Bolsonaro, Lula ou Batman?

Todos nós passamos boa parte da infância elegendo personagens fictícios criados para nos encorajar à vencer. Alguns destes usam capas, outros têm poderes paranormais mas, de forma geral, todos trazem a mesma mensagem “o bem sempre vence o mal”.

Mas o que, enfim, é o mal?

Pablo Escobar Gaviria é considerado um dos maiores traficantes da história do narcotráfico, no mundo. Responsável confesso por milhares de assassinatos e dezenas de ataques terroristas contra os seus próprios conterrâneos.

Retratada em “Narcos” e em “El Patrón del mal”, séries produzidas e veiculadas pela Netfix, sua história nos apresenta uma realidade dúbia ao expor que uma parte considerável da população colombiana o considera, até o presente momento, um herói – ou Santo Escobar, como ilustra os cartazes que ainda decoram casas, em bairros de extrema pobreza ajudados pelo Patrón.

Matematicamente, a personalidade de Pablo Escobar deveria ser concluída sob a média entre os seus atos bons e os seus atos ruins. Mas quem disse que o nosso senso de julgamento têm raízes em exatas? A nossa “calculadora” arbitrária se baseia nas experiências vividas ou sensibilidade para com a causa apresentada. Logo, se você já perdeu um ente querido por causa das drogas, provavelmente você fará parte da parcela mundial que o condena. Contudo, se tivesse sobrevivido às precárias condições do saneamento colombiano graças às obras de caridade realizadas por Escobar na época, talvez você jogaria no time de defensores do narco.

Subentendo, então, que o julgamento entre o bem e mal é relativo; E que não deve ser fácil ser o Bruce Wayne.

Façamos agora uma ponte aérea da Medelim de Escobar para Brasília/DF – vamos trocar de narcotráfico para tráfico de influência e juntos (e shallow now) promover uma análise reflexiva:

Em qual dos seguintes grupos você se encaixa?

• Massa de manobra ou Apoiador de golpista?
• Cidadão de bem ou Defensor das minorias?
• Bolsominion ou À favor do Luladrão?

Matematicamente, eu diria, dessa vez não se pode calcular. Pois ao contrário de Pablo Escobar, que foi eleito como Persona non grata e também como Santo, após os seus atos, na política primeiro nós elegemos para depois avaliarmos. Logo, se nos embasarmos em um conceito de justiça (palavra forte para o período que vivenciamos, eu sei) concordaremos que todos temos boas e más experiências de todos os governos, e que prover títulos que nos dividam entre ‘o time com camisa’ e ‘o time sem camisa’, na verdade só descaracteriza o nosso poder enquanto povo.

Subentendo, então, que a soma, e não a divisão, seria o mais sensato (agora coube um pouco de exatas); E que deve ser difícil ser eleitor em um país onde os políticos fazem uso de técnicas de manipulação neurocientífica para angariar votos (proteger Gothan city é fichinha!).

Neurociência: Quem quer ser o Batman?

O neurocientista e cinesiológo E. Paul Zehr desenvolveu uma tese que ensina como uma pessoa pode se tornar o Batman – analisando a fisiologia, treinamento e força de vontade que uma pessoa precisa para isso. O especialista garante: mesmo que você nunca faça parte da Liga da Justiça, você ainda pode se tornar mais parecido com o Cavaleiro das Trevas.

Zehr é professor de cinesiologia e neurociência na Universidade de Victoria, em British Columbia, no Canadá. Ele também é o autor de dois livros sobre a ciência de super-heróis: “Becoming Batman: The Possibility of a Superhero” (“Tornando-se Batman: A Possibilidade de Um Super-herói”, em tradução livre) e “Inventing Iron Man: The Possibility of a Human Machine” (“Inventando o Homem de Ferro: A Possibilidade de Uma Máquina Humana”, em tradução livre). Ele também escreveu um livro de ficção voltado para pré-adolescentes, “Project Superhero” (“Projeto Super-Herói”, em tradução livre).

O especialista faz palestras pelo mundo todo e sempre as inicia com a mesma pergunta: “Quantos de vocês gostariam de se tornar o Batman, a Batgirl ou o Homem de Ferro?” Como resposta, em média, a maioria dos presentes erguem as mãos.

Ele então emenda uma segunda questão: “E se eu dissesse a vocês, àqueles que querem se tornar o Batman, que há um processo envolvido e este processo dá muito trabalho, quantos ainda gostariam de assim o ser?”. Ele então descreve o tempo e treinamento que seriam necessários, e como consequência o número de mãos erguidas é dizimado.

Eis a questão e a resposta: sentimo-nos aptos a julgar, mas nem sempre dispostos a fazer melhor – mas por quê?!

Como o nosso cérebro nos faz escolher entre Batman, Lula ou Bolsonaro?

O cérebro humano é o órgão mais complexo do nosso corpo. Tem 86 bilhões de neurônios, que podem formar até 100 trilhões de conexões. Se fosse possível criar um computador com o mesmo número de circuitos do cérebro, ele consumiria uma quantidade de eletricidade de 60 milhões de watts por hora, segundo uma estimativa de cientistas da Universidade Stanford. O equivalente a 0,4% de toda a energia produzida pela usina de Itaipu. Contudo, o cérebro humano gasta apenas 20 watts por hora, menos que uma lâmpada de LED, e consegue realizar façanhas extremamente complexas que deixam qualquer Macintosh com inveja.

Claro que para que esta proeza seja possível, o nosso cérebro faz uma série de economias, de forma que a ciência já comprova que nós passamos 4 horas de cada dia no “modo avião”. Isso mesmo, nem todas as nossas ações/ decisões são processadas do zero pela nossa máquina pensante, a grande maioria são projeções cerebrais baseadas em nosso histórico de vivência – sabe quando você dirige até um local e ao chegar conclui que não sabe como chegou até lá? Pois é, você não é maluco (ufa), o seu cérebro reprojeta comportamentos repetitivos para poupar esforços.

Esta mesma economia também é feita durante o nosso processo de julgamento. Por isso, muitas vezes, julgamos o livro pela capa (nossos valores vividos são projetados instantaneamente fazendo com que julguemos as pessoas por sua aparência, vestimenta ou escolhas políticas). Ou seja, o seu cérebro quase não faz esforço para que você conclua se Sérgio Moro é corrupto ou não (uma análise morfológica sobre o tema faria com que o nosso córtex gastasse infinitamente mais energia, e isso não seria legal). Por isso é válido dizer que o nosso método “racional” de julgamento é muito mais passível de falha do que de acerto, afinal o nosso cérebro mente para nós, descartando algumas informações para simplificar a realidade e “economizar dados”.

“São efeitos colaterais do funcionamento normal do cérebro”, diz Suzana Herculano-Houzel, neurocientista da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Nosso cérebro trabalha com dois tipos de pensamentos: o rápido-intuitivo e o lento-analítico. O primeiro é uma projeção instantânea (como explicado no parágrafo anterior) para decisões imediatas e o segundo é uma espécie de garantia para o primeiro.

Ao decidir para onde viajar no verão, por exemplo, podemos considerar ir para Cancún ou à Maragogi. Mas por que apenas esses dois lugares surgem como alternativas, no momento? Por que não Marrocos ou Manaus? Resposta: o pensamento rápido-intuitivo já estava inclinado a estas opções, antes mesmo do momento em que você se sentou em frente à agente de viagens, restringindo os números de opções – do contrário, as férias acabariam e você ainda estaria a analisar todas as reais possibilidades de roteiros.

Entende agora como os testes psicológicos do Detran são realmente eficazes? A forma como traçamos uma reta em uma folha de papel pode sim apontar nosso perfil comportamental (pois as projeções instantâneas são resultados das nossas experiências, memórias e sentimentos). Ainda não acredita? Então te desafio a responder a questão abaixo:

Com R$ 1,10, você pode comprar um café e uma bala. O café custa R$ 1 a mais do que a bala. Quanto custa a bala? Responda rápido. Dez centavos, certo?

Sinto informar, mas seu cérebro acabou de te enganar (o meu também, se isso te conforta, rs). A resposta correta é R$0,05.

Este desafio é parte do livro “Thinking, Fast and Slow” (Pensando, Rápido e Devagar, ainda sem versão em português), escrito pelo psicólogo israelense Daniel Kahneman, ganhador do Prêmio Nobel de Economia, em 2002, por suas pesquisas sobre o comportamento humano.

Ao responder R$0,10 você usou o pensamento rápido-intuitivo (aquele que nos enganou). A resposta correta seria R$0,05. Se a bala custasse R$0,10, o café custaria R$1,10 – e o total daria R$1,20.

A teoria mais famosa de Darwin explica porque a maioria das nossas conclusões e julgamentos tendem a ser mais instintivas do que racionais:

Se considerarmos que o Córtex pré-frontal, que é a região do nosso cérebro responsável pelo processamento lógico de informações, foi desenvolvida após a evolução Sapiens sapiens, enquanto os instintos baseados em emoções acompanham toda a história da evolução humana desde o início, compreendemos. Ou seja, não somos tão racionais como achamos ser.

Um outro dado importante revelado em um estudo, feito pela University College London, é que todos nós tendenciamos ao otimismo. Durante a pesquisa, a atividade cerebral de voluntários foi registrada enquanto eles imaginavam situações futuras (o que você irá almoçar amanhã, por exemplo). O mesmo registro foi feito para situações de passado vivenciadas por cada um (uma viagem feita, por exemplo).

O resultado apontou que as mesmas estruturas cerebrais são ativadas para recordar o passado e imaginar o futuro. Só que, ao imaginar o futuro, os voluntários criavam cenários magníficos (otimistas).

“Cerca de 80% das pessoas têm tendência ao otimismo, algumas mais do que outras”, afirma Tali Sharot, em seu livro “Optimism Bias” (O Viés do Otimismo, ainda sem versão em português), o otimismo é sempre mais comum que o pessimismo – seja qual for a faixa etária ou o grupo socioeconômico da pessoa.

Toda esta neurociência exposta acima prova o quanto as nossas escolhas políticas são, na maioria dos casos, muito mais insensatas do que realistas, uma vez que a maior parte da população se baseia em manchetes sensacionalistas e posts de Facebook para tomada de decisão (pensamento rápido-intuitivo).

Para que não cometamos o mesmo erro nas próximas eleições, a sugestão é nos permitirmos fazer uso do modo de pensamento lento-analítico: pesquisarmos a fundo o histórico econômico do país, os precedentes de cada item no cardápio de candidatos e fazer comparativos realmente lógicos. Isso dá trabalho? Dá! Gasta mais energia cerebral? Ô se gasta. Mas a boa notícia é que agindo assim não nos dividiremos da forma competitiva como temos feito nos dias atuais.

Concluo então que o pensamento rápido-intuitivo tem manipulado o resultado das eleições brasileiras. E declaro que, agora que você sabe disso, tem a obrigação de aprender a controlar o seu córtex; E que brigar por política sem uma real análise lenta-analítica é o mesmo que aposentar o Homem de Ferro do time dos Vingadores (sim, essa última é uma crítica pessoal).

Foto: Angela Hsieh / Illustration

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