50 anos da Apollo 11 na Lua: o futuro do pretérito da exploração espacial

Daqui a um mês, a chegada do ser humano à Lua completará 50 anos. Foi um longo caminho até essa conquista tecnológica, em meio a uma disputa ideológica entre as superpotências da época. É difícil crer que já se passou meio século desde então.

Em 1961, o cosmonauta soviético Yuri Gagarin declarou que “a Terra é Azul”, e isso foi a senha para a corrida espacial entre a antiga URSS e os EUA da era Kennedy, que culminou com a chegada do Homem (americano) à Lua em 1969. Apesar do impacto estrondoso da missão Apollo, as naves tripuladas foram ficando cada vez mais raras desde o começo dos anos 1970. Hoje, os robôs são os verdadeiros exploradores do espaço.

Em 2015, a sonda New Horizons chegou ao distante planetoide Plutão. Lançada em janeiro de 2006 em Cabo Canaveral, a New Horizons percorreu 5 bilhões de quilômetros em uma viagem de nove anos. Cinco meses depois, a pequena nave estava a 1,6 bilhão de quilômetros da órbita de Netuno e entrou no chamado “Kuiper Belt”, um cinturão de asteroides gelados que são vestígios da formação do sistema solar.

A astronáutica começou no final dos anos 1950, na neblina caótica da Guerra Fria que misturava ciência e política: uma partida de xadrez (ou de esgrima) entre as superpotências de então. Esse “match” científico-ideológico teve vários lances vergonhosos, mas foi mais digno e elegante que as guerras sujas que foram travadas pelo mesmo motivo. A partida terminou no final dos anos 80: Ronald Reagan não conseguiu aprovação para seu mirabolante projeto de defesa espacial (apelidado de “Star Wars” pela mídia) e a URSS se desintegrou no final daquela década. Xeque-mate ou empate?

A ficção-científica, especialmente no cinema, criou uma imagem totalmente falsa sobre as viagens espaciais: as naves dos filmes e séries de TV têm simuladores de gravidade ou “gravidade artificial”, os ambientes são amplos e arejados e as pessoas parecem tranquilas e relaxadas.

Mas não há nada de glamoroso em uma nave espacial de verdade, tanto em termos físicos como psicológicos. Mesmo as mais “espaçosas” estações espaciais são latas apertadas e claustrofóbicas, com muitas limitações e pouquíssimo conforto. Os astronautas seguem uma rotina puxada em ambiente hostil. A ausência de gravidade faz muito mal para nossos ossos e órgãos. Há o risco de contaminação pela radiação solar. Os astronautas que passam longas temporadas em estações espaciais sofrem de uma “síndrome da gravidade zero”, que inclui desde a descalcificação dos ossos até a perda do sentido do paladar (parece que as papilas gustativas deixam de funcionar). Os cientistas tentam combater essa condição com exercícios físicos regulares, suplementos de vitaminas e muita pimenta na comida.

O cosmonauta Valeri Vladimirovich Polyakov detém o recorde de permanência no espaço: 437 dias e 18 horas a bordo da estação espacial Mir. São catorze meses. Polyakov voltou à Terra com sequelas graves dessa permanência. Uma viagem tripulada de ida e volta até Marte pode durar anos, com a tecnologia que existe atualmente. O terrível isolamento de uma viagem longa como essa poderia causar problemas mentais sérios nos tripulantes, incluindo surtos psicóticos.

Os programas espaciais norte-americano e russo são hoje uma pálida sombra do que foram durante a Guerra Fria, quando os orçamentos eram gordíssimos. Com o fim da URSS, a Rússia se resignou à posição de base lançadora de foguetes — as tripulações sobem para a Estação Espacial em naves Soyuz lançadas do Cosmódromo de Baikonur, em operação desde a década de 1950. A NASA continuou operando linhas regulares de “ônibus espaciais” por décadas, mas os desastres horríveis com a Challenger e a Columbia acabaram servindo como desculpa para encerrar o programa, em meio a cortes drásticos no orçamento.

A presença humana no espaço agora se restringe à órbita terrestre, na Estação Espacial Internacional e nos voos para consertar satélites (aventuras realistas, com Sandra Bullock e George Clooney). Poucas centenas de quilômetros do chão. A não ser que chineses e indianos tenham programas espaciais secretos e muito ambiciosos, as chances de uma colônia humana em Marte ainda estão muito distantes.

Por outro lado, desde os anos 1970 as naves automáticas estão se tornando substitutos cada vez mais espetaculares dos exploradores humanos. As sondas dos anos 60 eram “burras”, meras câmeras e sensores com um transmissor de rádio. Com a missão Viking enviada a Marte em 1975, iniciou-se uma nova era da exploração robotizada de outros mundos. As duas sondas chegaram ao planeta vizinho em 1976, e reuniram uma montanha de informações que formaram a base do conhecimento científico sobre Marte até o começo do século 21. As Vikings foram ancestrais de um pequeno exército de máquinas exploradoras, cada vez melhores, mais espertas e mais versáteis que vêm pousando há anos na superfície marciana.

Em 1977, a NASA lançou as naves Voyager 1 e 2, para estudar os limites do sistema solar. A missão foi um sucesso sem precedentes e ainda é, porque as sondas continuam ativas e mandando informações úteis depois de mais de 40 anos de viagem e 10 bilhões de quilômetros. Coletaram dados e imagens dos planetas gigantes (Júpiter, Saturno, Urano e Netuno) e surpreenderam os cientistas com o registro de campos magnéticos e tempestades nesses planetas, e até detectaram erupções vulcânicas e água congelada nas luas.

As sondas estão agora mapeando a chamada “heliosfera”, uma das muitas “fronteiras finais” do nosso sistema solar. A Voyager 2 entrou oficialmente no espaço interestelar em 2016, e seu espectrômetro de plasma enviou as primeiras medições da densidade e temperatura do plasma sideral. Viajando a 17 km/s, serão mais 30.000 anos pelo vácuo até a estrela mais próxima.

Serão as máquinas, e não nossos descendentes de carne e osso, os primeiros terráqueos a dizer “Viemos em Paz” para alienígenas? Talvez sim, milhares de anos no futuro, como representantes de uma espécie provavelmente extinta.

Trilha sonora para a leitura:

O astronauta Chris Hadfield canta “Space Oddity”, de David Bowie, a bordo da Estação Espacial Internacional.

Foto: History in HD / Unsplash

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