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Esportes

O futebol é realmente para todos?

Jéssica Patrine

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Futebol faz parte da cultura brasileira. E assim como toda manifestação cultural, reflete o comportamento da sociedade sobre alguns temas. Nesse combo, os preconceitos também estão incluídos. O brasileiro, em geral, é LGBTfóbico. Aqui é um dos países mais perigosos para qualquer pessoa dessa sigla viver. E, infelizmente, o estádio não é um lugar acolhedor para essas pessoas. Quem nunca ouviu aquele grito horroroso de ”bicha” na cobrança de escanteio? Fora os ataques direcionados aos jogadores adversários com palavras pejorativas bem mais pesadas.

Xô preconceito

Por isso, clubes brasileiros, como Santos, Flamengo e São Paulo, dentre outros, iniciaram a campanha contra os gritos homofóbicos dentro dos estádios. As torcidas que proferirem cânticos preconceituosos poderão prejudicar os clubes com perda de ponto no torneio disputado. Recentemente, no jogo Vasco x São Paulo, pelo Campeonato Brasileiro, o árbitro Anderson Daronco interrompeu a partida por causa dos xingamentos contra a torcida tricolor paulista. O técnico vascaíno, Vanderlei Luxemburgo, junto com parte do time, pediu para a torcida parar de entoar os gritos preconceituosos. Essa ação já foi um passo gigantesco ao combate à homofobia no futebol brasileiro, principalmente no masculino. Ironicamente, no futebol feminino, as jogadoras não têm receio de afirmar a orientação sexual. Tampouco escondem os namoros. Temos os exemplos das maravilhosas Marta e Cristiane, que assumem abertamente as namoradas.

Em um mundo ideal e utópico, ninguém precisaria se sentir envergonhado por causa da orientação sexual ou da identidade de gênero. Todos poderiam assistir os jogos sem ter medo de ouvir coisas desagradáveis, apanhar ou sofrer outro tipo de violência. O futebol realmente seria para todos e todas. Todavia, ainda não é assim. Acredito que estamos caminhando, mesmo que em um ritmo bem devagar, para a mudança de mentalidade sobre o respeito e a aceitação de atletas e torcedores assumidamente LGBT+. Também aguardo ansiosamente o dia em que os campeonatos de pontos corridos deixarão de existir, mas aí é assunto para outro texto.

Foto: Andy Hall/Unsplash

Jéssica Patrine é jornalista, nerd, leitora compulsiva e chocólatra. Não para de ouvir música, por isso escreve para o Ré Menor sobre o tema. Gosta de tudo um pouco, mesmo parecendo que não curta nada.

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Futebol Masculino

Desrespeito clássico

Jéssica Patrine

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Em qualquer esporte tem competitividade: saber ganhar, perder ou empatar. A rivalidade é inerente em esportes que despertam paixões e possuem torcidas fiéis, como futebol. Quem nunca provocou o amigo após um clássico? Ou foi o provocado, dependendo da fase. Espírito competitivo é saudável caso promova respeito e união.

Tem uma cena (lamentável) que virou tema de conversas na internet e fora após o último clássico gaúcho Internacional x Grêmio, no Beira-Rio, em Porto Alegre: uma mãe e filho gremistas sendo agredidos por um pequeno grupo de torcedores colorados. O fato é até surpreendente, já que não envolve rixa de torcida organizada ou momentos tensos da partida, que inclusive foi 1 x 1. O que mais me incomodou foi a atitude impensada e covarde dos colorados sob a justificativa de que ali não era o lugar apropriado para a mãe e a criança por causa do setor em que estavam. Isso não dá razão em hostilizar outras pessoas, seja verbalmente ou fisicamente. Creio que a mãe tenha levado o menino para ter uma experiência agradável e divertida. Provavelmente eles assistam os jogos pela TV ou ouçam pelo rádio e queriam vivenciar isso ao vivo, sentir a energia. Mas infelizmente, eles se depararam com um tipo bem comum de torcedor: aquele que não sabe dialogar e ignora a importância do coletivo. O diferente é atacado e humilhado, mesmo que o futebol seja feito puramente disso.

Tanto se fala em atrair novamente as pessoas para os estádios, mas essa é uma questão além da elitização do futebol e outros aspectos complexos financeiros e sociais. Não é possível conquistar público diverso se não houver respeito, se um lugar que pode ser visto como festivo é enxergado como perigoso. E é claro que somente medidas repressivas que tentam coibir brigas de maneiras falhas não são capazes de melhorar e apaziguar. Essa mudança de mentalidade precisa ser incentivada constantemente pelos clubes, que não podem parar de promover ações contra qualquer tipo de discriminação e hostilidade. E fomentar esse tipo de cultura não é só dizer vagamente “paz no futebol” ou frases feitas com esse teor. É dar o exemplo por meio dos atletas e dirigentes, mostrar que o intolerável não pode ser aceito de maneira alguma. Estádio é lugar de todos, mas nesse jogo truculento, todos saem perdendo.

Foto: Itamar Aguiar/ALLSPORTS

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Futebol Feminino

O jogo da minha vida

Jéssica Patrine

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Todo mundo que curte futebol tem uma memória afetiva extensa relacionada aos jogos, principalmente os que frequentam estádio. Sou uma dessas pessoas. Já vi todo tipo de partidas: goleadas grandiosas, derrotas patéticas, finais mornas e outras com decisão de pênalti. Chorei, gritei, fiquei quieta, ri, xinguei e reclamei bastante.

Com certeza, o melhor jogo que vi em campo foi em 2009, mais precisamente no dia 18 de outubro, na Vila Belmiro. Não era qualquer jogo. Ali, no Alçapão, seria disputada a final da Libertadores feminina: Santos x Universidad Autónoma, time paraguaio. O estádio estava lotado, apesar de ser de manhã, repleto de famílias com crianças. O dia estava ensolarado e quente, o que me faz lamentar profundamente ter vestido calça e tênis. O clima, apesar da partida ser decisiva, era leve e festivo antes mesmo do jogo começar.

As Sereias da Vila, time feminino do Santos, aterrorizavam as rivais. Junto com o eficiente ataque protagonizado por Marta e Cristiane, também tinha a defesa menos vazada do campeonato. Andréia Suntaque fechava o gol com precisão. Por ironia do destino, Cristiane não jogou a final por causa de uma punição equivocada após ter comemorado um gol junto com a torcida no alambrado no jogo anterior. Creio que as adversárias tenham ficado aliviadas momentaneamente pela artilheira do time não jogar.

A partida começou e parecia tudo milimetricamente coreografado. Primeiro gol saiu aos 13 minutos, feito por Maurine. Daí em diante foi uma bonita sequência: Marta, Erika, Fran, Thais, Erika, Suzana. Dani e Ketlen. Cada gol comemorado efusivamente. Sim, 9 gols oficializaram o primeiro título de um time brasileiro na Libertadores, assim como a equipe masculina foi pioneira em ganhar uma competição continental nos anos 60. Ambos os times, apesar de ter craques, contavam com a eficiência coletiva. Certamente, foi um dia historicamente mágico para o esporte mundial. E para minha vida como torcedora.

A partir daí, nunca tive dúvidas de que Marta continuaria sendo a maior de todas. Apesar de muitos a acharem fominha, não consigo vê-la assim. Caso ela confie na equipe, entrega de bandeja em passes precisos a bola para as companheiras marcarem, dá assistência nas jogadas e chama a responsabilidade para si em campo. Tudo isso, a trajetória, experiência, derrotas e a coleção de títulos a prepararam diretamente para o feito de hoje no jogo contra a Itália pela Copa do Mundo Feminina. Ela é, merecidamente, a maior artilheira de todas as Copas. Ultrapassou Klose, Pelé e o restante das lendas futebolísticas, que não são poucas.

A adolescente de 14 anos, que estava na Vila Belmiro numa manhã de sol, comemorando loucamente cada gol certamente gostaria de ver isso. A mulher de 24 anos, que acompanha fielmente futebol feminino há uma década, está feliz em nunca ter duvidado e, tampouco, desistido do esporte. Se os deuses do futebol existem, com certeza há deusas também. E Marta, indiscutivelmente, tem a divindade garantida faz tempo.

Foto: Molly Darlington – AMA/Getty Images

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