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Comportamento 6 MIN DE LEITURA

O século 21 começou em 1983

Sergio Kulpas

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Para quem tem menos de 30 anos hoje, a década de 1980 é como a década de 1950 que aparece no filme “De Volta para o Futuro”. Marty McFly volta trinta anos no tempo para encontrar um ambiente que o filme retrata com uma era mais ingênua e honesta, quando seus próprios pais eram adolescentes e as paredes da escola não estavam cobertas por dezenas de camadas de pichações.

Para quem nasceu em meados da década de 80, ou era muito criança na época, a impressão chega fortemente filtrada por meio da caudalosa produção pop do período: músicas, filmes, séries de TV e desenhos animados que se tornaram cult e que têm milhões de fãs ao redor do mundo.

Para quem tem mais de 40 anos, a percepção é sutilmente diferente. É a nostalgia da juventude, de um tempo em que o ar não estava saturado de sinais em várias faixas do espectro eletromagnético e, acima de tudo, não havia a rede invisível de comunicações instantâneas que hoje envolve o mundo inteiro. Há agora centenas de camadas de pichações nas paredes da escola, e boa parte delas não é de tinta spray, mas de bytes.

Muito além da cornucópia pop, a primeira metade da década de 1980 marca uma transição muitíssimo profunda: é o limiar entre a era das tecnologias analógicas que nasceram em meados do século 19, e o início da era digital em escala planetária. As formas analógicas de mídia deram um salto para se tornarem puramente digitais a partir dos anos 80.

As tecnologias que permitem a comunicação cultural humana por meios eletrônicos são um marco fundamental da civilização, tão importantes quanto o domínio do fogo, a invenção da roda e da agricultura, o surgimento da escrita ou a mecanização da palavra pela invenção de Gutenberg.

Os sistemas digitais de comunicação tiveram um longo desenvolvimento, desde a 2ª Guerra Mundial. As máquinas imensas e rudimentares foram se refinando ao longo das décadas seguintes, e sistemas digitais começaram a ser adotados por grandes empresas já nos anos 1960. Eram aparelhos muito caros, longe do bolso do consumidor médio.

Em outubro de 1982, chegou às lojas o primeiro Compact Disc da história, o álbum “52nd Street” do cantor Billy Joel. O CD foi um lançamento ousado, uma parceria entre a Philips e a Sony, que também lançou no Japão o primeiro CD player, o Sony CDP-101.

Em 1983, a rede de comunicação eletrônica das Forças Armadas dos EUA, a ARPANet, adotou o protocolo TCP/IP e plantou a semente que se tornaria a internet que conhecemos. No mesmo ano, o Domain Name System (DNS) estabeleceu o sistema de sufixos .edu, .gov, .com, .org, etc, que conhecemos até hoje, criando nomes reais para os sites da época, em vez de números como 123.456.789.10.

No começo da década, os serviços privados de BBS (Bulletin Board System) haviam explodido nos Estados Unidos, com marcas que se tornariam ícones: GEnie, CompuServe, America Online. Eram serviços fechados, que não se comunicavam entre si, mas conquistaram milhões de assinantes em poucos anos. A rede America Online (AOL) se tornou tão poderosa que chegou a comprar o tradicional grupo Time Warner no início dos anos 1990.

É um fenômeno cíclico: a cultura vive episódios de nostalgia por períodos do passado. Como convencionamos dividir o tempo em décadas, fica mais fácil reunir eventos e tendências por década.

O ano de 1983 sonhava com o século 21. O século 21 sonha com 1983, e com a década de 80 de uma forma geral. O século 21 é a realização (em parte) das fantasias dos anos 80, a depuração de seus medos e a correção digital de cada fragmento analógico do período.

O século 20 não se definiu pelo calendário, como o período que vai de 1901 a 2001. Na verdade, o século 20 começou em 28 de junho de 1914, com o assassinato do herdeiro do trono austro-húngaro, o arquiduque Francisco Fernando da Áustria, em Sarajevo, por Gavrilo Princip, um estudante sérvio-bósnio. A morte do arquiduque foi o estopim para a 1ª Guerra Mundial. E terminou em 11 de setembro de 2001, com o atentado terrorista ao World Trade Center em Nova York. Um século muito compacto, durou apenas 87 anos.

Se considerarmos o ano de 1983 como o ponto de partida do século 21, se torna mais interessante analisar uma série de fenômenos culturais que convergem e emanam desse período.

Algumas das atrações mais populares atualmente são fortemente influenciadas pela década de 80. As séries americanas The Americans e The Assets, e a alemã Deutschland 83 são dramas de espionagem que se passam no período mais conturbado da Guerra Fria entre EUA e URSS. Precisamente em 1983, uma escalada armamentista das superpotências e a movimentação política na Europa quase levaram o mundo à 3ª Guerra Mundial. São séries de grande sucesso, e chamam a atenção por não serem calcadas nos filmes e séries sobre a Guerra Fria produzidos naquela época, quando a profunda divisão ideológica impedia a humanização das personagens.

A popularíssima Stranger Things também é ambientada em 1983. A série de ficção-científica foi criada pelos diretores gêmeos Matt Duffer e Ross Duffer, nascidos em 1984. A produção se tornou um hit por atingir a sensibilidade de várias gerações: os próprios “millenials”, nascidos nos anos, crianças e também pessoas mais velhas, que adoraram as referências aos grandes sucessos da época, como Os Goonies, E.T. – O ExtraterresteConta Comigo, O Clube dos Cinco, Viagem ao Mundo dos Sonhos, e vários outros.

A ótima série Halt and Catch Fire conta a história de um grupo de amigos estavam entre os pioneiros da transição do PC estático e desconectado para a máquina ligada em rede que conhecemos hoje. O início da história é justamente em 1983, quando os personagens se encontram em uma empresa em Dallas, no Texas, e começam a criar máquinas portáteis com acesso às redes privadas online (antes da internet).

Não podemos esquecer da série Narcos, que registrou um dos momentos mais carregados de tensão na América do Sul dos anos 1980, com a ascensão do drug-lord Pablo Escobar. O Cartel de Medelín criou um ponto de altíssima temperatura na região e fez surgir a infame “guerra às drogas” financiada pelos EUA.

Há ainda o espetacular média-metragem Kung Fury, criado em 2015 pelo diretor e ator sueco David Sandberg, nascido em 1981. A comédia de ação e artes marciais consegue a proeza de concentrar em meia hora um catálogo completo de referências da cultura pop dos anos 1980, incluindo até uma participação especial do ator  David Hasselhoff (Super-Máquina e S.O.S. Malibu). A produção foi financiada via Kickstarter, e atingiu US$ 630 mil, bem acima da meta de US$ 200 mil.

Na música, é notável a reemergência dos timbres e instrumentos eletrônicos característicos dos anos 80. A synth-music que permeou boa parte da década (em hits que tocaram exaustivamente nas rádios, na trilha sonora de muitos filmes) reaparece no trabalho de grupos elogiados como Wombat, Daft Punk, Chromeo, Foster The People, The Killers, etc. O especialista em comportamento Jeff Lee escreveu uma série de artigos sobre como a estética dos anos 1980 “invadiu” a música indie atual.

São pessoas jovens que estão recuperando essa “estética” dos anos 1980 – mais do que mera estética, tratam-se de interpretações, de uma visão estilizada sobre o que foi essa década que os atuais criadores não viveram. Como as plateias que assistiram “De Volta para o Futuro” em 1985 não viveram os anos 1950 mostrados no filme.

E essa tendência não dá sinal algum de exaustão. O século 21 continuar “minerando” a década de 1980 por muitos anos ainda. Basta ver as listas de filmes, séries de TV e músicas produzidas no período para enxergar as possibilidades artísticas (e comerciais) desse filão…

Foto: Lorenzo Herrera / Unsplash

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.

Sergio Kulpas é escritor e jornalista, com 25 anos de atividade em redações. Passou pela Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Gazeta Mercantil, Diário do Comércio, Meio & Mensagem e vários sites especializados em comunicações e mídia.

Comportamento 2 MIN DE LEITURA

Por que temos tanto medo de errar se dizem que errar é humano?

Como trabalhar esse sentimento que nos paralisa e impede de alcançarmos nossos objetivos

Publicado

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Foto: Andre Hunter / Unsplash

O medo de errar é um sentimento que aprendemos a carregar desde a nossa infância. Tudo começa quando fazemos algo de errado – ou não da maneira 100% correta – quando crianças e muitas vezes recebemos olhares de desapontamento ou desaprovação. Depois vamos para a escola onde somos avaliados por meio de provas e atividades nas quais os erros são vistos como fracasso e não colocados como um princípio para aprendizagem. De forma bem grosseira, o lema no colégio geralmente era ‘demonstre ser inteligente e faça de tudo para não parecer burro’.

Quantas vezes deixamos de perguntar uma dúvida para os professores com medo de sermos julgados pelos colegas? Ou mesmo hoje na fase adulta, durante as reuniões, quantas vezes deixamos de expor opiniões por achar que podem não ser relevantes?

O medo é um paralisador de conquistas e gera uma ansiedade enorme. Tememos os erros e procuramos evitá-los ao máximo mesmo que custe a nossa felicidade. Percebem? Muitas vezes escolhemos ficar dentro da zona de conforto, mesmo que signifique abandonar nossos sonhos ou que a situação esteja ruim – pois, de certa forma, já estamos familiarizados e acostumados com a situação. Então deixamos de arriscar, de ver o que poderíamos ganhar, conquistar, viver, pela possibilidade de fracasso. Possibilidade, o que significa que é um medo criado e não real.

Enfrentando os nossos medos

Particularmente, eu não gostava de expor minhas ideias em público, por medo de ser julgada, de não ser “boa o bastante”, mesmo que me custasse ter visibilidade, oportunidades, e hoje vejo minhas publicações ou participações em palestras e treinamentos, por exemplo, como uma conquista enorme. Percebo que muitas vezes nem tudo sai como planejado, mas essa é a graça. Estou aprendendo a deixar-me ser vulnerável e assim percebi que só com a prática conseguimos mudar algumas crenças que temos sobre erros e acertos.

Pense: Qual é o significado que a palavra ERRO tinha para você? E agora?

Abaixo listei algumas sugestões que podem ajudar você a lidar com situações críticas:

• Perceba de onde vem o medo. É uma questão de insegurança? Observar isso pode ajudar você a analisar o que falta / deve ser trabalhado para seguir em frente.
• Como estão seus pensamentos sobre a situação? Muitas vezes surgem os medos criados por imaginarmos tudo o que pode dar errado ao invés do contrário.
• Pergunte-se: Caso tudo dê errado, o que pode acontecer?
• O que você ganha enfrentando/trabalhando esse medo? O que você perde se não enfrentar?
• Trabalhe seu modelo mental a respeito de erros e acertos. Mude a forma como você enxerga seus erros.
• Se errar, seja gentil com você e entenda que faz parte do processo.

Novamente aqui entra a resiliência, que é a nossa capacidade de lidar com os nossos problemas, de superar obstáculos mesmo diante de situações adversas e aprender com isso. Falo sobre o tema aqui.

Cada tentativa falha, cada erro, cada luta nos mostra algo sobre nós mesmos e aprendemos com isso. Nossos erros, principalmente, são convites para reflexão. E mesmo as piores falhas são evidências de que tentamos, são provas da nossa bravura por nos deixarmos ser vulneráveis.

Lembre-se de um momento que você superou os seus medos. O que você aprendeu com ele?

Quero saber a resposta!
analucia@trevo360.com.br | @trevo360

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Comportamento 2 MIN DE LEITURA

A polêmica dos corpos reais

Pensemos em tudo o que faríamos quando desprovidos de pressões estéticas.

Paula Akkari

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Foto: Lethu Zimu / Unsplash

No fim de dezembro, os feeds de notícias ficaram saturados pelos compartilhamentos de uma postagem de marca de cosméticos contendo uma mulher negra de biquíni com celulites à mostra.

Apesar de a imagem estar longe de ser original, é relativa novidade que a indústria da beleza se preocupe em divulgar imagens de corpos minimamente coerentes com a realidade. Eis a dinamicidade capitalista: o mercado é adaptável às demandas. Muitos nomes souberam se apropriar do desejo de desconstrução de ideais de aparência vigentes, posição em destaque desde a primavera feminista. Adicionalmente, muitas dessas empresas ganharam visibilidade devido aos elogios segmentos liberais dos movimentos.

Tais concepções, a serviço do capital ou não, refletem a incongruência do real com o (nem tão) antigo modelo estético, inevitavelmente fadado à falência. O que é feito para atrair um nicho consumidor é um dos sintomas da insustentabilidade dos padrões de ser.

Mas, haveria vitórias no microcosmo ou novidades transformadoras de épocas? A representatividade mostra-se insuficiente,  as ficções midiáticas alienantes compõem os processos de subjetivação de todos, sendo especialmente tóxicas para mulheres, pessoas negras, trans, gordas e/ou pobres. Quanto aos costumes relacionados à vaidade, são naturalizadas as mutilações, cirurgias e despesas demasiadas. O processo de gostar da própria imagem não é consequência delas, mas por diversas vias, um alvo cruelmente bombardeado.

Assim, cada episódio empoderador é passível de comemoração. Obviedades, infelizmente não redundantes, devem ser ressaltadas: corpos são de todos os tamanhos e cores; apresentam assimetria, odores, secreções, texturas, gorduras, estrias, celulites, espinhas, manchas, cicatrizes, pelos…

As constituições físicas, em suas autenticidades, são as materialidades no mundo, o intermédio de cada ser com o exterior. A elas devemos todas as experiências sensoriais, cada alimento saboreado, música ouvida, paisagem vista, orgasmo atingido.

Cuidar do corpo é um dos caminhos para a merecida paz com ele. Essa prática, diferente do modista “autocuidado” simpático ao status quo, consiste em promoção de saúde. Exemplos de ações caras são, conforme a viabilidade de cada rotina, dormir uma quantidade de horas diárias próximas a sete, manter a alimentação saudável (incluindo a ingestão do que gosta), entrar em contato com o sol com proteção e praticar atividades físicas – o hábito aumenta a disposição e a imunidade, diminui o estresse, melhora a postura e fortalece as articulações.

Os ambientes virtuais e físicos, ademais, são variáveis relevantes aos encaminhamentos. Nem toda toxidade é evitável, entretanto, vale deletar das redes sociais os perfis que obstaculizam desenvolvimentos e ignorar/rebater falas contraproducentes. Outra benevolência é a evitação ativa de comparações com terceiros – elas nem ao menos fazem sentido, afinal, são entre diferentes sujeitos.

Por fim, vale a reflexão a respeito do tempo e do esforço em encaixar-se em padrões já desmascarados, ou estar bem apesar deles. Como seria mais bela, criativa e simples a vida livre da ditadura em que estamos inseridos. Pensemos em tudo o que faríamos quando desprovidos de pressões estéticas. Pois façamos desde agora.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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