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Futebol

O jogo da minha vida

Todo mundo que curte futebol tem uma memória afetiva extensa relacionada aos jogos, principalmente os que frequentam estádio.

Jéssica Patrine

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Todo mundo que curte futebol tem uma memória afetiva extensa relacionada aos jogos, principalmente os que frequentam estádio. Sou uma dessas pessoas. Já vi todo tipo de partidas: goleadas grandiosas, derrotas patéticas, finais mornas e outras com decisão de pênalti. Chorei, gritei, fiquei quieta, ri, xinguei e reclamei bastante.

Com certeza, o melhor jogo que vi em campo foi em 2009, mais precisamente no dia 18 de outubro, na Vila Belmiro. Não era qualquer jogo. Ali, no Alçapão, seria disputada a final da Libertadores feminina: Santos x Universidad Autónoma, time paraguaio. O estádio estava lotado, apesar de ser de manhã, repleto de famílias com crianças. O dia estava ensolarado e quente, o que me faz lamentar profundamente ter vestido calça e tênis. O clima, apesar da partida ser decisiva, era leve e festivo antes mesmo do jogo começar.

As Sereias da Vila, time feminino do Santos, aterrorizavam as rivais. Junto com o eficiente ataque protagonizado por Marta e Cristiane, também tinha a defesa menos vazada do campeonato. Andréia Suntaque fechava o gol com precisão. Por ironia do destino, Cristiane não jogou a final por causa de uma punição equivocada após ter comemorado um gol junto com a torcida no alambrado no jogo anterior. Creio que as adversárias tenham ficado aliviadas momentaneamente pela artilheira do time não jogar.

A partida começou e parecia tudo milimetricamente coreografado. Primeiro gol saiu aos 13 minutos, feito por Maurine. Daí em diante foi uma bonita sequência: Marta, Erika, Fran, Thais, Erika, Suzana. Dani e Ketlen. Cada gol comemorado efusivamente. Sim, 9 gols oficializaram o primeiro título de um time brasileiro na Libertadores, assim como a equipe masculina foi pioneira em ganhar uma competição continental nos anos 60. Ambos os times, apesar de ter craques, contavam com a eficiência coletiva. Certamente, foi um dia historicamente mágico para o esporte mundial. E para minha vida como torcedora.

A partir daí, nunca tive dúvidas de que Marta continuaria sendo a maior de todas. Apesar de muitos a acharem fominha, não consigo vê-la assim. Caso ela confie na equipe, entrega de bandeja em passes precisos a bola para as companheiras marcarem, dá assistência nas jogadas e chama a responsabilidade para si em campo. Tudo isso, a trajetória, experiência, derrotas e a coleção de títulos a prepararam diretamente para o feito de hoje no jogo contra a Itália pela Copa do Mundo Feminina. Ela é, merecidamente, a maior artilheira de todas as Copas. Ultrapassou Klose, Pelé e o restante das lendas futebolísticas, que não são poucas.

A adolescente de 14 anos, que estava na Vila Belmiro numa manhã de sol, comemorando loucamente cada gol certamente gostaria de ver isso. A mulher de 24 anos, que acompanha fielmente futebol feminino há uma década, está feliz em nunca ter duvidado e, tampouco, desistido do esporte. Se os deuses do futebol existem, com certeza há deusas também. E Marta, indiscutivelmente, tem a divindade garantida faz tempo.

Foto: Molly Darlington – AMA/Getty Images

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.

Jéssica Patrine é jornalista, nerd, leitora compulsiva e chocólatra. Não para de ouvir música, por isso escreve para o Ré Menor sobre o tema. Gosta de tudo um pouco, mesmo parecendo que não curta nada.

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Futebol

A Estrela de Davi do Corinthians

Time corintiano faz um golaço ao utilizar a sua plataforma como divulgação de um dos episódios mais tristes da história da civilização moderna, conhecido como a Noite dos Cristais

Ricardo Braga

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Foto de Joe Pregadio (Unsplash).

Ainda que apenas por um dia, hoje, dia 6, a camiseta do Corinthians terá uma imagem especial , a estrela de Davi. Os torcedores poderão percebê-la durante o jogo contra o Fortaleza pelo Campeonato Brasileiro. A ação combinada entre o time, o Museu do Holocausto e a agência Tech and Soul, tem por objetivo lembrar a Noite dos Cristais.

Aqui no Jornal 140 temos observado que os posts que mais polarizam, chamam a atenção e movimentam os ponteiros dos likes e views são provenientes da área política, futebol e celebridades, ou seja, fofoca. Chama a atenção que o Corinthians tenha utilizado a sua imensa plataforma para chamar a atenção dos brasileiros para este assunto, para lembrar a história.

Põe brasileiro nisso. O Corinthians tem a segunda maior torcida de futebol do país, segundo pesquisa do DataFolha de setembro deste ano – 14% dos torcedores brasileiros (o primeiro é o Flamengo, com 20%, e logo em seguida aparecem o São Paulo, com 8%, Palmeiras, com 6%, seguidos de Vasco, Cruzeiro e Grêmio, com 4%).

A religião e o esporte são universos repletos de simbologia. O símbolo traz significados que nos convidam a reflexões sobre o que fazemos individualmente e o nosso papel e responsabilidade na sociedade. E, mais do que isso, são elementos de conexão e transcendência porque um objeto, o símbolo, nos obriga a refletir sobre o mundo exterior e entender a dualidade entre o interno (a consciência sensível) e o externo (a experiência do mundo).

No dia 9 de novembro de 2019, milícias paramilitares alemãs conhecidas como SA (Sturmabteilung, “destacamento tempestade”) em conjunto com adolescentes da juventude hitlerista, atacaram estabelecimentos comerciais, sinagogas e residências de judeus tendo como pretexto o assassinato do diplomata alemão Ernst vom Rath por Herschel Grynspam. É considerada o início do Holocausto porque recebeu a aprovação tácita e imediata dos governantes da Alemanha, liderado por Adolf Hitler.

Foi uma noite de barbárie e caos na até então civilizada Europa. A selvageria começou em Berlim e se estendeu por toda a Alemanha, Áustria e Checoslováquia tendo um total macabro de 91 judeus mortos, 267 sinagogas destruídas, 7.000 lojas e 29 edifícios depredados e detenção de 30 mil judeus em campos de concentração. A Noite dos Cristais (Kristallnacht, em alemão) recebeu também vários outros nomes como “Noite dos Vidros Quebrados” ou “Pogroms de Novembro” (pogrom é uma palavra ídiche que significa perseguição religiosa aprovado pelo estado), por causa dos cacos de vidros que se espalharam pelas cidades.

Foi a partir desta noite fatídica que os judeus de toda a Alemanha foram obrigados a estampar em suas roupas, casas e lojas, a estrela de Davi, como se fossem leprosos ou seres a serem evitados. A antítese da diversidade, a ojeriza ao estranho, ao estrangeiro e ao diferente.

Eu, como são-paulino e profissional de comunicação e marketing, elogio a postura e utilização da plataforma corintiana, golaço do diretor responsável pela brilhante ideia. Genial.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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Futebol

Desrespeito clássico

Quem nunca provocou o amigo após um clássico? Ou foi o provocado, dependendo da fase. Espírito competitivo é saudável caso promova respeito e união.

Jéssica Patrine

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Foto: Itamar Aguiar/ALLSPORTS (FotosPúblicas).

Em qualquer esporte tem competitividade: saber ganhar, perder ou empatar. A rivalidade é inerente em esportes que despertam paixões e possuem torcidas fiéis, como futebol. Quem nunca provocou o amigo após um clássico? Ou foi o provocado, dependendo da fase. Espírito competitivo é saudável caso promova respeito e união.

Tem uma cena (lamentável) que virou tema de conversas na internet e fora após o último clássico gaúcho Internacional x Grêmio, no Beira-Rio, em Porto Alegre: uma mãe e filho gremistas sendo agredidos por um pequeno grupo de torcedores colorados. O fato é até surpreendente, já que não envolve rixa de torcida organizada ou momentos tensos da partida, que inclusive foi 1 x 1. O que mais me incomodou foi a atitude impensada e covarde dos colorados sob a justificativa de que ali não era o lugar apropriado para a mãe e a criança por causa do setor em que estavam. Isso não dá razão em hostilizar outras pessoas, seja verbalmente ou fisicamente. Creio que a mãe tenha levado o menino para ter uma experiência agradável e divertida. Provavelmente eles assistam os jogos pela TV ou ouçam pelo rádio e queriam vivenciar isso ao vivo, sentir a energia. Mas infelizmente, eles se depararam com um tipo bem comum de torcedor: aquele que não sabe dialogar e ignora a importância do coletivo. O diferente é atacado e humilhado, mesmo que o futebol seja feito puramente disso.

Tanto se fala em atrair novamente as pessoas para os estádios, mas essa é uma questão além da elitização do futebol e outros aspectos complexos financeiros e sociais. Não é possível conquistar público diverso se não houver respeito, se um lugar que pode ser visto como festivo é enxergado como perigoso. E é claro que somente medidas repressivas que tentam coibir brigas de maneiras falhas não são capazes de melhorar e apaziguar. Essa mudança de mentalidade precisa ser incentivada constantemente pelos clubes, que não podem parar de promover ações contra qualquer tipo de discriminação e hostilidade. E fomentar esse tipo de cultura não é só dizer vagamente “paz no futebol” ou frases feitas com esse teor. É dar o exemplo por meio dos atletas e dirigentes, mostrar que o intolerável não pode ser aceito de maneira alguma. Estádio é lugar de todos, mas nesse jogo truculento, todos saem perdendo.

 

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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