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Comportamento 5 MIN DE LEITURA

2019: O universo de “Blade Runner” e o tecno-fascismo

Sergio Kulpas

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Com “Blade Runner 2049”, completa-se a descrição de um tenebroso mundo futuro imaginado originalmente pelo escritor Philip K. Dick no romance “Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?”, escrito em 1968. A adaptação para o cinema feita por Ridley Scott em 1982 se tornou um cult-movie, e o novo filme dirigido por Denis Villeneuve deverá seguir o mesmo caminho em seu devido tempo.

O ponto em comum entre o romance de PKD e os dois filmes é a especulação sobre um futuro onde a humanidade arruinou o meio ambiente na Terra de modo catastrófico e irreversível, com mortandade e extinção da grande maioria de espécies de animais e vegetais.

Na história de PKD, esse momento catastrófico para o ambiente natural é situado no começo dos anos 1990. No filme de Ridley Scott, o apocalipse é fato consumado em 2019. No filme de Villeneuve, é 2049. São datas arbitrárias, todas pensadas em relação ao ponto de partida dos autores – para Philip K. Dick, os anos 90 eram bem distantes de 1968, como 2019 era um futuro razoável em relação a 1982. Os anos 1990 reais foram diferentes, e 2049 ainda é uma incógnita.

Mas estamos justamente em 2019. E em 2019, Los Angeles corre o risco real de se tornar uma metrópole semi-abandonada, no meio de um deserto ressecado, castigado por terremotos e incêndios. O estado da Califórnia sofre há muitos anos com a desertificação causada pelas mudanças climáticas.

No romance está clara a genialidade visionária de Philip K. Dick: no meio do caos causado pela degradação da natureza no mundo, emerge uma grande corporação (Rosen Association no livro, e Tyrell Corporation no filme de 1982) que enriquece produzindo cópias artificiais de animais. Como a maioria dos animais está extinta, possuir um animal de verdade é o derradeiro símbolo de status em uma sociedade que tenta manter os dogmas do capitalismo e consumismo. Quem não tem recursos para ter um cachorro, gato ou porquinho-da-índia de verdade, compra um simulacro perfeito que pode ser exibido em público. A corporação Rosen/Tyrell jamais pensou em usar suas habilidades para resolver os problemas do mundo: concentrou-se em explorar um nicho de mercado e faturar o máximo possível com ele. Dos bichos de estimação de mentira para cópias de seres humanos foi apenas um passo lógico na visão empresarial.

Os robôs/androides levam a corporação ao domínio absoluto da economia. Com os androides Nexus, torna-se possível a colonização de planetas distantes, para onde a elite da Terra foge, deixando para trás os escombros de um mundo arrasado. Na Terra, permanecem “apenas” os bilhões de excluídos, inválidos, todo o espectro da pobreza.

No filme de 1982, essa sociedade deixada para trás ainda tenta viver um arremedo de vida normal: Los Angeles parece uma metrópole animada, com seus mercados, barracas de comida oriental, engarrafamentos, clubes noturnos onde os bacanas vão tomar bons drinques e assistir a performances eróticas, etc. Tudo isso em uma atmosfera quase irrespirável, com gigantescas usinas/refinarias cuspindo fogo do alto de suas torres, escuridão e chuva permanentes.

Em 2049, não há sequer esse arremedo de vida normal. Um atentado nuclear nos anos 2020 aniquilou com boa parte da infraestrutura urbana, piorando consideravelmente a qualidade de vida dos milhões de moradores da conurbação formada por Los Angeles e San Diego, “San Angeles” (ou “Favelangeles”, ao meu ver). Centenas de quilômetros de barracos em condições muito mais precárias do que as piores favelas atuais em São Paulo ou no Rio de Janeiro.

A Tyrell Corporation está falida no filme ambientado em 2049, seu patrimônio foi arrematado por Niander Wallace, um magnata multibilionário que salvou a população da Terra da fome ao criar novas tecnologias de produção de alimentos em um mundo onde nada floresce ou frutifica. O personagem parece uma combinação dos magnatas reais Jeff Bezos (dono da Amazon) e Elon Musk (criador do PayPal, da SpaceX e da Tesla Motors). Excêntrico e carismático, Wallace retoma a produção de replicantes Nexus (proibidos por lei na Terra), com o projeto de torná-los “auto-replicáveis” (isto é, capazes de se reproduzir sexualmente), para facilitar (isto é, baratear) o processo de colonização em novos planetas, por meio de escravos obedientes, que gerem novos escravos. Wallace sequer considera usar os recursos de sua imensa corporação para melhorar a vida dos infelizes humanos que ainda penam sobre a Terra.

Na Los Angeles de 2049, o mundo se desintegra em círculos dantescos. A megalópole é um formigueiro desesperado, populada por humanos e replicantes sem esperança, uma favela infinita onde tremulam ocasionais hologramas que anunciam produtos sem sentido, logotipos de empresas falidas e imagens sensuais de belezas inexistentes. Um lixão gigantesco recebe diariamente os resíduos de todo esse desperdício, esses estertores de uma espécie moribunda. Esse circo de aflições e simulações é protegido por uma muralha altíssima, construída para impedir que o oceano avance e mate de vez os cupins humanos.

No painel sombrio criado por PKD, Ridley Scott e Villeneuve, a nota de esperança é a insinuação de que os replicantes capazes de se reproduzir serão os herdeiros da espécie humana, que ruma para a extinção. Herdeiros melhores que nós, mais fortes, inteligentes e compassivos que seus criadores. Roy Batty salva Rick Deckard da morte, enquanto ele mesmo agoniza. O agente K/Joe é capaz de ato similar de compaixão desinteressada. A elite humana apresentada nos filmes se preocupa exclusivamente com os lucros.

O fascismo tecnológico, ou tecno-fascismo, é a derradeira materialização do totalitarismo, onde as massas humanas, além de serem totalmente manipuladas e oprimidas, efetivamente não possuem qualquer valor. Nem como produtoras de conteúdo, nem como mão-de-obra. No tecno-fascismo, não é preciso berrar slogans ou estampar outdoors gigantes com o rosto do Grande Irmão, nem manter a população hipnotizada por meio de drogas e entretenimentos vazios. Tudo já foi para as cucuias mesmo, para que se dar a esse trabalho? Num mundo em escombros, os princípios econômicos que ainda existem estão ocultos e foram do alcance das pessoas comuns. A elite que efetivamente controla esse inferno sequer cogita o genocídio da massa desesperada. Não por misericórdia, mas pelo custo que uma operação dessa poderia representar.

Vivemos atualmente alguns rascunhos dessa ideia. Aos sinais muito alarmantes de degradação ambiental causada pela humanidade soma-se a crescente perda de direitos essenciais do ser humano em várias sociedades, incluindo as que são consideradas mais avançadas. A insegurança alimentar, a queda no valor do trabalho, a erosão da privacidade em escala mundial, a extinção e/ou substituição assustadora de várias profissões por sistemas de Inteligência Artificial. Uma precarização das atividades humanas, incluindo as mais básicas. Por exemplo, dois ex-funcionários do Google que há pouco tempo lançaram alegremente um aplicativo chamado “Bodega”, onde o usuário usa o celular para comprar itens simples em máquinas automáticas (cigarros, camisinhas, isqueiros, chips de celular, etc.), sem a menor preocupação com o fato de que essas máquinas podem causar um imenso desemprego entre os imigrantes pobres nos EUA, que operam mercadinhos de esquina chamados justamente de “bodegas”.

A partir de um certo ponto de vista, “Blade Runner” é a ficção-científica mais pessimista já criada. Supera os horrores de “1984” e de “Admirável Mundo Novo”, por postular esse tipo de fascismo tecnológico sem qualquer escrúpulo, onde é difícil definir quem é o autor das piores decisões – um ser humano ou um algoritmo?

Foto: Iswanto Arif / Unsplash

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.

Sergio Kulpas é escritor e jornalista, com 25 anos de atividade em redações. Passou pela Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Gazeta Mercantil, Diário do Comércio, Meio & Mensagem e vários sites especializados em comunicações e mídia.

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Comportamento 2 MIN DE LEITURA

Por que temos tanto medo de errar se dizem que errar é humano?

Como trabalhar esse sentimento que nos paralisa e impede de alcançarmos nossos objetivos

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Foto: Andre Hunter / Unsplash

O medo de errar é um sentimento que aprendemos a carregar desde a nossa infância. Tudo começa quando fazemos algo de errado – ou não da maneira 100% correta – quando crianças e muitas vezes recebemos olhares de desapontamento ou desaprovação. Depois vamos para a escola onde somos avaliados por meio de provas e atividades nas quais os erros são vistos como fracasso e não colocados como um princípio para aprendizagem. De forma bem grosseira, o lema no colégio geralmente era ‘demonstre ser inteligente e faça de tudo para não parecer burro’.

Quantas vezes deixamos de perguntar uma dúvida para os professores com medo de sermos julgados pelos colegas? Ou mesmo hoje na fase adulta, durante as reuniões, quantas vezes deixamos de expor opiniões por achar que podem não ser relevantes?

O medo é um paralisador de conquistas e gera uma ansiedade enorme. Tememos os erros e procuramos evitá-los ao máximo mesmo que custe a nossa felicidade. Percebem? Muitas vezes escolhemos ficar dentro da zona de conforto, mesmo que signifique abandonar nossos sonhos ou que a situação esteja ruim – pois, de certa forma, já estamos familiarizados e acostumados com a situação. Então deixamos de arriscar, de ver o que poderíamos ganhar, conquistar, viver, pela possibilidade de fracasso. Possibilidade, o que significa que é um medo criado e não real.

Enfrentando os nossos medos

Particularmente, eu não gostava de expor minhas ideias em público, por medo de ser julgada, de não ser “boa o bastante”, mesmo que me custasse ter visibilidade, oportunidades, e hoje vejo minhas publicações ou participações em palestras e treinamentos, por exemplo, como uma conquista enorme. Percebo que muitas vezes nem tudo sai como planejado, mas essa é a graça. Estou aprendendo a deixar-me ser vulnerável e assim percebi que só com a prática conseguimos mudar algumas crenças que temos sobre erros e acertos.

Pense: Qual é o significado que a palavra ERRO tinha para você? E agora?

Abaixo listei algumas sugestões que podem ajudar você a lidar com situações críticas:

• Perceba de onde vem o medo. É uma questão de insegurança? Observar isso pode ajudar você a analisar o que falta / deve ser trabalhado para seguir em frente.
• Como estão seus pensamentos sobre a situação? Muitas vezes surgem os medos criados por imaginarmos tudo o que pode dar errado ao invés do contrário.
• Pergunte-se: Caso tudo dê errado, o que pode acontecer?
• O que você ganha enfrentando/trabalhando esse medo? O que você perde se não enfrentar?
• Trabalhe seu modelo mental a respeito de erros e acertos. Mude a forma como você enxerga seus erros.
• Se errar, seja gentil com você e entenda que faz parte do processo.

Novamente aqui entra a resiliência, que é a nossa capacidade de lidar com os nossos problemas, de superar obstáculos mesmo diante de situações adversas e aprender com isso. Falo sobre o tema aqui.

Cada tentativa falha, cada erro, cada luta nos mostra algo sobre nós mesmos e aprendemos com isso. Nossos erros, principalmente, são convites para reflexão. E mesmo as piores falhas são evidências de que tentamos, são provas da nossa bravura por nos deixarmos ser vulneráveis.

Lembre-se de um momento que você superou os seus medos. O que você aprendeu com ele?

Quero saber a resposta!
analucia@trevo360.com.br | @trevo360

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Comportamento 2 MIN DE LEITURA

A polêmica dos corpos reais

Pensemos em tudo o que faríamos quando desprovidos de pressões estéticas.

Paula Akkari

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Foto: Lethu Zimu / Unsplash

No fim de dezembro, os feeds de notícias ficaram saturados pelos compartilhamentos de uma postagem de marca de cosméticos contendo uma mulher negra de biquíni com celulites à mostra.

Apesar de a imagem estar longe de ser original, é relativa novidade que a indústria da beleza se preocupe em divulgar imagens de corpos minimamente coerentes com a realidade. Eis a dinamicidade capitalista: o mercado é adaptável às demandas. Muitos nomes souberam se apropriar do desejo de desconstrução de ideais de aparência vigentes, posição em destaque desde a primavera feminista. Adicionalmente, muitas dessas empresas ganharam visibilidade devido aos elogios segmentos liberais dos movimentos.

Tais concepções, a serviço do capital ou não, refletem a incongruência do real com o (nem tão) antigo modelo estético, inevitavelmente fadado à falência. O que é feito para atrair um nicho consumidor é um dos sintomas da insustentabilidade dos padrões de ser.

Mas, haveria vitórias no microcosmo ou novidades transformadoras de épocas? A representatividade mostra-se insuficiente,  as ficções midiáticas alienantes compõem os processos de subjetivação de todos, sendo especialmente tóxicas para mulheres, pessoas negras, trans, gordas e/ou pobres. Quanto aos costumes relacionados à vaidade, são naturalizadas as mutilações, cirurgias e despesas demasiadas. O processo de gostar da própria imagem não é consequência delas, mas por diversas vias, um alvo cruelmente bombardeado.

Assim, cada episódio empoderador é passível de comemoração. Obviedades, infelizmente não redundantes, devem ser ressaltadas: corpos são de todos os tamanhos e cores; apresentam assimetria, odores, secreções, texturas, gorduras, estrias, celulites, espinhas, manchas, cicatrizes, pelos…

As constituições físicas, em suas autenticidades, são as materialidades no mundo, o intermédio de cada ser com o exterior. A elas devemos todas as experiências sensoriais, cada alimento saboreado, música ouvida, paisagem vista, orgasmo atingido.

Cuidar do corpo é um dos caminhos para a merecida paz com ele. Essa prática, diferente do modista “autocuidado” simpático ao status quo, consiste em promoção de saúde. Exemplos de ações caras são, conforme a viabilidade de cada rotina, dormir uma quantidade de horas diárias próximas a sete, manter a alimentação saudável (incluindo a ingestão do que gosta), entrar em contato com o sol com proteção e praticar atividades físicas – o hábito aumenta a disposição e a imunidade, diminui o estresse, melhora a postura e fortalece as articulações.

Os ambientes virtuais e físicos, ademais, são variáveis relevantes aos encaminhamentos. Nem toda toxidade é evitável, entretanto, vale deletar das redes sociais os perfis que obstaculizam desenvolvimentos e ignorar/rebater falas contraproducentes. Outra benevolência é a evitação ativa de comparações com terceiros – elas nem ao menos fazem sentido, afinal, são entre diferentes sujeitos.

Por fim, vale a reflexão a respeito do tempo e do esforço em encaixar-se em padrões já desmascarados, ou estar bem apesar deles. Como seria mais bela, criativa e simples a vida livre da ditadura em que estamos inseridos. Pensemos em tudo o que faríamos quando desprovidos de pressões estéticas. Pois façamos desde agora.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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