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Aeroespacial 4 MIN DE LEITURA

50 anos da Apollo 11 na Lua: o futuro do pretérito da exploração espacial

Daqui a um mês, a chegada do ser humano à Lua completará 50 anos.

Sergio Kulpas

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Daqui a um mês, a chegada do ser humano à Lua completará 50 anos. Foi um longo caminho até essa conquista tecnológica, em meio a uma disputa ideológica entre as superpotências da época. É difícil crer que já se passou meio século desde então.

Em 1961, o cosmonauta soviético Yuri Gagarin declarou que “a Terra é Azul”, e isso foi a senha para a corrida espacial entre a antiga URSS e os EUA da era Kennedy, que culminou com a chegada do Homem (americano) à Lua em 1969. Apesar do impacto estrondoso da missão Apollo, as naves tripuladas foram ficando cada vez mais raras desde o começo dos anos 1970. Hoje, os robôs são os verdadeiros exploradores do espaço.

Em 2015, a sonda New Horizons chegou ao distante planetoide Plutão. Lançada em janeiro de 2006 em Cabo Canaveral, a New Horizons percorreu 5 bilhões de quilômetros em uma viagem de nove anos. Cinco meses depois, a pequena nave estava a 1,6 bilhão de quilômetros da órbita de Netuno e entrou no chamado “Kuiper Belt”, um cinturão de asteroides gelados que são vestígios da formação do sistema solar.

A astronáutica começou no final dos anos 1950, na neblina caótica da Guerra Fria que misturava ciência e política: uma partida de xadrez (ou de esgrima) entre as superpotências de então. Esse “match” científico-ideológico teve vários lances vergonhosos, mas foi mais digno e elegante que as guerras sujas que foram travadas pelo mesmo motivo. A partida terminou no final dos anos 80: Ronald Reagan não conseguiu aprovação para seu mirabolante projeto de defesa espacial (apelidado de “Star Wars” pela mídia) e a URSS se desintegrou no final daquela década. Xeque-mate ou empate?

A ficção-científica, especialmente no cinema, criou uma imagem totalmente falsa sobre as viagens espaciais: as naves dos filmes e séries de TV têm simuladores de gravidade ou “gravidade artificial”, os ambientes são amplos e arejados e as pessoas parecem tranquilas e relaxadas.

Mas não há nada de glamoroso em uma nave espacial de verdade, tanto em termos físicos como psicológicos. Mesmo as mais “espaçosas” estações espaciais são latas apertadas e claustrofóbicas, com muitas limitações e pouquíssimo conforto. Os astronautas seguem uma rotina puxada em ambiente hostil. A ausência de gravidade faz muito mal para nossos ossos e órgãos. Há o risco de contaminação pela radiação solar. Os astronautas que passam longas temporadas em estações espaciais sofrem de uma “síndrome da gravidade zero”, que inclui desde a descalcificação dos ossos até a perda do sentido do paladar (parece que as papilas gustativas deixam de funcionar). Os cientistas tentam combater essa condição com exercícios físicos regulares, suplementos de vitaminas e muita pimenta na comida.

O cosmonauta Valeri Vladimirovich Polyakov detém o recorde de permanência no espaço: 437 dias e 18 horas a bordo da estação espacial Mir. São catorze meses. Polyakov voltou à Terra com sequelas graves dessa permanência. Uma viagem tripulada de ida e volta até Marte pode durar anos, com a tecnologia que existe atualmente. O terrível isolamento de uma viagem longa como essa poderia causar problemas mentais sérios nos tripulantes, incluindo surtos psicóticos.

Os programas espaciais norte-americano e russo são hoje uma pálida sombra do que foram durante a Guerra Fria, quando os orçamentos eram gordíssimos. Com o fim da URSS, a Rússia se resignou à posição de base lançadora de foguetes — as tripulações sobem para a Estação Espacial em naves Soyuz lançadas do Cosmódromo de Baikonur, em operação desde a década de 1950. A NASA continuou operando linhas regulares de “ônibus espaciais” por décadas, mas os desastres horríveis com a Challenger e a Columbia acabaram servindo como desculpa para encerrar o programa, em meio a cortes drásticos no orçamento.

A presença humana no espaço agora se restringe à órbita terrestre, na Estação Espacial Internacional e nos voos para consertar satélites (aventuras realistas, com Sandra Bullock e George Clooney). Poucas centenas de quilômetros do chão. A não ser que chineses e indianos tenham programas espaciais secretos e muito ambiciosos, as chances de uma colônia humana em Marte ainda estão muito distantes.

Por outro lado, desde os anos 1970 as naves automáticas estão se tornando substitutos cada vez mais espetaculares dos exploradores humanos. As sondas dos anos 60 eram “burras”, meras câmeras e sensores com um transmissor de rádio. Com a missão Viking enviada a Marte em 1975, iniciou-se uma nova era da exploração robotizada de outros mundos. As duas sondas chegaram ao planeta vizinho em 1976, e reuniram uma montanha de informações que formaram a base do conhecimento científico sobre Marte até o começo do século 21. As Vikings foram ancestrais de um pequeno exército de máquinas exploradoras, cada vez melhores, mais espertas e mais versáteis que vêm pousando há anos na superfície marciana.

Em 1977, a NASA lançou as naves Voyager 1 e 2, para estudar os limites do sistema solar. A missão foi um sucesso sem precedentes e ainda é, porque as sondas continuam ativas e mandando informações úteis depois de mais de 40 anos de viagem e 10 bilhões de quilômetros. Coletaram dados e imagens dos planetas gigantes (Júpiter, Saturno, Urano e Netuno) e surpreenderam os cientistas com o registro de campos magnéticos e tempestades nesses planetas, e até detectaram erupções vulcânicas e água congelada nas luas.

As sondas estão agora mapeando a chamada “heliosfera”, uma das muitas “fronteiras finais” do nosso sistema solar. A Voyager 2 entrou oficialmente no espaço interestelar em 2016, e seu espectrômetro de plasma enviou as primeiras medições da densidade e temperatura do plasma sideral. Viajando a 17 km/s, serão mais 30.000 anos pelo vácuo até a estrela mais próxima.

Serão as máquinas, e não nossos descendentes de carne e osso, os primeiros terráqueos a dizer “Viemos em Paz” para alienígenas? Talvez sim, milhares de anos no futuro, como representantes de uma espécie provavelmente extinta.

Trilha sonora para a leitura:

O astronauta Chris Hadfield canta “Space Oddity”, de David Bowie, a bordo da Estação Espacial Internacional.

Foto: History in HD / Unsplash

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.

Sergio Kulpas é escritor e jornalista, com 25 anos de atividade em redações. Passou pela Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Gazeta Mercantil, Diário do Comércio, Meio & Mensagem e vários sites especializados em comunicações e mídia.

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Aeroespacial 1 MIN DE LEITURA

Yutu-2 e o material misterioso no lado oculto da Lua

A descoberta despertou amplo interesse da comunidade científica, bem como especulações sobre o que esse material realmente poderia ser.

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Imagem que mostra a área destacada na cratera. Crédito: CNSA/Clep

No ano passado, a CNSA (Administração Espacial Nacional da China) aterrou com sucesso um módulo de pouso lunar  Chang’e-4 (嫦娥四号), em South Pole-Aitken, a maior e mais profunda bacia da lua, no lado oculto da Lua.

Desde então, um jipe lunar chamado Yutu-2 (玉兔二号, Jade Rabbit-2) estuda a Lua. No mês passado, enquanto trafegava pelo lado oculto da Lua, avistou uma ”substância misteriosa e colorida”. A substância foi descrita como um material semelhante a gel, que parecia completamente diferente em forma, cor e textura do solo lunar circundante.

A descoberta despertou amplo interesse da comunidade científica, bem como especulações sobre o que esse material realmente poderia ser. Os cientistas levaram o Yutu-2 para perto do material, que parece estar localizado no centro de uma cratera. 

O que as imagens mostram?

A explicação mais provável é que um impacto gerou calor suficiente para formar vidro a partir dos minerais espalhados pela superfície lunar, deixando fragmentos para trás. 

Em entrevista ao Space.com, o professor Clive Neal, cientista lunar da Universidade de Notre Dame, disse que embora a foto resultante não seja perfeita, ela ainda pode oferecer pistas sobre a descoberta inesperada. O professor Neal disse que o material encontrado se assemelha a uma amostra de vidro de impacto encontrado durante a missão Apollo 17 em 1972.

O Yutu-2 está silencioso no momento e começará a operar novamente na próxima semana devido a incidência solar.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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Aeroespacial 3 MIN DE LEITURA

Cinquenta anos depois da Apollo 11, vivemos todos no mundo da Lua

O programa lunar da NASA terminou oficialmente em dezembro de 1972, quando os astronautas da Apollo 17, Eugene Cernan, Ronald Evans e Harrison Schmitt voltaram à Terra.

Sergio Kulpas

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O programa lunar da NASA terminou oficialmente em dezembro de 1972, quando os astronautas da Apollo 17, Eugene Cernan, Ronald Evans e Harrison Schmitt voltaram à Terra. Eles foram os últimos homens a pisar na superfície lunar. Mas o projeto Apollo deixou uma imensa herança científica e social, que está integrada ao cotidiano de todos nós, meio século depois do primeiro pouso na Lua.

O programa espacial americano que levou astronautas para a Lua foi um projeto político, uma resposta da superpotência ocidental ao pioneirismo soviético, que colocou o jovem cosmonauta Yuri Gagarin em órbita da Terra em 1961. No ano seguinte, o presidente americano John F. Kennedy prometeu em discurso que os americanos chegariam à Lua antes do final da década de 1960. Dito e feito.

O mundo da última missão tripulada à Lua era muito diferente daqueles primeiros voos dos anos 1960. Os assassinatos de John Kennedy, Martin Luther King e Bob Kennedy arrasaram com os sonhos da Era de Aquarius e da geração “paz e amor”. As turbulências sociais que varreram o mundo naquele final de década empalideceram o brilho da Lua.

Em 1972, o presidente dos EUA era o republicano Richard Nixon, e o país estava atolado na insana guerra do Vietnã, um conflito que custou a vida de dezenas de milhares de jovens americanos e milhões de vietnamitas. Os recursos destinados a essa guerra foram se tornando cada vez maiores e atenção do público americano estava muito mais concentrada nas notícias sobre seus filhos morrendo na selva de um distante país da Ásia do que em bravos astronautas no vácuo lunar.

Em 1973, a primeira crise do petróleo causou um terremoto no mapa político do mundo, e pode ter sido a pá de cal no programa espacial tripulado da NASA. O último foguete Apollo voou em 1975, para se acoplar em órbita com a nave soviética Soyuz, uma missão colaborativa criada para tentar amenizar a tensão da Guerra Fria. As estações espaciais criadas nos anos 1970, o Skylab americano e a Mir soviética, são crias do projeto Apollo, mas foram projetos relativamente modestos e com orçamentos muito menores do que deveriam ter.

Apesar desse final quase melancólico, o projeto Apollo deixou um legado riquíssimo, que faz parte essencial do mundo que vivemos hoje. As tecnologias desenvolvidas para as missões lunares foram aperfeiçoadas e produzidas em massa nas últimas décadas, e são parte integral de nossas vidas.

Circuitos integrados (chips) minúsculos, GPS, comida desidratada, trajes térmicos usados por bombeiros, velcro, ferramentas portáteis movidas por baterias, sistemas de imagem eletrônica, sistemas de transmissão via satélite, lentes de câmeras e capacetes a prova de riscos, e uma infinidade de outras tecnologias criadas para o projeto lunar estão presentes hoje, e continuam evoluindo.
Como o projeto de missões tripuladas na Lua foi encerrado há 47 anos, esse feito histórico parece ter perdido a relevância. O programa Apollo sempre teve muitas críticas, mesmo em seu apogeu. Foi tachado como propaganda política dos EUA (e era), e mesmo nos EUA o orçamento das missões era considerado um “escândalo” em comparação com outros problemas urgentes nos Estados Unidos na época.

Nos últimos anos, o número de “céticos” sobre a caminhada humana na Lua aumentou exponencialmente. Esses céticos poderiam ser classificados como meros ignorantes, e são. Mas o abandono da exploração lunar, não apenas pelos EUA mas por outros países ricos (incluindo a China) é visto como uma prova de que o ser humano jamais pisou no satélite. Mas mesmo os conspiradores mais radicais não duvidam das missões robotizadas até Marte, e das sondas enviadas aos confins do sistema solar.

Viagens tripuladas para a Lua são empreendimentos caríssimos. A NASA é uma agência pública, financiada com dinheiro dos contribuintes americanos. Só recentemente o setor privado mostrou algum interesse pela exploração do espaço. Bilionários como Elon Musk e Jeff Bezos têm planos para criar estações orbitais e voos tripulados para a Lua.

Americanos, chineses, indianos e russos podem promover uma nova corrida espacial, com objetivos comerciais – e políticos, como de costume. Mas nada que se aproxime ao cenário imaginado pelo escritor Arthur C. Clarke e o diretor Stanley Kubrick no filme “2001: Uma Odisseia no Espaço”.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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