YouTubers já são mais influentes que jornalistas no Brasil?

YouTubers já são mais influentes que jornalistas no Brasil. Esta afirmação, em formato do título acima (e desculpe o plágio bem intencionado), estampa um artigo do tipo opinião de André Azevedo da Fonseca, professor e pesquisador da Universidade Estadual de Londrina publicado no Huffpost (veja aqui).

Tive acesso ao link do artigo por meio da newsletter Youpix Ideas, uma espécie de digesto que reúne artigos publicados em diversos espaços. Digestos, ou digest, são clippings comentados e que tiveram um renascimento nas redes sociais e agora por email – o digesto, ou newsletter, “Meio” tem feito muito sucesso.

O professor André Azevedo da Fonseca, ele também um youtuber, tem 47.572 inscritos em seu “canal de Educação, Comunicação e Ciências Humanas”. A afirmação do título do seu artigo está baseada em um relatório do Google chamado “Creators Connect: o poder dos youtubers” (aqui) . Este estudo é assinado por profissionais do mercado que trabalham no Google: Sergio Melo, insights manager e Antonio Abibe, account manager.

O relatório utiliza dados de uma pesquisa do Google Consumer Survey (26 de julho de 2018, não especifica o universo abrangido nem quantas pessoas foram ouvidas). Em uma das afirmações do estudo do Google, empresa controladora do YouTube, é feita a seguinte pergunta: “Quem mais influencia sua opinião?”. As respostas foram as seguintes:

Família: 43,1%
Amigos: 34,8%
YouTubers: 20%
Jornalistas e notícias: 19,1%
Influenciadores do Instagram: 9,6%
Celebridades de TV: 6,8%

O estudo mostra que grande parte da força e influência dos youtubers ocorre porque são eles os responsáveis por construir a audiência diferentemente de um programa de TV “tradicional” em que “os artistas e os programas se aproveitam do espaço e do público garantido que já estão ligados na emissora” – é um público “mais passivo” informa o relatório.

O YouTube e outras redes sociais trouxeram de fato um novo capítulo ao universo de produção e exibição de conteúdo, algo impensado quando os primeiros repórteres surgiram na Roma antiga – como eram conhecidos os “bisbilhoteiros”, pessoas cultas que sabiam ler e percorriam a cidade compartilhando as decisões publicadas diariamente nas “Actas Diurnas” na porta do Senado com os cidadãos e voltavam … com outras informações. Das mais valiosas, como uma eventual invasão da cidade até as mais prosaicas como uma acidente de carro de boi ou a traição conjugal da mulher do padeiro.

Este novo capítulo da era digital anunciado pelo relatório do Google vem sendo ocupado não só por artistas, chefes de cozinha e comediantes talentosos, que atendem a demanda por entretenimento e assuntos menos profundos, como também por estudiosos, professores, filósofos e pensadores, que movimentam milhões de seguidores que acessam seus canais em busca de informações e dicas que ajudem a melhorar as suas vidas. São de fato grandes influenciadores e arrebanham seguidores.

EI-Estado Islâmico e a influência

A pesquisa do Google talvez tivesse de ser ampliada para além das categorias mencionadas e incluir professores, mestres, membros da comunidade e da empresa em que se trabalha, esportistas e mesmo religiosos no item “quem influencia sua opinião”. Membros do EI-Estado Islâmico cometem suicídios por influência de seus orientadores do mundo real, físico. As categorias que listei acima sempre foram influenciadores e sempre estiveram à frente da imprensa, que por sua vez, atendia a outros interesses políticos, sociais ou comerciais.

A imprensa profissional tem amargado nos últimos anos uma situação que ameaça a sustentabilidade do seu modelo de negócios com a crescente debandada dos anunciantes (para os modelos de mídia programática) e queda nas audiências. O resultado, em alguns casos, é a piora na qualidade do material produzido, noticiário claramente politizado, mimetismo (a pauta dos veículos de imprensa se repetem e são as mesmas em praticamente todos, como um círculo vicioso) e denuncismo ideológico. A imprensa claramente precisa se reinventar e descobrir novas maneiras de prestar bons serviços à comunidade e os exemplos de ótimo jornalismo encontram-se em vários espaços e veículos.

Pode-se argumentar que o mundo sempre foi assim – os leitores conservadores optavam em assinar veículos de imprensa conservadores, leitores de esquerda radical assinavam veículos de esquerda radical e assim por diante. A “maioria ignara”, o imbecil coletivo, ficava à míngua e era influenciada pelos grandes retóricos. Hoje, com ou sem imprensa, a história se repete e a sutileza assoma.

As próprias plataformas, o Google é uma delas, poderiam contribuir para melhorar o cenário de produção jornalística como aliás já tem feito ao financiar iniciativas de produção de mais jornalismo comunitário. Muito melhor do que quando surgiu nos anos 2.000 e era chamada de “parasita da informação” pelo fundador da News Corporation, Rupert Murdoch, com quem estive uma vez em S. Paulo. “Parasita da informação” porque não produzia sequer uma vírgula de conteúdo e indexava as notícias produzidas pelos veículos sem remunera-las pelo seu trabalho. Era só tecnologia, só plataforma.

O relatório Creators Connect traz informações interessantes em uma linha do tempo do YouTube; diz que atualmente o público é muito mais conectado e engajado e explica a “fórmula do sucesso” dos youtubers – da admiração, à proximidade e identificação. Termina mostrando o Creators connect, “uma solução do Google que amplia a atuação das marcas no YouTube, usando a relação única dos Creators com as suas audiências para transmitir a mensagem da marca de forma mais íntima. Para isso, o time do Google conduz um trabalho conjunto com as Agências dos Anunciantes, os responsáveis pelas marcas e os parceiros produtores de conteúdo para entregar todo o planejamento da campanha. Em vez de cachê, a marca investe em mídia nos canais do YouTube. Assim, o Creator ganha mais e pode criar conteúdo com autenticidade, o fator que o público mais valoriza”.

Recomendo que mais pesquisadores e estudiosos de comunicação se aprofundem em questões como credibilidade e profundidade da influência em outros estudos realizadas não só pelo Google e sua afiliada, o YouTube, como também por outros institutos. Credibilidade pode não ser tudo mas é um bom princípio.

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