50 anos do pouso na Lua: os heróis esquecidos do projeto Apollo

Apenas doze pessoas pisaram na Lua, astronautas do projeto Apollo entre o final dos anos 1960 e 70. Todos homens e brancos. Os pioneiros Neil Armstrong e Buzz Aldrin passaram apenas duas horas e meia na superfície lunar, em 21 de julho de 1969. Harrison Schmitt foi o último astronauta americano a andar na Lua, e ficou por lá por 22 horas e 2 minutos, em dezembro de 1972. Apenas Schmitt e Armstrong eram civis. Todos os outros eram oficiais de carreira, experientes pilotos da Força Aérea ou da Marinha dos EUA.

Mas a história da chegada da Humanidade à Lua não pode se restringir a esses homens corajosos e treinados até a exaustão para essas missões assustadoramente complexas. Estima-se que mais de 400.000 profissionais estiveram envolvidos no programa lunar da NASA, cujo ponto de partida foi um discurso do presidente John Kennedy em 1962, onde ele declarou que os Estados Unidos chegariam à Lua antes do final da década.

Quase meio milhão de cientistas, engenheiros, designers, matemáticos, técnicos, carpinteiros, cozinheiros, pedreiros, serralheiros, médicos, jornalistas, preparadores físicos, etc e etc. A lista de profissões necessárias para a missão Apollo é vasta o bastante para criar uma cidade de grande porte, praticamente uma metrópole. Em uma conta grosseira, para cada homem que pisou na Lua, havia mais de 33.000 mulheres e homens dedicados a essa tarefa.

Durante décadas, esses milhares foram relegados a um anonimato injusto. A História só começou a corrigir essa negligência de alguns anos para cá.

Katherine Johnson, Dorothy Vaughan e Mary Jackson. Os nomes dessas mulheres eram praticamente desconhecidos do mundo até pouco tempo. Sua história se tornou uma grande produção de Hollywood, o filme “Hidden Figures” (“Figuras Ocultas”, ou “Estrelas Além do Tempo”, na bizarra tradução brasileira), que concorreu ao Oscar de 2017. Jonhson, Vaughan e Jackson são três cientistas negras que contribuíram muito com a chegada do Homem à Lua nos anos 1960. Como elas, são vários os “heróis esquecidos” do projeto espacial da NASA.

A brilhante matemática Katherine Johnson (interpretada pela atriz Taraji P. Henson no filme) foi escalada para trabalhar no grupo de elite da Missão Espacial. Ela era a única pessoa negra na equipe e sofreu muita discriminação e desvalorização, apesar da imensa contribuição de seu trabalho. Como as odiosas normas de segregação racial ainda estavam em vigor nos estados do sul dos EUA, ela era obrigada a andar quase um quilômetro para poder usar um banheiro destinado para “pessoas de cor”, situação que só foi remediada depois de muito tempo. Ela não podia assinar os relatórios com seus cálculos essenciais para os voos espaciais, e era isolada até no refeitório da base. Já Dorothy Vaughan liderou uma iniciativa para treinar mulheres negras no uso do computador da IBM que poderia causar o desemprego de todos os “computadores humanos” da NASA. Mary Jackson enfrentou muitos obstáculos para se tornar a primeira engenheira negra da NASA e trabalhar na construção da cápsula que lançaria o homem ao espaço.

Em fevereiro deste ano, a NASA anunciou que um de seus principais órgãos, o Independent Verification and Validation Facility, foi renomeado para homenagear Katherine Johnson. A unidade é responsável pela segurança de dados e softwares das missões espaciais.

Além dessas cientistas, havia outras mulheres envolvidas em tarefas essenciais para o sucesso das missões Apollo. A matemática Poppy Northcutt era a única mulher na equipe do Controle da Missão em Houston, Texas. Ela agia como controladora de voo, em um ambiente complexo e com tecnologia limitada. A designer de vestuários Eleanor ‘Ellie’ Foraker foi responsável pela criação dos trajes pressurizados usados pelos astronautas nas caminhadas lunares – uma tarefa dificílima, porque os astronautas precisavam de equipamentos que pudessem ser usados de modo seguro em um ambiente sem ar, extremamente frio e exposto à fortíssima radiação solar. Já a engenharia astrofísica Dorothy ‘Dottie’ Lee foi uma das responsáveis pelo design do escudo térmico das cápsulas que retornaram à Terra. Sem um desenho correto, os astronautas morreriam fritos pelo calor gerado pelo atrito durante a reentrada na atmosfera, em altíssima velocidade.

São muitíssimos homens e mulheres, brancos, negros, asiáticos, hispânicos. Todos participaram ativamente de um dos mais extraordinários feitos da raça humana. Cinquenta anos depois, deveríamos estar em um patamar muito superior de desenvolvimento, de cooperação e entendimento entre as nações da Terra. Em 2019, deveríamos estar vivendo em um planeta com mais harmonia, tolerância e justiça para todas as pessoas, com maior respeito pela Terra – que é nosso único lar.

O escritor Arthur C. Clarke, que escreveu nos anos 1960 o conto que deu origem ao filme “2001: Uma Odisseia no Espaço”, dirigido por Stanley Kubrick em 1968, disse em uma entrevista que ambientou sua história no ano 2001, porque imaginou que seria uma época onde a espécie humana já teria superado sua herança negativa de guerras, fome e ódios. Pena que não foi assim. No conto de Clarke, em 2001 a humanidade já estaria evoluída o bastante para ter habitações permanentes na Lua e missões tripuladas para Júpiter.

Em tempo: a prova definitiva de que as missões tripuladas para a Lua NÃO são uma farsa encenada pelo governo americano é justamente o número de pessoas envolvidas no projeto. Com uma população de quase meio milhão de profissionais trabalhando nesse objetivo, é absolutamente impossível esconder uma “mentira” tão grande, por tantas décadas. Em algum momento, nos últimos 50 anos, alguma dessas pessoas envolvidas no projeto apresentaria provas irrefutáveis de que o Homem nunca pisou na Lua. Isso não ocorreu, e tudo que circula na internet não passa de teorias da conspiração sem qualquer base e fake news.

Foto: The Project Apollo Image

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