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Universo Feminino

Todos os homens são potenciais estupradores?

Julie Damame

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Sim, você leu certo.

Antes de argumentar o contrário – por impulso imediato de proteção a si mesmo/namorado/pai/irmão – vamos falar sobre Fátima, Júlia e Priscila.

Em abril de 2019, Fátima, 54 anos, foi convidada, pelo seu então namorado, para um jantar romântico. O restaurante, na verdade, era um beco. O que ela não imaginava, era que um estupro coletivo havia sido previamente planejado pelo próprio namorado e os amigos dele. Foram cinco homens no total. Ao final, depois de terem introduzido um pedaço de madeira em sua vagina, estourando sua bexiga, desdenharam: “você é tão feia que te fizemos um favor”.

Júlia, 19 anos, teve uma história parecida. Depois de anos de estudo, foi aprovada na universidade que queria e resolveu comemorar, com seus melhores amigos, em uma festa. O que ela não esperava, era que um deles se tornaria seu estuprador. E pior, que filmaria tudo e postaria em – diversas – redes sociais, com um comentário, no mínimo, sarcástico: “você fica linda chorando”.

No caso de Priscila, com seus 10 anos, só queria brincar. Entretanto, sua família achava que ela tinha vocação para ser modelo mirim. Criaram, assim, uma página na internet, que – constantemente – recebia comentários hipersexualizados. O que ninguém supunha, era que seu pai tornar-se-ia seu estuprador. Durante os inúmeros atos, dizia: “você me provoca”.

O que elas possuem em comum?

Os nomes fictícios e as histórias verdadeiras. São episódios traumáticos que viraram manchetes e matérias de reportagens que, sobejas vezes, confrontaram suas dignidades, moralidades e honras.

A sociedade tende a culpabilizar as vítimas e minimizar a ação do criminoso. Para muitos, o primeiro julgamento é: “o que tal pessoa estava fazendo com aquela roupa/companhia/hora/lugar?”.

A comprovação deste cenário adveio da pesquisa de opinião feita pelo Datafolha e encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em 2016. Constatou-se que 33,3% da população brasileira acredita que a vítima é culpada em casos de estupro. Entre os homens, a porcentagem sobe para 42%.

Tenebroso!

É inconcebível que pensamentos e comentários inquisitivos sobre a conduta dessas mulheres sejam proferidos pela população feminina; principalmente por estas serem, também, possíveis vítimas.
Cerca de 86% das violências sexuais do mundo são contra nós. E, apesar de não sermos exclusivas, representamos uma vasta proporção.

A música “Testando” de Ellen Oléria (adoro!) bem ecoa: ”[…] Não importa pôr roupa chique ou dar seu sobrenome, A mulherada já sabe […], Sozinha cê não tá segura.”

Mas, o que os homens têm a ver? – diria o ansioso de plantão.

Bom, os homens representam 99% dos agressores sexuais globais (University of Chicago Press). E isso, definitivamente, não podemos ignorar.

E TODOS os homens devem “pagar” por isso? – pode me perguntar.

Vejamos.

A cultura do estupro é uma realidade, quer você acredite ou não. Podemos ser um mundo multicultural, mas garanto que essa verdade assombra todas as sociedades.

O conceito, segundo a autora Susan Brownmiller (1975), refere-se a existência de uma cultura/prática social hegemônica que apoia o estupro, a partir do modo como define a sexualidade masculina a naturalmente agressiva e a feminina, a sua falta de confronto. Ou seja, ensinamos a sociedade a se proteger de um estupro, e não a condenar diretamente o ato. Com isso, acabamos por desenvolver, aceitar e, pior, relativizar o estupro no decorrer da existência humana.

De acordo com a autora Andrea Nye, a tipificação penal (o que é) e a punição do estupro variou ao longo do tempo e consoante com o “tipo” de mulher! Se era virgem ou casada, por exemplo, aumentava-se ou diminuía a pena.

Admitia-se, ainda, que o comportamento do agressor era um “estímulo sexual incontrolável”. Imputando-se características de transtorno mental e não de natureza delitiva/criminosa ao infrator.
Correlativamente, o prazer feminino era um tabu. No passado, via-se como algo errado, pecaminoso e julgável.

Estas e outras características, sucessivamente, mesclaram-se com a noção de masculinidade tóxica e de estereótipos de gênero (ou funções sociais). A violência e o comportamento “macho” são propagados aos homens desde criança: “resolve a briga como homem”, “homem não chora”, “engrossa esta voz”, “seja forte, não vai dar uma de menininha”, etc.

Já a mulher, por muitos anos, era vista como um objeto, estava sempre disponível para saciar as vontades dos homens, ser dócil e “feminina”, além de cuidar da casa e da família. Seguiam a frase: “Mulheres são desfrutáveis, homens desfrutam”. Um horror.

Quem pode negar que estas características são diametralmente opostas e nos transformam em vítimas perfeitas?

O documentário The Mask You Live In, dirigido por Jennifer Siebel Newsom, aponta de forma impecável os males que a masculinidade tóxica provoca na sociedade. Os dados são dos Estados Unidos, mas a reflexão é bem importante como um todo (assista!).

Cerca de 21% dos homens assistem, todos os dias, vídeos pornôs com cenas de violência, 68% jogam, também todos os dias, videogames com cenas de lutas e 70% estão infelizes/chateados/agressivos ou depressivos por ter que viver sob uma “máscara” social do que pode ou não fazer. Receita para o desastre!

E – tcham tcham – mais de 35% dos homens cometeriam um estupro se soubessem que não seriam pegos!

Deplorável, vergonhoso, abjeto.

O Center for Disease Control and Prevention, nos EUA, revelou que uma em cada cinco mulheres será estuprada ao longo da sua vida. Frise-se: uma em cinco, 20% das mulheres!

No Brasil, o Atlas da Violência (IPEA/FBSP) compilou dados igualmente chocantes e que muito corrobora com o estudo americano!

Estima-se que ocorram 164 estupros por dia no Brasil, foram quase 60 mil em 2017. E se considerarmos que somente 10% deles são reportados às autoridades (dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública), o cálculo correto seria de, aproximadamente, 580 mil estupros ao ano, no país.

A maioria das vítimas são mulheres e menores de 14 anos – crianças entre 1 e 5 anos (51,2%) e adolescentes entre 10 e 14 anos (67,8%). Em torno de 70% dos abusos são cometidos dentro de casa por parentes ou companheiros. Perpassamos a lógica de que “roupa” a vítima usava, quais eram seus hábitos ou qualquer outra coisa. O problema é bem mais inerente a dialética cultural.

Se devemos questionar os agressores e não mais as vítimas, o mesmo vale para o “acreditar”, certo?

No livro Missoula, Jon Krakauer denuncia a omissão e a proteção concedida aos estupradores, por parte das autoridades policiais e judiciais da cidade universitária que dá nome ao livro. Os agressores são jogadores do time de futebol americano da Universidade de Montana, os Grizzlies. São jovens promissores, talentosos e que não poderiam ter suas carreiras ceifadas por uma condenação por estupro. Segundo o autor: “a Justiça e a universidade, não raro, fazem vistas grossas aos testemunhos das vítimas. Nos crimes sexuais, parte da sociedade se volta contra as vítimas ou tenta desacreditá-las assim que as denúncias vêm a público.”

Notamos que relatar um estupro ou agressão sexual envolve procedimentos complexos, invasivos e traumáticos. Reina-se o silêncio!

As vítimas não denunciam seus agressores, pois as “penalidades” sociais são muito altas – famílias ignoram os pedidos de ajuda ou sentem vergonha, há ceticismo pelo crime, quando o agressor é conhecido, entre outros.

Ademais, implica em inúmeros traumas físicos e mentais. Segundo o Caderno de Saúde Pública (2013), os efeitos podem ser desde infecções do aparelho reprodutivo, doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) e gravidez até depressão, síndrome do pânico, tentativa de suicídio e dependência de substância psicoativas.

Conforme o estudo “As palavras desacreditadas das mulheres: falsas alegações na pesquisa sobre estupro na Europa”, as mulheres são frequentemente tratadas com desconfiança, inclusive por autoridades policiais; mesmo quando as falsas alegações representam uma média de 5% dos casos.

Além do preconceito, no Brasil, as Delegacias da Mulher são escassas, só existem em 7,9% das cidades brasileiras. No caso das delegacias comuns, o estigma social consegue ser maior – especialmente, quando a vítima é um homem.

Destarte, se poucos denunciam e os que fazem, sofrem danos irreparáveis, quais consequências provocamos para a sociedade?

O que faremos com os 90% dos casos, cujos estupradores sequer serão objetos de denúncia?

Onde estão, neste exato momento, os estupradores que não foram denunciados e muito menos condenados?

Isso é bem sério!

O “potencial” do título é a existência do nosso contexto fático. O dicionário Aurélio bem explana: “potencial é algo suscetível de existir ou acontecer”.

Isso está mais do que comprovado! A sociedade tolera o estupro a ponto de asseverar que o crime faz parte da nossa cultura.

Cultura que é a fonte/causa-raiz destes laços complexos, destes comportamentos naturalizados e de difícil mutação.

E, de forma controversa, acredito que é precisamente nesta cultura que encontraremos a solução.

Se nós criamos – nós podemos mudar.

A elaboração de leis e punições mais severas podem até parecer positivas a curto prazo, porém, transformam-se em ineficazes ao longo do tempo. Sobretudo, se não soubermos lidar com os motivos e razões do crime.

Não devemos adotar apenas um modelo maniqueísta – de “bom e mau”, “forte e fraco”. Devemos trocar informações, realizar ações de discriminação positiva e discussões interdisciplinares em âmbitos nacionais.Eduquemos as futuras gerações sobre os impactos negativos que o machismo, a misoginia, a sociedade patriarcal, a masculinidade tóxica e a cultura do estupro causam à sociedade.

Tenhamos mais união e sororidade para lidar com as questões fundamentais. Sejamos o oposto dessas estatísticas e verdadeiros agentes de transformação social. Somos a nossa cultura. E, POTENCIALMENTE, firmamo-nos a favor ou contra ela.

Sejamos uma cultura de respeito.

Foto: Tim Marshall / Unsplash

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.

Julie Damame é Fundadora do Projeto Impacto Mulher, palestrante e ativista dos direitos humanos e contra a violência à mulher. Formada em Relações Internacionais no Brasil e na Espanha, graduanda em Direito e pós-graduanda em Direito Penal e Criminologia. Especialista em Justiça Criminal e Transtornos Mentais nos EUA.

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Universo Feminino

As espiãs nunca vistas

As mais temidas espiãs em tempo de guerra e que (quase) ninguém foi capaz de reconhecer.

Julie Damame

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em

Foto: RyanMcGuire / Pixabay

“Não seja comum”.

Essa pequena frase ficou na minha cabeça por dias, depois de eu ter assistido a série “The Bletchley Circle: San Francisco” (Assistam!). A série de suspense acompanha a vida de quatro mulheres que ocuparam altos cargos na 2ª Guerra Mundial, em equipes de decodificação, espionagem, construção de armamentos e estratégia, e que, após o conflito, com o retorno dos homens, foram dispensadas da atuação em atividades que envolvessem segurança nacional.

Decidiram, então, iniciar um trabalho de elucidação de crimes considerados irresolúveis, para provar o valor e a capacidade que elas possuíam, especialmente, para a sociedade.

A narrativa traz um elemento muito interessante: analisar a complexa situação das mulheres que ocuparam posições com responsabilidades ainda mais significativas que seus maridos e/ou conhecidos durante a guerra, e que, para o “bom funcionamento social”, tiveram que permanecer em silêncio no pós-guerra, por exigência dos seus governos.

A realidade pode até ter sido um pouco diferente da narrativa da série, especialmente porque a maioria dos que participaram dos programas de segurança nacional, em territórios inimigos, não voltou. Contudo, os livros “The Wolves at the Door: The True Story of America’s Greatest Female Spy” (Judith L. Person), “Sisterhood of Spies” (Elizabeth P. McIntosh) e “Young, Brave & Beautiful” (Tania Szabo)” bem comprovam o papel fundamental que essas mulheres ocupam na história.

Casos como o da Virginia Hall, Princesa Noor-un-Nisa Inayat Khan, Violette Reine Elizabeth Bushell, Barbara Lauwers, Amy Elizabeth Thorpe, Maria Gulovich, Julia McWilliams Child, Marlene Dietrich, Elizabeth P. McIntosh, Genevieve Feinstein, Mary Louise Prather, Juliana Mickwitz, Odette Sansom Churchill, Josephine Baker, Hedy Lamarr, Nancy Grace Augusta Wake, e de muitas outras mulheres, inspiram.

Elas são as personificações do “não seja comum”; ou melhor, o de ser o que quiser e não o que se espera de você. Inclusive, quanto a participação em serviços ditos como, majoritariamente, masculinos.

Entre as inúmeras espiãs conhecidas, Virginia Hall se destaca, por conta do vasto conteúdo que a Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA) dispõe a seu respeito, em seu site. Seguem alguns trechos que merecem menção (livre tradução):

“Natural de Baltimore, Virginia Hall Goillot é, talvez, mais conhecida por seu serviço heroico nas Operações Especiais Executivas Britânicas e no Escritório Americano de Serviços Estratégicos, durante a 2ª Guerra Mundial, contudo, é na CIA, que ela passou mais tempo. Uma das poucas mulheres relativamente seniores do serviço clandestino, ela trabalhou em vários setores da CIA até a sua aposentadoria compulsória, em 1966, quando tinha 60 anos. Virginia fez de TUDO, apesar de ter uma perna protética de madeira, que ela chamou de Cuthbert”.

“O historiador britânico M. R. D. Foot a apelidou de “agente indomável com um pé de bronze”. O oficial do Executivo de Operações Especiais (SOE), Philippe de Vomécourt, escreveu que ele serviu na França com essa “mulher extraordinária…com uma perna de madeira”. O autor francês Marcel Ruby disse que ela perdeu a perna em um acidente com um cavalo. Outros a fizeram perder um membro depois de cair embaixo de um bonde. O ex-oficial da CIA, Harry Mahoney, descreve uma missão da OSS, na qual ela saltou de paraquedas atrás das linhas inimigas com sua “perna de pau na mochila”. A autora e ex-oficial da OSS, Elizabeth P. McIntosh, escreveu que ela desembarcou na França de barco. A Gestapo, polícia secreta nazista, colocou sua imagem em um cartaz de “procurada” e, uma vez, como a “mais perigosa entre os espiões aliados” (Judith L. Pearson. Guilford, CT: The Lyon Press, 2005, página 324).

Sua reputação fala por si. Virginia escolheu um caminho cheio de sacríficos e dificuldades, mas sua vontade de atuar no meio diplomático, impulsionou seu desejo. Teve que se condicionar a andar sem mancar para não chamar atenção, aprendeu mais de quatro idiomas, ajudou a treinar batalhões para a resistência francesa, foi correspondente e informante, livrou espiões que haviam sido capturados e executou a maior rede de auxílio em território inimigo.

No final, “os britânicos fizeram dela, membro do Império Britânico. Os Estados Unidos, concederam a ela, o reconhecimento “Distinguished Service Cross”, por heroísmo extraordinário em conexão com operações militares contra o inimigo, a única mulher civil a receber essa medalha pelo serviço da Segunda Guerra Mundial”.

Infelizmente, pouco se conhece sobre o Brasil e suas espiãs também. Temos, como exemplos, Estela Borges Morato e Jean Sarkis.

A Conferência Nacional de Polícia Política, em 1943, tratou de assuntos como espionagem, contraespionagem, métodos de reconhecimento de agentes inimigos, técnicas de investigação e de interrogatório, e discutiu, sincronicamente, se o país poderia conceder às mulheres o papel de espiãs. Esse assunto foi muito bem analisado no artigo “Gênero e Serviço Secreto”, do autor Thiago da Silva Pacheco.

Essa conferência acabou chegando a uma despicienda conclusão: “Muitos dizem, sorrindo, que a mulher é um mal necessário. Não se pode viver com elas, mas tampouco viver sem elas. Esta última afirmação parece especialmente acertada no que se refere ao trabalho de espionagem. Verá o senhor que as mulheres tomavam uma parte importante em quase todos os trabalhos de espionagem mais importantes registrados na história” (Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro. Conferência Nacional de Polícia Política. Fundo DESPS, Notação 921, página 55).

Complementa Thiago: “Dependendo de seu desempenho, [as mulheres] poderiam alcançar status enquanto agente importante numa instituição fundamental para a sustentação do Estado, e até mesmo gozar de influência e respeito entre autoridades policiais e líderes dos grupos sociais postos sob vigilância”.

A título de comparação, em 1945, o governo brasileiro infiltrou Jean Sarkis no Partido Comunista. Ela acabou sendo presa como uma subversiva e, para não ser descoberta, recusou-se a usitar suas conexões com policiais para sair da prisão. Ficou encarcerada por dois anos, sofrendo severas punições.

Ao sair, Jean conseguiu o respeito do Partido Comunista e, ao mesmo tempo, uma posição de destaque na Polícia Política, sendo considerada uma das espiãs mais bem-sucedidas do país:

“A requerente, de fato, colaborou, eficiente e patrioticamente com as autoridades deste Departamento (…) nas suas tarefas, se houve com tão elevado espírito de renúncia que, por ocasião da prisão da comunista Maria Afonso Martins, em companhia de quem se achava, e do que resultou a condenação de ambas, preferiu não revelar sua posição neste Departamento, evitando, assim, que a situação daquela agitadora fosse atenuada. Cumpriu mais de dois anos de prisão, durante a qual continuou prestando relevantes serviços, pois, elevada à condição de heroína do partido, suas possibilidades em informar aumentaram, ensejando este Departamento diligências proveitosas” (Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro. Fundo Polícias Políticas. Pront. GB 22.327).

Ou seja, no Brasil ou no mundo, independentemente de quais foram as razões que possibilitaram às mulheres tais posições de trabalho – que, definitivamente, no início, eram puro retrato de uma estrutura social machista e conservadora –, permitiu que muitas delas pudessem quebrar tabus, abrir o mercado de trabalho para outras e redefinir seus papéis sociais à época.

Em 2018, quando Gina Haspel foi nomeada a primeira diretora da CIA, em meio a muita discussão por conta da sua trajetória profissional, ela admitiu, enfaticamente, sua dívida para com todas as “heroínas que nunca buscaram aplausos do público”. Por estas mulheres, mencionando Virginia Hall, foi possível sua nomeação, que desafiou barreiras e estereótipos de gênero.

Assim, apesar de serem espiãs nunca vistas, são parte de uma parcela de mulheres que segue nos permitindo ampliar nossos horizontes.

Precisamos dessas mulheres, cada vez mais.

Não sejamos comuns.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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Papo–furado, “Salve Jorge” e a invisibilidade das mulheres traficadas

Por isso, pergunto, qual é a terceira atividade criminosa mais rentável do mundo?

Julie Damame

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em

Foto: Kat J / Unsplash

Não é papo-furado. Mas, parte considerável da sociedade brasileira insiste em culpar as vítimas dos crimes de tráfico e exploração da prostituição com preconceito e falta de informação:

43% acreditam que o tráfico de mulheres é realizado com o consentimento das vítimas. 55% acreditam que as vítimas estão em busca de vida fácil (Percepção da Sociedade sobre o Tráfico de Mulheres (Datafolha/Associação Mulheres pela Paz, 2016)).

E, é nessa falta/falha de conhecimento/comunicação que acontecem circunstâncias que poderiam ser evitadas diariamente!

Por isso, pergunto, qual é a terceira atividade criminosa mais rentável do mundo? Sim, é o tráfico de seres humanos. A novela “Salve Jorge” (2012/2013), de autoria de Glória Perez, bem denunciou essa realidade.

Calcula-se um lucro anual de, aproximadamente, 32 bilhões de dólares. Mais de 2,4 milhões de pessoas são traficadas por ano, globalmente.

Cerca de 83% das vítimas são mulheres, entre 18 e 29 anos, pobres e com baixa escolaridade. Sendo a maioria para fins de exploração sexual (43%) (Datafolha/Associação Mulheres pela Paz, 2016).

Mas, esta não é a única finalidade. O trabalho análogo à escravidão, a servidão doméstica, a adoção ilegal de crianças e adolescentes, a venda de órgãos, pele, cabelo e ossos (!!!), também representam uma parcela significativa.

A autora Tânia Teixeira Laky de Sousa, do livro “Tráfico Internacional de Mulheres – nova face de uma velha escravidão”, discorre sobre a temática:

“Embora a maior quantidade seja para exploração sexual comercial de mulheres, nós temos um crime bárbaro que ninguém estuda, nem pesquisadores, pois é muito difícil chegar a ele. É o tráfico de órgãos, tecidos, ossos e cabelos. Antes, falávamos só de tráfico de órgãos, mas querem os ossos para transplantes dentários e cabelo vale ouro. Então, a pessoa é desmontada, como se fosse um desmanche de carro para venda de peças. Na Campanha da Fraternidade, que focou o tema do tráfico de pessoas, nós colocamos os valores dos órgãos. Coração vale 100 mil dólares, pulmão tanto, rim tanto, córnea tanto. A pessoa é desmanchada para o crime organizado. Além de que nós não trabalhamos no Brasil, a questão do desaparecimento de pessoas. Quer dizer que as pessoas desaparecem, são abduzidas, nunca mais aparecem… Ou, às vezes, somem e depois aparecem, sem que haja essa informação, ou as pessoas são mortas e enterradas como indigentes. Isso tem que ser verificado. Será que foram para o desmanche de órgãos?”.

A gravidade do assunto foi veemente reconhecida por instituições internacionais, em 2000, na célebre “Convenção de Palermo das Nações Unidas”. A partir daí, sua definição foi complementada pelo “Protocolo Adicional Relativo à Prevenção, Repressão e Punição do Tráfico de Pessoas, em Especial Mulheres e Crianças” e o “Protocolo Relativo ao Combate ao Tráfico de Migrantes por Via Terrestre, Marítima e Aérea”.

Em 2004, o governo brasileiro ratificou a Convenção de Palermo. E, pasmem, o Brasil foi considerado país de origem, destino e circulação, para o tráfico de pessoas. De modo complementar, em 2010, no relatório Globalização do Crime (ONU), o Brasil aparece como o “maior fornecedor de escravas sexuais da América Latina” (Pesquisa Nacional sobre Tráfico de Crianças, Mulheres e Adolescentes para Fins de Exploração Sexual – Pestraf).

A realidade é que sabemos disso, sim. Quem já não escutou sobre algum parente/vizinho/conhecido que casou com alguma menina, bem mais nova, simplesmente, para ser “bem cuidado”? Que acabou por negociar com os pais dela, que, em sua maioria, estão em situação de vulnerabilidade, com a abordagem de tomar conta ou em troca de alguns trocados? Ou, quem já não sofreu algum assédio suspeito para um “trabalho”/“intercâmbio” dos sonhos?…

Tantos são os casos, todos emblemáticos e pouco discutidos.

A novela “Salve Jorge” tentou expor esse crime invisível, baseando-se em histórias reais e sob a perspectiva da exploração sexual. Inclusive, a partir de três símbolos da luta contra o tráfico de mulheres, Simone Borges, Kelly Fernanda Martins e Ana Lúcia Furtado.

Simone, que pretendia trabalhar em um bar, na Espanha, a fim de juntar dinheiro para o enxoval do casamento, acabou sendo obrigada a se prostituir.

Kelly, que viajou para trabalhar como garçonete em Israel, logo na chegada, teve o seu passaporte confiscado pela máfia russa e foi forçada a manter relações sexuais com mais de 10 homens por dia, em jornadas de, aproximadamente, 13 horas.

Ambas mortas.

De modo semelhante, Ana Lúcia Furtado, prima de Kelly, passou pela prostituição no exterior, mas acabou resgatada, graças a uma advogada que acreditou na sua história. Ao voltar ao Brasil, narrou todo o seu drama à autora da novela, confirmando que conseguiram salvar um total de oito vítimas do tráfico e prostituição, todas mulheres brasileiras.

A descrição dos acontecimentos converge com o que é estudado pelos pesquisadores. Conforme o Relatório Global (2014), realizado pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes, os fluxos transregionais de tráfico de pessoas são detectados em países ricos, como os do Oriente Médio, da Europa Ocidental e da América do Norte. E os países de origem, das vítimas, são os do “Sul e Leste Global”, especialmente, as regiões do Leste e do Sul da Ásia, da América Latina, das Bahamas e da África.

Verifica-se uma correlação entre o PIB do país de destino e o do país de origem. Constata-se, portanto, que as vítimas, em sua maioria, têm uma expectativa de melhora de vida com o trabalho (e não em uma vida fácil, totalmente o contrário do que alguns pensam!). Querem emigrar devido a conflitos e guerras em seus países, às dificuldades econômicas, às instabilidades política e social, aos desastres naturais, à ineficácia das leis e ao desinteresse do Estado, entre outros (Global Report On Trafficking In Persons, 2014).

No caso específico do Brasil, nota-se que a insegurança socioeconômica e a baixa escolaridade refletem na decisão de mudança. Geralmente, as mulheres vítimas de exploração sexual são jovens e possuem filhos – o que repercute no ímpeto pela mudança e na maior facilidade em acreditar nas promessas.

A abordagem é muito semelhante em todas as espécies de tráfico de pessoas. Os aliciadores se aproximam das vítimas através de parentes, de redes sociais e/ou amigos. São pessoas que ostentam um estilo de vida luxuoso e com alto poder aquisitivo, atraindo suas “presas” por meio de promessas de melhores condições de vida, mediante empregos, prostituição lucrativa, casamento ou outros.

A vítima sofre ameaças, maus-tratos, estupros, abusos, negligências, exposições a doenças e humilhações periódicas dos clientes, aliciadores e chefes das organizações criminosas. Até mesmo, os aliciadores podem estar em conjuntura semelhante.

Não preciso nem comentar o tamanho dos traumas psicológicos e físicos que as vítimas sofrem. Se não acabarem, antes, mortas.

Exatamente por isso, no Brasil, diversas políticas públicas foram adotadas para o combate a esse tipo de crime, como a Política Nacional de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas (PNETP) e os planos nacionais. Ademais, contamos com os núcleos e comitês especializados, a cooperação jurídica internacional sobre os crimes transacionais, o “Ligue 180” (central para denúncias que funciona 24 horas) e os postos/centros de acolhimento.

Porém, tudo isso ainda não é suficiente. As políticas podem estar sendo executadas, mas não com a divulgação necessária. A sociedade brasileira sabe da existência do crime, todavia ignora que os criminosos estejam “logo aí” e em tamanha proporção!

Pesquisas confirmam que 87% dos brasileiros concordam que faltam informações sobre tema do tráfico na mídia (Datafolha/Associação Mulheres pela Paz, 2016).

Este é o papel – verdadeiro – que a novela “Salve Jorge” teve. Denunciar.

Independentemente, se nós não vemos esse fato de forma expressiva no nosso cotidiano, se nós pensamos que tudo não passa de “papo furado de marketing social”: tráfico de pessoas, especialmente de mulheres e crianças, existe. Em larga escala. Todos os dias. No mundo todo.

E o conhecimento disseminado sobre a matéria é o primeiro passo para afastarmos as possíveis vítimas de situações perigosas ou duvidosas.

Precisamos persistir e continuar falando sobre o tema. Todos nós somos responsáveis!

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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