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The Boys: super-heróis delinquentes na era digital

Sergio Kulpas

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Em artigo para o jornal inglês The GuardianArt Spiegelman (criador da premiada graphic novel “Maus”, um relato dramático sobre o Holocausto nazista) conta que os primeiros grandes super-heróis do século 20 foram inventados por artistas judeus como salvadores míticos contra a ameaça nazi-fascista.

Spiegelman diz que no começo do século passado, os quadrinhos eram vistos como um subproduto cultural de baixíssima qualidade, direcionados para crianças pequenas e adultos infantilizados. Eram “mal escritos, mal desenhados e pessimamente impressos”. Martin Goodman, o fundador da editora que veio a se tornar a Marvel Comics, disse a Stan Lee que era perda de tempo caprichar nas histórias ou no desenvolvimento dos personagens – bastaria encher as páginas com muita violência e poucas palavras. Com um ponto de partida tão ruim, é notável que os quadrinhos de heróis tenham se tornado tão relevantes na cultura popular dos dias atuais.

As coisas começaram a mudar de figura com a chegada do escritor Jerry Siegel e o desenhista Joe Shuster, dois jovens rebeldes judeus que sonhavam com fama e riqueza na Nova York dos anos 30, no meio da Grande Depressão. Juntos, eles desenvolveram a ideia de um alienígena super-poderoso que veio para a Terra para lutar pela Verdade, Justiça e pelos valores do “New Deal” do presidente Rooselvelt. O projeto foi recusado por muitos jornais e editoras, até serem aceitos por Maxwell Gaines, que criou uma editora com títulos muitos baratos nas bancas. Gaines comprou as 13 primeiras páginas de Superman, e arrematou os direitos do personagem por uma bagatela. O Super-Homem se tornou o modelo para um novo gênero cultural muito lucrativo, e seus criadores não ganharam nem uma fração dos imensos lucros gerados por essa indústria. A revista “Action Comics #1” foi lançada em junho de 1938 e deu origem ao império conhecido hoje como DC Comics. O lançamento foi um sucesso sem precedentes no mercado editorial americano.

A partir de então, surgiu uma pequena indústria em cima desse novo formato. Os quadrinhos começaram a ser produzidos em galpões, em muito parecidos com aqueles onde roupas eram feitas por funcionários mal pagos nos mesmos bairros de Nova York.

Essa atividade atraiu muitos homens jovens que sonhavam com o sucesso no mundo das artes. E quando a Segunda Guerra começou, se juntaram a eles mulheres, pessoas de cor e outros “estranhos” — mas demorou muito tempo para essa diversidade se refletir nas histórias e nos personagens.

Destacam-se os criadores de origem judaica nessa gênese dos super-heróis americanos. Siegel e Shuster criaram Superman. Jack Kirby e Joe Simon criaram o Capitão América. O verdadeiro nome de Maxwell Gaines era Max Ginzberg; os pais de Martin Goodman eram imigrantes de Vilna, na Lituânia. Eles e dezenas de outros se inspiraram em artistas conhecidos como Alex Raymond (“Flash Gordon”) Hal Foster (“Tarzan” e “Príncipe Valente”) ou Milton Caniff (“Terry e os Piratas”) para criar uma nova geração de personagens, com identidades próprias e grande apelo popular. Tocha Humana e Namor surgiram nessa primeira onda, personagens densos e atormentados por suas origens e propósitos.

Em plena Segunda Guerra, esses artistas e suas editoras recebiam uma enxurrada de cartas de ódio e telefonemas obscenos, de pessoas que eram admiradoras de Hitler e do fascismo. Em uma edição de março de 1941, o Capitão América invade o quartel-general nazista e nocauteia Adolph Hitler com um soco no queixo! A maior preocupação do editor Martin Goodman era que alguém de fato matasse Hitler antes da revista chegar às bancas de jornais.

O Capitão América se tornou o maior recrutador do exército americano, num momento em que os Estados Unidos ainda estavam em dúvida sobre participar do conflito. Grupos fascistas como o German American Bund e America Firsters jogaram bombas nos escritórios das editoras, e os funcionários atendiam telefonemas onde pessoas gritavam “Morte ao Judeus!!”. O prefeito de Nova York na época, Fiorello La Guardia, defendeu os criadores de quadrinhos publicamente, dizendo que a cidade de Nova York protegeria seus artistas.

Spiegelman termina seu artigo dizendo que o arqui-inimigo do Capitão América, o Caveira Vermelha, ressurge hoje como “Caveira Laranja”, uma clara referência ao presidente Donald Trump.

Mais de 80 anos depois da criação desses heróis que combatiam o nazismo, temos a série “The Boys”, exibida pela plataforma de streaming Amazon Prime Video. A série é baseada nos quadrinhos de Garth Ennis e Darick Robertson, e apresenta um mundo onde super-heróis se comportam como celebridades, estrelando filmes de Hollywood como eles mesmos e bombando nas redes sociais.

E, ao contrário do Superman, Capitão América ou Mulher Maravilha, esses heróis não apresentam grandes princípios éticos ou escrúpulos morais. São em grande parte cínicos, egocêntricos e hipócritas. São heróis sem berço, literalmente falando. Foram fabricados para possuir poderes, mas não “merecem” esses poderes. São pessoas comuns, com todos os defeitos de pessoas comuns, que se tornam perigosas por disporem de habilidades sobre-humanas. Os “heróis” em The Boys são paródias sinistras dos heróis clássicos: há um “genérico” do Superman, outro do Aquaman, outra da Mulher Maravilha, etc.

A série, brilhante, é um contraponto muito importante à visão de Spiegelman em seu artigo. Esses “supers” de The Boys são ferramentas de um Estado autoritário, e não paladinos da Justiça. Não estão preocupados em fazer o bem, estão preocupados com o número de likes de seus selfies no Instagram, com a bilheteria de seus filmes ou com o faturamento do merchandising. Combatem o crime como chamariz publicitário para suas imagens, que são cuidadosamente construídas por uma equipe de marketing.

Em tempo: o ensaio de Art Spiegelman sobre os quadrinhos seria a introdução do livro “Marvel: The Golden Age 1939-1949”, com lançamento previsto para setembro. Mas o autor acusou a Marvel de censura, justamente por comparar Donald Trump com o vilão fascista Caveira Vermelha. Spiegelman disse que Isaac Pelmutter, presidente da Marvel Entertainment, ligou para pedir a remoção da citação a Trump. Pelmutter alegou que a empresa queria se manter apolítica, mas Spiegelman lembra que o executivo é um amigo de longa data do presidente americano, sócio do resort de luxo Mar-a-Lago (que pertence a Trump) e grande doador para a campanha do republicano.

Spiegelman recusou-se a alterar o texto, e publicou o original na íntegra no jornal The Guardian. Assim, ele mostra que não é preciso ser o Capitão América para nocautear um tirano com um soco no queixo…

Foto: Reprodução

Sergio Kulpas é escritor e jornalista, com 25 anos de atividade em redações. Passou pela Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Gazeta Mercantil, Diário do Comércio, Meio & Mensagem e vários sites especializados em comunicações e mídia.

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O curioso retorno de “Perdidos no Espaço”

A primeira temporada parece ser uma longa introdução

Sergio Kulpas

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Doctor Smith e Will (Foto: Perdidos no Espaço / Netflix)

O escritor inglês Daniel Defoe escreveu Robinson Crusoé em 1719. Um dos livros mais publicados e lidos no mundo, o romance conta a história de um náufrago que passou 28 anos em uma remota ilha tropical próxima a Trinidad, encontrando canibais, cativos e revoltosos antes de ser resgatado. O livro foi originalmente publicado na forma de folhetins em The Daily Post, e foi o primeiro romance em capítulos em um jornal.

Defoe criou o “romance de náufrago”: a ideia de uma pessoa ou grupo de pessoas isoladas em algum local remoto, e que tentam se adaptar às dificuldades (ou ofertas) do ambiente e conseguir viver do melhor modo possível.

Quase um século depois de Crusoé, em 1812, o pastor suíço Johann David Wyss escreveu A Família Robinson Suíça, inspirado no romance de Defoe. No livro de Wyss, narra as desventuras de uma família depois de um naufrágio em uma ilha remota, passando por vários desafios e perigos. A obra do pastor tem caráter educativo e moral, com noções de ciência, sobrevivência — acima de tudo, a importância dos valores familiares.

Saltamos mais um século, diretamente para a Hollywood dos anos 1960. Desde o começo dos anos 1950, os estúdios de cinema perceberam a imensa mina de ouro que a televisão representava. Inicialmente como uma operação menor, os estúdios passaram a produzir séries e shows de grande popularidade, que eram distribuídos para as emissoras de TV do país inteiro. Com a venda em massa de televisores a cores na virada da década, essa produção se tornou uma indústria gigantesca, atraindo os melhores talentos e alimentada por caminhões de dinheiro de anunciantes ávidos para patrocinar programas que literalmente paravam o país no horário nobre.

É nesse ambiente borbulhante que se destaca a presença de Irwin Allen (1916-1991). Allen foi um dos maiores diretores e produtores da história de Hollywood, e foi apelidado de “Mestre do Desastre”, por filmes como O Destino de Poseidon e Inferno na Torre. Na televisão, Allen é responsável por alguns dos maiores sucessos dos anos 1960, como Viagem ao Fundo do Mar, Túnel do Tempo e Terra de Gigantes.

E, claro, Perdidos no Espaço. Allen queria produzir um entretenimento familiar, uma versão de A Família Robinson Suíça como ficção-científica. Allen era um produtor premiado, aclamado e temido na 20th Century Fox. A série Lost in Space, uma co-produção da Fox com a rede de televisão CBS, teve orçamento recorde desde a concepção. Havia rumores de que seu fracasso poderia levar o estúdio à falência.

Originalmente, “Perdidos” seria um drama de ficção-científica focado nos desafios de uma família à deriva no espaço sideral, depois que um agente estrangeiro (o Dr. Zachary Smith) sabota a nave Júpiter 2. O piloto da série, um dos mais caros na época, era sombrio e grave em sua fotografia em preto e branco e não chegou a ser exibido na íntegra na época. Irwin Allen era um produtor com grande senso comercial, e não podia arriscar a falência do estúdio com um fracasso estrondoso.

Mas o ator escalado para ser o vilão Smith era Jonathan Harris. Essa escolha bizarra de elenco transformou o que poderia ser um enorme e caro fracasso em um sucesso incomparável (lembra muito o enredo de Primavera para Hitler, comédia de Mel Brooks). O vilão se tornou o ponto focal da série, com maneirismos e frases de efeito que foram adorados pelo público. Irwin Allen não era tolo, e os roteiristas logo foram ordenados a mudar os roteiros para transformar a série dramática em uma comédia espacial, com uma narrativa cada vez mais “camp”, pop e cafona. A série teve apenas três temporadas, entre 1965 e 68, e foi cancelada quando ainda tinha uma audiência respeitável.

Como outros sucessos da TV americana dos anos 1960, “Lost in Space” se tornou cult quase imediatamente, um ícone gerador de memes pelas décadas seguintes.

Meio século depois, temos o reboot da série, na plataforma Netflix. Novamente, a família Robinson segue a caminho de Alpha Centauri. Como há 50 anos, lá estão o Sr. e a Sra. Robinson, os filhos Judy, Penny e Will, Don West, o Robô e Dr. Smith.

Mas nada é como antes. Em cinco décadas, a família nuclear americana do pós-Guerra apresentada no programa de TV se transformou profundamente. O casamento dos Robinsons não é monolítico, o casal vive um processo de separação. John Robinson é um militar durão, mas não é mais o chefe da família. A mãe Maureen é a figura central – a personagem da série original era uma dona-de-casa no espaço, a atual é a engenheira aeroespacial responsável por boa parte do projeto de colonização humana no espaço, incluindo o design das espaçonaves. Judy é negra (e ponto, porque estamos no futuro onde ninguém pode estranhar que um casal branco tenha uma filha negra).

E o Dr. Smith não é um agente de uma potência estrangeira, mas uma mulher perturbada e com traços de psicopatia. O Robô é uma entidade de uma civilização alienígena.

A primeira temporada da série da Netflix parece ser uma longa introdução para a situação onde os Robinsons se veem realmente “perdidos no espaço”. A ideia da família isolada em um ambiente desconhecido e muitas vezes hostil é um ótimo tema. A série tem defeitos, claro. Mas suas virtudes garantem o entretenimento.

Foto: Perdidos no Espaço / Netflix

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Justiça: minissérie brasileira para ninguém botar defeito

Chega de preconceito com as produções nacionais. Dê uma chance para a minissérie Justiça!

Êrica Blanc

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Se você não é o tipo de pessoa que curte as produções brasileiras e que torce o nariz para a menor menção de algo feito por aqui, pode ir destorcendo esse nariz que a minissérie é muito boa e eu posso provar. Justiça é uma minissérie brasileira, produzida pela Rede Globo. Ela foi exibida entre agosto e setembro de 2016, contando com apenas 20 episódios. E, atualmente, está disponível no catálogo da Globo Play. A trama não gira em torno de um único protagonista. Na verdade, a cada dia da semana, retrata uma história diferente presente na trama. Mas, calma, que já já eu te explico direitinho sobre cada uma delas. A trama conta com grandes nomes da atuação, como: Débora Bloch, Marina Ruy Barbosa, Jesuíta Barbosa, Adriana Esteves, Cauã Reymond, Drica Moraes, Antonio Calloni, Cássio Gabus Mendes, Enrique Díaz, Marjorie Estiano, Vladimir Brichta e Leandra Leal.

A trama conta 4 histórias diferentes, mas que são completamente interligadas. Sendo assim, a cada episódio nos aprofundamos em um ponto diferente da história e os protagonistas da vez mudam de um episódio para o outro. Sendo assim, os que eram principais em um episódio, acabam aparecendo como coadjuvantes em outros. Ficou confuso? Deixa eu tentar exemplificar: nos episódios em que a Débora Bloch protagoniza, a Adriana Esteves aparece como coadjuvante. E vice-versa. Como cada um tem sua trama particular, tentei resumir um pouquinho sobre cada uma delas. Só que, não deu para não contar um pouquinho do episódio inicial. Que não é exatamente um spoiler, já que a própria Globo contou bastante sobre as tramas, antes de começar a exibir. 

As tramas

Segunda-feira (Vicente Menezes)

Elisa (Débora Bloch), após 7 anos, ainda não conseguiu superar a morte da filha, Isabela (Marina Ruy Barbosa), que assassinada pelo noivo Vicente (Jesuíta Barbosa). Que, tomado pela raiva ao flagrar a noiva o traindo com o ex-namorado, dispara várias vezes contra ela. Após ser solto ele vai em busca do perdão da ex-sogra, que só pensa em formas de se vingar, enquanto vai viver com sua atual esposa, Regina (Camila Márdila).

Episódios desse núcleo: 1, 5, 9, 13 e 17.

Terça-feira (Fátima Libéria do Nascimento)

Fátima (Adriana Esteves) é uma doméstica com uma vida ok para os padrões financeiros que tem. Apesar disso, é muito feliz ao lado do marido e dos dois filhos. Porém, ao aparecer um novo vizinho com um cachorro que machuca o seu filho, Fátima se enche de ódio e acaba matando o cachorro do policial e seu vizinho, Douglas (Enrique Díaz). Mas, o policial se revolta e acaba incriminando Fátima por tráfico. Quando é solta, sete anos mais tarde, Fátima faz de tudo para reconstruir a família.

Episódios desse núcleo: 2, 6, 10, 14, 18.

Quinta-feira (Rose Silva dos Santos)

Rose (Jéssica Ellen) e Débora (Luisa Arraes) são melhores amigas desde pequenas. Já que a mãe de Rose é empregada na casa de Débora há anos. Se tratam como irmãs e fazem de tudo uma pela outra. Mas, em uma noite, ao comemorarem o aniversário de 18 anos de Rose, na praia, a polícia faz uma batida e encontra drogas com a menina. A trama apresenta a questão racial bem forte, já que Rose só foi revistada por ser negra. Após este fato, Débora é violentada, e quando reencontra Rose, sete anos mais tarde, elas se unem para destruir o estuprador.

Episódios desse núcleo: 3, 7, 11, 15, 19.

Sexta-feira (Maurício de Oliveira)

Maurício (Cauã Reymond) vê sua esposa Beatriz (Marjorie Estiano), que é bailarina, ser atropelada por Antenor (Antonio Calloni), enquanto o cara foge com o dinheiro roubado do sócio. A pedido dela, Maurício aplica a eutanásia e é preso como assassino da própria esposa. Quando sai da prisão, 7 anos depois, Maurício se aproxima de Vânia (Drica Moraes), esposa problemática de Antenor, com o objetivo de se vingar pelo acidente.

Episódios desse núcleo: 4, 8, 12, 16, 20.

Não ficam fios soltos

O roteiro é de Manuela Dias e ela foi impecável na criação de Justiça. Vale dizer que a minissérie é muito bem amarrada e apesar de ter uma construção difícil de explicar, ela não deixa nenhum fio solto. Ou seja, todos os detalhes são resolvidos e dúvido que você não vai ficar sem ar, com pelo menos um desfecho. Os atores também trouxeram bastante realidade para a trama, além de terem sido bem cuidadosos com o sotaque. Aliás, quase esqueci de falar, Justiça tem Recife como palco. Eu amei o fato de que a minissérie se passa em uma cidade que não está dentro do padrão óbvio. Ao trazer Recife para dentro de narrativas tão importantes como a que a minissérie aborda, Justiça agregou valor a outro ponto do país. Afinal, estamos muito condicionados a assistir produções no Rio de Janeiro e São Paulo, né? Sendo assim, eu preciso recoemndar os 20 episódios de Justiça, caso você assine Globo Play. São incríveis, terminam de maneiras que fazem nosso queixo cair e mostram bem a realidade da injustiça brasileira. 

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