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Universo Feminino

Ignorância é força?

Julie Damame

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Quem gosta de literatura sabe sobre o que eu estou falando! Sim, a afirmação Ignorância é força é um dos pilares do partido, o Grande Irmão (Big Brother), do livro 1984, de George Orwell. O partido, na narrativa fictícia, controlava a sociedade operando uma verdadeira lavagem cerebral: promovia pesquisas com dados falsos, observava e sumia com cidadãos, fantasiava histórias e memórias. Enfim, era a força da ignorância da coletividade que assegurava a permanência do partido, sem qualquer forma de resistência.

Mas existe uma grande diferença entre agir/omitir por ignorância e agir na ignorância. O primeiro age, ou se escusa, por falta de conhecimento – é compelido involuntariamente, como os cidadãos em 1984. Já quem age na ignorância, age indevidamente, desrespeitosamente – de maneira voluntária.

Os filósofos gregos, Sócrates e Aristóteles, escreveram sobre o tema lá pelos anos 400 AC. Sócrates dizia que o reconhecimento da própria ignorância é o primeiro passo para a busca da verdade. E Aristóteles asseverava que: o ignorante afirma, o sábio duvida, o sensato reflete. Por conseguinte, o conhecimento torna viável, possível, uma vida civilizada.

Assim sendo, pergunto, qual é o tipo de ignorância que predomina na sociedade atual?

Acredito que as duas. A coletividade, por puro preconceito ou despreparo, está avessa ao conhecimento do diferente e toda essa desinformação está produzindo ódio contra aquilo que a incomoda ou ao que lhe é oposto.

As pessoas estão potencializando o ódio em questões menos importantes que os reais problemas do Estado. De modo que não juntam esforços para melhorar situações de risco.

Se união faz a força, o ódio também, e ele é um importante instrumento de poder.

Será, portanto, que o ódio pode ou deve ser legitimado – sob quais razões? Eu pressuponho que seja mais impeditivo do que legítimo.

O medo é o caminho para o Lado Sombrio. O medo traz a raiva. A raiva leva ao ódio. O ódio produz sofrimento (Obrigada, Star Wars!).

Por exemplo, é normal o ódio semeado nas redes sociais contra as pessoas que acreditam que os homens são potenciais agressores contra as mulheres? É natural não aceitar que as mulheres seguem tendo seus direitos mitigados? Por outro lado, toda essa ignorância (nos dois sentidos) e a não aceitação da verdade geram rancor também? O fato das mulheres gritarem, e não serem ouvidas, é capaz de criar um ódio maior?

Perceberam? O ódio impede a reconciliação.

Mas, sigo na dúvida: como podemos dialogar – sem ódio – quando a parte contrária (e/ou a coletividade) não quer ouvir?

Não ter a oportunidade do contraditório é perigoso – faz uma parcela da população se tornar inepta, tola, obtusa, no sentindo de viver em seu universo singular, não amparando o diferente, o desigual.

O historiador Leandro Karnal bem postula: Ao agrupar, em uma rede, um grupo com posições semelhantes, o sujeito encontra sua câmara de ressonância, uma bola epistêmica, em que a opinião subjetiva encontra eco. Há um viés de confirmação.

Ou seja, o outro é esquecido. E o esquecimento, a negligência, provocam gatilhos.

Foi exatamente isso o que ocorreu no último dia 16 de agosto, no México. As mulheres foram às ruas com ódio. O Ángel de la Independencia, um monumento localizado no Paseo de la Reforma, no centro da Cidade do México, amanheceu com pichações que marcavam a revolta das mulheres contra o tratamento que o país lhes concede: México feminicida!

Eu pedi a minha colega mexicana, internacionalista, Verónica Madrid, que fizesse uma breve narrativa sobre essas manifestações. As palavras delas demonstram bem que os gritos das vítimas, ora sufocados, foram extravasados contra um sistema de justiça inoperante e uma sociedade condescendente para com os criminosos.

Segue o relato:

Antes de explicar o porquê da manifestação e ser criticada pelas violações aos bens públicos, vou apontar algumas informações:

  • O México está entre os 20 piores países para ser uma mulher, segundo o US News & World Report (2019). A cada 4 minutos, uma mulher é estuprada;

  • 3.174 mulheres foram vítimas de feminicídio de janeiro de 2015 a julho de 2019 (com aumento de 20% neste ano), de acordo com o “Secretariado Ejecutivo”. Estes são apenas os casos em que foram apresentadas as denúncias para o Ministério Público;

  • 273.618 mulheres foram vítimas de violência doméstica durante o mesmo período.

E ainda nos perguntam por que estamos tão furiosas? Esses são alguns dos dados que explicam a raiva, a fúria e o cansaço que as mulheres mexicanas estão sentindo. Por isso, no dia 16 de agosto de 2019, ocorreu uma manifestação massiva na Cidade do México.

Mas qual foi o gatilho dessa revolta?

Uma menina – menor de idade – que, no último no dia 3 de agosto, (supostamente) foi estuprada por QUATRO policiais, dentro de uma viatura na Cidade do México. Foi forçada a subir no veículo, enquanto retornava para a sua casa.

O acontecimento apenas acentuou a frustração diária. Em nosso país (México), as mulheres foram violadas, lesionadas, humilhadas, assassinadas e seguem sem justiça. Enquanto os agressores, permanecem livres.

A maioria dos veículos de comunicação internacional se preocupou com as causas e os motivos do protesto, ao passo que a imprensa mexicana enfocou nos danos materiais e nos prejuízos econômicos que a manifestação acarretou.

Qual é o preço de carros e ônibus destruídos frente a uma vida? O próprio governo está revelando a sua prioridade e (garanto) que não é a oposição à violência de gênero.

A mobilização ficou conhecida nas redes sociais como #NoMeCuidanMeViolan, juntamente com os gritos “Eu sim, acredito em você”, devido às irregularidades e às arbitrariedades com que as autoridades mexicanas tratam das acusações sobre violência doméstica e feminicídio: com total indiferença. Mais de 90% de impunidade (Comisión Nacional de los Derechos Humanos).

Como bem dizia John F. Kennedy “os que fazem a revolução pacifica, vão, inevitavelmente, fazer a revolução violenta”. As mulheres do México esgotaram todos os meios possíveis para exigir segurança e justiça, em um país que se mostrou, complementarmente, incompetente para garantir os direitos humanos básicos. No passado, já aconteceram dezenas de manifestações pacíficas e artísticas – que foram ignoradas e/ou ridicularizadas.

Para um governo e uma sociedade que se mostraram cegos, indiferentes e misóginos a essas demandas, as mulheres se viram obrigadas a gritar, que mais do que violento, é um grito desesperado de ajuda.”

Entendo a visão de Verónica, é muito difícil falar e sequer, a outra parte ouvir. Novamente, não ter o contraditório é perigoso. O esquecimento provoca gatilhos.

A manifestação, em foco, eclodiu no México. Mas o gatilho já foi puxado: na Espanha, na Inglaterra, na França, em Portugal, na Itália, na Suécia, na Dinamarca, na Índia, no Irã, na Turquia, na Colômbia, na Argentina, no Chile e em muitos outros países.

Infelizmente, toda a falta de respaldo e a negligência por parte das autoridades competentes aumentam, ainda mais, a vulnerabilidade das vítimas, que seguem sendo sufocadas, inferiorizadas e rebaixadas moralmente. Mas a fissura que as manifestações estão causando na grande barragem da impunidade e da indiferença, certamente, será transformada num enorme tsunami de clamor e indignação. Você não pode impedir a mudança, assim como não pode impedir que os sóis se ponham (Obrigada, Star Wars – parte 2!).

E agora, mundo, como podemos prosseguir?

Particularmente, acredito que somente através de diálogos constantes, programas inclusivos e educação, poderemos – verdadeiramente – construir entendimentos e transformações sociais sobre a temática. Então, por que não começamos agora? Antes da produção de maior ignorância e, consequentemente, seu ódio.

Foto: Melanie Wasser / Unsplash

Julie Damame é Fundadora do Projeto Impacto Mulher, palestrante e ativista dos direitos humanos e contra a violência à mulher. Formada em Relações Internacionais no Brasil e na Espanha, graduanda em Direito e pós-graduanda em Direito Penal e Criminologia. Especialista em Justiça Criminal e Transtornos Mentais nos EUA.

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Publicidade O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
1 Comentário

1 Comentário

  1. Guilherme Junqueira de Almeida

    02/09/2019 at 13:58

    Que b… de texto esquerdista!

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Universo Feminino

A culpa de um silêncio amoroso e traumático

Julie Damame

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“Ainda não fez o meu jantar?”, “cadê a minha blusa?”, “você não pode ficar de conversinha com meus amigos”, “por que vai sair para trabalhar? Você não vai conseguir cuidar nem dos filhos, nem de mim”, “mulher minha faz o que eu quero na cama”, e para finalizar, “você nunca vai achar alguém que te ame como eu”.

Ao ler isso, tenho certeza de que alguns irão se sentir “superiores”, pela noção puramente egoística de “ainda bem que não é comigo” ou “nunca me deixaria passar por uma situação assim”.

Infelizmente, para uma vasta parte da população brasileira (e do mundo!), isso é parte do amor. Faz parte da doação, da entrega em um relacionamento para com o outro, em que as cobranças são apenas elementos naturais decorrentes dele.

O que essas pessoas não sabem é como esse ciclo pode se expandir, quantitativamente e qualitativamente, bem rápido. De piadas ofensivas e desqualificação a ameaçar e proibir. De enganar e ignorar a ofender e destruir bens pessoais. De ciumar e “brincar de bater” a confinar e forçar relações sexuais. De violentar e mutilar a matar.

Os níveis são diversos, mas todos fazem parte do conceito de “violência doméstica”. A lei nº 11.340/06, conhecida também como “Lei Maria da Penha”, define em seu artigo 7º:

São formas de violência doméstica e familiar contra a mulher, entre outras:

I – Violência física (ofensa a integridade ou saúde corporal, por exemplo, empurrões, beliscar, socos, etc.);

II – Violência psicológica (qualquer conduta que lhe cause danos emocionais, na autoestima, no pleno desenvolvimento ou que vise degradar/controlar as ações, comportamentos, crenças e decisões, mediante ameaça, constrangimento, desrespeito, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância constante, perseguição contumaz, insulto, chantagem, violação de sua intimidade, etc.);

III – Violência sexual (forçar relação sexual não desejada, impedir uso de métodos contraceptivos, limitar direitos sexuais e reprodutivos, etc.);

IV – Violência patrimonial (destruição de objetos pessoais, documentos, impedir o direito ao trabalho, etc.);

V – Violência moral (qualquer conduta que configure calúnia, difamação ou injúria, como acusações e xingamentos).

Inclusive, as violências não precisam ser cumulativas para serem consideradas “violência doméstica”. Basta uma. Podendo ser explícita ou velada, entre os parceiros ou na frente de terceiros.

E, agora? Quantas pessoas que conhecemos que se encontram em algum desses cenários ou em vários deles?

Estima-se que 103,8 milhões de mulheres brasileiras sofrem/sofreram violência doméstica no Brasil (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios/2013 – IBGE)! Que, aproximadamente, cinco mulheres são espancadas a cada 2 minutos, sendo o parceiro (marido, namorado ou ex) responsável por mais de 80% dos casos reportados (Mulheres Brasileiras nos Espaços Público e Privado – FPA/Sesc, 2010).

Para mais de 35% das vítimas, a frequência da violência (qualquer tipo) é semanal. Quando, 80% delas têm filhos, de modo que, 64,35% deles, presenciavam a violência ou eram vítimas diretas juntamente com as mães (18,74%).

Exatamente por ser sabido pelos estudiosos, que o “ciclo da violência” é real, contínuo, variado e de difícil mutação, foram criados modos de observância para analisar a possibilidade de se estar vivenciando um. Segundo a Agência Patrícia Galvão (2019), o ciclo tem três fases: a da tensão, a da agressão e a da lua de mel.

O início do ciclo é com insultos, raivas imotivadas e ameaças; em seguida, aparece a fase da possível agressão ou dela em si, com o descontrole e uma violenta explosão de toda a tensão acumulada; por fim, a fase do perdão, em que o parceiro promete mudar o comportamento ou agir como se nada de ruim tivesse ocorrido, ficando calmo e carinhoso, de modo consequente, faz o outro acreditar que isso não irá se repetir mais.

Contudo, vale destacar, que todo o processo é escalonado conforme o tempo, com maiores gravidades nas ações e em intervalos de tempo menores.

Em pesquisa no Sistema Único de Saúde (SUS), duas em cada três pessoas atendidas são em razão de violência doméstica ou sexual; e, em 51,6% dos atendimentos foram registradas reincidências no exercício da violência contra a mulher.

Então, por que elas seguem em um relacionamento assim? “É fácil sair, basta querer, não é?” – não, não é bem assim.

Várias são as barreiras de silêncio e culpa construídas pelas vítimas e derivadas de um “amor” violento. Como a extrema vulnerabilidade psicossocial, vergonha, preocupação com os filhos, expectativa na melhora, dependência financeira, falta de conhecimento, medo pela vida, ausência de apoio nos órgãos públicos/da própria família/amigos ou de confiança no sistema, entre outros.

De acordo com uma pesquisa “Tolerância social à violência contra as mulheres” realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, em 2014, 63% da população brasileira concordam que “casos de violência dentro de casa devem ser discutidos somente entre os membros da família”, 89% acreditam que “a roupa suja deve ser lavada em casa” e, pior, 82% confirmam que “em briga de marido e mulher não se mete a colher”.

Ou seja, para uma mulher sair de um relacionamento assim, é preciso muita coragem, juntamente com inúmeros traumas.

Segundo o Ministério da Saúde (2011), as mulheres perdem um ano de vida saudável a cada cinco anos em um relacionamento abusivo, por causa das inúmeras maneiras de sofrimentos psicológicos e físicos. Isto é, a expectativa de vida diminui!!

Além disso, consoante com o artigo “Quais as consequências psicológicas da violência doméstica contra a Mulher?”, do médico psiquiatra forense, Hewdy Lobo, “as manifestações físicas da violência podem ser graves, como por exemplo, as inflamações e hematomas causados pelas agressões físicas (como fraturas ósseas), ou crônicas, deixando implicações para toda a vida, como as limitações no movimento motor e traumatismos.

Os sintomas psicológicos frequentemente encontrados em vítimas de violência doméstica são: insônia, pesadelos, falta de concentração, irritabilidade, falta de apetite, e até o aparecimento de sérios problemas mentais como a depressão, ansiedade, síndrome do pânico e transtorno de estresse pós-traumático.”

Por isso, convidei minha amiga, Letícia Jácome Pereira, pesquisadora do tema na área de medicina, para explanar melhor sobre o – importante e pouco debatido – transtorno de stress pós-traumático (TEPT).

Para a matéria em questão, baseou-se nos estudos “Diagnóstico do transtorno de estresse pós-traumático” (2003), dos psiquiatras Ivan Figueira e Mauro Mendlowicz, e “Post Traumatic Stress Disorder: A review of the biological, psychological and sociological factors and treatments” (2006), da autora Kaitlin A. Chivers-Wilson.

“O transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), é caracterizado, basicamente, como um conjunto de sintomas envolvendo altos níveis de ansiedade e momentos em que o indivíduo tem a impressão de estar revivendo o evento traumático experienciado. É um transtorno bastante prevalente, atingindo cerca de 6,8% da população geral.

O traço essencial deste transtorno é que seu desenvolvimento está ligado a um evento traumático de natureza extrema. Uma fração significativa dos sobreviventes de experiências traumáticas irá desenvolver uma constelação aguda de sintomas de TEPT, que pode ser dividida em três grupos: revivescência do trauma, esquiva/entorpecimento emocional e hiperestimulação autonômica.

O TEPT é diagnosticado se esses sintomas persistirem por quatro semanas após a ocorrência do trauma e se redundarem em comprometimento social e ocupacional significativos. Para ser diagnosticada como sofrendo de TEPT, a pessoa exposta a um e vento traumático deve, segundo o DSM-IV, satisfazer inicialmente as duas partes do critério “A”, destacadas abaixo:

1. A pessoa vivenciou, testemunhou ou foi confrontada com um ou mais eventos que envolveram ameaça de morte ou de grave ferimento físico, ou ameaça a sua integridade física ou à de outros;

2. A pessoa reagiu com intenso medo, impotência ou horror;

O primeiro grupo de sintomas do TEPT é o relacionado às revivescências do trauma. Esses sintomas de re-experimentação do trauma são específicos do TEPT, não sendo observados em outros transtornos psiquiátricos. As revivescências podem se apresentar sob diversas formas: sonhos vívidos, pesadelos, pensamentos ou sentimentos incontroláveis, flashbacks. Tais recordações são intrusivas e dolorosas, pois surgem na mente e tendem a permanecer nela, ainda que o paciente tente lutar contra este pensamento.

Os pacientes usam uma série de estratégias emocionais, cognitivas e comportamentais para menorizar o sofrimento e o terror causado pelas revivescências traumáticas. Essas estratégias resultam em comportamentos variados de esquiva e no desenvolvimento de um entorpecimento emocional (anestesia emocional ou numbing).

A esquiva corresponde a uma tentativa desesperada de evitar contato com tudo que relembre o trauma. Classicamente, o paciente evita falar, pensar ou ir a locais associados ao trauma. Em alguns casos, pode ocorrer o fenômeno da amnésia psicogênica.

A evitação pode assumir formas sutis. Para fugir das lembranças intrusivas, o paciente pode se drogar (para anestesiar o sofrimento psíquico) ou utilizar mecanismos dissociativos, que servem para manter fora da consciência os pensamentos e sentimentos penosos. Essa restrição na amplitude dos afetos denomina-se entorpecimento psíquico.

Pacientes com TEPT passam a ter dificuldade em rir, chorar, amar, ter ternura, compadecer-se ou sentir atração sexual. Parecem “mortos para a vida”, isolando-se dos amigos e dos familiares. Como se pode ver, o “preço” pago pela anestesia dos sentimentos dolorosos é alto. Esses pacientes podem também, sentir-se desconectados de si mesmos, de seu ambiente, até de seu futuro, tendo uma sensação de “futuro abreviado”. Pode parecer-lhes não haver um porvir. Param de fazer planos de carreira, de viagens, de tudo.

Resta somente um presente tenso, constantemente invadido pelas memórias incômodas do passado.

O último grupo de sintomas da tríade que caracteriza o TEPT é a hiperestimulação autonômica. Esses sintomas são mais facilmente observáveis e incluem a irritabilidade, insônia, sobressalto excessivo e hipervigilância. Um leve barulho pode causar um sobressalto acentuado. Esse estado de alerta constante faz com que a concentração caia, afetando o desempenho em tarefas cognitivas como a leitura e o estudo. A irritabilidade constante e a agressividade exacerbada podem passar a ser características de um indivíduo que, antes do trauma, apresentava um temperamento calmo e cordato.

Há ainda o fator preocupante em si: se o sobrevivente de agressão acreditar que outros não reagiram de maneira positiva e solidária, há um risco maior de TEPT. Foi sugerido que a recuperação do trauma é caracterizada por uma reprogramação, integração e habituação às imagens traumáticas, levando à restauração de uma sensação de segurança. Com o tempo, os sintomas do TEPT diminuirão, o sobrevivente ficará menos preocupado com a culpa em relação a si e aos outros, e alcançará uma sensação recuperada de controle.

Por fim, vale a última ressalva: atribuir culpa está associado a piores resultados no TEPT”.

Concordo com a Letícia. O TEPT é apenas uma das doenças advindas dos traumas e mais traumas de uma “relação amorosa”, que não tem nada de amor. Onde há violência, de qualquer tipo, não há amor.

E a culpa é inimiga – em todos os períodos – do processo de superação da violência doméstica. É a culpa da vítima sobre si, do parceiro, dos ciclos sociais e da própria sociedade. A culpa traz um silêncio devastador, com efeitos nocivos à saúde integral da vítima.

E se tivermos que ponderar culpados, para além do agressor, deveríamos enfocar esforços em mudar uma sociedade que, em sua maioria, ainda não sabe o que é amor saudável.

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Universo Feminino

Todos os homens são potenciais estupradores?

Julie Damame

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Sim, você leu certo.

Antes de argumentar o contrário – por impulso imediato de proteção a si mesmo/namorado/pai/irmão – vamos falar sobre Fátima, Júlia e Priscila.

Em abril de 2019, Fátima, 54 anos, foi convidada, pelo seu então namorado, para um jantar romântico. O restaurante, na verdade, era um beco. O que ela não imaginava, era que um estupro coletivo havia sido previamente planejado pelo próprio namorado e os amigos dele. Foram cinco homens no total. Ao final, depois de terem introduzido um pedaço de madeira em sua vagina, estourando sua bexiga, desdenharam: “você é tão feia que te fizemos um favor”.

Júlia, 19 anos, teve uma história parecida. Depois de anos de estudo, foi aprovada na universidade que queria e resolveu comemorar, com seus melhores amigos, em uma festa. O que ela não esperava, era que um deles se tornaria seu estuprador. E pior, que filmaria tudo e postaria em – diversas – redes sociais, com um comentário, no mínimo, sarcástico: “você fica linda chorando”.

No caso de Priscila, com seus 10 anos, só queria brincar. Entretanto, sua família achava que ela tinha vocação para ser modelo mirim. Criaram, assim, uma página na internet, que – constantemente – recebia comentários hipersexualizados. O que ninguém supunha, era que seu pai tornar-se-ia seu estuprador. Durante os inúmeros atos, dizia: “você me provoca”.

O que elas possuem em comum?

Os nomes fictícios e as histórias verdadeiras. São episódios traumáticos que viraram manchetes e matérias de reportagens que, sobejas vezes, confrontaram suas dignidades, moralidades e honras.

A sociedade tende a culpabilizar as vítimas e minimizar a ação do criminoso. Para muitos, o primeiro julgamento é: “o que tal pessoa estava fazendo com aquela roupa/companhia/hora/lugar?”.

A comprovação deste cenário adveio da pesquisa de opinião feita pelo Datafolha e encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em 2016. Constatou-se que 33,3% da população brasileira acredita que a vítima é culpada em casos de estupro. Entre os homens, a porcentagem sobe para 42%.

Tenebroso!

É inconcebível que pensamentos e comentários inquisitivos sobre a conduta dessas mulheres sejam proferidos pela população feminina; principalmente por estas serem, também, possíveis vítimas.
Cerca de 86% das violências sexuais do mundo são contra nós. E, apesar de não sermos exclusivas, representamos uma vasta proporção.

A música “Testando” de Ellen Oléria (adoro!) bem ecoa: ”[…] Não importa pôr roupa chique ou dar seu sobrenome, A mulherada já sabe […], Sozinha cê não tá segura.”

Mas, o que os homens têm a ver? – diria o ansioso de plantão.

Bom, os homens representam 99% dos agressores sexuais globais (University of Chicago Press). E isso, definitivamente, não podemos ignorar.

E TODOS os homens devem “pagar” por isso? – pode me perguntar.

Vejamos.

A cultura do estupro é uma realidade, quer você acredite ou não. Podemos ser um mundo multicultural, mas garanto que essa verdade assombra todas as sociedades.

O conceito, segundo a autora Susan Brownmiller (1975), refere-se a existência de uma cultura/prática social hegemônica que apoia o estupro, a partir do modo como define a sexualidade masculina a naturalmente agressiva e a feminina, a sua falta de confronto. Ou seja, ensinamos a sociedade a se proteger de um estupro, e não a condenar diretamente o ato. Com isso, acabamos por desenvolver, aceitar e, pior, relativizar o estupro no decorrer da existência humana.

De acordo com a autora Andrea Nye, a tipificação penal (o que é) e a punição do estupro variou ao longo do tempo e consoante com o “tipo” de mulher! Se era virgem ou casada, por exemplo, aumentava-se ou diminuía a pena.

Admitia-se, ainda, que o comportamento do agressor era um “estímulo sexual incontrolável”. Imputando-se características de transtorno mental e não de natureza delitiva/criminosa ao infrator.
Correlativamente, o prazer feminino era um tabu. No passado, via-se como algo errado, pecaminoso e julgável.

Estas e outras características, sucessivamente, mesclaram-se com a noção de masculinidade tóxica e de estereótipos de gênero (ou funções sociais). A violência e o comportamento “macho” são propagados aos homens desde criança: “resolve a briga como homem”, “homem não chora”, “engrossa esta voz”, “seja forte, não vai dar uma de menininha”, etc.

Já a mulher, por muitos anos, era vista como um objeto, estava sempre disponível para saciar as vontades dos homens, ser dócil e “feminina”, além de cuidar da casa e da família. Seguiam a frase: “Mulheres são desfrutáveis, homens desfrutam”. Um horror.

Quem pode negar que estas características são diametralmente opostas e nos transformam em vítimas perfeitas?

O documentário The Mask You Live In, dirigido por Jennifer Siebel Newsom, aponta de forma impecável os males que a masculinidade tóxica provoca na sociedade. Os dados são dos Estados Unidos, mas a reflexão é bem importante como um todo (assista!).

Cerca de 21% dos homens assistem, todos os dias, vídeos pornôs com cenas de violência, 68% jogam, também todos os dias, videogames com cenas de lutas e 70% estão infelizes/chateados/agressivos ou depressivos por ter que viver sob uma “máscara” social do que pode ou não fazer. Receita para o desastre!

E – tcham tcham – mais de 35% dos homens cometeriam um estupro se soubessem que não seriam pegos!

Deplorável, vergonhoso, abjeto.

O Center for Disease Control and Prevention, nos EUA, revelou que uma em cada cinco mulheres será estuprada ao longo da sua vida. Frise-se: uma em cinco, 20% das mulheres!

No Brasil, o Atlas da Violência (IPEA/FBSP) compilou dados igualmente chocantes e que muito corrobora com o estudo americano!

Estima-se que ocorram 164 estupros por dia no Brasil, foram quase 60 mil em 2017. E se considerarmos que somente 10% deles são reportados às autoridades (dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública), o cálculo correto seria de, aproximadamente, 580 mil estupros ao ano, no país.

A maioria das vítimas são mulheres e menores de 14 anos – crianças entre 1 e 5 anos (51,2%) e adolescentes entre 10 e 14 anos (67,8%). Em torno de 70% dos abusos são cometidos dentro de casa por parentes ou companheiros. Perpassamos a lógica de que “roupa” a vítima usava, quais eram seus hábitos ou qualquer outra coisa. O problema é bem mais inerente a dialética cultural.

Se devemos questionar os agressores e não mais as vítimas, o mesmo vale para o “acreditar”, certo?

No livro Missoula, Jon Krakauer denuncia a omissão e a proteção concedida aos estupradores, por parte das autoridades policiais e judiciais da cidade universitária que dá nome ao livro. Os agressores são jogadores do time de futebol americano da Universidade de Montana, os Grizzlies. São jovens promissores, talentosos e que não poderiam ter suas carreiras ceifadas por uma condenação por estupro. Segundo o autor: “a Justiça e a universidade, não raro, fazem vistas grossas aos testemunhos das vítimas. Nos crimes sexuais, parte da sociedade se volta contra as vítimas ou tenta desacreditá-las assim que as denúncias vêm a público.”

Notamos que relatar um estupro ou agressão sexual envolve procedimentos complexos, invasivos e traumáticos. Reina-se o silêncio!

As vítimas não denunciam seus agressores, pois as “penalidades” sociais são muito altas – famílias ignoram os pedidos de ajuda ou sentem vergonha, há ceticismo pelo crime, quando o agressor é conhecido, entre outros.

Ademais, implica em inúmeros traumas físicos e mentais. Segundo o Caderno de Saúde Pública (2013), os efeitos podem ser desde infecções do aparelho reprodutivo, doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) e gravidez até depressão, síndrome do pânico, tentativa de suicídio e dependência de substância psicoativas.

Conforme o estudo “As palavras desacreditadas das mulheres: falsas alegações na pesquisa sobre estupro na Europa”, as mulheres são frequentemente tratadas com desconfiança, inclusive por autoridades policiais; mesmo quando as falsas alegações representam uma média de 5% dos casos.

Além do preconceito, no Brasil, as Delegacias da Mulher são escassas, só existem em 7,9% das cidades brasileiras. No caso das delegacias comuns, o estigma social consegue ser maior – especialmente, quando a vítima é um homem.

Destarte, se poucos denunciam e os que fazem, sofrem danos irreparáveis, quais consequências provocamos para a sociedade?

O que faremos com os 90% dos casos, cujos estupradores sequer serão objetos de denúncia?

Onde estão, neste exato momento, os estupradores que não foram denunciados e muito menos condenados?

Isso é bem sério!

O “potencial” do título é a existência do nosso contexto fático. O dicionário Aurélio bem explana: “potencial é algo suscetível de existir ou acontecer”.

Isso está mais do que comprovado! A sociedade tolera o estupro a ponto de asseverar que o crime faz parte da nossa cultura.

Cultura que é a fonte/causa-raiz destes laços complexos, destes comportamentos naturalizados e de difícil mutação.

E, de forma controversa, acredito que é precisamente nesta cultura que encontraremos a solução.

Se nós criamos – nós podemos mudar.

A elaboração de leis e punições mais severas podem até parecer positivas a curto prazo, porém, transformam-se em ineficazes ao longo do tempo. Sobretudo, se não soubermos lidar com os motivos e razões do crime.

Não devemos adotar apenas um modelo maniqueísta – de “bom e mau”, “forte e fraco”. Devemos trocar informações, realizar ações de discriminação positiva e discussões interdisciplinares em âmbitos nacionais.Eduquemos as futuras gerações sobre os impactos negativos que o machismo, a misoginia, a sociedade patriarcal, a masculinidade tóxica e a cultura do estupro causam à sociedade.

Tenhamos mais união e sororidade para lidar com as questões fundamentais. Sejamos o oposto dessas estatísticas e verdadeiros agentes de transformação social. Somos a nossa cultura. E, POTENCIALMENTE, firmamo-nos a favor ou contra ela.

Sejamos uma cultura de respeito.

Foto: Tim Marshall / Unsplash

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