O mundo digital não atende pessoas com deficiência no Brasil

Você sabia que existem pouquíssimos sites, lojas virtuais e sistemas com uma plataforma realmente acessível? Esses softwares praticamente fecham suas portas para audiências que precisam de acessibilidade, ignorando um imensurável mercado em potencial, além de deixar a navegação mais agradável para todos. Geralmente se acredita ser um investimento muito alto para um público em potencial muito pequeno, mas será que isso é verdade?

Apenas no Brasil, o IBGE constata 6,7% – 12,5 milhões – de pessoas com deficiência em 2018, após uma nova margem de corte sugerida pelo Grupo de Washington (GW). Essa nova margem engloba apenas o modelo biomédico de conceituação da pessoa com deficiência, ao invés da perspectiva social adotada no questionário do Censo. Na margem anterior, em 2010, cerca de 24% da população – 46 milhões de brasileiros – declararam possuir alguma dificuldade em pelo menos uma das habilidades investigadas ou possuir deficiência mental/intelectual.

Esses dados têm muito a dizer, afinal estamos falando de cerca de um terço da população que apresenta dificuldades cognitivas, com uma enorme carência em plataformas que atendem suas necessidades especiais. Considerando que, o uso de internet anda aumentando exponencialmente no país a cada ano – com aparelhos smartphone ocupando a maior taxa de uso – é curioso analisar que todo esse escopo é muitas vezes ignorado, apenas por se acreditar que uma plataforma acessível requer um investimento muito alto para um retorno pequeno.

Além disso, é válido lembrar que 30.2% brasileiros não possuem acesso à internet. Embora a cada ano essa taxa diminui, ainda temos um longo caminho a percorrer antes de apresentar melhores condições de acesso à internet para todos, pois antes de focarmos nossos esforços apenas em vendas de mais smartphones e computadores, devemos levar em consideração toda a cultura que a internet engloba e como podemos melhorar a usabilidade de maneira universal. Dentre fatores de desigualdade, temos distribuição de renda, idosos, pessoas com deficiência e população em zonas de difícil acesso, como na região rural, por exemplo. Criar plataformas acessíveis para esses públicos é uma importante tarefa para desenvolvedores e gerentes de projeto.

Histórias de sucesso com plataformas mais acessíveis não param de acontecer, e no ramo de tecnologia, que cresce continuamente, ser o pioneiro em sua área pode ser o diferencial para tomar o próximo passo. O World Wildlife Fund of Canada faturou, em 2017, cerca de $21 milhões de dólares melhorando a usabilidade de sua plataforma mobile e em desktop. Com pequenas mudanças no back-end e aprimorando o design, o botão de doações começou a receber uma taxa de conversão não antes vista pela plataforma, sem a necessidade de grandes investimentos em campanhas de marketing ou captação de mais doadores.

O movimento Web para Todos indica que 45 milhões de brasileiros apresentam grandes dificuldades em acessar lojas virtuais. Na pesquisa foram incluídas grandes marcas como “Americanas”, “Casas Bahia”, “Centauro”, “Dafiti”, “Extra”, “Kabum”, “Kanui”, “Magazine Luiza”, “Netshoes”, “Ponto Frio”, “Ricardo Eletro”, “Saraiva”, “Shoptime” e “Submarino” – só para destacar algumas -, mostram grandes barreiras de acessibilidade e dificuldade de navegação. Pessoas com deficiência – temporária ou definitiva – visual, motora, intelectual, auditiva e/ou múltipla não conseguem realizar o processo de compra sozinhas e sem assistência de terceiros, algo que viola tanto o Código de Defesa do Consumidor quanto a Lei Brasileira de Inclusão.

Barreiras de acesso em lojas virtuais são comuns, principalmente quando estas dependem de imagens sem descrição, uso exacerbado do mouse, cores muito vibrantes, hierarquia de cabeçalho errática e falta de opção para conteúdo em Libras – ou um avatar de tradução automática. Essas barreiras criam enorme dificuldade na finalização da compra e o usuário por frustração acaba por procurar uma nova plataforma para atender suas necessidades.

Felizmente, todos esses casos são de fácil correção e requerem um investimento baixo para o que possui um retorno potencial imensurável. Uma captação de um público maior, muitas vezes causa preocupação, e diversas lojas virtuais acabam seguindo tendências ao invés de criar suas próprias e aumentar a força de sua marca. Devemos sempre lembrar: acessibilidade é direito do cidadão e de certa forma, a sua adaptação ao mercado, é um dever da empresa. Contudo, lançamos um novo olhar, acessibilidade é uma arma estratégica mercadológica ainda muito mal utilizada.

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