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Comportamento

Emoji, o esperanto do século 21?

Sergio Kulpas

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Emoji, o esperanto do século 21?

Ao redor do mundo, a palavra mais vista em celulares e tablets não é uma palavra. É um desenhinho de um rosto risonho, com lágrimas. Trata-se de um “emoji” chamado “face com lágrimas de alegria”, registrado com o código U+1F602. Os emojis evoluíram dos antigos emoticons e podem se tornar uma língua franca mundial.

“Esperanto, lingo universala”. No século 19, o médico polonês Ludwik Lejzer Zamenhof criou a língua artificial Esperanto, que devia ser um idioma universal entre os povos da Terra. Criado a partir de linguagens românicas e germânicas (vocabulário) e eslavas (fonologia), o Esperanto tem hoje cerca de 2 milhões de falantes fluentes e 10 milhões de não fluentes. São números respeitáveis, mas não se comparam aos fluentes na nova língua artificial: os emojis usados nos celulares, computadores e outros aparelhos de centenas de milhões de pessoas.

A palavra “emoji” vem do japonês “絵文字”, que é união dos termos “e” (imagem) e “moji” (personagem). Os orientais estão acostumados a usar pictogramas para a comunicação. O mundo ocidental entrou em contato com os emojis quando a Apple incluiu um teclado específico para as figurinhas no iOS 5. Em 2011, o consórcio de padrões Unicode incluiu as figurinhas em sua versão 6.0. Desde então, o uso vem crescendo exponencialmente.

Há hoje uma discussão ampla se “Emoji” já pode ser considerado uma linguagem em si. Descendentes diretos dos “emoticons” que existem desde os primórdios da informática, os emojis transmitem uma grande variedade de significados – isolados ou em “sentenças”, como hieróglifos egípcios. Mas serão uma linguagem de fato, ou apenas um tipo de estenografia para transmitir mensagens rápidas, ou um recurso para os preguiçosos ou semi-alfabetizados?

O fato é que há cada vez mais pessoas “fluentes” em Emoji no mundo. O Instagram detectou que na Finlândia, os usuários já usam emojis em 60% dos textos que acompanham as fotos. Segundo o jornal inglês The Mirror, os linguistas dizem que o Emoji já é a língua que mais cresce no Reino Unido. O também inglês The Guardian especula em um artigo se estamos vendo o Emoji se tornar a primeira linguagem realmente mundial. A mesma pergunta se repete no jornal americano USA Today e em publicações de tecnologia como Wired e Motherboard. Essa explosão no uso de emojis em comunicações digitais se explica em parte porque são rápidos e práticos e transmitem contextos relevantes. As marcas e agências de publicidade já perceberam isso, e estão apostando em campanhas que usam emojis para atrair a atenção dos consumidores;

As marcas e anunciantes não deixaram de perceber essa explosão do uso de pictogramas eletrônicos nas mensagens, e veem aí uma nova plataforma de publicidade. Um artigo da Advertising Age mostra como as empresas estão buscando usar a nova linguagem pictórica para incluir seus logotipos e produtos na comunicação instantânea de milhões de pessoas. Para acompanhar a velocidade e as tendências de uso dos emojis, existe o Emojitracker – o site monitora em tempo real os emojis mais populares no Twitter.

Seja como for, nos smartphones da Apple ou do sistema Android, o Emoji já figura como “opção” de linguagem global, situado em ordem alfabética entre o holandês (Dutch) e estoniano. O “vocabulário” tem 722 símbolos oficialmente registrados em Unicode, mas figurinhas independentes surgem a cada dia ou hora. O mesmo emoji pode ter aparência diferente no iOS e no Android.

E o mesmo desenho pode ter significados diferentes, de acordo com a nacionalidade e cultura. O desenho de um buquê de flores brancas pode significar uma coisa para um francês, e outra totalmente diferente para um chinês, por exemplo. Essa matéria do The Standard apresenta 10 emojis que fazem sentido para os moradores de Londres, e talvez não sejam entendidos em outros lugares. Talvez o Emoji não seja uma língua tão universal assim – ou será uma língua comum neste bendito século, mas com muitos sotaques regionais…

Para ilustrar, o sucesso da Disney “Frozen”, contado com emojis:

Foto: Fausto García / Unsplash

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.

Sergio Kulpas é escritor e jornalista, com 25 anos de atividade em redações. Passou pela Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Gazeta Mercantil, Diário do Comércio, Meio & Mensagem e vários sites especializados em comunicações e mídia.

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Comportamento

O ponto de Deus: por que ninguém fala de inteligência espiritual?

Ao contrário do quociente intelectual e do quociente emocional, a inteligência espiritual tem sido relegada a segundo plano.

Isabel Franchon

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Foto: Fotosearch

O conceito não é novo, pelo contrário. O livro “QS – Spiritual Quociente”, da física e filósofa norte-americana Danah Zohar em parceria com o psiquiatra Ian Marshal, foi lançado em 2000, portanto há quase 20 anos. Sustentado sobre pesquisas científicas feitas ao longo de uma década nas áreas de neurologia, neuropsicologia e neurolinguística, o livro mostra que o QS é a base para que o QI (Quociente Intelectual) e QE (Quociente Emocional) operem em conjunto, de modo eficiente. Mas o assunto sobre o qual se fala é apenas o QE, ou Inteligência Emocional. Será tabu? Melhor desmistificar.

Espiritual vem do latim spiritualis, que quer dizer, de acordo com Houaiss, “próprio à respiração, relativo ao espírito humano”, portanto, o que dá a vida a um sistema. Ocorre que espiritualidade é confundida com organizações religiosas, sistema de crenças teológicas, opções pessoais. Não se trata de ser agnóstico, ateu, católico, budista ou espírita; trata-se de reconhecer em si a capacidade – ou característica – inerente ao ser humano.

Absolutamente nada contra nenhuma religião ou aceitação de uma realidade metafísica! Apenas um outro enfoque que nos leva a reconhecer essa dimensão interior do ser humano que não vive só para suprir suas necessidades básicas para sobreviver, como os animais. Encontrar um significado, um propósito maior pelo qual viver é natural e nos leva sempre a questionar sobre nossas ações e a buscar uma maneira melhor de executá-las. Mas voltemos às Inteligências. Sim, Inteligências.

No início do século passado, a ideia era a de que o ser humano tinha uma organização neural que permitia pensar de forma lógica e racional – surgiu então o conceito de QI – Quociente de Inteligência, quando testes mediam o nível de inteligência do indivíduo através de qualidades lógicas. Isaac Newton tinha 190; Einstein, 160!

Na prática, no entanto, nem sempre os mais bem-dotados intelectualmente eram os mais competentes para exercerem determinadas funções: gênios tinham, por exemplo, extrema dificuldade para os relacionamentos ou para a vida prática. O conceito de Inteligência Única foi então ampliado para Inteligências Múltiplas (IM) pelo psicólogo e pesquisador americano Howard Gardner, na década de 80, que chegou a oito diferentes habilidades naturais que compunham o conceito. Mais tarde, ampliando para onze.

Foi só em 1995 que o psicólogo Daniel Goleman apresentou o conceito de Quociente Emocional (QE) ou Inteligência Emocional – que dá ao ser humano a capacidade de reconhecer seus sentimentos, lidar com suas emoções e, consequentemente, reconhecer as emoções dos outros criando relações mais saudáveis. E sobre Inteligência Emocional não é preciso falar, porque todo mundo lê, todos os dias, inúmeros artigos sobre o assunto, participa de workshops para aprender a ter IE, discute em grupos. Extremamente importante, sem dúvida!

Voltemos então a falar de QS, a Inteligência que é a base essencial para que todas as outras operem com eficiência – porque vai muito além das capacidades intelectual e emocional ao colocar as ações e experiências num amplo contexto de sentido e valor.

Na década de 90, Vilanu Ramachandran, neurologista, e Michael Persinger, neuropsicólogo, identificaram, através de escaneamentos no cérebro, uma área que se iluminava a cada vez que as discussões giravam em torno de temas espirituais. Nas inúmeras repetições dos testes, identificaram, nas conexões neurais nos lobos temporais, um ponto ligado à necessidade humana na busca do sentido da vida, ao qual chamaram de “o Ponto de Deus”.

Numa sociedade em crise como a nossa, onde o assunto espiritualidade provoca um certo desconforto, vale a pena falar do ponto de vista científico. Segundo Danah Zohar, a Inteligência Espiritual está ligada à nossa necessidade de ter um propósito de vida que usamos para desenvolver valores éticos e crenças que norteiam nossas ações em sociedade. É uma inteligência que nos impulsiona, que transforma nossa vida deixando-a mais rica e cheia de sentido. E encontrar esse sentido mais amplo, para além da sobrevivência, é uma necessidade que sempre esteve presente na história da humanidade; leva-nos a compreender o “sentido de pertencer”, de fazer parte de algo maior ao ampliar a nossa percepção de que somos todos interligados e interdependentes nesse grande círculo de relações em que vivemos, abarcando também o planeta.

É a nossa Inteligência Espiritual, em maior ou menor grau, que nos faz sair em busca da autoconsciência; desenvolver qualidades baseadas em valores como o amor, a compaixão, a capacidade de perdoar, a tolerância, a paciência, a harmonia, a responsabilidade perante o mundo que nos leva a acreditar nas pessoas; que nos dá capacidade para lidar com as adversidades e a capacidade de ir além dos nossos interesses pessoais ao compartilhar nossas ideias.

Desenvolver a Espiritualidade é apenas usar nossa Inteligência Espiritual para transformar o mundo em um lugar melhor, agindo com base em motivações mais elevadas – tomar atitudes a partir do que temos de melhor, a nossa dimensão interior, a nossa capacidade de reconhecermos nos outros a nossa própria humanidade, aceitando a diversidade e nos movimentando para o bem comum.

O potencial está aí, faz parte de todos nós; o que nos falta é apenas recuperar a consciência de que cada um é responsável por si mesmo. E – devido à nossa conexão espiritual – também por todos.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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Comportamento

O menino é o pai do homem

Não é viável excluir algum segmento populacional do debate sobre educação sexual, ou restringir os espaços em que ele ocorre.

Paula Akkari

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Foto: Vimeo

Com a incerteza da permanência dos necessários debates sobre educação sexual nos colégios, fui convidada a lembrar de eventos da minha vida escolar. Pincelo alguns deles, com o saber de que os sofrimentos decorrentes deles seriam multiplicados se interseccionados com questões de raça e classe.

(Aviso de gatilho para assédio sexual e questões corporais)

No Ensino Fundamental, os garotos descobriram que meninas tem seus corpos desenvolvidos, sendo cada um único e incompatível com os propagados pela mídia. Mal resolvidos, tentavam organizar a realidade ranqueando a beleza das garotas da sala, xingando as magras, ridicularizando as gordas e espalhando desenhos caricaturescos das remanescentes. Por vezes, se organizavam no corredor do banheiro para passar a mão no corpo das meninas que lá passavam desacompanhadas. Por outras, tiravam em seus Nokias fotos de pares de pernas em shorts, para posterior propagação no MSN.

Mudei de escola no colegial. Não houve repetição dos fatos por ter ocorrido uma atualização deles, proporcionada por aumento de repertório intelectual e disponibilidade de recursos tecnológicos. A moda masculina da época era os meninos divulgarem suas (supostas) experiências sexuais, acrescentando maldizeres a toda e qualquer colega (hipoteticamente) sexualmente ativa. No ambiente virtual, as ações multiplicavam-se inconsequentemente nos aplicativos de mensagens anônimas. Por fim, vale citar o marcante evento “concurso de beleza” no último dia de aula, quando os garanhões saudosos gritavam notas como “gostosa”, “gorda” e “sem sal” para as estudantes arrastadas ao palco.

Havia uma tentativa de justificar as agressões via “hormônios” e “inocência” e a promessa de que “com o tempo elas melhoram”. Além de ser ridículo reduzir manifestações de violências estruturais ao âmbito pessoal, as premissas são empiricamente comprovadas falsas. Uma ilustração recente de suas desonestidades é o fato do sexagenário presidente Jair Bolsonaro ter zombado da aparência física da professora e primeira-dama Brigitte Macron em rede social.

A sugestão machadiana reverbera: “o menino é o pai do homem”. Brás Cubas “cresceu e a família não interveio”, “mereceu desde os cinco anos a alcunha de menino diabo, verdadeiramente não foi outra coisa; foi dos mais malignos de seu tempo”. O resultado não teria como ser diferente da tragédia anunciada.

Não é viável excluir algum segmento populacional do debate sobre questões sociais ou restringir os ambientes em que ele acontece . É necessário persistir na conscientização de que interesses mobilizam os homens a reproduzirem machismos e mostrar que eles produzem consequências negativas inclusive em suas próprias vidas. Até quando eles serão protegidos pela consideração, por tempo indeterminado, de que são “apenas meninos”?

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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