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Séries

O curioso retorno de “Perdidos no Espaço”

A primeira temporada parece ser uma longa introdução

Sergio Kulpas

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O escritor inglês Daniel Defoe escreveu Robinson Crusoé em 1719. Um dos livros mais publicados e lidos no mundo, o romance conta a história de um náufrago que passou 28 anos em uma remota ilha tropical próxima a Trinidad, encontrando canibais, cativos e revoltosos antes de ser resgatado. O livro foi originalmente publicado na forma de folhetins em The Daily Post, e foi o primeiro romance em capítulos em um jornal.

Defoe criou o “romance de náufrago”: a ideia de uma pessoa ou grupo de pessoas isoladas em algum local remoto, e que tentam se adaptar às dificuldades (ou ofertas) do ambiente e conseguir viver do melhor modo possível.

Quase um século depois de Crusoé, em 1812, o pastor suíço Johann David Wyss escreveu A Família Robinson Suíça, inspirado no romance de Defoe. No livro de Wyss, narra as desventuras de uma família depois de um naufrágio em uma ilha remota, passando por vários desafios e perigos. A obra do pastor tem caráter educativo e moral, com noções de ciência, sobrevivência — acima de tudo, a importância dos valores familiares.

Saltamos mais um século, diretamente para a Hollywood dos anos 1960. Desde o começo dos anos 1950, os estúdios de cinema perceberam a imensa mina de ouro que a televisão representava. Inicialmente como uma operação menor, os estúdios passaram a produzir séries e shows de grande popularidade, que eram distribuídos para as emissoras de TV do país inteiro. Com a venda em massa de televisores a cores na virada da década, essa produção se tornou uma indústria gigantesca, atraindo os melhores talentos e alimentada por caminhões de dinheiro de anunciantes ávidos para patrocinar programas que literalmente paravam o país no horário nobre.

É nesse ambiente borbulhante que se destaca a presença de Irwin Allen (1916-1991). Allen foi um dos maiores diretores e produtores da história de Hollywood, e foi apelidado de “Mestre do Desastre”, por filmes como O Destino de Poseidon e Inferno na Torre. Na televisão, Allen é responsável por alguns dos maiores sucessos dos anos 1960, como Viagem ao Fundo do Mar, Túnel do Tempo e Terra de Gigantes.

E, claro, Perdidos no Espaço. Allen queria produzir um entretenimento familiar, uma versão de A Família Robinson Suíça como ficção-científica. Allen era um produtor premiado, aclamado e temido na 20th Century Fox. A série Lost in Space, uma co-produção da Fox com a rede de televisão CBS, teve orçamento recorde desde a concepção. Havia rumores de que seu fracasso poderia levar o estúdio à falência.

Originalmente, “Perdidos” seria um drama de ficção-científica focado nos desafios de uma família à deriva no espaço sideral, depois que um agente estrangeiro (o Dr. Zachary Smith) sabota a nave Júpiter 2. O piloto da série, um dos mais caros na época, era sombrio e grave em sua fotografia em preto e branco e não chegou a ser exibido na íntegra na época. Irwin Allen era um produtor com grande senso comercial, e não podia arriscar a falência do estúdio com um fracasso estrondoso.

Mas o ator escalado para ser o vilão Smith era Jonathan Harris. Essa escolha bizarra de elenco transformou o que poderia ser um enorme e caro fracasso em um sucesso incomparável (lembra muito o enredo de Primavera para Hitler, comédia de Mel Brooks). O vilão se tornou o ponto focal da série, com maneirismos e frases de efeito que foram adorados pelo público. Irwin Allen não era tolo, e os roteiristas logo foram ordenados a mudar os roteiros para transformar a série dramática em uma comédia espacial, com uma narrativa cada vez mais “camp”, pop e cafona. A série teve apenas três temporadas, entre 1965 e 68, e foi cancelada quando ainda tinha uma audiência respeitável.

Como outros sucessos da TV americana dos anos 1960, “Lost in Space” se tornou cult quase imediatamente, um ícone gerador de memes pelas décadas seguintes.

Meio século depois, temos o reboot da série, na plataforma Netflix. Novamente, a família Robinson segue a caminho de Alpha Centauri. Como há 50 anos, lá estão o Sr. e a Sra. Robinson, os filhos Judy, Penny e Will, Don West, o Robô e Dr. Smith.

Mas nada é como antes. Em cinco décadas, a família nuclear americana do pós-Guerra apresentada no programa de TV se transformou profundamente. O casamento dos Robinsons não é monolítico, o casal vive um processo de separação. John Robinson é um militar durão, mas não é mais o chefe da família. A mãe Maureen é a figura central – a personagem da série original era uma dona-de-casa no espaço, a atual é a engenheira aeroespacial responsável por boa parte do projeto de colonização humana no espaço, incluindo o design das espaçonaves. Judy é negra (e ponto, porque estamos no futuro onde ninguém pode estranhar que um casal branco tenha uma filha negra).

E o Dr. Smith não é um agente de uma potência estrangeira, mas uma mulher perturbada e com traços de psicopatia. O Robô é uma entidade de uma civilização alienígena.

A primeira temporada da série da Netflix parece ser uma longa introdução para a situação onde os Robinsons se veem realmente “perdidos no espaço”. A ideia da família isolada em um ambiente desconhecido e muitas vezes hostil é um ótimo tema. A série tem defeitos, claro. Mas suas virtudes garantem o entretenimento.

Foto: Perdidos no Espaço / Netflix

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.

Sergio Kulpas é escritor e jornalista, com 25 anos de atividade em redações. Passou pela Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Gazeta Mercantil, Diário do Comércio, Meio & Mensagem e vários sites especializados em comunicações e mídia.

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Justiça: minissérie brasileira para ninguém botar defeito

Chega de preconceito com as produções nacionais. Dê uma chance para a minissérie Justiça!

Êrica Blanc

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Se você não é o tipo de pessoa que curte as produções brasileiras e que torce o nariz para a menor menção de algo feito por aqui, pode ir destorcendo esse nariz que a minissérie é muito boa e eu posso provar. Justiça é uma minissérie brasileira, produzida pela Rede Globo. Ela foi exibida entre agosto e setembro de 2016, contando com apenas 20 episódios. E, atualmente, está disponível no catálogo da Globo Play. A trama não gira em torno de um único protagonista. Na verdade, a cada dia da semana, retrata uma história diferente presente na trama. Mas, calma, que já já eu te explico direitinho sobre cada uma delas. A trama conta com grandes nomes da atuação, como: Débora Bloch, Marina Ruy Barbosa, Jesuíta Barbosa, Adriana Esteves, Cauã Reymond, Drica Moraes, Antonio Calloni, Cássio Gabus Mendes, Enrique Díaz, Marjorie Estiano, Vladimir Brichta e Leandra Leal.

A trama conta 4 histórias diferentes, mas que são completamente interligadas. Sendo assim, a cada episódio nos aprofundamos em um ponto diferente da história e os protagonistas da vez mudam de um episódio para o outro. Sendo assim, os que eram principais em um episódio, acabam aparecendo como coadjuvantes em outros. Ficou confuso? Deixa eu tentar exemplificar: nos episódios em que a Débora Bloch protagoniza, a Adriana Esteves aparece como coadjuvante. E vice-versa. Como cada um tem sua trama particular, tentei resumir um pouquinho sobre cada uma delas. Só que, não deu para não contar um pouquinho do episódio inicial. Que não é exatamente um spoiler, já que a própria Globo contou bastante sobre as tramas, antes de começar a exibir. 

As tramas

Segunda-feira (Vicente Menezes)

Elisa (Débora Bloch), após 7 anos, ainda não conseguiu superar a morte da filha, Isabela (Marina Ruy Barbosa), que assassinada pelo noivo Vicente (Jesuíta Barbosa). Que, tomado pela raiva ao flagrar a noiva o traindo com o ex-namorado, dispara várias vezes contra ela. Após ser solto ele vai em busca do perdão da ex-sogra, que só pensa em formas de se vingar, enquanto vai viver com sua atual esposa, Regina (Camila Márdila).

Episódios desse núcleo: 1, 5, 9, 13 e 17.

Terça-feira (Fátima Libéria do Nascimento)

Fátima (Adriana Esteves) é uma doméstica com uma vida ok para os padrões financeiros que tem. Apesar disso, é muito feliz ao lado do marido e dos dois filhos. Porém, ao aparecer um novo vizinho com um cachorro que machuca o seu filho, Fátima se enche de ódio e acaba matando o cachorro do policial e seu vizinho, Douglas (Enrique Díaz). Mas, o policial se revolta e acaba incriminando Fátima por tráfico. Quando é solta, sete anos mais tarde, Fátima faz de tudo para reconstruir a família.

Episódios desse núcleo: 2, 6, 10, 14, 18.

Quinta-feira (Rose Silva dos Santos)

Rose (Jéssica Ellen) e Débora (Luisa Arraes) são melhores amigas desde pequenas. Já que a mãe de Rose é empregada na casa de Débora há anos. Se tratam como irmãs e fazem de tudo uma pela outra. Mas, em uma noite, ao comemorarem o aniversário de 18 anos de Rose, na praia, a polícia faz uma batida e encontra drogas com a menina. A trama apresenta a questão racial bem forte, já que Rose só foi revistada por ser negra. Após este fato, Débora é violentada, e quando reencontra Rose, sete anos mais tarde, elas se unem para destruir o estuprador.

Episódios desse núcleo: 3, 7, 11, 15, 19.

Sexta-feira (Maurício de Oliveira)

Maurício (Cauã Reymond) vê sua esposa Beatriz (Marjorie Estiano), que é bailarina, ser atropelada por Antenor (Antonio Calloni), enquanto o cara foge com o dinheiro roubado do sócio. A pedido dela, Maurício aplica a eutanásia e é preso como assassino da própria esposa. Quando sai da prisão, 7 anos depois, Maurício se aproxima de Vânia (Drica Moraes), esposa problemática de Antenor, com o objetivo de se vingar pelo acidente.

Episódios desse núcleo: 4, 8, 12, 16, 20.

Não ficam fios soltos

O roteiro é de Manuela Dias e ela foi impecável na criação de Justiça. Vale dizer que a minissérie é muito bem amarrada e apesar de ter uma construção difícil de explicar, ela não deixa nenhum fio solto. Ou seja, todos os detalhes são resolvidos e dúvido que você não vai ficar sem ar, com pelo menos um desfecho. Os atores também trouxeram bastante realidade para a trama, além de terem sido bem cuidadosos com o sotaque. Aliás, quase esqueci de falar, Justiça tem Recife como palco. Eu amei o fato de que a minissérie se passa em uma cidade que não está dentro do padrão óbvio. Ao trazer Recife para dentro de narrativas tão importantes como a que a minissérie aborda, Justiça agregou valor a outro ponto do país. Afinal, estamos muito condicionados a assistir produções no Rio de Janeiro e São Paulo, né? Sendo assim, eu preciso recoemndar os 20 episódios de Justiça, caso você assine Globo Play. São incríveis, terminam de maneiras que fazem nosso queixo cair e mostram bem a realidade da injustiça brasileira. 

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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Bandidos na tv: representando o Norte na Netflix

Êrica Blanc

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Bandidos na tv é uma série documental, onde vários personagens se unem para contar a história de Wallace Souza. O mesmo foi um apresentador de programa policial em Manaus, entre os anos 90 e 2000. E, por incrível que pareça, ele sempre estava a frente das outras emissoras e, principalmente, da polícia. Suas equipes eram sempre as primeiras a chegar nos locais dos crimes e seu programa era um grande sucesso. O que, por si só, já é estranho. Além disso, a população criou uma verdadeira adoração pelo Wallace, que acabou sendo conhecido como “justiceiro”. Mas, como tudo pode piorar, ele também foi deputado.

Entretanto, a vida política chegou ao fim quando uma investigação a cerca da veracidade do conteúdo do seu programa começou. A história tomou conta dos jornais e agora leva Manaus como cenário para a série na Netflix. Dentre os narradores da história, temos pessoas próximas ao acusado, trechos de gravações do próprio Wallace quando ainda estava vivo e os responsáveis pela investigação.

Amazonas em foco

Eu, que sou do Norte, não fazia ideia dessa história assombrosa. “Por quanto tempo eu dormi ou aonde eu me enfiei quando tudo isso rolou?”, era tudo o que eu conseguia me questionar quando vi série. Afinal, mesmo que eu seja de Rondônia e não do Amazonas, tenho família em Manaus. Sem contar que o caso tomou repercussão mundial e é de se esperar que a informação teria chego nas redondezas, né? Mas, eu nunca tinha ouvido falar. Confesso que, além de ser assustador ver a crueldade dessa história, me entristece muito o fato de o Amazonas, e o Norte em si, ser noticia, mais uma vez, com algo negativo. Se você é de outras regiões, faça um exercício: quantas vezes você já viu notícias boas aqui do Norte?

Apesar de não ser uma regra, sempre que vamos parar nos jornais, costuma ser por algum motivo ruim. Entretanto, agora que estamos numa plataforma como a Netflix, até que podia ser diferente. Só que não foi. Mas, deixando a dor e a queixa de alguém do Norte, que conhece muitas riquezas da região, a série é muito boa.

Assustador é pouco

Bandidos na tv é bem documental e trás de volta várias cenas da época que rolava a investigação. E, consequentemente, que o Wallace estava vivo. Apesar da trama girar em torno de um caso macabro e assustador, por que não dá para imaginar tamanha crueldade para uma pessoa só, também aborda várias questões importantes. Como, por exemplo, nos atenta para o fato de as pessoas serem muito influenciáveis e como criam adoração por pessoas sem conhecê-las a fundo. Outro ponto forte da série é a costrução da narrativa. Não acusa, nem toma um único lado como verdade. Mostra tanto o lado das pessoas que acreditam cegamente que o deputado era inocente, quanto o lado de todos que tem certeza que é culpado. Ao colocar os dois lados da história, é bem imparcial e abre espaço para que o espectador crie suas próprias teorias.

Eu recomendo fortemente se você gosta de investigação policial, de casos veridicos e, é claro, de séries documentais. Mas, se você se sente fragilizado com a falta de humanidade das pessoas, confesso que pode não ser o melhor conteúdo para você, ok? Agora, se você já assistiu Bandidos na tv, conta sua opinião aí nos comentários!

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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