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Disrupção na prática: o fim do jornal Comércio do Jahu

No domingo passado, uma cidade no interior do estado de São Paulo passou pelo efeito disruptivo na prática

Rafael Sartori

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Foto: Bruno Creste / Jornal 140

Na indústria jornalística, a disrupção já acontece há certa de duas décadas. No domingo passado, uma cidade no interior do estado de São Paulo passou pelo efeito disruptivo na prática. A cidade de Jaú, localizada a 296 km da capital do estado, com população estimada de 148 mil habitantes (IBGE 2018), recebeu a última edição do único meio de comunicação impresso de toda a região, o centenário jornal Comércio do Jahu.

Com 110 anos, o Comércio do Jahu é o 15° jornal da história do Brasil e nasceu quando a cidade de Jaú ainda tinha o “h” no nome. O Comércio”, como era carinhosamente chamado, contou a história política do país desde a República Velha, Revolução Constitucionalista de 1932, ditadura militar, redemocratização e dias atuais.

O Comércio também retratou todos os planos econômicos, do Primeiro Real (até 1942) ao Real (a partir de 1994). Toda a dinâmica econômica da região, desde o ciclo áureo do café, industria calçadista, monocultura da cana e setor de serviços estiveram nas páginas do jornal.

Mais do que sua grandiosa história nacional, o Comércio era o único meio de comunicação impresso a cobrir o cotidiano diário da cidade. As histórias locais dos moradores, política local, assistência social, vagas de emprego e os classificados. O Comércio também cobria os shows, eventos, variedades e tudo o que ocorria na cidade. No esporte, as jornadas do XV de Jaú (time de futebol da cidade) e dos novos talentos.

Com a última edição do centenário jornal nas bancas, encontramos o fenômeno da disrupção em prática. Para começar, precisamos entender o motivo do fechamento. Para isso, entrevistamos a gerente comercial do jornal, Andreza Perez. Veja as respostas abaixo.

Qual a sua relação com o jornal?

Eu mudei para Jaú no ano 2000 e uma semana depois comecei a trabalhar no jornal. Passei por quase todos os departamentos, com exceção da redação. São 19 anos de trabalho dedicados ao jornal e a gráfica Comércio do Jahu.

Qual era a tiragem?

O jornal tinha uma tiragem de 4 mil exemplares por dia. Uma média de 8 a 10 leitores por exemplar, aproximadamente 50 mil leitores por dia.

E o custo?

O custo para impressão de 4 mil exemplares em versão standard era de 2 mil reais por dia. Papel, chapa e tinta, o Brasil é o maior produtor de celulose do mundo e nós importávamos insumos do Canadá, China e Estados Unidos para poder fazer o jornal. O custo da mídia impressa é infinitamente superior a qualquer outro meio de comunicação.

O jornal não acompanhou a tecnologia?

A discrepância de valores e velocidade entre a mídia impressa e digital é muito grande. Fora isso, outros veículos de comunicação da cidade, tanto radiofônico como digital, utilizavam o jornal como fonte de matérias para eles. O crédito atribuído na republicação ou compartilhamento não retorna em forma monetária.

O que deu errado?

Muitos empresários e cidadãos jauenses lamentam mas também nunca foram parceiros para anunciar, assinar ou comprar o jornal nas bancas. Pelo fato de sermos a única mídia impressa diária de Jaú e região, acreditavam que os valores cobrados muitas vezes eram abusivos mas na verdade não tinham conhecimento dos altos custos para sua produção.

Qual foi a reação da cidade com o fechamento?

A cidade está em luto e muito preocupada por estar sem voz. O Comércio era a credibilidade imparcial e investigativa de um jornal que é impresso, um documento histórico que não se apaga. Eu recebi milhares de mensagens de toda a cidade e independente do fechamento, eu saio de cabeça erguida, com a certeza de dever cumprido.

Última edição do jornal Comércio do Jahu em 05/05/2019 (Foto: Ricardo Recchia/Comércio do Jahu)

Para compreender o quanto afetou outros profissionais de comunicação, conversamos com dois deles que residem na cidade, para entender as consequências do fechamento.

“A TV Câmara Jahu produz diversos documentários e conteúdos históricos, sendo que o centenário Comércio do Jahu sempre foi uma das nossas principais fontes de pesquisa. Além das matérias de conteúdo factual, o Comércio trazia uma ampla bagagem intelectual, crítica e histórica em suas páginas”. Bruna Mano, jornalista da TV Câmara Jahu

”Saber do encerramento das atividades do jornal “O Comércio do Jahu”, não resultou apenas na surpresa e ao mesmo tempo indignação com o fato, mas também com a sensação de fracasso. Afinal de contas, nós como personagens da comunicação, vivemos tempos difíceis que nos causa uma inércia tão grande frente aos novos tempos.” Beto Cassolo, radialista da Rádio Piratininga Jaú

Após o feedback dos profissionais de comunicação, procuramos assinantes e leitores para comentar a mudança de rotina na comunicação dos moradores da cidade.

“Uma grande parcela dos idosos que residem em Jaú, tinham como hábito pegar o jornal na garagem de manhã. Esses idosos não tem conhecimento e prática para utilizar um smartphone no dia a dia, muito menos para pesquisar e distinguir a verdade da mentira na internet. A geração de idosos é mais prejudicada”. Salvador Almeida, Funcionário Público

“O que está escrito permanece, mas viramos essa página. Na era da informação, qualquer texto que ultrapasse 240 caracteres são muito para prender a atenção. O jornal, a rotina, a fotografia, as impressões se foram, mas a história continua passando diante dos nossos olhos como as águas do rio.” Gustavo Messenberg, Educador

Para finalizar, fomos recebidos pelo proprietário de uma premiada agência da cidade, que comentou a perda como resultado de muitas mudanças ocorridas na região desde o fim da década de 90. Para o especialista, o encerramento do jornal abre uma lacuna sem precedentes na cidade.

“Esse mundo da comunicação imediata é muito vorás. O Comércio tinha que, lá atrás, estar se moldando às novas tecnologias. Mas será que para Jaú seria o suficiente? Não sei dizer ao certo. Seus anúncios perderam força, seu produto ficou obsoleto. Seu valor decaiu. Isso é fatal para quem não se encontra. O Comércio se perdeu. Jaú perde! A comunicação perde.” Cesar Mantovanelli. Publicitário, Sócio da Agência Only!

Como podemos observar, o ponto crítico da disrupção é exatamente o que a cidade de Jaú vive hoje. As consequências de perder o único meio de comunicação impresso da cidade inclui: comunicação de órgãos oficiais, campanhas de saúde, vacinação, segurança, meio ambiente, educação e principalmente, do princípio democrático.

De acordo com Paulo Francisco Borges Junior, assessor da Secretaria de Justiça e Defesa da Cidadania, a cidade de Jaú tem aproximadamente 19.000 idosos acima de 60 anos. O último balanço do IBGE, apresenta um índice de desenvolvimento humano de 0,778 (cresceu 50% nos últimos 20 anos). Uma parte da solução da disrupção é a inclusão digital para todas as gerações, a outra é criar um um novo meio de comunicação digital com imparcialidade e credibilidade.

Foto: Bruno Creste, leitor formado no Comércio do Jahu e colaborador do Jornal 140.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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Jornal 140: um ano de laboratório do caos

O Jornal 140 é um coletivo de informação e reflexão com notícias e comunicação em tempos de cólera

Ricardo Braga

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Arte: Gabriela Yaroslavsky / 140 Design

Se eu soubesse que produzir um jornal diário desse tanto trabalho … Há um ano, recebi a ligação do Rafael Sartori que me desafiou: vocês produzem muitos (e bons, segundo ele) conteúdos originais para os sites da Art Presse e da 140 Online, duas de nossas agências de comunicação e marketing digital. Por que não pensar em criar um veículo próprio?

Após 20 anos de experiência em tecnologia e operações de negócios no Brasil e exterior, Rafael se especializou em hacking de crescimento no mundo digital, ao abrir a sua ZionLab. Fomos apresentados por um profissional em comum, um dos maiores especialistas em rede no Brasil, Arlindo Marcon da Ocean Consultoria. Já havíamos produzido alguns sites e trabalhos em conjunto, principalmente em nossas propriedades digitais, com grande êxito.

A ideia de produzir um jornal era atraente, mesmo não contando com recursos significativos de investimentos e principalmente o mais valioso e escasso deles – o tempo. Além disso, qual seria o nosso diferencial, quando já havia tantos veículos bons e especializados como o Hypeness, B9, Projeto Draft, UpDate or Die (sem citar Vice, Huffington Post…porque aí seria covardia, né?)?

Até que um dia eu me questionei sobre os impactos que a chegada de uma nova mentalidade de ver e fazer as coisas, combinada com a tecnologia, estava causando em todos os modelos de negócio. Seguir nesta linha editorial fazia sentido para o Jornal 140. Em um primeiro momento, ficou claro a todos que esta combinação perversa (já explico) é destruidora de valores. Vários são os exemplos que ilustram essa questão:

Bancos: alguém duvida que a chegada das Fintechs obrigarão os bancos a se transformarem (veja a quantidade de agências físicas que estão sendo fechadas). Isto não é destruição de um valor que nos “acostumamos” a aceitar?

Automóveis: a chegada de apps como Uber, 99 táxis e Cabify mudaram a maneira com que nos deslocamos nas cidades. Quando houver carros autônomos, sem motoristas (outra destruição de valores e de empregos), haverá a necessidade de cada um ter um automóvel? Aliás, hoje já não existe mais e a pergunta que se faz é: como ficarão as montadoras? Elas serão utilizadas apenas pelas empresas como Uber?

E-commerce: as lojas online estão substituindo as lojas físicas. As pessoas querem conveniência, facilidade, flexibilidade e preço. Mais uma destruição de valores: saia às ruas, em qualquer grande centro do mundo e veja um cenário desolador de lojas fechadas.

Incorporadoras: as pessoas não querem mais viver em grandes casas e apartamentos, querem espaços menores, com instalações como academia, piscina, lavanderia e cozinhas compartilhadas. Vão dormir em quartos grandes e morar em prédios com estas características – veja o caso de empresas como a Vitacon, que mudou a maneira com que as incorporadoras sempre agiram.

Por sorte, a combinação dos fatores nova mentalidade/tecnologia está criando novos valores, bem como novos empregos e um mundo mais conveniente. Foi com este propósito que criamos o Jornal 140. Tentar penetrar neste mundo polarizado e colérico, entender como comunicar e entender modelos de negócios e mudança de comportamento.

Sinceramente não sabia que daria tanto trabalho. Ainda que o tenhamos lançado como um laboratório de experiência de produção de conteúdo, propomos o desafio de produzir um conteúdo original por dia, chova ou faça sol. Desde então, o nosso coletivo tracionou.

Momentos marcantes

A chegada da Êrica Blanc trouxe novos ares na área de entretenimento. A editoria impulsionada por ela é hoje a maior do Jornal 140 e tem nos propiciado bons momentos e aprendizados. O outro foi o nosso debut no universo dos Podcasts. A presença saborosa da Guta Chaves nos incentivou a combinar digital com gastronomia – assim criamos a Panela Digital, uma seção de áudios e conteúdos com este foco, sempre em uma perspectiva de entender as mudanças de comportamento do estômago e das mentes deste mundo.

O Diabo do clique

Foram vários os momentos que fomos tentados pela sedução do clique. Assuntos ligados à política, por exemplo, grandes iscas para atração de trafego e engajamento (leia-se também haters e polarização). Não nos arredamos um milímetro sequer de nosso propósito de não interferir ou palpitar em relação a este ou aquele político. Nos restringimos apenas em analisar os números digitais dos envolvidos, como do ex-presidente Lula e do atual Jair Bolsonaro. Acertamos, erramos? (aliás aproveito para agradecer a parceria com a consultoria BITES, cujo sócio Manoel Fernandes, um dos maiores especialistas no caos digital, sempre nos apóia).

Campeões de Audiência

As cinco matérias mais lidas até hoje foram, pela ordem, “O fenômeno Hikkikomori, os eremitas do século 21”, de Sergio Kulpas, “Um remédio chamado Cannabis”, de minha autoria, “Área 51: você está pronto para a invasão Naruto?”, de Rafael Sartori, “Investigação criminal: 7 séries na Netflix para acompanhar”, de Êrica Blanc e “O lado oculto da Lua”, de Rafael Sartori.

PS.: Agradecimentos e parabéns pra você!

Vão aqui os nossos agradecimentos ao membros deste coletivo raivoso, que se propõe a entender e discutir o mundo em transformação, com humildade e deferência aos nossos inteligentes leitores:

Ana Lu Tanaka (Comportamento); Bruno Creste (Produtor Audiovisual); Caio Bogos (Estilo de Vida); Diego Catto (Fotógrafo); Êrica Blanc (Entretenimento); Euriale Voidela (Customer Experience); Gabriela Yaroslavsky, (Design); Guta Chaves (Gastronomia); Helenilson Pontes (Lei & Ordem); Isabel Franchon (Coach); Janaína Corteze (Educação); Jéssica Patrine (Entretenimento); João Perez (Negócios); Jorge Massarollo (Entretenimento); Julie Damame (Universo Feminino) ; Lai Dantas (Marketing); Lucas Gonçalves (Marketing); Marcos Bidart (Negócios); Michel Passos (Finanças); Paula Akkari (Saúde & Estilo de Vida); Paulo Gustavo Pereira (Entretenimento); Rafael Delgado (Saúde & Estilo de Vida); Raissa Fernanda (Estilo de Vida); Rodrigo Sassi (Tecnologia); Sergio Kulpas (Estilo de Vida); Tatiana Perez (Negócios) e Vanessa Souza (Lei & ordem).

Aliás, aproveito para dar aqui as boas-vindas aos novos “coletivinistas” Clara Ribeiro (Entretenimento), Helena Trevisan (Cultura), Michelle Rocha (Moda),  Tennyson Rezende (Negócios) e Roberto Cecato, um dos maiores nomes da fotografia brasileira.

Agradeço também outras pessoas que já estiveram por aqui e enviaram textos inteligentes e provocativos como Aline Moreno, Bruna Maldonado, Claudio Cardoso, Danielle Feltrin, Felipe Fusso Moro, Jaime Troiano, Marco Darvas, Mariana Rodrigues, Oswaldo Pepe (meu sócio na Art Presse/140 Online, que sempre me apóia), Nira Worcman (pelas dicas sempre inteligentes), Rodrigo Lanari, Thais Santana, Vanessa Rocha (uma revisora feroz de textos e ideias) e tantos outros. Além de Riccardo Rossi e Marina Brito, da Pop Filmes, autores de alguns dos vídeos aqui apresentados.

E, claro, termino sem palavras para definir a energia e dedicação do Rafael Sartori, uma das pessoas mais apaixonadas pela comunicação que já conheci, mesmo nos momentos pessoais mais difíceis e desafiadores, o verdadeiro pilar do Jornal 140, que certamente não existiria sem a sua permanente busca pela inovação.

Para finalizar, obrigado a você que nos acompanha há muito tempo e que participa muito ativamente das nossas provocações aqui e nas redes sociais.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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A televisão chega aos 69 anos no Brasil –lembrando as pioneiras Tupi e MTV Brasil

Uma reflexão sobre a trajetória e encerramento dos canais TV Tupi e MTV Brasil no momento que a TV brasileira completa 69 anos de existência

Sergio Kulpas

Publicado

em

Foto: Wikipedia

Resgato aqui um texto que escrevi em 2013, quando a MTV Brasil saiu do ar. Lamentava o fim do único canal realmente “jovem” na TV aberta brasileira. Curiosamente, a MTV brasileira funcionava no mesmo prédio que a pioneira TV Tupi criada por Assis Chateubriand.

Muitas águas debaixo da ponte, e hoje o Grupo Abril (que criou o canal) já foi para o vinagre. E a MTV que existe hoje na TV paga é um lixão de reality shows de boys e minas sarados em casas de praia…

Segue o texto de seis anos atrás:

A TV brasileira, sempre começando e sempre acabando — O fim da MTV

Há exatos 63 anos, direto do bairro Sumaré em São Paulo, começou a história da televisão brasileira. Na noite de 18 de setembro de 1950, diante de uma câmera que pesava quase meia tonelada e sob as fortíssimas luzes de vários refletores, a atriz Iara Lins se aproximou do microfone e recitou com voz trêmula: “Senhoras e senhores telespectadores, boa noite. A PRF 3 TV – Emissora Associada de São Paulo orgulhosamente apresenta neste momento o primeiro programa de televisão da América Latina.”

Assis Chateaubriand, o maior magnata da mídia nacional do século 20, o Cidadão Kane tupiniquim, tinha realizado seu sonho — o empresário viu a televisão pela primeira vez em 1944, em uma viagem aos Estados Unidos. Para espanto das gentes de lá e de cá, Chatô decidiu trazer a novidade ao Brasil. No momento daquela primeira transmissão, milhares de pessoas se espremiam diante dos 22 aparelhos espalhados pelo centro de São Paulo e no saguão da sede dos Diários Associados, na Rua 7 de Abril. Como estava na última hora, Chateaubriand não conseguiu importar legalmente aparelhos de televisão suficientes, e mandou contrabandear 200 televisores. Essas TVs foram possivelmente presenteadas às figuras e famílias estratégicas da plutocracia paulistana da época, uma jogada de Chatô para atrair patrocinadores para o novo meio de comunicação.

A TV Tupi reinou soberana por muitos anos, como figura de proa de um império de mídia que parecia invencível. Foi a primeira rede nacional de televisão, mesmo antes do videoteipe, dos satélites, da transmissão por micro-ondas — cada capital tinha sua própria equipe transmitindo ao vivo os mesmos programas da matriz paulistana. A Tupi teve origens diferentes em relação à TV americana — a TV dos EUA herdou a tradição da indústria cinematográfica, já muito madura, e os próprios estúdios de cinema começaram a produzir para a TV. No Brasil, a televisão ganhou seu público através de uma incomum mestiçagem entre o rádio imensamente popular e o teatro, que também tinha grande público.

Mas o golpe militar nos anos 1960 e seus desdobramentos nos 70 mudaram o rumo do gigante. Chateaubriand morreu em abril de 1968, e os Diários Associados foram se desintegrando até o final dos anos 70. Entre 1978 e 1980, a Rede Tupi foi sofrendo abalos cada vez mais intensos: incêndios, processos, produções interrompidas ou canceladas, e greves por falta de pagamento foram corroendo a presença da emissora no mercado — no mesmo momento em que a Globo chegava ao domínio total do setor.

A Tupi agonizou em paralelo com o fim da ditadura, paralisada pelos conchavos políticos e pela burocracia do governo Figueiredo. Estrangulada pela situação econômica da época, no primeiro semestre de 1980, a Tupi recebeu os golpes finais — insolvente, a emissora fechou o departamento de teledramaturgia e demitiu os 250 funcionários, interrompendo novelas que estavam no ar. Em 16 julho, meses antes da Tupi completar 30 anos, o Governo Federal cassou a maioria das concessões da rede e funcionários do Dentel lacraram os transmissores na sede da avenida Alfonso Bovero em São Paulo. Meses depois, o tradicional canal 4 passou a transmitir a TVS (depois SBT), a primeira TV da rede do Silvio Santos. E foi assim que Chaves chegou ao Brasil.

Dez anos depois, em outubro de 1990, nesse mesmo prédio da Alfonso Bovero passou a funcionar a MTV Brasil, a sui-generis versão nacional do canal musical norte-americano. A versão brasileira não era exatamente um decalque dublado do original, nem uma franquia controlada pela matriz. Surgiu de um experimento feito nos anos 80 na TV Gazeta, emissora local de São Paulo ligada à Faculdade Cásper Líbero. O programa Olhar Eletrônico revelou o apetite dos jovens brasileiros por coisas na televisão além de novelas, jornalismo e programas de auditório. Programas com música jovem, videoclipes, esquetes, quadros humorísticos, entrevistas irreverentes. Desse embrião se lançaram nomes hoje muito conhecidos, como Fernando Meirelles, Marcelo Tas, Tadeu Jungle, Serginho Groismann, Astrid Fontenelle, Zeca Camargo e vários outros.

Com o empurrão da Abril Vídeo, essa ideia de programação de TV para jovens se transformou em um canal próprio, que chega ao final ao completar 23 anos. Uma tenra idade para um jovem, mesmo que seja um canal de TV. Vida louca, vida breve.

Desde que foi anunciado pela imprensa que o Grupo Abril encerraria as operações do canal e devolveria a marca para a Viacom, muito se falou a respeito. As análises cobriram todo o espectro, da nostalgia ao determinismo de mercado. Muitos articulistas e críticos lembraram suas passagens pessoais pela emissora, e agiram como críticos da seleção brasileira depois de um jogo perdido (ou de uma Copa inteira).

Mas a própria MTV tem apresentado o melhor necrológio da carreira do canal. Uma autobiografia, para usar um termo mais simpático. Nas semanas finais de sua presença na TV aberta brasileira, o canal vai desfilando seletas de sua programação, com destaque para os programas apresentados por ex-VJs. É um acervo respeitável, em todos os aspectos. A MTV partiu de um canal de videoclipes para se cristalizar como um canal para jovens — o que não é pouca coisa. Basta pensar que todos os outros canais da TV aberta continuam até hoje fazendo o mesmo que a TV Tupi de meio século atrás: novelas, telejornais, programas de auditório, seriados nacionais e “enlatados”.

A MTV brasileira testou, inovou, ousou. Foi um canal de TV muito moderno em um ambiente de mídia muito retrógrado e conservador. A Abril, dona do canal, abriga alguns dos produtos mais conservadores do mercado editorial brasileiro, quiçá do mundo. A MTV não morreu, “transmigrou” de volta para a corporação que a criou. Será, como nos Estados Unidos, mais um canal de TV por assinatura, disponível em todas as grandes operadoras. Não faz a menor diferença: só fãs de novelas e de pastores evangélicos assistem TV aberta hoje. A nova programação terá os reality shows e séries da americana, as premiações, e alguns programas nacionais com produção independente. Serão 350 horas anuais de programação brasileira, informa o executivo Tiago Worcman. É menos de uma hora por dia, mas Worcman acha que esse volume “não é pouco”, só perdendo para a MTV americana (oi?). O executivo avalia se o canal vai preservar o MVB. Uma assessoria inteligente deve aconselhar Mr. Worcman a comprar ou licenciar o acervo completo da MTV Brasil. Seria bom negócio para o canal e para a Abril e evitaria a perda de material tão interessante. Ou então, a Abril e a Viacom poderiam entrar em uma parceria para oferecer o conteúdo em pay-per-view, ou por pacotes. Fica a dica.

That’s all folks. Não adianta nem precisa chorar. A TV Tupi, pioneira do século passado, morreu por uma combinação sórdida de maracutaias políticas, tráficos de influência, pressões econômicas, sabotagens. A MTV falece em condições mais serenas e menos suspeitas — pelo menos não foi vítima da epidemia de incêndios e “acidentes” que ajudaram a destruir boa parte da memória da TV brasileira nos anos 60 e 70.

É claríssimo que o canal musical definhou sob a fria lâmina do mercado e das transformações tecnológicas. Os canais de nicho na TV aberta não têm (nunca tiveram) audiência significativa, e não conseguem se bancar com publicidade.

No caso específico da MTV, a internet devastou a indústria fonográfica, e programas de videoclipes são velharias do século 20.

O fim do canal passa sim uma mensagem importante para os demais conglomerados de mídia. São raros os casos onde grupos editoriais, que publicam jornais e revistas, conseguem sucesso no mercado tradicional de radiodifusão, particularmente no mercado de televisão. Os Diários Associados conseguiram um imenso sucesso comercial nos anos 40 e 50, o grupo Globo a partir da década de 70, e uma breve experiência da empresa Adolpho Bloch nos anos 80, com a TV Manchete. A rede de TV tradicional é uma estrutura cara e complexa.

Seria sensato que empresas como Abril, a Folha, o Estadão e congêneres não avançarem mais nessas águas. Esse mar era apenas para grandes tubarões brancos, e talvez alguns cardumes de robalos muito organizados. E esse tempo já passou.

A mesma tecnologia que matou o videoclipe aponta o caminho. Por uma fração do custo de um canal tradicional, as empresas de mídia podem criar (e já criaram) emissoras de rádio e TV na internet. E com TVs conectadas de 55 polegadas e full-HD, qual será a diferença entre os canais normais e os de internet? Talvez apenas a qualidade da programação.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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