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Qualidade de Vida

Um remédio chamado Cannabis

A Cannabis está na boca do povo. E também nas redes sociais.

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Artigo que o Jornal 140 publicou em março deste ano teve grande repercussão e altos índices de leitura (aqui). Em vários países ocidentais – do primeiro mundo como Canadá e EUA a países da América do Sul como Uruguai, Argentina e Colômbia – o uso medicinal já é permitido mediante prescrição médica e, em alguns casos, também o modelo recreativo.

Procuramos agora ir além da questão da comunicação e do negócio, tema do artigo anterior, e tentar entender melhor a Cannabis do ponto de vista de aplicação médica e terapêutica.

O Jornal 140 entrevistou a Dra. Paula Dall’Stella (veja foto acima e o link para a sua página aqui). Médica com residência em Radiologia/ultrassonografia geral e pós graduação em neuro-oncologia, trabalhou como voluntária em regiões pobres fora do Brasil na ONG Médicos Sem Fronteiras (Medecins San Frontieres), e especializou-se em medicina integrativa e no uso da Cannabis. Paula se interessou pelo assunto depois que uma pessoa muito próxima foi diagnosticada com tumor cerebral. Após acompanhar a trajetória deste paciente e ver como o uso da substância contribuiu significativamente para a melhoria na qualidade de vida, adotou a Cannabis como “ferramenta” para o tratamento de pacientes terminais, doentes crônicos, com problemas de depressão e de adolescentes adictos.

Há muitos anos acompanho a Cannabis na área da saúde. Minha irmã, Denise, foi portadora de uma doença autoimune grave, LES (Lúpus Eritematoso Sistêmico) com quadros de convulsão, que eram tratados de maneira tradicional, à base de um coquetel de drogas potentes mas que não davam resultados consistentes e que apresentam efeitos colaterais indesejáveis. Após descobrir a maconha, as convulsões acabaram e ela passou finalmente a ter uma qualidade de vida melhor. Mesmo em sua fase terminal, fazia uso diário de cigarros de maconha. Infelizmente os remédios à base de CBD ainda não haviam chegado ao Brasil na época em que faleceu, 2007, após uma luta de mais de 30 anos convivendo com o LES.

Aqui no Brasil o assunto ainda é tabu. Graças a pressão de pacientes e médicos, a Anvisa autoriza desde 2015 a importação de remédios a base de CBD, nome do Cannabidiol, uma das substâncias químicas da Cannabis sativa e que é popularmente conhecida como Maconha.

A íntegra da entrevista está disponível em vídeo ao final.

Dra. Paula, vamos falar sobre Cannabis Medicinal e Cannabidiol. Esta é a sua especialidade?

Infelizmente ainda não existe especialidade “cannabidiologia” dentro da medicina – até gostaria que fosse uma cannabidiologista. Este é um assunto que vai acontecer, é necessário e é uma tendência. O que posso dizer é que comecei a trabalhar nesta área há cinco anos com pacientes no uso de Cannabis medicinal.

Qual é a sua formação?

Sou médica, com título em Ultrassonografia e diagnóstico por imagem, trabalhei por muitos anos no setor de Radiologia e por uma experiência pessoal acabei descobrindo a Cannabis medicinal como uma ótima alternativa para muitas doenças.

Como e porque você se interessou por este tema?

Comecei nesta área por causa de um paciente neuro-oncológico que me fez mergulhar na questão, infelizmente alguns tumores cerebrais não têm cura. Foi quando assisti a um vídeo da Dra. Christina Sanchez que trabalha com o Dr. Manuel Guzmán da Universidade Complutense de Madrid (vídeo aqui). Eles estudam vários tipos de tumores, inclusive cerebrais e procuram entender como a Cannabis interfere nestes processos. Mostram todas as características anti-neoplásicas desta substância.

Acompanhei o paciente e observei uma melhora na qualidade de vida, foi um impacto familiar muito grande. Entrei em contato com vários especialistas, especialmente o Dr. Manuel Guzmán, descobri que havia congressos internacionais sobre o tema e biologia molecular.

O que você quis entender deste processo?

O organismo tem receptores exclusivos para a Cannabis que produz substâncias que a mimetizam. Queria entender como isso se relaciona com o nosso organismo e quais as alterações deste sistema quando a gente está doente. Vários médicos começaram a me referenciar pacientes e percebi claramente que a doença era uma manifestação do estilo de vida deles.

Importante dizer que tenho uma abordagem de medicina de estilo de vida, também chamada de medicina integrativa ou “funcional”. Procuro entender se o estilo de vida dos pacientes causam ou acentuam os sintomas ou a própria doença.

O establishment médico é muito conservador. Como você consegue passar por cima dos preconceitos?

Ainda há médicos que não querem saber sobre isso e dizem que não há comprovação científica. Há até os que proíbem. A grande maioria percebeu que há uma ciência por trás disso. Tenho pacientes que fazem uso da Cannabis para diversas doenças e vejo que está acontecendo de maneira empírica. A minha opinião pessoal não interessa. Os pacientes contam as suas histórias de avanços e melhorias nas redes sociais. Não há mais como esconder as coisas em consultórios, hoje as coisas são muito mais claras e transparentes.

A medicina funcional tem uma série de aspectos, uma delas ligada à desintoxicação do corpo. Como explicar para pais e mães que vem a Cannabis, ou a Maconha (que tem psicoatividade), como uma substância que não é tóxica?

Esta é uma pergunta bastante frequente, a de que Cannabis “mata” os neurônios por causa da crença popular e do uso recreativo. Isto não acontece, a Cannabis é neuroprotetora, anti-inflamatória e antioxidante. Atua no nível cerebral de uma forma completamente diferente do que matar neurônios, ela faz o oposto – está muito relacionada à sobrevivência e ao nascimento neuronal. Porque os pacientes esquecem de coisas quando começam um tratamento? Isto acontece quando o fitocanabinóide se acopla ao receptor. Ele modula ou até impede a passagem da informação que pode ser a memória ou uma dor. Esta qualidade de “moduladora” de dor confere à Cannabis um caráter de analgésico.

Como desmistificar o uso da Cannabis?

Eu explico para o paciente como funciona fisiologicamente a Cannabis e durante a consulta procuro desmistificar esta ideia sedimentada por muitos anos na população e que não é verdadeira. O CBD também é psicoativo, quando é antidepressivo e ansiolítico. Já o THC tem um efeito intoxicante, no sentido de que o paciente pode ter uma alteração da percepção da realidade e uma sensação não prazerosa, dependendo da dose.

Como funciona fisiologicamente a Cannabis?

Temos receptores no corpo inteiro onde a Cannabis atua, não há o que chamamos na medicina de área “target”. O paciente tem de entender isso. Se eu tiver que estimular a fome no paciente oncológico ele será informado que poderá ter de lidar com situações não prazerosas, que pode alterar a percepção da realidade. Ele tem que ter consciência de todo o processo para lidar com esta medicação e ter menos efeitos negativos.

Toda a vez que se coloca um medicamento sintético no corpo há reações colaterais conhecidas, tem um comprometimento do fígado que é obrigado a metabolizar e normalmente estes medicamentos causam outros efeitos que ninguém quer ou deseja a longo prazo.

É possível trocar os antidepressivos pelo CBD?

Não se deve deixar de utilizar os antidepressivos e os ansiolíticos e simplesmente trocá-los pela Cannabis. Não é dessa forma que se faz medicina. A Cannabis não é um medicamento para todos, nem todos podem se beneficiar dela. Os antidepressivos têm o seu momento de utilidade, o problema é que as pessoas começam a utilizá-los e vão cinco, 10 anos em frente – e isso tem um impacto gigantesco para o organismo. Sempre que se coloca um medicamento sintético no corpo há reações colaterais conhecidas, tem um comprometimento do fígado que é obrigado a metabolizar e normalmente estes medicamentos causam outros efeitos que ninguém quer ou deseja a longo prazo. Os pacientes procuram hoje medicamentos mais saudáveis, que tenham menos interações, procuram diferentes abordagens em relação à medicina, aquela medicina baseada em sintoma e não na causa raiz.

A minha percepção é que muitos pacientes diagnosticados com transtornos e doenças como depressão e ansiedade tiveram os tratamentos mal prescritos. Não precisariam ter tantas prescrições de antidepressivos e ansiolíticos como a gente vê hoje.

O paciente está mais “educado” quando vai procurar o médico, já sabe o que quer ou chega com as perguntas certas – “será que eu tomo fluoxetina ou Cannabidiol”?

A minha percepção é que muitos pacientes diagnosticados com transtornos e doenças como depressão e ansiedade tiveram os tratamentos mal prescritos. Não precisariam ter tantas prescrições de antidepressivos e ansiolíticos como a gente vê hoje. Uma das drogas mais prescritas hoje no Brasil, não sei se é a primeira ou a segunda, é o antidepressivo. Não acredito que a maioria destas pessoas está de fato depressiva para fazer uso destes medicamentos. Estas pessoas poderiam optar por alternativas mais saudáveis, com menos efeitos colaterais.

Tenho muitos pacientes oncológicos, que já sabem ou conhecem alguém que se beneficiou. A Cannabis estimula o apetite, melhora o paladar, o humor, a qualidade do sono, é analgésico, protege contra as dores da neuropatia periférica induzida pela quimioterapia.

Em que tipos de doenças o CBD pode ser ministrado?

Tenho muitos pacientes oncológicos, que já sabem ou conhecem alguém que se beneficiou. A Cannabis estimula o apetite, melhora o paladar, o humor, a qualidade do sono, é analgésico, protege contra as dores da neuropatia periférica induzida pela quimioterapia. É o que eu chamo de um remédio “cinco em um” – não há nenhum que se equipare a Cannabis neste tipo de tratamento. Tenho também pacientes com dores crônicas, neurodegenerativas, doenças autoimunes, depressão, insônia e ansiedade. E mesmo doenças raras, quando me sinto motivada de tentar, ainda que não saiba qual será o resultado, porque todas as outras terapias convencionais não funcionaram mais. O objetivo sempre é melhorar a qualidade de vida dos pacientes. A Cannabis não cura mas ajuda os pacientes a controlar os seus sintomas de maneira melhor.

Muita gente acha que medicina está baseada em “correção” de sintoma. O paciente muitas vezes chega ao consultório e acha que a Cannabis vai ser a solução do problema. Muitas vezes é o estilo de vida destes pacientes que os levam às doenças ou aprofundamento delas. A Cannabis pode ser uma ferramenta que pode ajudá-los a controlar os sintomas da doença mas o importante é identificar a causa “raiz” do problema.

A medicina integrativa ou funcional necessita de um olhar muito cauteloso. O médico funcional precisa perguntar para o paciente: 1) o que você come, 2) quantas horas você dorme, 3) seu sono é reparador, 4) qual é a capacidade de desintoxicação do seu corpo, 5) as suas relações são tóxicas ou não, 6) você gosta do seu trabalho, 7) você pratica atividade física, 8) como estão os seus hormônios, 8) como está o equilíbrio endócrino do seu organismo. Tudo isso conta na hora em que vou avaliar o paciente e entender que doença ele tem.

Existem vícios e hábitos. Uma taça de vinho por dia é remédio, mais de duas ou três pode ser droga. Existem pessoas com compulsão por tudo, refrigerante, café ou açúcar. Como explicar para um pai ou uma mãe e que tem um filho viciado sobre a importância do CDB?

O Cannabidiol não é uma substância que vicia. Tenho um paciente que fumava 10 cigarros de Cannabis por dia. Comecei a fazer um trabalho para ajudar a desintoxicá-lo e mudar seu estilo de vida. Não é um vício químico, é um vício psicológico, uma busca da sensação, muito diferente do vício da nicotina, que causa dependência química. O Cannabidiol está me ajudando com este adolescente, que passou de 10 cigarros por dia para dois em um mês. Sei que é difícil fazer esta transição mas posso dizer que estou muito feliz com os resultados.

A medicina tradicional aqui no Brasil é muito resistente à prescrição de drogas contra dor. Por outro lado, nos EUA há um boom na prescrição destes remédios como Propofol e que criaram uma crise de saúde. Aqui há pacientes terminais com qualidade de vida muito baixa, com muita dor. Como o CBD pode ajudar?

Depende muito do paciente, qual é o nível da dor. Muitas vezes não é possível atenuar a dor apenas com o uso do CBD sendo necessário associar uma ou outra substância ao tratamento, mas o paciente precisa querer. A Cannabis tem uma atuação sinérgica com os receptores opióides o que faz com que pacientes que utilizam medicamentos à base de derivados da morfina seja possível diminuir as doses com a Cannabis: os pacientes têm menos efeitos colaterais, menos interação, menos chance de se tornarem adictos a estas substâncias e melhora muito a qualidade de vida deles. Infelizmente os derivados da morfina impactam o intestino, o sono, o humor, enfim, há uma série de efeitos indesejáveis. O que temos visto é que conseguimos reduzir e, em alguns casos, até tirar o uso destes medicamentos. Nos casos dos pacientes terminais a substância escolhida é o THC que é mais associada a analgesia. Eu também tenho alguns pacientes que utilizam apenas o CBD que conseguiram a analgesia adequada e redução de doses de opióides. É tudo muito individual, é caso a caso. Não existe uma regra, um protocolo para todos. Em suma acho que a Cannabis e a junção das duas (CBD e THC) é uma ferramenta muito importante no universo da dor.

Em meu consultório, pergunto para o paciente porque ele acha que ficou doente, porque o corpo está manifestando uma doença. Se entendermos a doença como uma manifestação de algo que estamos fazendo fica claro que a alimentação é um dos pilares importantes da vida.

Me parece que neste nosso mundo contemporâneo vivemos em um processo crônico de inflamação, causado pelo acúmulo de substâncias e alimentos como glúten, lactose etc. A Cannabis pode ser uma ferramenta para diminuir esta “inflamação”?

Não acho que o Cannabidiol mudará o cenário – muitos pacientes já chegam ao consultório achando que isso vai acontecer. Não adianta arrumar de um lado e o paciente continuar estragando do outro, tendo uma alimentação inadequada baseada em pão, massa, macarrão, excesso de farináceos e substâncias que viram açúcar em nosso organismo. Um dos principais vilões da nossa alimentação é o açúcar, principalmente o excesso e que é considerado algo “normal” pela sociedade. Este é o pano de fundo de um processo inflamatório. Em meu consultório, pergunto para o paciente porque ele acha que ficou doente, porque o corpo está manifestando uma doença. Se entendermos a doença como uma manifestação de algo que estamos fazendo, fica claro que a alimentação é um dos pilares importantes da vida.

De certa maneira, a alimentação é a lenha que está sendo colocada na fogueira para que o nosso corpo inflame em um processo de muitos anos até manifestar alguma coisa.

As pessoas não acordam de um dia para o outro com artrite reumatóide. Isto acontece porque existem processos biológicos ao longo dos anos de inflamação do organismo, causados por uma série de fatores como a alimentação. A gente costuma associar o stress a uma situação mental ou emocional. As pessoas dizem estar estressadas por causa do trânsito, do banco, da família, dos problemas cotidianos e muitos esquecem que o problema principal pode ser a alimentação.

Açúcar é droga?

Sim, é uma droga. Há vários testes com ratos. Dois grupos são divididos: para um, são ministrados cocaína e para outros, açúcar. Descobriu-se que os ratinhos ficaram mais viciados em açúcar que em cocaína. O açúcar atua nas mesmas áreas cerebrais que a gente chama de “reward” (recompensa).

A nossa civilização esta viciada em açúcar?

Sim, tanto que a droga mais vendida no planeta é a insulina.

Entrei aqui para falar da CBD como uma droga e terminamos falando que o açúcar é uma droga!

Prefiro falar do aspecto anti-inflamatório da Cannabis nestes casos. Em pacientes que têm diabetes ou que tomam estatinas, por causa de colesterol elevado, o Cannabidiol tem um papel protetor das artérias, baixa a glicemia e ajuda no controle da inflamação. Outra vez: se não tiver uma dieta adequada eu não considero preventivo tomar Cannabidiol e continuar a se alimentar de pizza e macarrão três vezes por semana!

Não sei se o Dr. Dráusio Varella vai nos assistir mas estou muito curioso para saber qual é a opinião dele sobre CBD e se ele já estudou isso.

Ele fez um documentário (veja aqui o primeiro episódio da série) sobre este tema e penso que ele tem uma opinião favorável em relação ao uso da substância sim.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.

Fundador da Art Presse, 140 Online e do Jornal 140, empresário de comunicação, jornalista de formação e digital de paixão. Teve participação fundamental no lançamento da internet banda larga no Brasil em 1999. É autor do livro "Domingo no Sancho" (2018), Amazon Kindle.

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Qualidade de Vida

A maconha medicinal, finalmente, é liberada no Brasil

Para Dra. Paula Dall Stella, “a Cannabis não cura mas ajuda os pacientes a controlar os seus sintomas de maneira melhor; em pacientes oncológicos estimula o apetite, melhora o paladar, o humor, a qualidade do sono, é analgésico e protege contra as dores da neuropatia periférica induzida pela quimioterapia”

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Foto de Kimzy Nanney (Unsplash).

A maconha medicinal motivou alguns posts aqui no Jornal 140 que tiveram grande repercussão e muitos duvidavam que a manchete acima pudesse ser publicada. Pois hoje a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o regulamento para a fabricação, importação e comercialização de medicamentos derivados da Cannabis. Norma será publicada no Diário Oficial da União nos próximos dias e entrará em vigor 90 dias após a publicação. A fonte das informações deste post, que reproduzimos em partes, é a Agência Brasil.

Segundo a agencia, a decisão foi tomada por unanimidade pela diretoria colegiada da agência reguladora. O parecer apresentado em reunião ordinária pública nesta terça-feira (3), em Brasília, está disponível na internet.

O medicamento só poderá ser comprado mediante prescrição médica. A comercialização ocorrerá exclusivamente em farmácias e drogarias sem manipulação. Conforme nota da Anvisa, “os folhetos informativos dos produtos à base de Cannabis deverão conter frases de advertência, tais como ‘O uso deste produto pode causar dependência física ou psíquica’ ou ‘Este produto é de uso individual, é proibido passá-lo para outra pessoa’”.

Em 2 de junho deste ano o Jornal 140 publicou uma longa entrevista com a Dra. Paula Dall’Stella, especializada em Medicina Integrativa e no uso da Cannabis, veja aqui. Segundo ela, o CBD pode ser ministrado em pacientes oncológicos porque estimula o apetite, melhora o paladar, o humor, a qualidade do sono, é analgésico e protege contra as dores da neuropatia periférica induzida pela quimioterapia. É o que ela chamou de um remédio “cinco em um” – não há nenhum que se equipare a Cannabis neste tipo de tratamento. Na entrevista ela disse que também trata “pacientes com dores crônicas, neurodegenerativas, doenças autoimunes, depressão, insônia e ansiedade. E mesmo doenças raras, quando se sente motivada de tentar, ainda que não saiba qual será o resultado, porque todas as outras terapias convencionais não funcionaram mais. O objetivo sempre é melhorar a qualidade de vida dos pacientes. A Cannabis não cura mas ajuda os pacientes a controlar os seus sintomas de maneira melhor”.

“Essa é uma excelente notícia, um avanço. Torna mais democrática a possibilidade de prescrição”, assinala o neurologista Daniel Campi, vice coordenador do Departamento de Dor da Academia Brasileira de Neurologia (ABN). Segundo ele, pacientes que conseguiam autorização de uso do medicamento estavam gastando mais de R$ 2,5 mil por mês.

O Dr. Campi calcula que 70% da demanda antes da regulamentação da Cannabis para uso medicinal era para alivio de dor crônica (lombar e de cabeça). Também havia grande procura para casos de ansiedade e dificuldades de sono. A ABN prepara nota científica sobre fármacos à base de Cannabis.

A Associação Brasileira de Apoio Cannabis Esperança (Abrace) contabiliza centenas de pessoas que tiveram acesso ao medicamento para casos de epilepsia, autismo, mal de Alzheimer, mal de Parkinson e neuropatias. A entidade divulga nomes e contatos de mais de 150 médicos que já prescrevem medicamentos à base de Cannabis.

Projeto de Lei

A possibilidade de liberação da comercialização de produtos com Cannabis mereceu ao longo deste ano atenção constante do ministro da Cidadania, Osmar Terra, que é médico especializado em saúde perinatal e desenvolvimento do bebê, e faz restrições ao uso indiscriminado.

Tramita na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei nº 399/2015 que faculta a comercialização de medicamentos que contenham extratos, substratos ou partes da planta Cannabis sativa em sua formulação. Em seu perfil no Twitter, Osmar Terra declarou haver lobby empresarial em favor da liberação de medicamentos derivados da Cannabis. Ele também declarou ser contrário à regulação do plantio da Cannabis, já vetado hoje pela na Anvisa. O Conselho Federal de Medicina publicou nota em favor do posicionamento do ministro.

Para o clínico-geral Leonardo Borges, do Hospital das Clínicas e do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, “a possibilidade de uso recreacional existe em outros medicamentos como os fármacos de sildenafil, previstos para homens com disfunção erétil, mas consumidos por homens sem problema nenhum”. O médico, que já prescreveu medicamento a base de Cannabis, assinala que a decisão da Anvisa foi tomada “após grande revisão da literatura sobre o medicamento”.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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Qualidade de Vida

Autismo Tech: tecnologia como suporte para diagnóstivo e soluções sobre o tema

Evento reunirá especialistas em S. Paulo; inscrições vão até o dia 29 de novembro

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Foto: Anna Kolosyuk / Unsplash

Um grupo de especialistas de diversas disciplinas se reunirá em S. Paulo (FIAP, av. Lins de Vasconcelos, 1264, Maker Lab, Aclimação) no próximo dia 5 de dezembro no evento “Autismo Tech”, com o objetivo de discutir, encontrar soluções e trocar experiências sobre autismo com foco em tecnologia, design e diversidade no mercado de trabalho.

A tecnologia tem sido muito utilizada para melhorar a vida das pessoas, como é o caso de Carly Freischmann, que consegue se comunicar com a família por meio de um software de transcrição, um sistema similar ao que o Stephen Hawking utilizava. Outro exemplo de movimentação nesse sentido é a realização da 1a Challenge Autismo em 2018. Essa competição foi organizada pela FIAP em parceria com o Hospital Pinel com o objetivo de discutir o autismo e pensar em soluções inclusivas.

O autismo é um transtorno neurológico que se manifesta em cerca de 2% da população, ou seja, para cada 48 pessoas, 1 é autista. A procura pelo diagnóstico e soluções tem aumentado. Para os organizadores do Autismo Tech “é necessário entendermos melhor o assunto, suas nuances e começar uma movimentação para buscar soluções para transformar a vida dessas pessoas”. O acompanhamento de uma pessoa com autismo exige um time multidisciplinar. Esse time é composto por Fonoaudiólogos, Terapeutas Ocupacionais, Psiquiatras e Psicólogos. Além disso, pode haver a inclusão de fisioterapeutas e preparadores físicos. Tudo depende de cada caso; Em média, os gastos com a saúde de uma pessoa com autismo são cerca de quatros vezes mais altos do que em uma pessoa neurotípica.

Veja a lista de participantes: Joyce Rocha, UX designer na Zup, autista, apaixonada por pesquisa em acessibilidade digital e em experiência que podem mudar a vida das pessoas (LinkedIn); Caio Bogos, estudante de Sistemas de Informação na FIAP, analista de Pricing no UOL Diveo, fundador do projeto Puzzle e apaixonado por inovação (LinkedIn); Dra. Elise Lisboa, dra. em Psicologia de carreira dedicada ao desenvolvimento humano – típico e atípico, com extensa atuação profissional voltada ao Transtorno do Espectro do Autismo (TEA), militante da valorização da diversidade e do pleno desenvolvimento das capacidades individuais, impulsionando a qualidade de vida e cidadania; Amanda Rabelo, supervisora de marketing no Comitê Paralímpico Brasileiro, curiosa por entender o comportamento humano e a sua relação com o marketing relacionado à causas; Thaysa Torres, designer Gráfico do Comitê Paralímpico Brasileiro com intenção de acrescentar na carreira profissional a facilitação aplicada com Design Estratégico; Guilherme Estevão, head of Corporate Relationship na FIAP e agente de interlocução das empresas com os movimentos de inovação, de mudança de mindset organizacional e os novos formatos de atração de talentos (LinkedIn); Eraldo Guerra, mestre em Engenharia de Software pelo Cesar School, CEO e fundador do Cangame startup para tratamento e aprendizado de autista.

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*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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