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Saúde

O mundo digital não atende pessoas com deficiência no Brasil

Rodrigo Sassi

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Você sabia que existem pouquíssimos sites, lojas virtuais e sistemas com uma plataforma realmente acessível? Esses softwares praticamente fecham suas portas para audiências que precisam de acessibilidade, ignorando um imensurável mercado em potencial, além de deixar a navegação mais agradável para todos. Geralmente se acredita ser um investimento muito alto para um público em potencial muito pequeno, mas será que isso é verdade?

Apenas no Brasil, o IBGE constata 6,7% – 12,5 milhões – de pessoas com deficiência em 2018, após uma nova margem de corte sugerida pelo Grupo de Washington (GW). Essa nova margem engloba apenas o modelo biomédico de conceituação da pessoa com deficiência, ao invés da perspectiva social adotada no questionário do Censo. Na margem anterior, em 2010, cerca de 24% da população – 46 milhões de brasileiros – declararam possuir alguma dificuldade em pelo menos uma das habilidades investigadas ou possuir deficiência mental/intelectual.

Esses dados têm muito a dizer, afinal estamos falando de cerca de um terço da população que apresenta dificuldades cognitivas, com uma enorme carência em plataformas que atendem suas necessidades especiais. Considerando que, o uso de internet anda aumentando exponencialmente no país a cada ano – com aparelhos smartphone ocupando a maior taxa de uso – é curioso analisar que todo esse escopo é muitas vezes ignorado, apenas por se acreditar que uma plataforma acessível requer um investimento muito alto para um retorno pequeno.

Além disso, é válido lembrar que 30.2% brasileiros não possuem acesso à internet. Embora a cada ano essa taxa diminui, ainda temos um longo caminho a percorrer antes de apresentar melhores condições de acesso à internet para todos, pois antes de focarmos nossos esforços apenas em vendas de mais smartphones e computadores, devemos levar em consideração toda a cultura que a internet engloba e como podemos melhorar a usabilidade de maneira universal. Dentre fatores de desigualdade, temos distribuição de renda, idosos, pessoas com deficiência e população em zonas de difícil acesso, como na região rural, por exemplo. Criar plataformas acessíveis para esses públicos é uma importante tarefa para desenvolvedores e gerentes de projeto.

Histórias de sucesso com plataformas mais acessíveis não param de acontecer, e no ramo de tecnologia, que cresce continuamente, ser o pioneiro em sua área pode ser o diferencial para tomar o próximo passo. O World Wildlife Fund of Canada faturou, em 2017, cerca de $21 milhões de dólares melhorando a usabilidade de sua plataforma mobile e em desktop. Com pequenas mudanças no back-end e aprimorando o design, o botão de doações começou a receber uma taxa de conversão não antes vista pela plataforma, sem a necessidade de grandes investimentos em campanhas de marketing ou captação de mais doadores.

O movimento Web para Todos indica que 45 milhões de brasileiros apresentam grandes dificuldades em acessar lojas virtuais. Na pesquisa foram incluídas grandes marcas como “Americanas”, “Casas Bahia”, “Centauro”, “Dafiti”, “Extra”, “Kabum”, “Kanui”, “Magazine Luiza”, “Netshoes”, “Ponto Frio”, “Ricardo Eletro”, “Saraiva”, “Shoptime” e “Submarino” – só para destacar algumas -, mostram grandes barreiras de acessibilidade e dificuldade de navegação. Pessoas com deficiência – temporária ou definitiva – visual, motora, intelectual, auditiva e/ou múltipla não conseguem realizar o processo de compra sozinhas e sem assistência de terceiros, algo que viola tanto o Código de Defesa do Consumidor quanto a Lei Brasileira de Inclusão.

Barreiras de acesso em lojas virtuais são comuns, principalmente quando estas dependem de imagens sem descrição, uso exacerbado do mouse, cores muito vibrantes, hierarquia de cabeçalho errática e falta de opção para conteúdo em Libras – ou um avatar de tradução automática. Essas barreiras criam enorme dificuldade na finalização da compra e o usuário por frustração acaba por procurar uma nova plataforma para atender suas necessidades.

Felizmente, todos esses casos são de fácil correção e requerem um investimento baixo para o que possui um retorno potencial imensurável. Uma captação de um público maior, muitas vezes causa preocupação, e diversas lojas virtuais acabam seguindo tendências ao invés de criar suas próprias e aumentar a força de sua marca. Devemos sempre lembrar: acessibilidade é direito do cidadão e de certa forma, a sua adaptação ao mercado, é um dever da empresa. Contudo, lançamos um novo olhar, acessibilidade é uma arma estratégica mercadológica ainda muito mal utilizada.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.

Rodrigo Sassi é Fundador da Inpyx - Software & Data House, comunicador social, especializado em branding. Pós graduando em AI, Data Science e Big Data. Está em constante busca do aperfeiçoamento da eficácia e integração tecnológica.

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Saúde

Produtos e produtores das violências

Violência é um conceito polissêmico, vigente na transgressão e constituição das leis, posto em prática tanto pela execução quanto abstenção de atividades.

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Foto: Randy Colas / Unsplash

Há uma combinação da baixa disponibilidade de recursos sublimatórios de pulsões destrutivas com as ações inescrupulosas dos poderosos para manterem suas posições. A situação é agravada com fatores sociais de risco como desigualdade, baixa mobilidade, gentrificação, equivocada condução da política de drogas e baixo acesso à saúde e educação. O resultado é uma tragédia anunciada: a persistência da violência, forma na qual as opressões, dominações e exclusões se realizam.

“Violência” é um conceito polissêmico, vigente na transgressão e constituição das leis, posto em prática tanto pela execução quanto abstenção de atividades.

Marilena Chauí apresenta a concepção de que são violentas todas as formas de ação, pensamento e sentimento que desconsideram o próximo como pessoa e o objetificam para manipulação. Por mais, aponta suas bases estruturais de hierarquia, verticalização e naturalização da relação mando-obediência. Também expõe dispositivos que as solapam: exemplos deles são os discursos do direito, com a tradição de localizar a violência em crimes contra a propriedade e vida e exigir provas, às vezes invisíveis, de todas as denúncias; do sociológico, quando considera-as um momento de anomia social, e dos meios de comunicação que descrevem-na como “onda” ou “crise”, separam “o outro violento” e o “eu não-violento” e distinguem “essencial” de “acidental”, produzindo a ideia de que a violência é alheia a si mesmo e superficial.

As repercurssões objetivas disso ocorrem nos âmbitos macropolíticos, como os econômicos e jurídicos. Enfim, são parte de um projeto político, ciclicamente, ocasionando mais violência ainda.

Quanto aos impactos subjetivos, agravados pela falta de perspectivas de mudanças nas contingências conjunturais – quando há, inclusive elogios às mais cruéis, como tortura e afins – é necessário destacar o que deveria ser obviedade: a violência alastra as mais perigosas e dolorosas consequências mentais e comportamentais.

Freud explica: após o cessar-fogo europeu em 1918, o pai da psicanálise publicou, em “Além do Princípio de Prazer” suas considerações sobre as neuroses traumáticas, quadros de sofrimento psíquico respondentes à barbárie até então vigente.  Na obra, alegou que “a terrível guerra que há pouco findou deu origem a um grande número de doenças deste tipo”.

As questões em pauta não são datadas. A literatura psicanalítica descreve e atualiza os conceitos de violência traumática. O trauma pode ser evidenciado de forma positiva (inclusive na forma de sonhos) resultando em produção de angústia. Há, contudo, um grupo de fenômenos relacionados a sua transmissão mais difíceis de detectar, que se passam nas entrelinhas, sobre os quais não se fala. Esses são ocasionados pela desautorização, culpabilização e falta de compreensão do luto, que se estagna.

O traumático que se passa no silêncio corrói as compreensões e enfim retorna. Uma ilustração é o clichê “o filho que apanha será o pai que bate”: nela, o passado se apresenta como um futuro acabado. Eis, portanto, a importância do reconhecimento, da partilha do sensível, que permitem a capacidade de olhar para o futuro sem imaginar que ele seja uma mera repetição da dor.

Assim, evidencia-se a necessidade de expandir a compreensão sobre a violência e refutar os  desonestos discursos restritivos que tentam circunscrevê-la à criminalidade e ao espaço público. Também é essencial autorizar os sofrimentos resultantes, tão dolorosamente convocados a um enterro sem luto. Por fim, resta atentar-se aos poderosos cujos interesses a mobilizam. E ter como prioridade vigiá-los (ou derrubá-los) antes que outros atos violentos sejam autorizados ou executados por eles e seus representantes.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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Saúde

O que são as massas?

Massa não é um termo exclusivamente relacionado à política, mas sim a experiências de grupo.

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Foto: Nicholas Green / Unsplash

A coloquialidade “massa de manobra” é frequentemente utilizada como ad hominem em discussões políticas – o que já seria uma aberração argumentativa mesmo sem finalidade de silenciar o interlocutor. Enquanto a informação ainda tem valor, a Psicologia propõe uma explicação sobre o tal fenômeno de massificação, levando ao seu reconhecimento e a possibilidades de organização alternativas.

“Massa” não é um termo exclusivamente relacionado à política, mas sim às experiências de grupo. Elas são diversas, indissociáveis do cotidiano; e não representações de fraquezas ou inautenticidades, conforme o senso comum sugere.

A coletividade pode ser confortável – Freud a compara, a níveis psíquicos, com a proteção paterna frente às turbulências da busca por autonomia. Em meio, pois, ao mal-estar na civilização e às questões identitárias, a mais simples prática de colaboração mostra-se muito atraente. Nesse contexto, exercícios como competições regradas entre grupos são lúdicas perto da sangrenta briga por sobrevivência individual. Torcer por um deles é estimulante como ter pão e circo. O amparo de encontrar seus desejos e sofrimentos compartilhados com os demais (portanto autorizados) é um alívio prazeroso.

O alarmante é a aglomeração que ultrapassa os limites desse princípio. Ademais, são terríveis os que incentivam esse movimento, assim como os interesses que mobilizam seus desejos. Em uma equação complexa com outras variáveis que não são acessíveis à consciência, a experiência de grupo pode se transformar no que há de mais periculoso na humanidade: a formação de uma totalidade homogênea, fortemente conectada por um caráter de ideologia (ou ficção coletiva). Isso é a massa. A história do século passado é uma explícita ilustração recente das consequências de sua manipulação por um líder inescrupuloso.

O processo de formação da massa envolve mais que a união de sujeitos em coletividades, mas as dissoluções de suas identidades individuais e suas identificações com figuras horizontais e verticais. Assim, em sua formação, coloca-se um líder – que pode ser uma persona, uma ideia ou um time – em posição vertical. Consequentemente, seus seguidores se reconhecem como tais, criando um vínculo identificativo horizontal. Juntos, eles agem como uma unidade viva, dócil e alienadamente a seguir a autoridade, em um processo freudianamente descrito como tomada adoção de uma figura parental que ocupa seus supereus e ideais de ego. Esse resultado de estrutura simbólica de pertencimento conduz à negação das diferenças e criação de inimigos comuns. Um deles é o “bode expiatório”, no qual o grupo projeta seus próprios aspectos sombrios e nele procura desmantelá-los.

Além do mais, com a introjeção da lei e identificação com a potência do pai primevo, o fenômeno ocasiona outros efeitos regressivos. Cita-se, assim, a desindividualização:  diluído na multidão, o indivíduo perde os anteriores parâmetros que estabeleciam a forma com que compreendia a si e a realidade externa. É feita sua substituição pela isenção de responsabilidade pessoal e delegação de formação de opiniões para o grupo e seus representantes. É nesse estado que acontecem outras reduções, como a das capacidades pensar e discriminar. Crescem, todavia, as covardias morais, ocasionando passagens para atos (como liberação de impulsos sexuais, agressivos e incivilizados) que não seriam realizados em casos de separação individual.

É evidente que as massas envolvem fatores de carências inconscientes e vazões a desejos particulares. Algumas contingências, entretanto, podem evitar suas manipulações como estratégia política. Uma vez que o autoritarismo e o controle social as incentiva, o clima desfavorável à vulnerabilidade é instigado via características opostas a estes, como descentralização no uso das informações, liberdade a seu acesso, independência para formação de opiniões individuais e diferenciação entre essas e decisões coletivas.

Por fim, há Freud em sua conclusão de Psicologia das Massas:

“A massa é extraordinariamente influenciável e crédula, é acrítica, o improvável não existe para ela. Pensa em imagens que evocam umas às outras associativamente, como no indivíduo em estado de livre devaneio, e que não têm sua coincidência com a realidade medida por uma instância razoável. Os sentimentos da massa são sempre muito simples e muito exaltados. Ela não conhece dúvida nem incerteza. Ela vai prontamente a extremos; a suspeita exteriorizada se transforma de imediato em certeza indiscutível, um germe de antipatia se torna um ódio selvagem.
Quem quiser influir sobre ela, não necessita medir logicamente os argumentos; deve pintar com imagens mais fortes, exagerar e sempre repetir a mesma fala.”

[Qualquer semelhança com os que divulgam a inverossímil ameaça “comunista”, divulgam notícias falsas (fake news) e repetem “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” não é mera coincidência.]

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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