O que fazemos com o que fizeram de nós?

A eterna necessidade, a busca incessante e alucinada por coisas e situações que nem sabemos se realmente precisamos, se queremos. Mecanicamente, trocamos liberdade por conforto e constantemente nos perguntamos se estamos felizes.

Em todo nosso processo politico, social e tecnológico entendemos e observamos, mesmo que lentamente, o conceito de transformação. Transformações são necessárias, feitas por pessoas buscando determinando interesse e/ou, apontando para determinado objetivo. A forma com que as transformações afetam o meio são inúmeras e de tantas variáveis, gerando efeitos diversos em todos os lugares, em todos as pessoas.

O que vivemos é ação de transformações do mundo, baseado em nossas escolhas, nossa liberdade. Liberdade angustiante, já diria Sartre. Quando surge o homem, pela primeira vez aparece a liberdade. Temos a liberdade de ser ou não ser. Por outro lado, temos angústia, o medo de que possa ou não ser capaz, medo do que vai acontecer. Todo momento é um momento em suspense. Nada é seguro ou certo, nada é previsível com o homem: tudo é imprevisível.

O medo de ser livre diante as transformações é grande, real e cada vez mais potente em um numero maior de pessoas. O mundo dinâmico, a tecnologia do futuro que torna o hoje obsoleto, onde nossas buscas e descobertas nunca são suficientes ou tão atualizadas. Logo, somos de alguma forma, forçados a mudar.

A etimologia da palavra crise, é mudança. Se está sentado de maneira desconfortável, automaticamente seu corpo se movimenta, reorienta e sentada, muda o cruzo das pernas, estica as canelas, nós mudamos. Mesmo não querendo, mesmo se chafurdando na zona de conforto, no espaço e tempo programado, no fácil, mecânico e racional, mudamos. Momentos de paz e riqueza, podem rapidamente ser substituídos por períodos de guerra e medo, se não muda, o mundo muda, as ações são constantes e isso afeta a todos, inclusive essa zona de conforto tão bem vinda.

Essa necessidade constante de atualização, da busca de algo instantâneo que nunca chega, sempre a eterna corrida, uma luta diária e muitas vezes, dolorosa. O homem tem medo de liberdade, mas a liberdade é a única coisa que nos faz humanos.

Assim, se pensar bem, nós somos suicidas – ao destruir nossa liberdade. E com isso, estamos destruindo toda nossa possibilidade de ser. Talvez seja cultural e socialmente construído; estude, estude mais. Trabalhe, mas trabalhe muito e depois, consuma e consuma cada vez mais. Logo, estamos satisfeitos pela segurança do acumulo e sentindo cada vez mais necessidade de tudo mesmo sabendo que se transformou em tão pouco. O pouco, que logo vira vazio e facilmente migra para tristeza e uma culpa enorme de talvez, não ter feito correto, de não ter sido suficiente, de buscar mais estudo, mais trabalho e tornar seu pouco em quase nada.

São escolhas livres do individuo em como lidar com mudanças e situações externas, gerando mudanças internas. É de única e exclusiva liberdade de cada um, direcionar sua vida, fazer escolhas do que fazer e como viver. Por que temos medo de nossas escolhas, medo de viver sem medo.

A liberdade que já era assustadora se torna um aprisionamento em medos, traumas e angustias. A exaustão por ter a breve noção que nada dá certo. Penso que nada dá certo fazendo as mesmas coisas, claro que isso parece frase motivacional de livros que nunca lemos, de autores que sempre citamos, mas ainda é verdade. A angustia da liberdade é a escolha; um sofá retrátil e uma TV 4K ou paz de espírito? Trocar de carro ou dormir tranquilamente sem Rivotril? Se já souber a resposta, e ainda assim, não está feliz, mude as perguntas. O ser humano é consciente. Resta ainda a consciência de sua liberdade e também, consciência de seu medo da liberdade. Na medida que sua consciência cresce, a sua liberdade cresce. Elas são correlacionadas. Seja mais livre e será mais consciente; seja mais consciente e você será mais livre.

Foto: Golconda, do René Magritte

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