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Audiovisual

O rei da distribuição da música independente no Brasil

Ricardo Braga

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Conheci o Mauricio Bussab por coincidência geográfica: ele morava no andar de cima do meu prédio, na cobertura da rua Barão de Capanema. E que cobertura: adquirido com os bônus conquistados por seu trabalho pioneiro de implantação comercial da Microsoft no Brasil  (comandado pelo primeiro country manager da empresa, o Gregorio Diaz) instalou um estúdio de musica de alta tecnologia e qualidade onde gravava trilhas e CDs de música experimental. Um deles foi de seu conjunto, o Bojo. Houve muitos outros. Lembro um dia de ter encontrado a Maria Alcina no elevador – acho que sua interpretação da canção “O Drama” é uma das mais poderosas da musica brasileira.

De artista e gravador, começou a investir em distribuição por acaso e para resolver seu próprio problema. Aos poucos tornou-se o dono da maior plataforma nacional de distribuição de musica independente do Brasil, a  Tratore. Em um passeio pelo site contei mais de 70 ritmos musicais categorizados – da boa e velha Bossa Nova, passando por pagode, Jovem guarda, ska, jazz e até tecnobrega. Casado com a intelectual Isabelle Décarie, especialista da nova literatura feminina francesa e canadense e pai da Violeta, Mauricio me enviou por email as seguintes respostas, afiadas e inteligentes.

Antes de você ser um bem-sucedido start-up man, você era um bem-sucedido músico de start-up music, com a banda Bojo, de música eletrônica e experimental. Como foi isso?

O Bojo foi uma banda que tinha várias ideias originais. Foi a primeira banda brasileira a lançar um álbum na internet em abril de 1999, foi uma das primeiras a juntar a canção brasileira com a eletrônica, acho que a gente sempre pensou na inovação, na ideia de não repetir as coisas só porque era assim que todo mundo fazia. Acho que é uma característica minha e do outro fundador da banda, Lulu Camargo.

Você acompanhou a derrocada da indústria fonográfica com a chegada de novos modelos peer-to-peer como o Napster e depois o ressurgimento de plataformas de streaming. A sua experiência como um dos primeiros funcionários da Microsoft no Brasil te ajudou nisso?

Sim, na verdade ajudou. Na Microsoft e na indústria de TI em geral a gente vivia sempre num mercado turbulento. A empresa que estava no topo em bancos de dados num ano podia desaparecer no ano seguinte, a empresa que prometia ser a maior do mundo em 1994, que era a Netscape, não entregou nada do que prometia e desapareceu, a própria Microsoft dormiu no ponto e perdeu o bonde, então sempre foi evidente para mim, em primeira pessoa, que esses cenários são móveis, que os modelos mudam, que uma crise serve para filtrar as empresas que estão ineficientes, que uma crise também serve para as pessoas se posicionarem, e que só tem uma constante: tudo muda. Então a gente enxergava a indústria fonográfica e era mais ou menos evidente que uma revolução digital estava a caminho, a gente só não sabia quanto tempo ia demorar.

Quando você decidiu abrir a Tratore?

Em 2002 quando eu tinha dois discos prontos na mão e não tinha quem distribuísse. Na época distribuir era colocar o CD físico na loja e não existia empresa que fizesse isso. Montamos a Tratore para fazer este serviço para os independentes. Foi uma das primeiras a fazer isso com este modelo aberto e includente.

Você imaginava que seria o responsável pela maior operação de distribuição de música independente do Brasil?

Sempre teve concorrência, sempre teve gente abrindo empresas de distribuição, muitas vezes associadas a grupos maiores e mais fortes. Hoje os concorrentes são todos multinacionais, alguns ligados a grupos imensos e a Tratore é a única brasileira no mercado. Não imaginava chegar ao tamanho que chegamos, especialmente vindo de um lado musical, e nunca ter tido a vocação de investidor de sempre querer dobrar o tamanho. Nossa preocupação sempre foi na qualidade do atendimento, em entregar o que prometíamos. Mas claro que ficamos felizes com o resultado.

Há também outros gêneros como poesia, humor, infantil, religioso e entrevistas. O mercado e que te pediu, há demanda, de que tipo?

Esses conteúdos de voz e programas que hoje estão aparecendo nas plataformas como álbuns devem gradativamente se transformar em podcasts. A grande nova fronteira é o podcast. O podcast fora do Brasil é uma explosão, é o que as plataformas de VOD foram para a televisão só que para o rádio. Gradualmente as pessoas estão deixando de ouvir rádio ao vivo e ouvindo seus podcasts preferidos, da mesma forma como aconteceu na televisão. Esta é a grande revolução que vem na mídia de áudio por aí.

Fale da nova operação de licenciamento para cinema, TV e publicidade, a Kiwii.

É um modelo novo que atende ao pessoal que está criando audiovisual de conteúdo, principalmente cinema, séries e youtube. Serve muito bem para este pessoal porque o valor é tabelado e pré-aprovado mas não é formado por trilhas brancas e sim por musica comercial. Não é tão apropriado para a publicidade que normalmente tem orçamentos maiores mas é uma bênção para quem está terminando um curta e precisa de 10 musicas regionais brasileiras de um dia para o outro.

O mundo caminha para ser streaming, assinatura, fremium, grátis …?

Sim, acho que este modelo de áudio com catálogos imensos e pagamento mensal (com a opção de grátis com propaganda) é perfeito. O free supõe que você vai querer ouvir as propagandas entre as músicas e nem todo mundo quer isso. mas acho um modelo ótimo. A tendência agora é o modelo no áudio se estabilizar e ampliar em alcance. Não vejo grandes mudanças revolucionarias como aconteceram nos últimos dez anos mas sim um processo de evolução e ampliação.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.

Fundador da Art Presse, 140 Online e do Jornal 140, empresário de comunicação, jornalista de formação e digital de paixão. Teve participação fundamental no lançamento da internet banda larga no Brasil em 1999. É autor do livro "Domingo no Sancho" (2018), Amazon Kindle.

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