Existirmos: a que será que se destina?

Paraty é especial, essa cidade quase à nível do mar com suas ruas de pedra e construções coloniais enchem os olhos de quem passa por lá. Cidade com praias onde a areia é branca e a natureza encanta. Está no Rio mas é quase Paulista. Já foi nossa capital sendo importante rota durante o Ciclo do Ouro e a primeira cidade do Brasil a receber o titulo de patrimônio natural e cultural.

Existe algo pelas ruas e vielas que atraem e encantam, a cidade que respira arte e cultura, realiza anualmente a Festa Literária Internacional de Paraty. Cada edição homenageia um autor ou autora nacional e reúne um vigoroso time de escritores, de diferentes origens e perspectivas, para se encontrar com o público na cidade.

A Flip, como é chamada, surgiu com a ideia de promover em Paraty, cidade distante das capitais, uma experiência de encontro entre literatura e pluralidade artística. Ocupando os espaços públicos com cultura, a Festa é um momento importante para o debate de ideias, troca de informações e um ponto de encontro da diversidade.

Desde 2003, quando estreou de forma improvisada, com pouco mais que vinte autores convidados, a Flip se conectou intimamente com espaços públicos, onde a experiência da literatura nas ruas resulta em uma experiência singular a céu aberto. A Flip 2019 trouxe como homenageado Euclides da Cunha, observador rigoroso e originalíssimo, vê o Brasil com uma percepção única. Escritor de importantes obras, conhecido pelo seu livro-­‐reportagem, Os Sertões, no qual relata a Guerra de Canudos e a epopeia da vida sertaneja na luta diária contra a paisagem e a incompreensão das elites.

Num momento como a Flip, um festival de ideias, que tem a literatura no cerne das discussões, o contraste causado pelas desigualdades, intolerâncias, polarizações politicas e sociais, torna-­‐se ainda mais forte. Não podemos ignorar, por exemplo, que Euclides da Cunha deixou claro em Os Sertões, sua visão preconceituosa em relação às etnias. Os autores, professores e convidados criticaram de forma reflexiva, a pouca presença de negros na literatura; a luta e participação de mulheres nos espaços políticos e sociais; necessidade da leitura, integração de crianças ao mundo do saber.

A sexta feira, dia 12 tinha algo a mais, uma movimentação inquieta e acelerada. As falas, palestras, leituras, rodas de conversa, apresentações musicais, teatrais e toda proposta de levar literatura, arte, educação e inclusão, foram abafadas por gritos ensandecidos, buzinas descontroladas, caixas de som ensurdecedoras e fogos de artificio.

Disparidade politica? Não gostaram de ter seu mártir, seu salvador, agora como acusado? Queriam a cabeça de seu acusador e de todos que o apoiam? Foi além e mais triste que isso. A ação descontrolada dos “manifestantes“ não se limitou à questões politicas, era direcionada a toda e qualquer fala, independente ao seu direcionamento e conteúdo. Se tornou praticamente impossível ouvir uma roda de conversa sobre a necessidade da educação literária nas periferias, seguida por contação de historias e leitura de poemas.

Em meio aquela situação, os sentimentos oscilavam entre interesse, raiva, tristeza e incredulidade, no que se via e ouvia, se fez presente o trecho da música Fora da Ordem, de Caetano, “Aqui, tudo parece construção e já é ruina.” Trecho este de Claude Lévi-­‐Strauss em seu livro Tristes Trópicos, de 1955. Livro que não envelheceu em sua essência. Quando Lévi-­‐Strauss fala dos sonhos de grandeza que perduram, da incompreensão casmurra de nossa sociedade a respeito das realidades do mundo à sua volta, está ele ultrapassado? Quando ele aponta o declínio do mundo humano, a anulação acelerada das diferenças, a ladeira que leva à indiferenciação, ele é desmentido por nossa época?

É surpreendente a falta que temos em tolerar e integrar diferentes nichos e grupos, nos orientando por novos e diversos pensamentos e ideias. As oposições são importantes pois geram a necessidade criativa do novo. Se busca individualidade nas ações (ditas) racionais do ser humano, este, único a produzir arte e cultura, baseado no que chamamos de intelecto, ou, “discernimento, compreensão”. O quanto de discernimento e compreensão nos resta em meio a tanta polarização e extremismos que romperam a barreira politica e hoje se torna visceral? A Flip, ideia do que seria o pais do futuro, agora parece algo do passado, algo deslocado. Em diversas mesas e rodas de conversa questionava-­‐se: O que deu errado? Como chegamos a este ponto? Tem solução?

E ao fim daquela tarde de sexta feira, quando perguntado ao historiador José Murilo de Carvalho se ainda lhe resta algum otimismo com o futuro brasileiro, ele permanece em profundo silêncio e em profundo silêncio, centenas de pessoas aguardam a resposta. Depois do silêncio, aparentemente infinito, o historiador responde surpreso; “Otimismo?“. Pensa mais um pouco, menos por não saber a resposta do que não saber como dar a noticia. O silencio é quebrado por rojões explodindo constantemente e caixas de som tocando o Hino Nacional bem alto, para abafar as falas. Em um país onde se busca justificar erros presentes com erros do passado, com um nó na garganta o historiador faz não com a cabeça e se cala.

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