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“Os Despossuídos”, uma parábola precisa para os dias atuais

Sergio Kulpas

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Ursula K. Le Guin é uma autora singular. Falecida em 2018 aos 88 anos, a escritora se destacou desde os anos 1960 como um talento raro na literatura de gêneros, especialmente a ficção-científica.

É claro que hoje há várias mulheres que escrevem ficção-científica regularmente, e são populares e admiradas. Não podemos esquecer que Mary Shelley escreveu Frankenstein em 1818, um marco da literatura perfeitamente atual dois séculos depois. A ganhadora do prêmio Nobel Doris Lessing escreveu a série de ficção-científica Shikasta no final da década de 70, e os livros foram best-sellers mundiais.

Mas Ursula Le Guin é uma grande pioneira, uma desbravadora extraordinária. Seus livros desafiaram o preconceito de que ciência (e ficção sobre ciência) é “coisa de meninos”, e que uma escritora não teria competência para escrever sobre temas como guerras espaciais, impérios galácticos, viagens no tempo ou encontros com civilizações alienígenas.

A série de “romances espaciais” (o “Ciclo Hainish”) de Ursula é excelente, e um dos grandes destaques é o livro “The Dispossessed”, escrito em 1974. No Brasil, o romance foi publicado com o título “Os Despossuídos” pela editora Nova Fronteira, com tradução de Danilo Lima de Aguiar. Essa edição há muito tempo esgotada pode ser vista em PDF aqui.

Muito oportunamente, a editora Aleph está relançando o romance no país, com tradução de Susana L. de Alexandria. O jornalista André Cáceres entrevistou a autora para o caderno “Aliás” do Estadão, veja aqui.

A sinopse de “Os Despossuídos”: orbitando a estrela Tau Ceti, existem dois planetas gêmeos (ou um planeta e um satélite, ambos habitáveis). O planeta maior chama-se Urras, e a “lua”, Anarres. No início da história, ficamos sabendo que Anarres é habitada por uma comunidade de exilados, descendentes de um grupo revolucionário que deixou Urras quase duzentos anos antes para criar uma nova sociedade. Uma sociedade sem Estado, sem classes sociais, sem líderes, sem economia monetária, baseada em princípios estritos de igualdade e fraternidade.

Os “anarresti” chegaram ao ponto de criar uma língua própria, o “Pravic”, uma espécie de esperanto que não utiliza pronomes possessivos, uma língua sintética feita para uma sociedade onde tudo é rigorosamente coletivo. Os vinte milhões de membros dessa sociedade compartilham tudo: dormitórios, cantinas, oficinas, fábricas. Todos os espaços são públicos e abertos, sem trancas ou cadeados nas portas. Uma central computadorizada distribui a força de trabalho de acordo com as necessidades de momento e local, alocando recursos e capacidades profissionais. Cada especialidade profissional é organizada por meio de sindicatos – de mecânicos a músicos, ou botânicos, vidraceiros e físicos.

O protagonista dessa história é Shevek, um brilhante físico de 40 anos que desenvolveu uma teoria sobre o tempo e o espaço que pode revolucionar as comunicações e as viagens entre planetas muito distantes. Frustrado com a incompreensão e até hostilidade de sua sociedade a respeito de suas teorias, Shevek decide aceitar um convite feito por cientistas da nação A-Io em Urras, e parte em uma viagem para o planeta vizinho, o que é visto como a suprema traição por sua sociedade.

Ao narrar o choque cultural vivido por Shevek ao chegar a Urras, Ursula demonstra seu imenso talento como escritora e como observadora social. Shevek é hospedado no Instituto de Ciências de Nio Esseia, a maior metrópole de A-Io. O físico foi criado em uma sociedade sem qualquer luxo, onde o supérfluo é sinônimo para “excremento”, e chegou de mãos vazias a uma terra onde todos os seus valores são questionados. A-Io é uma nação capitalista, com Estado, propriedade, dinheiro, consumo, classes sociais. Uma sociedade aflitivamente misógina, em que as mulheres não ocupam posições de comando, não podem votar ou sequer frequentar a universidade.

O contraponto de A-Io é a nação de Thu, um país onde o Estado controla todos os meios de produção, determinando as políticas e normas que devem ser obedecidas pela população.

Além de A-Io e Thu, existem várias outras nações em Urras, periféricas e sujeitas à influência de uma ou outra superpotência.

As analogias e metáforas são claras, tanto para os anos 1970 como para os dias de hoje. Em sua passagem por Urras, Shevek percebe que é um peão ou um coringa em um jogo de poder, em que sua teoria pode ser o fator decisivo na disputa pelo domínio global. Criado em uma sociedade que rejeitou os dois lados do espectro, Shevek foge de seus anfitriões e busca asilo na embaixada do planeta Terra em Urras. Em sua conversa com a embaixatriz terráquea, Shevek diz que sua teoria deve ser um bem comum, para todas as nações e espécies, não para esta ou aquela nação. A teoria revolucionária é transmitida em frequência aberta para todos, se tornando um bem comum para todos os povos, como Shevek foi educado a entender.

O livro termina com a viagem de volta de Shevek ao seu lar em Anarres, sem saber como será recebido por seus pares, onde muitos o consideram um traidor.

Na época em que “Os Despossuídos” foi lançado, alguns críticos viram “fortes influências marxistas” no romance. Na verdade, Ursula usou os princípios do anarco-sindicalismo formulados pelos franceses Pierre-Joseph Proudhon, Georges Sorel e Fernand Pelloutier no século 19 como base para criar a sociedade em Anarres. Marx criticou duramente as ideias de Proudhon em seus escritos – para Marx, Proudhon era um hippie porra-louca sem noção. Mas como Marx escreveu um texto que falava sobre “despossuídos”, parte da crítica da época considerou o romance de Ursula um panfleto cripto-comunista. Uma coletânea de ensaios críticos sobre o livro, The New Utopian Politics of Ursula K. Le Guin’s The Dispossessed, pode ser vista aqui (em inglês), e serve como indicativo do interesse e da polêmica causada pelo livro na época, e que permanece até hoje.

Shevek questiona gravemente sua própria sociedade, que deveria ser um paraíso de igualdade social, a quintessência do socialismo. Shevek constata que depois de quase dois séculos, a sociedade revolucionária idealizada por Laia Asieo Odo havia se estagnado. O desafio triunfante havia se transformado em uma burocracia passivo-agressiva, que patrulha e pune os desvios de conduta, reprimindo as novas ideias. Em uma cultura sem sistema jurídico, tribunais ou prisões, dissidentes como Shevek são punidos com a desaprovação pública, o que é muito cruel numa cultura onde todos dependem muito do apoio mútuo.

Odo imaginou os princípios de sua sociedade no verdejante e fértil mundo de Urras, mas os exilados tiveram que enfrentar a dura realidade de Anarres: uma terra muito árida, onde o ar é rarefeito, com poucas espécies vegetais e praticamente nenhum animal além de alguns peixes e crustáceos. Tudo é racionado e distribuído de forma que todos possam comer, se vestir e ter um teto sobre a cabeça. A vida é dura em Anarres, e exige muito sacrifício e cooperação de todos.

Ursula coloca uma consideração fundamental na boca de Shevek:

Sabem — disse ele —, o que nós pretendemos é lembrar-nos de que não viemos para Anarres para termos segurança, mas sim liberdade. Se devemos estar sempre todos de acordo, trabalhar todos juntos, não valemos mais do que uma máquina. Se um indivíduo não pode trabalhar solidariamente com seus companheiros, ele tem o dever de trabalhar sozinho. Tem o dever e o direito. Temos negado esse direito às pessoas. Temos afirmado, e cada vez mais, que se deve trabalhar com os outros, que se deve aceitar a lei da maioria. Mas qualquer lei é tirania. O dever do indivíduo é não aceitar nenhuma lei, ter a iniciativa de seus próprios atos, ser responsável. Somente se o indivíduo agir dessa forma é que a sociedade poderá viver, mudar, adaptar-se e sobreviver. Não somos súditos de um Estado fundamentado na lei, mas membros de uma sociedade fundamentada na Revolução. A Revolução é nossa obrigação: nossa esperança de evolução. ‘A Revolução está no espírito do indivíduo, ou em nenhum outro lugar. Ela é para todos, ou não é nada. Se a consideramos como tendo um fim, ela jamais terá um começo realmente’. Não podemos parar aqui. Devemos continuar. Temos de correr o risco.” (Da tradução de Danilo Lima de Aguiar)

Ursula postula, nessa fábula, que não existe sociedade humana ideal. Nem as nações de Urras, capitalistas ou comunistas, nem o comunitarismo sindicalista de Anarres. Todos os modelos são imperfeitos pelo fato de serem humanos e, portanto, caracterizados por conflitos e polarizações, por disputas de poder, por tentativas de hierarquizar e subjugar. E mesmo o choque e a decepção de Shevek em relação a Urras são relativos. A embaixatriz da Terra relata a Shevek que seu planeta entrou em colapso séculos antes, pela exploração dos recursos naturais e pelo acúmulo de decisões desastrosas de nossos governantes. A Terra se tornou quase inabitável, com lei marcial, controle estrito de natalidade e eutanásia. Para ela, o mundo de Urras parece um verdadeiro Paraíso.

A sociedade ideal existe: é o formigueiro ou a colmeia. Ali, com exceção da rainha-mãe e de um pequeno exército de defensores, todos os cidadãos são rigorosamente iguais, perfeitamente conformados com seu status quo e que cumprem suas tarefas de modo incansável, do nascimento até a morte. Formigas e abelhas formam sociedades cooperativas estáveis, cujo modelo foi aperfeiçoado pela natureza há centenas de milhões de anos. Obviamente, não há qualquer brecha para dissidências ou novas ideias – qualquer indivíduo que não seja idêntico aos outros será imediatamente eliminado.

Críticos observam que Ursula lançou “Os Despossuídos” no momento em que os Estados Unidos comemoravam o Bicentenário da Independência, e que sua história seria uma analogia a respeito dos ideais que foram a fundação do país, e a realidade dos EUA nos anos 1970, com a guerra do Vietnã e o Watergate.

Há muito tempo comento com um colega da Unicamp, que também é fã de Ursula Le Guin, que alguns de seus contos e romances deveriam fazer parte do currículo dos cursos de Ciências Sociais, para serem lidos e comentados como textos de Emile Durkheim, Marcel Mauss ou Claude Lévi-Strauss. Não é para menos: os pais de Ursula eram antropólogos de renome, Alfred L. Kroeber e Theodora Kracaw Kroeber Quinn. Ursula foi influenciada pelos pais a enxergar a diversidade humana, o que a levou a escrever sobre temas pouco comuns no campo da ficção-científica: identidade de gênero, o papel da mulher nas sociedades, questões raciais e de minorias. Religiões, tabus, preconceitos e tradições são discutidos em seus livros, em muitos casos com o olhar treinado pela antropologia. Em outro romance, “Always Coming Home”, Ursula imagina uma sociedade “nativa” que habitará onde fica hoje a Califórnia, daqui a 5.000 anos. O livro lembra muito um diário de campo etnográfico, com registro de tradições, rituais de nascimento e morte, danças, cantos, festas, poesias, etc.

Essas questões e temas como mudanças climáticas, degradação do meio ambiente e os efeitos das viagens entre planetas sobre as sociedades tornam a obra de Ursula K. Le Guin muito mais que uma mera “literatura de gênero”, e que pode ser apreciada por um público mais amplo do que os fãs de fantasia e ficção-científica.

O consagrado autor Philip K. Dick teve vários romances e contos adaptados para cinema e TV com grande sucesso – Blade Runner, Minority Report, Vingador do Futuro, O Homem Duplo, O Homem do Castelo Alto. Ursula K. Le Guin merece adaptações de alto nível de sua obra para outras mídias, o que ainda não ocorreu — Ursula é uma artista de altíssima qualidade, e suas histórias precisam ser redescobertas por uma nova geração de apreciadores de ficção especulativa.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.

Sergio Kulpas é escritor e jornalista, com 25 anos de atividade em redações. Passou pela Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Gazeta Mercantil, Diário do Comércio, Meio & Mensagem e vários sites especializados em comunicações e mídia.

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Dia da criatividade: 5 livros para te ajudar nesse processo

Sabia que dia 17 de novembro é comemorado o dia da criatividade? Se você está precisando de uma forcinha com a criatividade, confira a lista com 5 livros.

Êrica Blanc

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Foto: Êrica Blanc

Atualmente, tem dia para tudo, né? Dia das mães, dia dos pais, dos namorados, da gratidão, da coragem e até da criatividade. Isso mesmo, dia 17 de novembro é Dia da criatividade, essa coisinha que a gente corre tanto atrás. Sempre ficamos naquela de: criatividade é algo que nasce com a gente ou que a gente desenvolve? E como faz quando tiver bloqueio criativo? Como posso estar sempre com a criatividade em alta? Essa última pergunta, a resposta é bem simples, inclusive: só com milagre mesmo.

(mais…)

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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O homem que assistia séries demais

Desafiado a escrever sobre Euphoria, da HBO, nosso coletivista Paulo Gustavo acaba ficando positivamente surpreendido ao assistir uma série turca O Último Guardião que fala sobre o universo dos super-heróis.

Paulo Gustavo Pereira

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Foto: Alex Suprun / Unsplash

É interessante quando sou questionado sobre a quantidade de séries que assisto. A pergunta é invariavelmente, comparando com o tempo livre de quem pergunta, sempre questionando que não há tempo suficiente para ver tudo o que interessa. E é exatamente isso que é o ponto crucial no trabalho que faço ao analisar o conteúdo de séries para os textos e programas que faço. O que realmente é interessante de se assistir?

Como todo bom ser humano que cresceu vendo filmes e séries, há um momento em que ver uma série por obrigação de trabalho deixa de ser importante para ser crucial para o próximo episódio. Explico: tento ver o primeiro episódio para saber se a série tem algo diferente, uma história ou personagens que valham a pena continuar vendo. Dessa forma, já deixei de ver várias produções que viram “moda” e que, na minha análise, não trouxe nada de novo para meu HD.

Ao mesmo tempo, fico impactado quando descubro uma produção fora dos Estados Unidos, pátria-mãe das séries de TV. É uma surpresa ver que uma série turca O Ultimo Guardião que fala sobre o universo dos super-heróis; da mesma maneira que Kingdom, da Coréia, mostra uma luta da corte real do século 14 contra uma infestação de zumbis; ou mesmo a produção indiana Jogos Sagrados, onde a narração da história é feita por um personagem que morre no primeiro episódio.

É claro que não dá pra escapar das séries da moda, não por que não tenham qualidades, mas muitas vezes, é mais do mesmo. Quando muitos canais exibem séries sobre os bastidores do crime organizado ou não, descubro a beleza e a leveza de Coisa Mais Linda, da Netflix, com quatro personagens femininas que fogem felizmente do politicamente cansado empoderamento da mulher em qualquer lugar e qualquer tempo.

Quando a bola da vez chegou em Euphoria, da HBO, me chamou a atenção que a personagem principal era interpretada por Zendaya, que havia feito várias produções da Disney e recentemente se tornou o interesse amoroso de Peter Parker nos últimos dois filmes do Homem-Aranha, estrelado por Tom Holland. E mais: seria um papel totalmente diferente do que a atriz-cantora faria, algo que ela mesmo pedido para se desafiar como atriz. E não decepcionou.

Ao mesmo tempo, a Netflix lançou Sintonia, uma produção de fôlego, com roteiro muito bem escrito e com uma história que me atraiu, mesmo com vários clichês tradicionais sobre a luta de três jovens da periferia de São Paulo para subir na vida. Em Euphoria, a personagem de Zendaya tentava se descobrir no meio de uma continua adoração à drogas, desrespeito à família, e amizades complexas e confusas. Ou seja, as duas séries se comunicavam com o mesmo publico jovem, de maneiras diferentes.

Não vou entrar nessa análise mais formal sobre cada um dos pontos de cruzamentos entre Euphoria e Sintonia. O que importa nesse crossoover imaginário é que os personagens lutam para fazer a melhor escolha sobre seus futuros. E cada uma das tentativas, os leva a caminhos que podem afastá-los de seus reais destinos. Afinal, lutar para sobreviver a uma sociedade opressiva, sem a base adequada, deixa qualquer jornada heróica pendente de algo real. Não adianta lutar contra um vício se o viciado não quer enxergar suas próprias dores. Da mesma maneira, dizer que não existe saída para um jovem da periferia a não ser entrar para o crime,, a sublimar outros jovens que já lutaram e venceram essa guerra íntima.

Dito isso, não me surpreende que séries como The End of the F**ing World, Dark, The Rain e até mesmo Casa de Papel, serem as mais vistas pelos brasileiros na Netflix. Elas chamaram a atenção do publico não por que suas tramas são diferentes, mas por que elas estão ligadas a outras histórias mais identificáveis pelo telespectador. Casa de Papel fez sucesso no Brasil por sua mistura de Golpe de Mestre e Onze Homens e um Segredo. The Rain mostra jovens tentando superar os desafios de um futuro distópico como The 100. Ou mesmo as reviravoltas de um destino insólito da série alemã Dark, que fez muita gente mergulhar em universos paralelos e viagens no tempo, dois gêneros populares da ficção-científica, mesmo não entendendo metade da história.

O melhor de tudo é que a diversidade de produções que tem chegado ao Brasil na última década, especialmente com a chegada das plataformas streamings, tem ajudado o público a entender que não são apenas as séries de língua inglesa que fazem os próximos episódios divertidos. O que muito bom nessa história, independente do país de origem, é como se conta essa mesma história. O melhor exemplo disso é a série Criminal, que mostra o interrogatório de um suspeito, vista por policiais alemães, franceses, espanhóis e britânicos. Cada um no seu quadrado dramático e emocionante a cada episódio.16

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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