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Comportamento

A fascinação pelo mundo depois do fim do Mundo

Sergio Kulpas

Publicado

em

It’s the end of the world as we know it.
It’s the end of the world as we know it and I feel fine.” (R.E.M.)

A raça humana é fascinada pela ideia do Fim do Mundo – talvez porque seja a única espécie no planeta capaz de imaginar o Apocalipse em detalhes tão vívidos. Presente em textos religiosos e místicos de todas as sociedades humanas, a noção de um evento cataclísmico que pode arrasar o mundo é muito poderosa. Pode ser usada para encantar e alertar (ou apavorar) os fiéis para a proximidade do Juízo Final e necessidade de levar uma vida justa, de acordo com os princípios morais de cada religião.

A Ciência, especialmente aquela surgida na Europa na era do Iluminismo, não ajudou muito a desfazer os mitos relacionados com o Fim do Mundo. Ao contrário, os cientistas terminaram por comprovar que a Terra já passou por vários outros “Fins do Mundo”, milhões de anos atrás. E a Ciência do século 20 criou novas possibilidades reais de Apocalipse: bombas atômicas, armas químicas e biológicas e várias outras formas de colapso tecnológico.

O próprio ritmo da sociedade humana embute várias “bombas”: superpopulação, esgotamento de recursos naturais, impactos artificiais no clima do planeta, contaminação da água e do solo, etc.

Escrevo pensando no recente remake de “Mad Max”, um road movie dos anos 1980. A nova versão está atraindo multidões aos cinemas, e surpreende por qualidades raras na maioria dos filmes de ação.

Penso também nas conversas que tenho com o filho adolescente de um grande amigo meu. Ele também se interessa muito pelo tema “mundo pós-apocalíptico” e fiquei pensando que fazemos parte um grande fã-clube do gênero ao redor do mundo.

Filmes como “Mad Max”, a franquia “Exterminador do Futuro”, e séries como “Falling Skies”, “Revolution” e “Walking Dead” (mais os muitos filmes de zumbis) são imensamente populares. Fora de Hollywood, os japoneses são especialistas em pós-apocalipse na ficção, com joias como “Akira” e “Ghost in the Shell”. E claro, temos obras com catástrofes apocalípticas, como “O Dia Depois de Amanhã”, “2012”, “Armageddon”, “Impacto Profundo” e “A Falha de San Andreas”.

O que é tão atraente nessas narrativas de terra arrasada, pilhas de ossos, cidades destruídas e ocupadas por hordas de monstros/alienígenas/zumbis sedentos de sangue? Suspeito que é a sugestão de que das cinzas e escombros surge o novo. Das ruínas de velhas cidades, emergem pequenas comunidades de sobreviventes, que correm muitos riscos e ameaças, mas resistem unidos em torno da esperança de uma nova chance, de um novo mundo, de uma nova sociedade que não cometa os erros da civilização extinta.

Fantasiamos um mundo onde as regras atuais de poder e controle não valham mais, e onde os sistemas políticos e financeiros se evaporem, assim como o consumismo e a exploração irracional de recursos. Sonhamos com aldeias de sábios aborígenes do futuro, vivendo de modo integrado com a natureza e desprezando os valores e modos de vida dos “Antigos” – afinal, foram esses a causa da Destruição.

É um idílio ingênuo e até piegas – mas quem disse que a pieguice assim não é atraente, e até mesmo sexy? Nesse caso, o caminho para Eldorado passa por um mar de chamas, ou uma multidão de zumbis radioativos famintos.

P.S.: Agora também existe uma nova tendência no mundo da ficção: o “pré-Apocalipse”. Um exemplo recente é o filme “Doomsdays”, onde dois amigos passam o tempo invadindo casas vazias de férias de milionários nos Estados Unidos, comendo e bebendo até ficarem entediados ou serem perseguidos pela polícia. A motivação dos “heróis” Dirty Fred (Justin Rice) e Bruho (Leo Fitzpatrick) é a seguinte: já que o mundo vai acabar a qualquer momento, quem vai se importar com quem comeu todo o caviar Beluga na geladeira ou bebeu o scotch de 64 anos no bar? Malcolm Harris escreve uma crítica bem bacana do filme no site da New Republic.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.

Sergio Kulpas é escritor e jornalista, com 25 anos de atividade em redações. Passou pela Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Gazeta Mercantil, Diário do Comércio, Meio & Mensagem e vários sites especializados em comunicações e mídia.

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Comportamento

Ensaio sobre a cegueira nunca se fez tão atual

Nos últimos tempos, os discursos mais acalorados e intolerantes estão ganhando os palanques ao redor do mundo.

Caio Bogos

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Foto: Reprodução / Ensaio sobre a cegueira

Já perdi as contas de quantas vezes eu li o livro “Ensaio sobre a Cegueira” do escritor português José Saramago. Essa obra entra facilmente no meu Top 5 de melhores leituras da vida, juntamente com “O Evangelho segundo Jesus Cristo”, do mesmo autor, “O Quarto de Despejo”, “1984” e “Os Miseráveis” (pretendo falar sobre todos esses no futuro).
O “Ensaio” foi publicado em 1995 e, já de cara, conquistou o mercado editorial devido a sua escrita concisa, dura e genial. Inclusive o Saramago foi laureado com o premio Nobel de Literatura justamente por esse livro.

Bom, vamos a historia: Em uma cidade sem nome, a população, aos poucos, começa a ficar cega. Contudo, não trata-se de uma cegueira tradicional, mas sim de uma cegueira branca. No inicio apenas tratavam-se de alguns casos isolados, contudo, a epidemia foi se espalhando por toda a cidade e, como medida paliativa, o governo decide confinar as pessoas em locais de quarentena. Nós acompanhamos algumas dessas pessoas que foram enviadas para uma dessas quarentenas. Apenas um detalhe: Dentro desse grupo, há apenas uma mulher que consegue enxergar.

É nesse cenário caótico que o Saramago nos coloca. O livro faz questão de tocar em pontos bastante pertinentes da sociedade e da natureza humana, entre eles: orgulho, vergonha, machismo, empatia e humildade. Além disso, na minha opinião, levanta dois questionamentos principais. São eles: Organização do ser humano em meio ao caos e a bondade (ou a perversidade) das pessoas. É nesses temas que eu vou focar nesse breve artigo.

A Organização em meio ao caos

Praticamente toda a historia se passa pelos olhos da Mulher do Médico, a única pessoa que consegue enxergar. Ela é a responsável por nos contextualizar sobre o que está passando com aquelas pessoas, sobre a situação do lugar em que se encontram e, acima de tudo, a Mulher do Médico serve como uma guia em meio ao caos que aos poucos vai se instaurando naquele lugar.

No começo da quarentena, quando os cegos não eram muitos, a organização era relativamente fácil. Havia um sentido de organização e ordem, tanto que há a nomeação, mesmo que seja informal, de um representante daqueles cegos. Esse representante é justamente o Médico. Com a ajuda de sua esposa, ele consegue servir de voz de autoridade para aquelas pessoas.

Contudo, com o passar do tempo, mais pessoas vão chegando na quarentena e como tratam-se de pessoas bastante diversas moralmente, eticamente e com as mais diversas vivencias e princípios, as coisas começam a se complicar. O Médico não consegue exercer mais a sua autoridade e a situação na quarentena começa a ficar insustentável.

Há algum tempo, em uma conversa com um amigo, estávamos discutindo até onde vai a civilidade humana. Ai ele me falou a seguinte frase: “A Educação e a civilidade acabam quando o espaço deixa de existir”. Essa frase me marcou muito e tem tudo a ver com o livro em questão.

Pois é juntamente isso que acontece com essas pessoas dentro da quarentena. As pessoas, aos poucos, vão se degradando, não só fisicamente, mas também moralmente. Tudo vira um verdadeiro caos. Contudo, acredito ainda que há um outro fator que permeia essa degradação da natureza humana. Esse fator é a suposto bondade (ou perversidade) da natureza humana.

A Bondade (ou perversidade) do ser humano

Há algum tempo, se alguém me fizesse a seguinte pergunta: “O ser humano, em sua essência, é bom ou mau?”, eu responderia que “o ser humano nasce bom, contudo, a sociedade é que o corrompe”. Obviamente, essa minha fala estaria em perfeito acordo com o filosofo Jean-Jacques Rousseau.

Porém, confesso que essa minha certeza está meio abalada em meio a tantas coisas que vem acontecendo em nossa sociedade. Ultimamente tenho pendido para o pensamento Thomas Hobbes, que argumenta que o ser humano é essencialmente mau.

O “Ensaio” levanta justamente essas questões. Quando as pessoas se veem no limite do seu “espaço”, sem governo, sem leis e sem ordem, elas voltam a ser praticamente animais irracionais. Temos um pequeno exemplo disso durante a distribuição de comida quando alguns dos cegos furtam parte dela para comerem sozinho. A reação dos demais foi o seguinte:

“(…) portanto, o que havia a fazer era esperar que eles voltassem lá de onde se tinham escondido, a lamber os beiços, e cair-lhes em cima, para que aprendessem a respeitar o sagrado principio da propriedade coletiva.” – Pag 108.

Percebem? Um grupo de pessoas está cogitando agredir o próximo porque esse próximo lhe furtou. E isso é só o começo da degradação humano e a “volta”, vamos dizer assim, aos velhos hábitos. Após esse episódio da comida, as coisas tornam-se drasticamente piores. Em certo momento, as pessoas estão divididas em alas. A ala 3 começa a regular a comida para as demais alas. No começo, eles exigem dinheiro e joias como pagamento pela comida, contudo, como essas coisas não duram para sempre, eles passam a trocar sexo pela alimentação.

“(…) os cegos malvados mandaram recado de que queriam mulheres. Assim, simplesmente, Tragam-nos mulheres.” – Pag 165

Acredito que, dentro do contexto do livro, esse foi o ultima estágio nessa “volta as origens”. Na minha opinião, Saramago partilhava da opinião do Hobbes, o ser humano é mau em sua natureza. Contudo, como eu disse, não tenho muita certeza sobre qual lado eu fico nessa questão (Rousseau X Hobbes). Fico nessa indecisão, pois, no livro, temos a Mulher do Médico que, na minha opinião, em sua natureza, é uma boa pessoa.

A natureza boa da Mulher do Médico pode ser observada quando ela decide dignificar a morte de uma das mulheres que, por sinal, morreu durante umas das sessões de estupro promovida pelos integrantes da ala 3.

“Queria um balde ou alguma coisa que lhe fizesse as vezes, queria enchê-lo de água, ainda que fétida, ainda que apodrecida, queria lavar a cega das insônias, limpá-la do sangue próprio e do ranho alheio, entrega-la purificada à terra, se tem ainda algum sentido falar de purezas de corpo neste manicômio em que vivemos, que às da alma, já se sabe, não há quem lhes possa chegar” – Pag 180.

Será que, essencialmente, a resposta está justamente no meio dessas duas posições opostas? Se fomos analisar mais a fundo, talvez o ser humano não nasça mau ou bom, mas sim neutro. O que realmente importa nessa balança é o meio em que essa pessoa está inserida. No caso da Mulher do Médico, talvez o meio de criação dela tenha sido muito diferente do meio que em foram criadas as pessoas da ala 3.

Paralelo com a Sociedade

Nos últimos tempos, os discursos mais acalorados e intolerantes estão ganhando os palanques ao redor do mundo. Sinto como se estivéssemos, dada as devidas proporções, é claro, vivendo na mesma quarentena que os nossos personagens estão. Diariamente temos exemplo de seres humanos que, na minha opinião, deveriam se ajudar, fazendo o contrário.

Temos um Estado que, em sua essência, deveria estar ao lado de toda a população, contudo, faz o contrario, ou seja, vira as costas para quem mais precisa em beneficio de uma parte que não representa o pais em sua totalidade.

Novamente, voltamos aquela questão sobre como, em teoria, o meio/sociedade modela os comportamentos da população. Discursos que até um tempo atras pareciam absurdo e conspiratórios, tornaram-se regra. As pessoas que até um certo tempo atrás eram tidas como moderadas, tornaram-se reacionárias. Tudo isso se deu pelo meio propício que nós criamos nos últimos anos.

Esperança

Apesar de todos os problemas que temos enfrentado, eu ainda tenho esperança. Talvez as pessoas só precisem de um meio próprio para cairem na real e passarem a olhar os outros com empatia e igualdade. Sem barbarie. Sejamos mais como a “Mulher do Médico”.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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Comportamento

A tecnologia da falta de educação

A evolução da tecnologia deveria ser acompanhada de uma evolução (positiva) nos costumes.

Sergio Kulpas

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Bruno Creste / Jornal 140

Até o final do século passado, existiam apenas as câmeras e gravadores de vídeo analógicos. No caso das filmadoras, eram geralmente máquinas caras, pesadas e de manejo complexo — só alguns amadores ousavam levá-las a eventos públicos, como shows, festas de casamento, aniversários, batismos e apresentações escolares. Em shows de música, era mais comum que o fã na frente do palco segurasse um isqueiro aceso (hoje totalmente proibido) do que uma câmera ou gravador (geralmente vetados na época).

Em 2019, tudo isso mudou num giro de 180 graus. As câmeras de hoje, para imagens e sons, são os levíssimos e poderosíssimos smartphones e tablets. Virtualmente todo mundo tem acesso a esses recursos, por uma fração do preço de quinze ou vinte anos atrás.

O resultado disso, dessas centenas de milhões, ou até bilhões, de câmeras é uma transformação sem precedentes na cultura do registro de imagens e sons. Nunca tantos amadores tiveram câmeras tão leves, baratas e fáceis de usar. Estudos recentes estimam que mais da metade de todas as fotos e vídeos já feitos na história ocorreram nos últimos três ou quatro anos.

O que acontece é que as câmeras estão em todos os lugares, e as boas maneiras foram suas primeiras vítimas. A grande maioria dos fotógrafos e cineastas amadores se comporta mais como paparazzi histéricos sem um pingo de educação, e não como documentaristas sensíveis e gentis. E isso independe de berço, sobrenome, conta bancária ou profissão. A falta de cortesia digital é um traço muito democrático. Nos eventos públicos de hoje, é praticamente impossível ver o que o acontece, seja no palco ou no altar, devido a uma muralha de telas de todos os tamanhos de smartphones e tablets.

E com isso, essa multidão ávida e ansiosa acaba perdendo o espetáculo em si. Preocupados em apenas filmar o batizado do sobrinho ou o show da diva pop, deixam de aproveitar essa experiência, perdem o prazer do momento. Vão ver o vídeo depois, e não vão se lembrar do evento — apenas de ter gravado o evento. Para piorar, serão lembrados pelos outros que estavam lá sem câmeras, apenas para apreciar o momento, como aqueles chatos mal-educados que se enfiavam na frente, pisavam nos pés das pessoas ao lado e obstruíam a visão — para gravar melhor seus vídeos. Obviamente, muitos desses vídeos jamais serão vistos depois.

A evolução da tecnologia deveria ser acompanhada de uma evolução (positiva) nos costumes. O fato é que a tecnologia anda num passo muito mais rápido do que a boa educação — de fato, a tecnologia parece agir contra a etiqueta, por motivos puramente econômicos.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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