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Comportamento 4 MIN DE LEITURA

Dois aparelhos de TV: uma fábula para os dias atuais

Sergio Kulpas

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em

O Senhor Souto Jardim e a Senhorita K. moram no mesmo andar de um prédio em um bairro de classe média alta em São Paulo. São vizinhos de porta: ele mora no 31 e ela mora no 33. Sempre se encontram no corredor, no elevador ou na portaria do edifício, mas não se conhecem além de um cortês “bom dia” ou “boa noite”. O Senhor Souto Jardim tem 57 anos, é engenheiro eletricista, casado com uma cirurgiã-dentista. O casal tem 3 filhos, uma menina de 16 anos e meninos gêmeos de 13. A Senhorita K. é uma editora gráfica de 27 anos, solteira, com uma intensa vida profissional e social.

Por uma dessas coincidências mais frequentes na vida real do que na ficção, o Senhor Souto Jardim e a Senhorita K compraram, quase ao mesmo tempo, televisores idênticos da mesma marca e modelo. Um aparelho de última geração de um fabricante respeitado, com tela de LED de 50 polegadas e acessórios para home-theater. O Senhor Souto Jardim comprou seu aparelho na loja do shopping, e a senhorita K comprou sua TV pela internet. Como nota de rodapé, cabe informar que o Senhor Souto Jardim pagou mais caro pelo seu eletrodoméstico.

O Senhor Souto Jardim colocou a nova TV em posição de destaque na grande sala do apartamento, sobre um móvel feito sob medida. Como engenheiro experiente, ele mesmo instalou os acessórios e fez as conexões do conversor de TV a cabo com o amplificador. O Senhor Souto Jardim é assinante do pacote mais caro da operadora de TV paga — são mais de cem canais de filmes, séries, jornalismo, desenhos animados e séries. O Senhor Souto Jardim resistiu muito antes de fazer uma assinatura de TV, saudoso de um tempo em que os canais da TV aberta eram poucos mas a programação era boa. Só entregou os pontos quando viu os canais serem loteados para programas religiosos e de televendas.

Na estante ao lado da TV, o Senhor Souto Jardim guarda uma grande coleção de DVDs de filmes de Hollywood (no armário fechado, há ainda dezenas de fitas VHS). Para ele, essa nova TV é realização do sonho de infância da televisão ideal, desde o tempo em que era criança e sua família se reunia na sala para ver o Flávio Cavalcanti quebrar discos de vinil no joelho e chamar os comerciais. O Senhor Souto Jardim está feliz com a evolução da televisão, orgulhoso do progresso da engenharia e dos demais talentos envolvidos.

O problema é conseguir unir a família toda na frente desse prodígio tecnológico. Quando muito, o Senhor Souto Jardim consegue assistir TV com a esposa — que apesar de toda a oferta de canais, prefere ver programas da TV aberta, como novelas e telejornais. Os filhos nunca assistem TV na sala. Todos têm suas próprias TVs nos quartos, e o Senhor Souto Jardim não saberia responder em uma pesquisa quais são os programas assistidos pelos filhos. Na maioria das noites, ele fica sozinho na frente da grande tela, zapeando pelas dezenas de canais e considerando se deve assistir a trilogia “Poderoso Chefão” mais uma vez.

No apartamento da Senhorita K, a nova TV não foi entronizada na sala de estar. A Senhorita K transformou um dos quartos em sala de lazer, com um bom tapete, almofadões e um sofá confortável. Conectou um Xbox à TV e promove campeonatos de videogame. Não é assinante de qualquer operadora de TV paga, e capta os canais da TV aberta usando a antena coletiva do prédio. A Senhorita K assina Netflix — mas seu interesse são as séries exclusivas do serviço, como “Stranger Things” e “Russian Doll”, e não o catálogo de produções antigas. Recentemente, também assinou o serviço Amazon Prime, concorrente da Netflix. A Senhorita K também conectou um HD externo de dois terabytes à nova TV, e já considera conectar mais um. Ela também faz download de filmes e séries atuais por torrent, e depois busca as legendas em português disponíveis em sites específicos. Desse modo, ela foge da programação defasada (e cada vez mais dublada) dos canais pagos. Foge também das grades de programação, assistindo seus programas de acordo com os horários de folga do trabalho — geralmente na alta madrugada ou de manhã bem cedo. A grande sala de estar do apartamento tem apenas poltronas, pufes e o aparelho de som. É o ponto de encontro de seus amigos. A grande TV é apenas mais um eletrodoméstico, uma das muitas telas na casa.

O Senhor Souto Jardim e a Senhorita K são espectadores de TV. Em muitas metodologias de pesquisa, são considerados consumidores iguais, até idênticos — em termos de renda, de nível de instrução e até de conhecimentos tecnológicos. Ambos compraram modelos iguais de TV, afinal de contas. Mas um olhar mais atento mostra que eles são bichos de espécies diferentes, apesar das semelhanças. Agências de marketing e anunciantes já acordaram para isso, e buscam desenhar estratégias que levam em conta essas transformações.

Há anos se detecta a lenta mas contínua erosão da audiência da televisão. E não se trata de migração de um canal para outro: é perda real de público. Saber o que esses “desertores” estão fazendo com seu tempo é essencial para o futuro dessa indústria. A TV continua a mídia publicitária dominante no Brasil e no mundo, mas esses “vazamentos” não podem ser ignorados. Caso contrário, a televisão seguirá o caminho já trilhado pela mídia impressa, pulverizada por mudanças de hábitos dos leitores e pelas novas tecnologias.

Foto: Freestocks.org / Unsplash

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.

Sergio Kulpas é escritor e jornalista, com 25 anos de atividade em redações. Passou pela Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Gazeta Mercantil, Diário do Comércio, Meio & Mensagem e vários sites especializados em comunicações e mídia.

Comportamento 2 MIN DE LEITURA

Por que temos tanto medo de errar se dizem que errar é humano?

Como trabalhar esse sentimento que nos paralisa e impede de alcançarmos nossos objetivos

Publicado

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Foto: Andre Hunter / Unsplash

O medo de errar é um sentimento que aprendemos a carregar desde a nossa infância. Tudo começa quando fazemos algo de errado – ou não da maneira 100% correta – quando crianças e muitas vezes recebemos olhares de desapontamento ou desaprovação. Depois vamos para a escola onde somos avaliados por meio de provas e atividades nas quais os erros são vistos como fracasso e não colocados como um princípio para aprendizagem. De forma bem grosseira, o lema no colégio geralmente era ‘demonstre ser inteligente e faça de tudo para não parecer burro’.

Quantas vezes deixamos de perguntar uma dúvida para os professores com medo de sermos julgados pelos colegas? Ou mesmo hoje na fase adulta, durante as reuniões, quantas vezes deixamos de expor opiniões por achar que podem não ser relevantes?

O medo é um paralisador de conquistas e gera uma ansiedade enorme. Tememos os erros e procuramos evitá-los ao máximo mesmo que custe a nossa felicidade. Percebem? Muitas vezes escolhemos ficar dentro da zona de conforto, mesmo que signifique abandonar nossos sonhos ou que a situação esteja ruim – pois, de certa forma, já estamos familiarizados e acostumados com a situação. Então deixamos de arriscar, de ver o que poderíamos ganhar, conquistar, viver, pela possibilidade de fracasso. Possibilidade, o que significa que é um medo criado e não real.

Enfrentando os nossos medos

Particularmente, eu não gostava de expor minhas ideias em público, por medo de ser julgada, de não ser “boa o bastante”, mesmo que me custasse ter visibilidade, oportunidades, e hoje vejo minhas publicações ou participações em palestras e treinamentos, por exemplo, como uma conquista enorme. Percebo que muitas vezes nem tudo sai como planejado, mas essa é a graça. Estou aprendendo a deixar-me ser vulnerável e assim percebi que só com a prática conseguimos mudar algumas crenças que temos sobre erros e acertos.

Pense: Qual é o significado que a palavra ERRO tinha para você? E agora?

Abaixo listei algumas sugestões que podem ajudar você a lidar com situações críticas:

• Perceba de onde vem o medo. É uma questão de insegurança? Observar isso pode ajudar você a analisar o que falta / deve ser trabalhado para seguir em frente.
• Como estão seus pensamentos sobre a situação? Muitas vezes surgem os medos criados por imaginarmos tudo o que pode dar errado ao invés do contrário.
• Pergunte-se: Caso tudo dê errado, o que pode acontecer?
• O que você ganha enfrentando/trabalhando esse medo? O que você perde se não enfrentar?
• Trabalhe seu modelo mental a respeito de erros e acertos. Mude a forma como você enxerga seus erros.
• Se errar, seja gentil com você e entenda que faz parte do processo.

Novamente aqui entra a resiliência, que é a nossa capacidade de lidar com os nossos problemas, de superar obstáculos mesmo diante de situações adversas e aprender com isso. Falo sobre o tema aqui.

Cada tentativa falha, cada erro, cada luta nos mostra algo sobre nós mesmos e aprendemos com isso. Nossos erros, principalmente, são convites para reflexão. E mesmo as piores falhas são evidências de que tentamos, são provas da nossa bravura por nos deixarmos ser vulneráveis.

Lembre-se de um momento que você superou os seus medos. O que você aprendeu com ele?

Quero saber a resposta!
analucia@trevo360.com.br | @trevo360

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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Comportamento 2 MIN DE LEITURA

A polêmica dos corpos reais

Pensemos em tudo o que faríamos quando desprovidos de pressões estéticas.

Paula Akkari

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Foto: Lethu Zimu / Unsplash

No fim de dezembro, os feeds de notícias ficaram saturados pelos compartilhamentos de uma postagem de marca de cosméticos contendo uma mulher negra de biquíni com celulites à mostra.

Apesar de a imagem estar longe de ser original, é relativa novidade que a indústria da beleza se preocupe em divulgar imagens de corpos minimamente coerentes com a realidade. Eis a dinamicidade capitalista: o mercado é adaptável às demandas. Muitos nomes souberam se apropriar do desejo de desconstrução de ideais de aparência vigentes, posição em destaque desde a primavera feminista. Adicionalmente, muitas dessas empresas ganharam visibilidade devido aos elogios segmentos liberais dos movimentos.

Tais concepções, a serviço do capital ou não, refletem a incongruência do real com o (nem tão) antigo modelo estético, inevitavelmente fadado à falência. O que é feito para atrair um nicho consumidor é um dos sintomas da insustentabilidade dos padrões de ser.

Mas, haveria vitórias no microcosmo ou novidades transformadoras de épocas? A representatividade mostra-se insuficiente,  as ficções midiáticas alienantes compõem os processos de subjetivação de todos, sendo especialmente tóxicas para mulheres, pessoas negras, trans, gordas e/ou pobres. Quanto aos costumes relacionados à vaidade, são naturalizadas as mutilações, cirurgias e despesas demasiadas. O processo de gostar da própria imagem não é consequência delas, mas por diversas vias, um alvo cruelmente bombardeado.

Assim, cada episódio empoderador é passível de comemoração. Obviedades, infelizmente não redundantes, devem ser ressaltadas: corpos são de todos os tamanhos e cores; apresentam assimetria, odores, secreções, texturas, gorduras, estrias, celulites, espinhas, manchas, cicatrizes, pelos…

As constituições físicas, em suas autenticidades, são as materialidades no mundo, o intermédio de cada ser com o exterior. A elas devemos todas as experiências sensoriais, cada alimento saboreado, música ouvida, paisagem vista, orgasmo atingido.

Cuidar do corpo é um dos caminhos para a merecida paz com ele. Essa prática, diferente do modista “autocuidado” simpático ao status quo, consiste em promoção de saúde. Exemplos de ações caras são, conforme a viabilidade de cada rotina, dormir uma quantidade de horas diárias próximas a sete, manter a alimentação saudável (incluindo a ingestão do que gosta), entrar em contato com o sol com proteção e praticar atividades físicas – o hábito aumenta a disposição e a imunidade, diminui o estresse, melhora a postura e fortalece as articulações.

Os ambientes virtuais e físicos, ademais, são variáveis relevantes aos encaminhamentos. Nem toda toxidade é evitável, entretanto, vale deletar das redes sociais os perfis que obstaculizam desenvolvimentos e ignorar/rebater falas contraproducentes. Outra benevolência é a evitação ativa de comparações com terceiros – elas nem ao menos fazem sentido, afinal, são entre diferentes sujeitos.

Por fim, vale a reflexão a respeito do tempo e do esforço em encaixar-se em padrões já desmascarados, ou estar bem apesar deles. Como seria mais bela, criativa e simples a vida livre da ditadura em que estamos inseridos. Pensemos em tudo o que faríamos quando desprovidos de pressões estéticas. Pois façamos desde agora.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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