Não se reprima

Infelizmente, preconceito existe e é um comportamento normalizado, o que faz com que deixamos de pensar e questionar coisas aparentemente corriqueiras. Existem várias maneiras de inferiorizar (e até criminalizar) o outro. E uma das formas mais eficientes é atacar a cultura alheia, como fizeram com o samba, que já foi extremamente marginalizado socialmente. Mas aí deram uma pequena repaginada no instrumental e notaram que poderiam lucrar. Veja bem, cultura não é só o que gostamos. Tampouco só o que é erudito ou acadêmico. A cultura abrange todas as formas artísticas de produção humana. Isso mesmo, todas. Ninguém é superior ou mais inteligente do que o outro por ouvir Chico Buarque ou Caetano Veloso. E claro, ninguém é inferior por curtir funk, forró ou brega. Afinal, todo mundo dança coladinho ou desce até o chão numa festa ou balada, principalmente se está com teor alcoólico alto no corpo. “É som de preto, de favelado, mas quando toca ninguém fica parado”, como cantam sabiamente Amilcka e Chocolate.

Usar parâmetros imaginários e elitistas para humilhar o gosto musical dos outros é deplorável. E pior ainda é se limitar. Não querer conhecer e ironizar o diferente por birra é tosco. Quer um exemplo claro? Muita gente fala mal da Pabllo Vittar, inclusive usando argumentos LGBTfóbicos. Óbvio que ninguém é obrigado a gostar da drag queen. E nem deve ser. Mas ela foi longe demais de novo: o rapper Emicida a chamou para uma parceria juntamente com o cantor baiano Majur. E dá para ficar ainda mais surpreendente: a música, que se chama “AmarElo”, tem o sample de “Sujeito de Sorte” uma música conhecida do Belchior. É uma mistura altamente improvável que deu certo. A canção é harmoniosa e incrível. Aposto que muitos deixaram de ouvir a música quando leram o nome da Pabllo. O que é uma pena, já que é um dos bons lançamentos deste ano da cena brasileira.

Não adianta tapar os ouvidos: música é mistura. Sempre foi assim e continuará sendo. Por isso, aproveite. Cante, dance, fique na fossa, ouça novas músicas e também as playlists de sempre. Preconceito musical é tao demodê quanto Menudos, ombreiras e mullets. Moda é cíclica, já as ideias errôneas e equivocadas devem acabar logo.

Foto: Brooke Cagle/Unsplash

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