Da garagem hippie ao governo

Como o setor mais jovem da economia mundial ascendeu de hippies à Forbes?

Hoje, o mundo é impulsionado, administrado, regulado e até mesmo, vigiado por sistemas das mais variadas formas e complexidades, não existindo um setor sequer que esteja isento dos feitos da tecnologia.

Mas, antes de falarmos sobre o mundo que conhecemos, vamos falar sobre suas raízes! A década era de 60, o movimento era a contracultura hippie. Os jovens com espíritos liberais, arraigados na busca por sua consciência e quebra de paradigmas sociais, procuravam novas formas de se relacionar com o mundo e seu novo discurso de paz.

Enquanto os festivais de músicas e as viagens de mochila moldavam os jovens, os computadores pessoais (PCs) se tornavam mais acessíveis e alcançavam a população em geral. Os estudantes, especialmente de Stanford, encantavam-se com as possibilidades da nova tecnologia, que proporcionava liberdade criativa e potência para solução de problemas matemáticos.

Vale lembrar que, na época, não era permitido o patenteamento de softwares pelo governo norte americano e, por isso, as empresas que então dominavam o mercado, precisavam compartilhar seus códigos fontes com seus consumidores. Pergunto aos mais jovens, se já imaginaram este “mundo”.

Os hippies high tech que tinham o desejo latente de derrubar os ícones do sistema regente, organizavam-se em suas garagens e começavam a desenvolver soluções ainda melhores e mais completas que as dos fabricantes. Toda vez que algo novo surgia, todos simplesmente compartilhavam seus códigos em nome da ciência e da colaboração – ou seja, sem almejar grandes ganhos financeiros com a sua descoberta.

Por exemplo, o primeiro software de planilhas eletrônicas, o VisiCalc – criado por Dan Bricklin e Bob Frankston – revolucionou o uso dos PCs e os possibilitou a ser uma ferramenta empresarial. Inclusive, segundo Steve Jobs, fundador da Apple, o Mac-II só se tornou um sucesso graças ao sistema de Dan e Bob! E acreditem, eles quebraram logo em seguida, graças ao seu código aberto e livre de patentes.

O cenário começou a mudar no ano de 1976, quando o jovem e voraz Bill Gates – que lançara seu primeiro sistema operacional e estava retendo seus lucros – escreveu a famosa Carta Aberta aos Hobbistas.

Nesta carta, ele repudiou a comum prática de cópias e compartilhamento de sistemas, chamando até mesmo seus colegas de profissão (programadores) de ladrões e piratas, pois estes estariam “acabando” com o seu sustento.

Este fato fez com que os inúmeros jovens que trabalhavam em suas garagens, substituíssem a visão de comunidade para uma pretensão real de grandes lucros financeiros. Com a nova motivação, nos anos 80, iniciou-se o processo de transformação dos escritórios-garagens para uma estrutura negocial mais eficiente, no que vieram a ser conhecidas como “startups”.

O objetivo era que suas aplicações estivessem no maior número de PCs e que, consequentemente, trouxessem um maior retorno para seus negócios. Logo, a missão inicial da causa praticamente deixou de existir. Além disso, o crescente apetite pelos números, incitou os nossos agora jovens adultos (nem tão hippies mais), a desenharem o sistema vigente. Contudo, ao analisarmos, observa-se que este é apenas uma versão moderna do que eles lutavam contra.

De lá para cá, segundo o Instituto de Pesquisa “Statista”, a indústria de softwares se diversificou e ganhou corpo, sendo responsável por uma receita de US$456,6 bilhões apenas em 2018. Entre as cinco marcas mais valiosas do mundo, quatro são empresas de tecnologia e software. Duas delas tiveram suas fundações em garagens dos anos 60. Elas cresceram e se consolidaram pelas facilidades que proporcionaram aos clientes, capacidade de inovação e usam desta capacidade para saciar seus investidores e deslumbrar seus fiéis consumidores.

O que dizer sobre isso?

Atualmente, estas mesmas empresas que criaram raízes tão profundas em nossa sociedade, têm influência direta e indireta sobre toda cadeia global de valor e seus setores da economia global. Assim como, percebe-se sua extrema importância como medidor de performance política em quase todos os governos. Se a economia vai bem, muito provavelmente sua política também. No caso do Brasil, somente este setor representa, aproximadamente, 7% de nosso PIB e tem 17.000 empresas de grande impacto atuantes – desde o Agronegócio ao Prestador de Serviços!

Definitivamente, os “pais fundadores” foram bem sucedidos em suas missões. De construção de uma comunidade até a dominaram o âmbito econômico.
Moldaram e seguem moldando o mundo que conhecemos com suas praticidades, designs e apresentações memoráveis. Impulsionando de carros autônomos à misseis de alta precisão!

Isto posto, pergunto: onde perdemos o companheirismo dos nossos hippies high tech e suas colaborações de soluções?

Digo, pois quero encontrar onde morreu o desejo pela ciência e por soluções de qualidade! Como é possível a maioria das empresas do setor entrarem em guerras de preços que destroem e acabam com a qualidade de suas entregas? Como é possível implementar códigos que tornam aparelhos inutilizáveis propositalmente?

É possível. Como é possível.

Sei que os tempos mudaram e nosso setor se tornou o próprio sistema. Mas, acredito que as pessoas dentro dele, podem, mais uma vez, reconstruí-lo. Sou empresário e negar a busca pelo lucro seria hipocrisia, já que dependemos de recursos para criar melhores técnicas e soluções, porém, não podemos negar qualidade e efetividade de tudo que é desenvolvido.

Ante ao exposto, digo: meus amigos de profissão, contem comigo!

Deixe uma resposta