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Ciências

Cinquenta anos depois da Apollo 11, vivemos todos no mundo da Lua

Sergio Kulpas

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O programa lunar da NASA terminou oficialmente em dezembro de 1972, quando os astronautas da Apollo 17, Eugene Cernan, Ronald Evans e Harrison Schmitt voltaram à Terra. Eles foram os últimos homens a pisar na superfície lunar. Mas o projeto Apollo deixou uma imensa herança científica e social, que está integrada ao cotidiano de todos nós, meio século depois do primeiro pouso na Lua.

O programa espacial americano que levou astronautas para a Lua foi um projeto político, uma resposta da superpotência ocidental ao pioneirismo soviético, que colocou o jovem cosmonauta Yuri Gagarin em órbita da Terra em 1961. No ano seguinte, o presidente americano John F. Kennedy prometeu em discurso que os americanos chegariam à Lua antes do final da década de 1960. Dito e feito.

O mundo da última missão tripulada à Lua era muito diferente daqueles primeiros voos dos anos 1960. Os assassinatos de John Kennedy, Martin Luther King e Bob Kennedy arrasaram com os sonhos da Era de Aquarius e da geração “paz e amor”. As turbulências sociais que varreram o mundo naquele final de década empalideceram o brilho da Lua.

Em 1972, o presidente dos EUA era o republicano Richard Nixon, e o país estava atolado na insana guerra do Vietnã, um conflito que custou a vida de dezenas de milhares de jovens americanos e milhões de vietnamitas. Os recursos destinados a essa guerra foram se tornando cada vez maiores e atenção do público americano estava muito mais concentrada nas notícias sobre seus filhos morrendo na selva de um distante país da Ásia do que em bravos astronautas no vácuo lunar.

Em 1973, a primeira crise do petróleo causou um terremoto no mapa político do mundo, e pode ter sido a pá de cal no programa espacial tripulado da NASA. O último foguete Apollo voou em 1975, para se acoplar em órbita com a nave soviética Soyuz, uma missão colaborativa criada para tentar amenizar a tensão da Guerra Fria. As estações espaciais criadas nos anos 1970, o Skylab americano e a Mir soviética, são crias do projeto Apollo, mas foram projetos relativamente modestos e com orçamentos muito menores do que deveriam ter.

Apesar desse final quase melancólico, o projeto Apollo deixou um legado riquíssimo, que faz parte essencial do mundo que vivemos hoje. As tecnologias desenvolvidas para as missões lunares foram aperfeiçoadas e produzidas em massa nas últimas décadas, e são parte integral de nossas vidas.

Circuitos integrados (chips) minúsculos, GPS, comida desidratada, trajes térmicos usados por bombeiros, velcro, ferramentas portáteis movidas por baterias, sistemas de imagem eletrônica, sistemas de transmissão via satélite, lentes de câmeras e capacetes a prova de riscos, e uma infinidade de outras tecnologias criadas para o projeto lunar estão presentes hoje, e continuam evoluindo.
Como o projeto de missões tripuladas na Lua foi encerrado há 47 anos, esse feito histórico parece ter perdido a relevância. O programa Apollo sempre teve muitas críticas, mesmo em seu apogeu. Foi tachado como propaganda política dos EUA (e era), e mesmo nos EUA o orçamento das missões era considerado um “escândalo” em comparação com outros problemas urgentes nos Estados Unidos na época.

Nos últimos anos, o número de “céticos” sobre a caminhada humana na Lua aumentou exponencialmente. Esses céticos poderiam ser classificados como meros ignorantes, e são. Mas o abandono da exploração lunar, não apenas pelos EUA mas por outros países ricos (incluindo a China) é visto como uma prova de que o ser humano jamais pisou no satélite. Mas mesmo os conspiradores mais radicais não duvidam das missões robotizadas até Marte, e das sondas enviadas aos confins do sistema solar.

Viagens tripuladas para a Lua são empreendimentos caríssimos. A NASA é uma agência pública, financiada com dinheiro dos contribuintes americanos. Só recentemente o setor privado mostrou algum interesse pela exploração do espaço. Bilionários como Elon Musk e Jeff Bezos têm planos para criar estações orbitais e voos tripulados para a Lua.

Americanos, chineses, indianos e russos podem promover uma nova corrida espacial, com objetivos comerciais – e políticos, como de costume. Mas nada que se aproxime ao cenário imaginado pelo escritor Arthur C. Clarke e o diretor Stanley Kubrick no filme “2001: Uma Odisseia no Espaço”.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.

Sergio Kulpas é escritor e jornalista, com 25 anos de atividade em redações. Passou pela Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Gazeta Mercantil, Diário do Comércio, Meio & Mensagem e vários sites especializados em comunicações e mídia.

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Ciências

O que é Sustentabilidade?

Expressão que se consolida a partir do ano 2.000, a sustentabilidade é disputada pela direita e pela esquerda e ambas querem assumir o monopólio da defesa do ambiente. O importante é discutir de maneira objetiva e sem ideologia, explica nosso analista

Marcos Bidart

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Sustentabilidade: uma palavra e vários significados. Foto de Pine Watt (Unsplash).

São tantos os usos e desusos do termo sustentabilidade que quando vejo escrita a palavra, logo procuro identificar a corrente ideológica e a maneira de pensar de quem a usa. Fico confuso, na verdade pasmo, que esta palavra (ou ideia-força como preferia minha orientadora de doutorado), seja usada por gente que propõe temas completamente distintos e paradoxais, sem maiores aprofundamentos. Busco então neste texto introdutório oferecer uma visão ampla e crítica de como o termo surgiu e é usado e/ou corrompido. Vamos lá:

O conceito

Sustentabilidade é um conceito amplo, sobre o qual há muitas controvérsias. O conceito do tripple bottom line (tripé da sustentabilidade), cunhado por John Elkington se tornou dominante no âmbito organizacional. Ele visa capturar os esforços de países e organizações para uma atuação voltada para proteger o capital natural e ambiental, bem como o capital humano, sem deixar de valorizar os anseios do capital econômico. Tornou-se expressão também largamente utilizada para a elaboração de padrões de relatórios organizacionais e nacionais sobre sustentabilidade e para medir a chamada ‘pegada ecológica’.

A compreensão de sustentabilidade baseada apenas no triple bottomline pode ser reducionista. Peter Söderbaum, por exemplo, elenca seis diferentes dimensões sobre as quais políticas, programas ou projetos de sustentabilidade podem ter efeito: (1) ecológicas ou ambientais; (2) da saúde humana; (3) sociais aqui consideradas inclusive as ligadas a direitos humanos, redução ou aumento da pobreza, justiça, etc.; (4) culturais; (5) estéticas; e (6) monetárias e financeiras. Além destas, acredita o autor sueco, há outras três mais amplas ligadas ao conhecimento e experiência ganhos, ou ao poder, ideologia e ética e ainda a questões legais e institucionais.

Ética

Controverso e disputado por diferentes ideologias o termo sustentabilidade ganhou ao longo do tempo importância e abrangência. Os filósofos alemães antes de entrarem em uma discussão costumam definir os termos que vão usar, para que todos falem da mesma coisa. O ponto de partida deste texto é o conceito de sustentabilidade abaixo, formulado por Stephen Viedermann:

Sustentabilidade é um processo participativo que cria e persegue uma visão de comunidade que respeita e faz uso prudente de todos os recursos – naturais, humanos, criados pelo homem, sociais, culturais, científicos etc. Sustentabilidade procura garantir, na medida do possível, que as gerações presentes podem obter um determinado grau de segurança econômica e tornar real a democracia e a participação popular no controle de suas comunidades, mantendo ao mesmo tempo a integridade dos sistemas ecológicos dos quais toda a vida e toda a produção dependem. Assumindo também responsabilidade em garantir e fornecer todos os recursos necessários para que as gerações futuras possam realizar suas visões, na esperança de que elas tenham a sabedoria e inteligência de usar estes recursos de forma apropriada.

Utopia

Este conceito de Viedermann acima pode parecer utópico e vazio em termos de aplicação prática. No entanto, também pode parecer utópico conversar seriamente sobre sustentabilidade com determinadas organizações nas quais questões éticas são constantemente desrespeitadas.

Boaventura de Sousa Santos diz que o único caminho para pensar sobre futuro parece ser a utopia. Por utopia, entende o sociólogo português, explorar novas possibilidades humanas e novas formas de vontade e “[…] a oposição da imaginação à necessidade do que existe, só porque existe, em nome de algo radicalmente melhor por que vale à pena lutar e à que a humanidade tem direito”. O autor português lembra que, apesar da urgência de soluções, este pensamento utópico é hoje um pensamento desacreditado, no embate entre os atores pragmáticos do paradigma ecossocialista e do paradigma capitalista expansionista.

Um termo em construção

Explorar a imaginação e novas possibilidades de ação simples e o respeito às ideias das comunidades envolvidas é um processo possível, por meio do caminho participativo e prudente apregoado por Viedermann. Ou seja, a ideia por trás da definição não é, portanto, a de adotar modelos prontos de sustentabilidade e indicadores pré-fabricados, mas construí-los social e localmente.

Por trás das dificuldades em definir sustentabilidade se escondem disputas ideológicas, batalhas paradigmáticas, contradições e paradoxos que vão além de diferentes visões econômicas e de embates entre forças políticas de ‘esquerda’ e de ‘direita’. Sustentabilidade tem, diferentes significados para diferentes pessoas, grupos de pessoas, grupos de pressão movimentos sociais e organizações, conforme afirma Subhabrata Bobby Banerjee.

O significado do termo sustentabilidade foi se ampliando ao longo do tempo. No final do século passado as preocupações com o assunto ainda estavam diretamente ligadas aos esforços para conter a progressiva deterioração do meio ambiente físico, causada pelo crescimento econômico. Isto aparece, por exemplo, na compilação de trabalhos editada pela Harvard Business Review, em 2000, com o título Business and the Environment, com escritos que remontam a 1991. Nesta obra a palavra sustentabilidade (sustainability) aparece no título de dois artigos e o termo meio-ambiente (environment) aparece quase sempre como sinônimo para natureza (Joan Magretta e Johnson Hart).

Países ricos e países pobres: de quem é a responsabilidade?

No artigo de Hart se espelha uma relação de causa-efeito bastante comum entre os defensores de um desenvolvimento sustentável no hemisfério norte. Segundo o autor e consultor: “[…] as raízes do problema – crescimento explosivo da população e rápido desenvolvimento econômico nas economias emergentes – são assuntos políticos e sociais que excedem o mandato e capacidade de qualquer corporação”.  Esta maneira de pensar sobre causas e consequências da questão ambiental pode ser observada também no mundo das relações internacionais.

Encontra-se de um lado, a posição dos países desenvolvidos, de que os grandes problemas do mundo atual seriam ligados a estes pontos: crescimento explosivo da população e rápido desenvolvimento (leia-se crescimento) econômico nas economias emergentes. Isto provocaria fortes pressões por energia, consumo de bens duráveis e não duráveis, a poluição de rios e mares na etapa de produção e na eliminação de lixo doméstico. Do outro lado, a posição dos países emergentes, expressa, por exemplo, na I Conferência Internacional sobre o Petróleo e Ambiente, da qual participaram trinta países em via de desenvolvimento. Segundo a posição defendida pelos países mais pobres, são os países desenvolvidos e industrializados que devem assumir os custos do tratamento dos problemas de poluição por serem eles “que estão na origem da poluição do ambiente desde a Revolução Industrial, há centenas de anos, que lhes permitiu desenvolver-se” (C. Ghanem). Além disso, a posição defendida pelos países em desenvolvimento é de que os países ricos “recusam-se a assumir a responsabilidade de poluidores, predispondo-se apenas a contribuir na luta contra a poluição” (ibid).

Independente de questões ligadas a países ricos e pobres, Paul Shrivastava propõe que a responsabilidade seja dividida entre três partes: Governo, consumidores e empresas. Os questionamentos feitos pelo autor sobre o papel das empresas partem de uma assunção que poderia ser considerada falaciosa. A de que unicamente empresas teriam a obrigação de proporcionar produtos de consumo e serviços a 11 bilhões de pessoas. O autor reconhece que a consequência da manutenção de níveis de consumo e dos atuais padrões de produção é insuportável para o planeta e levaria a uma degradação inimaginável, com o consumo de matérias-primas e produtos e a gigantesca geração de resíduos. Não se observa, no entanto, nenhum tipo de crítica reflexiva sobre até que ponto estas mesmas empresas convencem o consumidor sobre o que seriam níveis de ‘conforto mínimo’ e o que são ‘produtos essenciais’. Esta reflexão é necessária pois ações governamentais teriam seus limites, bem como a ação de consumidores individuais, exigindo que as empresas também se engajassem voluntariamente em ações éticas, visando cenários futuros menos sombrios.

De acordo com esta posição pessoas físicas seriam, portanto, também chamadas a assumir alguma postura ideológica no sentido de Söderbaum para enfrentar a crise ambiental e climática. Isto desafia a racionalidade fria da economia, em que mercados são vistos apenas como ambientes neutros em que todos os atores dispõe de todas as informações para tomar suas decisões. As incertezas mencionadas por Ulrich Beck  sobre possíveis cenários futuros levam cada um a agir segundo sua postura ideológica, seus valores e segundo os meios que imagina para atingir determinados fins desejados, inclusive em relação à sociedade e ao planeta.

Tecnocentrismo e greenwashing

Chris Sneddon argumenta que as lutas paradigmáticas e geopolíticas levaram ao rápido aumento do debate sobre sustentabilidade após o Relatório Bruntland (UN, 1987). A partir deste incremento no debate se multiplicaram posições discursivas ou tendências em relação à sustentabilidade, que se transformavam ou não em práticas e ações no campo organizacional.

A primeira tendência apontada por Sneddon surge da dimensão unicamente ambiental da sustentabilidade antes mencionada. É uma preocupação e tomada de consciência com a óbvia rápida deterioração em grande escala do meio ambiente físico. A partir desta tendência se desenvolveu uma busca acelerada por inovações tecnológicas ‘verdes’ radicais. Este caminho, chamado de tecnocentrismo, propõe e acredita que a solução para questões ambientais está no avanço da ciência, a mesma ciência que pode ter causado tantos dos problemas agora combatidos.

Uma segunda tendência discursiva e de ação, também fruto do tecnocentrismo é apontada por Sneddon. Esta, mais ideológica do que de ação prática, se propõe a manter a sustentabilidade econômica dos negócios de forma ambígua. Isto se daria pela geração de conhecimentos de propaganda e comunicação, e práticas daí decorrentes, que permitissem ‘reembalar’ os procedimentos de praxe de exploração dos recursos e do ser humano, dando-lhes uma ‘fachada verde’, o chamado greenwashing. Temos então um novo choque. De um lado este fenômeno de proteção das empresas contra ações dos indivíduos e das coletividades, tentando se apresentar como éticas e corretas em termos de sustentabilidade. E temos por outro lado, a luta por parte de indivíduos e organizações de defesa dos interesses do consumidor e dos direitos civis. Este embate deu origem dialeticamente a novas tensões. Fez com que corporações fossem constantemente acusadas por grupos de pressão de enganar consumidores e confrontadas com alegações de uma falsa responsabilidade social e ambiental, colocando sob suspeita sua pretensa integridade ‘holística’.

Existe ainda uma terceira tendência segundo Sneddon, que é aquela com a qual me alinho. Esta tendência entende a sustentabilidade como um problema multicausal, paradoxal, ambíguo e complexo e que exige, portanto, uma abordagem, necessariamente, inter e multidisciplinar e que evite dualismos tradicionais (Catherine O´Riodan). Uma vez que é um  tópico de estudos por excelência interdisciplinar, requer a quebra de paradigmas e a construção de um conhecimento vivo, em que aspectos da ciência tradicional se unam a formas locais de conhecimento na visão de Jonathan Murdoch e Judy Clark.

Nos próximos artigos pretendo apresentar aspectos do tema sustentabilidade, aceitando e desafiando o chamado tripé da sustentabilidade. Deixo como desafio e provocação um vídeo de um minuto de Ulrich Beck, introduzindo o conceito de Sociedade de Risco.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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Ciências

Yutu-2 e o material misterioso no lado oculto da Lua

A descoberta despertou amplo interesse da comunidade científica, bem como especulações sobre o que esse material realmente poderia ser.

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Imagem que mostra a área destacada na cratera. Crédito: CNSA/Clep

No ano passado, a CNSA (Administração Espacial Nacional da China) aterrou com sucesso um módulo de pouso lunar  Chang’e-4 (嫦娥四号), em South Pole-Aitken, a maior e mais profunda bacia da lua, no lado oculto da Lua.

Desde então, um jipe lunar chamado Yutu-2 (玉兔二号, Jade Rabbit-2) estuda a Lua. No mês passado, enquanto trafegava pelo lado oculto da Lua, avistou uma ”substância misteriosa e colorida”. A substância foi descrita como um material semelhante a gel, que parecia completamente diferente em forma, cor e textura do solo lunar circundante.

A descoberta despertou amplo interesse da comunidade científica, bem como especulações sobre o que esse material realmente poderia ser. Os cientistas levaram o Yutu-2 para perto do material, que parece estar localizado no centro de uma cratera. 

O que as imagens mostram?

A explicação mais provável é que um impacto gerou calor suficiente para formar vidro a partir dos minerais espalhados pela superfície lunar, deixando fragmentos para trás. 

Em entrevista ao Space.com, o professor Clive Neal, cientista lunar da Universidade de Notre Dame, disse que embora a foto resultante não seja perfeita, ela ainda pode oferecer pistas sobre a descoberta inesperada. O professor Neal disse que o material encontrado se assemelha a uma amostra de vidro de impacto encontrado durante a missão Apollo 17 em 1972.

O Yutu-2 está silencioso no momento e começará a operar novamente na próxima semana devido a incidência solar.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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