O que é Behaviorismo?

Nos últimos dois textos introduzi alguns conceitos caros ao Behaviorismo enquanto prática e teoria.

O primeiro foi uma introdução ao Behaviorismo e o segundo foi um aprofundamento na teoria comportamentalista.

Agora é interessante entender algumas das contribuições que essa ciência comportamental traz em diversos campos.

Lidando com o comportamento (im) previsível

Uma crítica padrão que se escuta sobre a Análise do Comportamento (AC), a prática científica que deriva da filosofia do Behaviorismo Radical, é que sua proposta de prever e controlar comportamentos é inviável porque o ser humano é de natureza imprevisível.

Hoje a imprevisibilidade reside no não completo acesso a variáveis das quais o comportamento é função, como aquelas que estão sob domínio único e exclusivo da pessoa. E não em propriedades imateriais como a conceituação atual de “mente”, assumindo a existência de processos de pensamento inapreensíveis e impossíveis de ser analisados concretamente, caindo em explicações circulares.

Interessante é observar que os mesmos críticos que marcam a dificuldade de explicar o comportamento das pessoas também tentam explicar o comportamento, apelando, contudo, para ficções explanatórias, adiando a explicação e promovendo a nebulosidade do entendimento sobre nossas atitudes.

A circularidade de raciocínio fica evidente quando se assume propriedades como inteligência para justificar desempenhos diferentes de alunos, por exemplo:

— João fez a prova mais rápido que Caio porque é inteligente” (aqui poderia entrar qualquer outro conceito ou explicação, como “concentra”, “Aptidão privilegiada” ou até mesmo carácteristicas mais elaboradas como “Esquemas de processamento cognitivo”)
— Ok, mas de onde você assumiu que ele é mais inteligente?
— Ora, porque ele fez a tarefa mais rápido
— E porque você acredita que ele é mais rápido?
— Porque ele é mais inteligente/processa melhor as informações/(…)

Fica claro que a necessidade de explicar, por fim, o porquê de João ser mais rápido fica portergada. E é justamente o distanciamento dessa circularidade que a AC busca ao escanear todas as variáveis envolvidas na função orgânica que é nossa relação com o que nos rodeia.

Na clínica e na escola

Uma primeira e óbvia aplicação da AC está na clínica psicológica. Fornecendo modelos de trabalho e formas de entender o adoecimento psicológico, como a Depressão e o TOC, que tem eficiência reconhecida no mundo acadêmico e entre terapeutas.

Assim como na escola, auxiliando professores a eficientemente ajudar seus alunos a adquirem determinadas competências curriculares e a lidar com desvios de conduta.

Contudo, a AC não está restrita a estes microcosmos.

Na administração de Recursos Humanos das organizações

Os conhecimentos que a AC produz sobre a previsão e controle do comportamento são muito bem vindos no setor de Recursos Humanos, especialmente reconhecido o fato de que outras visões e teorias assinalam que o Ser Humano é inerentemente imprevisível — o que a AC demonstra ser bem o oposto.

Em RHs de diversas empresas a AC vem se tornando cada vez mais forte devido suas contribuições, sobretudo sob a alcunha de OBM — Organizational Behavior Management —, um método de trabalho que une Behaviorismo e Análise de Sistemas, fornecendo uma visão estratégica das práticas do RH na medida em que fomenta ações produtivas para o negócio em níveis sistêmicos e individuais.

No fim do dia, o sucesso das empresas está no comportamento bem sucedido dos funcionários de forma harmônica.

Na gestão de Marketing

“Without data you are just another person with an opinion.” — W. Edwards Deming

Em contextos de marketing, a aplicação da AC ainda é subaproveitada, estando periferizada à uma disciplina ultrapassada com contribuições bem particulares.

Em verdade, boa parte do que é transmitido sobre a AC é referente apenas ao condicionamento clássico — conceito desenvolvido no artigo anterior. Ignorando o fato de que o modelo teórico da AC abarca tudo quanto é importante em nível de Marketing. Do comportamento do consumidor à economia comportamental, fornecendo modelos práticos e teóricos para compreender fenômenos como elasticidade e conceitos como Brand Equity.

Assim como o RH tem a OBM, o Marketing tem o BPM — Behavioral Perspective Model. Uma abordagem para entendimento do consumo e de gestão de marketing que contempla as principais contribuições da AC nessa área crítica de qualquer organização.

Outras contribuições: UX, AI/ML, Gestão Pública e Muito mais (…)

Não bastasse todo esse poder que a AC traz nessas áreas citadas anteriormente, estamos também observando uma entrada cada vez mais enérgica da AC em áreas como User Experience, Inteligência Artificial e Machine Learning. Além de fornecer insights interessantes para administradores públicos e outros profissionais de diversas áreas que lidam com o Ser Humano.

O futuro da Análise do Comportamento

De toda sorte, é evidente que o Behaviorismo não é uma “old science” como alguns cognitivistas o querem, e suas contribuições cada vez mais poderosas e até muitas vezes desafiadoras do senso comum continuam a se proliferar assim como cresce numerosamente a atividade na Academia para fomento dessa ciência.

O que veremos no futuro? Não sei. Isso cabe a nós na medida em que aproveitamos todo o potencial dessa forma de entender o comportamento humano em todo seu potencial transformador de nós mesmos e da sociedade.

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