são histórias de ação e aventura, com temas fantasiosos, de ficção científica, magia, que podem envolver alienígenas, demônios, deuses, robôs, guerreiros, samurais, esportes, com uma boa dose de competição, lutas, heróis e humor. São aqueles tipos de mangás que quando adaptados para versão animada, lhe faz vibrar com batalhas ferozes e seus personagens Badass. Porradaria pura, embora tenha seus momentos românticos e filosóficos. Onde a amizade, busca pelos sonhos e persistência contra os desafios são marca registrada dos personagens principais do gênero.

SHOUJO
Termo japonês que designa a palavra menina.
Público Alvo: Meninas de 10 a 18 anos
Descrição: É uma categoria destinada a um público feminino, interessante notar que até a década de 1970 esses mangás eram feito por homens, somente a partir dos anos 70, que as mangakás femininas começam a ganhar espaço. Inclusive atualmente a maioria dos mangás desse gênero é escrito, desenhado e editado por mulheres. Hoje as mangakás são responsáveis pela criação de histórias em diversos gêneros de mangás, como exemplo da famosa Hiromu Arakawa com a obra Full Metal, considerado por muitos o melhor mangá/anime da história. Voltando ao Shoujo, estes são mangás de traços mais delicados, que abordam histórias de amor, onde existe normalmente um personagem masculino, foco da paixão das personagens principais, o romance pode ocorrer em cenários fantasiosos, mágicos ou colegiais. Histórias que embora possam ter alguma ação, o enfoque está nos sentimentos adolescentes e dramas familiares. A psicologia infantojuvenil e os desafios dessa fase da vida são o tema principal desse gênero.

SEINEN
Termo cujo significado é “Homem Adulto’’.
Público Alvo: Adulto
Descrição: Seria algo como uma versão adulta do gênero Shonen, com temas mais realistas e sombrios, com tramas complexas, que se aproximam de histórias em HQ americanas. Sangue, palavras impróprias, cenas explícitas, humor negro são algumas características desses mangás. Embora a fantasia e ficção se encontrem presentes, existe uma profundidade maior nos temas, com uma seriedade e forte críticas sociais.

JOSEI
Termo cujo significado é “Mulher Adulta’’
Público Alvo: Adulto
Descrição: A mesma ideia de SEINEN vale aqui, entretanto para o público feminino. São histórias que envolvem romances, paixões, intrigas, com caráter mais realista e adulto. O conteúdo sexual é fortemente explorado nesse gênero, não necessariamente explícito. Aqui o romance adolescente pueril é colocada de lado, e dá espaço a romances de forma mais direta e séria. Além de enredos fantasiosos, o estilo procura abordar o cotidiano das mulheres japonesas.

JIDAIGEKI
Público Alvo: Adolescente/Adulto
Descrição: Esse gênero explora dramas e feitos históricos, recriando batalhas e heroísmo. Os japoneses são um povo bastante nacionalista, contar sua história através das páginas de mangás parece ser um jeito interessante de atrair a atenção e curiosidade os jovens, bem como adultos que gostam do período feudal, onde os samurais caminhavam livremente, travando batalhas lendárias.

GEKIGÁ
Termo que significa “figuras dramáticas’’
Público Alvo: Adulto
Descrição: O termo foi criado por Yoshihiro Tatsumi, foi um movimento que surgiu na década de 50 em contraste aos gêneros de mangás voltados ao público infanto-juvenil. Seu objetivo era atingir público adulto com histórias que contém um caráter mais realista e dramático, explorando principalmente o cotidiano do povo Japonês. Se encaixa no naquilo que compreendemos como Drama no Ocidente. Seriam um tipo de quadrinhos alternativos no Japão.

KODOMO
A palavra significa criança em japonês.
Público Alvo: Infantil
Descrição: Com traços mais simples, esse gênero é focado em crianças, com temas voltados a educação, momentos interativos e instrutivos, onde a criança aprende e se diverte ao mesmo tempo. As tramas são simples, com menos ação e mais “comédia’’ com abordagem infantil. É difícil não fazer uma comparação ao nosso equivalente no Brasil, a turma da mônica.

HENTAI
É uma gíria japonesa que significa Pervertido.
Público Alvo: Adultos Jovens
Descrição: Provavelmente o gênero mais polêmico, são mangás destinados a conteúdos eróticos. Existem diversos tipos e sub gêneros, os assuntos vão desde sexo entre indivíduos à coisas bizarras como tentáculos. A história não é o forte desses mangás em si, eles dialogam com uma linguagem jovem, e o apelo sexual é forte e explícito. Lolicon,Shotacon, Yuri, Yaoi são nomes de categorias que pertencem a esse estilo. Existe até o Ecchi, que aborda conteúdo não pornagráfico porém com forte apelo ao erotismo. Mangás portanto com foco no tema sexual.

Como simplificado acima, existe uma gama de gêneros e estilos específicos para todos os públicos, que tornam a experiência de leitura única, particular e ao mesmo tempo compartilhada. No Brasil embora o público alvo não seja caracterizado com essa divisão, os consumidores possuem preferências e identificação com um ou mais desses gêneros, no qual eles mesmo se reconhecem. Em grandes eventos sobre o tema podemos perceber de forma nítida, pelos diferentes grupos que se formam e compartilham suas experiências essa divisão.  E embora aparente fronteiras, no fim somos todos amantes dessa arte.

Referências Bibliográficas

Winterstein, Claudia Pedro.’’Mangás e animes : sociabilidade entre cosplayers e otakus.’’. São Carlos : UFSCar, 2010.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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