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Universo Feminino

A culpa de um silêncio amoroso e traumático

Julie Damame

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em

“Ainda não fez o meu jantar?”, “cadê a minha blusa?”, “você não pode ficar de conversinha com meus amigos”, “por que vai sair para trabalhar? Você não vai conseguir cuidar nem dos filhos, nem de mim”, “mulher minha faz o que eu quero na cama”, e para finalizar, “você nunca vai achar alguém que te ame como eu”.

Ao ler isso, tenho certeza de que alguns irão se sentir “superiores”, pela noção puramente egoística de “ainda bem que não é comigo” ou “nunca me deixaria passar por uma situação assim”.

Infelizmente, para uma vasta parte da população brasileira (e do mundo!), isso é parte do amor. Faz parte da doação, da entrega em um relacionamento para com o outro, em que as cobranças são apenas elementos naturais decorrentes dele.

O que essas pessoas não sabem é como esse ciclo pode se expandir, quantitativamente e qualitativamente, bem rápido. De piadas ofensivas e desqualificação a ameaçar e proibir. De enganar e ignorar a ofender e destruir bens pessoais. De ciumar e “brincar de bater” a confinar e forçar relações sexuais. De violentar e mutilar a matar.

Os níveis são diversos, mas todos fazem parte do conceito de “violência doméstica”. A lei nº 11.340/06, conhecida também como “Lei Maria da Penha”, define em seu artigo 7º:

São formas de violência doméstica e familiar contra a mulher, entre outras:

I – Violência física (ofensa a integridade ou saúde corporal, por exemplo, empurrões, beliscar, socos, etc.);

II – Violência psicológica (qualquer conduta que lhe cause danos emocionais, na autoestima, no pleno desenvolvimento ou que vise degradar/controlar as ações, comportamentos, crenças e decisões, mediante ameaça, constrangimento, desrespeito, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância constante, perseguição contumaz, insulto, chantagem, violação de sua intimidade, etc.);

III – Violência sexual (forçar relação sexual não desejada, impedir uso de métodos contraceptivos, limitar direitos sexuais e reprodutivos, etc.);

IV – Violência patrimonial (destruição de objetos pessoais, documentos, impedir o direito ao trabalho, etc.);

V – Violência moral (qualquer conduta que configure calúnia, difamação ou injúria, como acusações e xingamentos).

Inclusive, as violências não precisam ser cumulativas para serem consideradas “violência doméstica”. Basta uma. Podendo ser explícita ou velada, entre os parceiros ou na frente de terceiros.

E, agora? Quantas pessoas que conhecemos que se encontram em algum desses cenários ou em vários deles?

Estima-se que 103,8 milhões de mulheres brasileiras sofrem/sofreram violência doméstica no Brasil (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios/2013 – IBGE)! Que, aproximadamente, cinco mulheres são espancadas a cada 2 minutos, sendo o parceiro (marido, namorado ou ex) responsável por mais de 80% dos casos reportados (Mulheres Brasileiras nos Espaços Público e Privado – FPA/Sesc, 2010).

Para mais de 35% das vítimas, a frequência da violência (qualquer tipo) é semanal. Quando, 80% delas têm filhos, de modo que, 64,35% deles, presenciavam a violência ou eram vítimas diretas juntamente com as mães (18,74%).

Exatamente por ser sabido pelos estudiosos, que o “ciclo da violência” é real, contínuo, variado e de difícil mutação, foram criados modos de observância para analisar a possibilidade de se estar vivenciando um. Segundo a Agência Patrícia Galvão (2019), o ciclo tem três fases: a da tensão, a da agressão e a da lua de mel.

O início do ciclo é com insultos, raivas imotivadas e ameaças; em seguida, aparece a fase da possível agressão ou dela em si, com o descontrole e uma violenta explosão de toda a tensão acumulada; por fim, a fase do perdão, em que o parceiro promete mudar o comportamento ou agir como se nada de ruim tivesse ocorrido, ficando calmo e carinhoso, de modo consequente, faz o outro acreditar que isso não irá se repetir mais.

Contudo, vale destacar, que todo o processo é escalonado conforme o tempo, com maiores gravidades nas ações e em intervalos de tempo menores.

Em pesquisa no Sistema Único de Saúde (SUS), duas em cada três pessoas atendidas são em razão de violência doméstica ou sexual; e, em 51,6% dos atendimentos foram registradas reincidências no exercício da violência contra a mulher.

Então, por que elas seguem em um relacionamento assim? “É fácil sair, basta querer, não é?” – não, não é bem assim.

Várias são as barreiras de silêncio e culpa construídas pelas vítimas e derivadas de um “amor” violento. Como a extrema vulnerabilidade psicossocial, vergonha, preocupação com os filhos, expectativa na melhora, dependência financeira, falta de conhecimento, medo pela vida, ausência de apoio nos órgãos públicos/da própria família/amigos ou de confiança no sistema, entre outros.

De acordo com uma pesquisa “Tolerância social à violência contra as mulheres” realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, em 2014, 63% da população brasileira concordam que “casos de violência dentro de casa devem ser discutidos somente entre os membros da família”, 89% acreditam que “a roupa suja deve ser lavada em casa” e, pior, 82% confirmam que “em briga de marido e mulher não se mete a colher”.

Ou seja, para uma mulher sair de um relacionamento assim, é preciso muita coragem, juntamente com inúmeros traumas.

Segundo o Ministério da Saúde (2011), as mulheres perdem um ano de vida saudável a cada cinco anos em um relacionamento abusivo, por causa das inúmeras maneiras de sofrimentos psicológicos e físicos. Isto é, a expectativa de vida diminui!!

Além disso, consoante com o artigo “Quais as consequências psicológicas da violência doméstica contra a Mulher?”, do médico psiquiatra forense, Hewdy Lobo, “as manifestações físicas da violência podem ser graves, como por exemplo, as inflamações e hematomas causados pelas agressões físicas (como fraturas ósseas), ou crônicas, deixando implicações para toda a vida, como as limitações no movimento motor e traumatismos.

Os sintomas psicológicos frequentemente encontrados em vítimas de violência doméstica são: insônia, pesadelos, falta de concentração, irritabilidade, falta de apetite, e até o aparecimento de sérios problemas mentais como a depressão, ansiedade, síndrome do pânico e transtorno de estresse pós-traumático.”

Por isso, convidei minha amiga, Letícia Jácome Pereira, pesquisadora do tema na área de medicina, para explanar melhor sobre o – importante e pouco debatido – transtorno de stress pós-traumático (TEPT).

Para a matéria em questão, baseou-se nos estudos “Diagnóstico do transtorno de estresse pós-traumático” (2003), dos psiquiatras Ivan Figueira e Mauro Mendlowicz, e “Post Traumatic Stress Disorder: A review of the biological, psychological and sociological factors and treatments” (2006), da autora Kaitlin A. Chivers-Wilson.

“O transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), é caracterizado, basicamente, como um conjunto de sintomas envolvendo altos níveis de ansiedade e momentos em que o indivíduo tem a impressão de estar revivendo o evento traumático experienciado. É um transtorno bastante prevalente, atingindo cerca de 6,8% da população geral.

O traço essencial deste transtorno é que seu desenvolvimento está ligado a um evento traumático de natureza extrema. Uma fração significativa dos sobreviventes de experiências traumáticas irá desenvolver uma constelação aguda de sintomas de TEPT, que pode ser dividida em três grupos: revivescência do trauma, esquiva/entorpecimento emocional e hiperestimulação autonômica.

O TEPT é diagnosticado se esses sintomas persistirem por quatro semanas após a ocorrência do trauma e se redundarem em comprometimento social e ocupacional significativos. Para ser diagnosticada como sofrendo de TEPT, a pessoa exposta a um e vento traumático deve, segundo o DSM-IV, satisfazer inicialmente as duas partes do critério “A”, destacadas abaixo:

1. A pessoa vivenciou, testemunhou ou foi confrontada com um ou mais eventos que envolveram ameaça de morte ou de grave ferimento físico, ou ameaça a sua integridade física ou à de outros;

2. A pessoa reagiu com intenso medo, impotência ou horror;

O primeiro grupo de sintomas do TEPT é o relacionado às revivescências do trauma. Esses sintomas de re-experimentação do trauma são específicos do TEPT, não sendo observados em outros transtornos psiquiátricos. As revivescências podem se apresentar sob diversas formas: sonhos vívidos, pesadelos, pensamentos ou sentimentos incontroláveis, flashbacks. Tais recordações são intrusivas e dolorosas, pois surgem na mente e tendem a permanecer nela, ainda que o paciente tente lutar contra este pensamento.

Os pacientes usam uma série de estratégias emocionais, cognitivas e comportamentais para menorizar o sofrimento e o terror causado pelas revivescências traumáticas. Essas estratégias resultam em comportamentos variados de esquiva e no desenvolvimento de um entorpecimento emocional (anestesia emocional ou numbing).

A esquiva corresponde a uma tentativa desesperada de evitar contato com tudo que relembre o trauma. Classicamente, o paciente evita falar, pensar ou ir a locais associados ao trauma. Em alguns casos, pode ocorrer o fenômeno da amnésia psicogênica.

A evitação pode assumir formas sutis. Para fugir das lembranças intrusivas, o paciente pode se drogar (para anestesiar o sofrimento psíquico) ou utilizar mecanismos dissociativos, que servem para manter fora da consciência os pensamentos e sentimentos penosos. Essa restrição na amplitude dos afetos denomina-se entorpecimento psíquico.

Pacientes com TEPT passam a ter dificuldade em rir, chorar, amar, ter ternura, compadecer-se ou sentir atração sexual. Parecem “mortos para a vida”, isolando-se dos amigos e dos familiares. Como se pode ver, o “preço” pago pela anestesia dos sentimentos dolorosos é alto. Esses pacientes podem também, sentir-se desconectados de si mesmos, de seu ambiente, até de seu futuro, tendo uma sensação de “futuro abreviado”. Pode parecer-lhes não haver um porvir. Param de fazer planos de carreira, de viagens, de tudo.

Resta somente um presente tenso, constantemente invadido pelas memórias incômodas do passado.

O último grupo de sintomas da tríade que caracteriza o TEPT é a hiperestimulação autonômica. Esses sintomas são mais facilmente observáveis e incluem a irritabilidade, insônia, sobressalto excessivo e hipervigilância. Um leve barulho pode causar um sobressalto acentuado. Esse estado de alerta constante faz com que a concentração caia, afetando o desempenho em tarefas cognitivas como a leitura e o estudo. A irritabilidade constante e a agressividade exacerbada podem passar a ser características de um indivíduo que, antes do trauma, apresentava um temperamento calmo e cordato.

Há ainda o fator preocupante em si: se o sobrevivente de agressão acreditar que outros não reagiram de maneira positiva e solidária, há um risco maior de TEPT. Foi sugerido que a recuperação do trauma é caracterizada por uma reprogramação, integração e habituação às imagens traumáticas, levando à restauração de uma sensação de segurança. Com o tempo, os sintomas do TEPT diminuirão, o sobrevivente ficará menos preocupado com a culpa em relação a si e aos outros, e alcançará uma sensação recuperada de controle.

Por fim, vale a última ressalva: atribuir culpa está associado a piores resultados no TEPT”.

Concordo com a Letícia. O TEPT é apenas uma das doenças advindas dos traumas e mais traumas de uma “relação amorosa”, que não tem nada de amor. Onde há violência, de qualquer tipo, não há amor.

E a culpa é inimiga – em todos os períodos – do processo de superação da violência doméstica. É a culpa da vítima sobre si, do parceiro, dos ciclos sociais e da própria sociedade. A culpa traz um silêncio devastador, com efeitos nocivos à saúde integral da vítima.

E se tivermos que ponderar culpados, para além do agressor, deveríamos enfocar esforços em mudar uma sociedade que, em sua maioria, ainda não sabe o que é amor saudável.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.

Julie Damame é Fundadora do Projeto Impacto Mulher, palestrante e ativista dos direitos humanos e contra a violência à mulher. Formada em Relações Internacionais no Brasil e na Espanha, graduanda em Direito e pós-graduanda em Direito Penal e Criminologia. Especialista em Justiça Criminal e Transtornos Mentais nos EUA.

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Universo Feminino

Não somos impostoras!

As mulheres lidam com inúmeras dificuldades quando almejam cargos que necessitam de nível superior acadêmico, impedindo-as de alcançar o real sucesso.

Julie Damame

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em

Septian Simon/Unsplash

“Sinto-me uma fraude completa! ”.

Acredite, esta é uma das mais recorrentes frases que habitam os pensamentos das mulheres mais bem-sucedidas do mundo.

Reconhecer-se uma fraude, não admitir suas conquistas ou não se identificar com um determinado cargo profissional, define a chamada síndrome da impostora; uma perturbação que acomete muitas de nós, mulheres, e que faz com que nos sintamos incapazes de ocupar postos que, predominantemente, são conquistados por homens.

Durante a I Guerra Mundial, na Europa, e a partir da década de 70, no Brasil, as mulheres entraram para mercado de trabalho de maneira massiva. Até então, elas cumpriam, majoritariamente, as funções consideradas como típicas femininas – os cuidados para com a família, com o lar e os de higiene e beleza pessoal (BONIATTI, 2014).

Contudo, mesmo trabalhando “fora”, não fomos desobrigadas das funções domésticas. Ou seja, houve (e segue existindo) a acumulação de tarefas, caracterizando a dupla jornada de trabalho.

Para se ter uma ideia, no Brasil, em 2016, as mulheres se dedicaram aos cuidados com os familiares e/ou afazeres domésticos cerca de 73% a mais, em horas, que os homens (Indicadores Sociais das Mulheres no Brasil (ISMB– IBGE)).

Exaustivo, não?

Presentemente, muitas mulheres, em conversas informais com suas amigas, vangloriam-se: “Meu marido é ótimo, ele me ajuda muito em casa”. Esta constatação, por si só, transmite uma ideia equivocada de que a obrigação de cuidar da casa é somente da mulher. Subentende-se que todas as tarefas domésticas cabem a ela e que o companheiro a ajuda, se quiser. Quando, na realidade, a obrigação é de todos os membros da família.

Entretanto, gradativamente, a sociedade, como um todo, está vivenciando uma percepção mais solidária quanto a esse assunto.

Atualmente, a inserção das mulheres no mercado de trabalho é crescente, e se deve, de acordo com Bruschini e Puppin (2004), ao aumento do nível de escolaridade e à intenção de qualificação específica profissional. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE (2018), acrescenta, como motivos, a redução da fecundidade, a disseminação de métodos contraceptivos e o maior acesso à informação.

Será que essa acumulação de tarefas prejudica a performance da mulher no mercado de trabalho?

O próprio IBGE responde: “Mulheres que necessitam conciliar trabalho remunerado com os afazeres domésticos e cuidados, em muitos casos, acabam por trabalhar em ocupações com carga horária reduzida”.

Parece justo?

Creio que a resposta seja pessoal. Para mim, não deveria haver opção única: sucesso no trabalho ou no âmbito familiar. Nem o ônus exclusivo às mulheres para as tarefas domésticas. Se é possível a divisão de obrigações com parceiros ou terceiros, por que não escolher ambas as opções?

É claro que nada é tão simples assim. As mulheres lidam com inúmeras dificuldades quando almejam cargos que necessitam de nível superior acadêmico, impedindo-as de alcançar o real sucesso. Essas dificuldades podem ser intrapessoais (autocontrole, autoconhecimento, etc.), interpessoais (relações entre indivíduos) ou extrapessoais (problemáticas do setor, desigualdades no mercado de trabalho, etc.).

A mais famosa barreira intrapessoal é a conhecida “Síndrome/Fenômeno da Impostora”.

Em 1978, o termo foi idealizado por duas psicólogas norte-americanas, Pauline Rose Clance e Suzanne Imes, a partir de entrevistas feitas com mulheres altamente bem-sucedidas, a fim de compreender as dificuldades em atingir ou/e se obter sucesso.

Um dado muito interessante que surgiu com a tese e outras correlatas, foi que as mulheres, em sua vasta maioria, atribuíam seu sucesso a fatores temporários e externos (como sorte) e, ao mesmo tempo, os homens conferiam seus êxitos a atributos internos e pessoais (como habilidade e competência). E quando não obtinham sucesso, as mulheres se referiam à falta de habilidade ou aptidão para a função e, os homens, como imprevistos ou contingências do trabalho (Universidade Estadual da Geórgia – EUA).

Num primeiro momento, ficamos indignados e nos perguntando se é verdade para a maioria. E, quando visualizamos que o Brasil é o 10º país com mais empresas que têm mulheres líderes (15ª edição da International Business Report (IBR) – Women in Business 2019), e que o número proporcional é de 25% dos cargos de liderança dentro dessas empresas, torna-se mais compreensível que este tipo de pensamento seja verídico.

É sabido que uma divisão desigual de trabalho e funções de chefia compromete a autoconfiança do trabalhador, sobretudo, na escolha de responsabilidades e promoções. A “Síndrome do Impostora” afeta exatamente neste ponto. Inicia-se com a falta de confiança ou autoestima, e se conclui com a autossabotagem ou com a postergação nos resultados, dentre outros. A pessoa não se sente merecedora ou capaz de sucesso.

E, mormente pelas razões inerentes às desigualdades de posicionamento nos ambientes de trabalho, por quais motivos mais, as mulheres representam quase 70% das pessoas que sofrem dessa síndrome?

Segundo a Universidade Dominicana da Califórnia (EUA), uma série de condicionantes, inclusive sociais, é interiorizada pela mulher durante sua trajetória de vida, definindo a sua capacidade, ou não, para determinada atribuição. A dúvida permanece em se esses receios são próprios ou socialmente cunhados.

O Human Development Report, mostra que, em 2015, a participação das mulheres, no campo do trabalho formal, era de apenas 47%, enquanto a de homens constava como 72%, sem esquecermos que eles ocupam os cargos com maior valor agregado.

Mas, será que as mulheres estudam menos que os homens?    

Os dados da PNAD Contínua (2016) demonstram exatamente o oposto: “A maior diferença percentual por sexo encontra-se no nível “superior completo”, especialmente entre as pessoas da faixa etária mais jovem, de 25 a 44 anos de idade, em que o percentual de homens que completou a graduação, em universidades, foi de 15,6%, enquanto o de mulheres atingiu 21,5%, indicador 37,9% superior ao dos homens”.

Portanto, há uma qualificação desejada. Logo, a problemática deve ser psicológica, concomitantemente, com a uma estrutura sociocultural nocente.

De forma consoante, Carol Herrera, doutora em Ciências Humanas e especialista em Gênero e Comunicação, esclarece que “há estudos que explicam que as meninas, a partir dos 5 e 6 anos, já têm a sensação de pertencer a um grupo inferior. Para elas as mulheres podem fazer coisas boas, mas são os homens que se destacam”.

Notadamente, na fase adulta, autora Mara Furtado Vicente (2013) corrobora “as mulheres tendem a concentrar-se em profissões que coincidem com o estereótipo tradicional de feminilidade, enquanto os homens podem desempenhar qualquer profissão, obtendo até maior sucesso em termos salariais e de progressão na carreira, mesmo em ocupações tipicamente femininas”.

Estereótipos de gênero cumprem a função de afastar meninas de 16-18 anos de escolherem áreas como exatas ou tecnologia da informação, por frases como “isso não é coisa de mulher”. O mesmo, em larga escala, no mercado de trabalho, com afirmações validadas pela sociedade como absolutas, como por exemplo: “mulheres são sensíveis demais”, “não sabem ser chefes”, “até que está bom para uma mulher”, “não sabem lidar com problemas”, “não possuem punho firme”, “não são criativas” ou “não geram oportunidades, porque não querem”.

E, por fim, a significativa e impactante falta de autoconfiança por reconhecimento. Quantas vezes, independentemente da área (estereotipada ou não), vimos, ao crescer, nos meios de comunicação, mulheres que transformaram a sociedade?

E, sim, existem milhares delas! Porém, poucas são verdadeiramente divulgadas e/ou reconhecidas. Precisamos de mais inspiração, em nível global, do que podemos ser; para não termos a potencial sensação de sermos “fraudes”.

A verdade é que entramos para o mercado de trabalho e, posteriormente, com as experiências da vida, vamos acumulando tarefas (em sua maioria, sem a devida repartição) e, destarte, começamos a sofrer com barreiras que impedem o nosso sucesso, mesmo quando nos qualificamos.

A síndrome, em questão, é uma das barreiras intrapessoais. E a transposição deve partir de nós mesmas. Portanto, mesmo que nos sintamos uma “fraude” todos os dias, que isso não nos impeça de sermos altamente bem-sucedidas!

Não somos impostoras!

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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Universo Feminino

Preço da violência doméstica: 1 bilhão

O preço da violência doméstica não é algo isolado. A sociedade desconhece que quem paga por toda violência doméstica somos todos nós.

Julie Damame

Publicado

em

Gabriel Benois / Unsplash

Sim, é isso mesmo. A economia brasileira perde, aproximadamente, 1 bilhão de reais, ao ano, em decorrência da violência doméstica (Universidade Federal do Ceará, em parceria com o Instituto Maria da Penha/2017).

Você paga por este 1 bilhão. Todos nós pagamos a conta da violência cometida por outros!

Essa violência que se sucede a cada 2 minutos. Todos os dias. Todos os anos.

Mas, como se correlaciona com o desenvolvimento econômico de um país?

Simples. Somos todos atores imprescindíveis e crescentes da economia. No Brasil, em 1982, a taxa de participação feminina no mercado de trabalho nacional era de 40,2%; em 2017, já havia alcançado uma porcentagem de 59,9% (Casa da Mulher Brasileira e Pesquisa de Condições Socioeconômicas e Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher – PCSVDFMulher). E, sendo as mulheres as maiores vítimas de violência doméstica, os efeitos, consequentemente, são devastadores, tanto para a sociedade quanto para as próprias mulheres e suas famílias:

A curto prazo, a violência doméstica afeta principalmente a habilidade e a produtividade da vítima no emprego, manifestando-se através de episódios de absenteísmo (ausência ao trabalho), atrasos, redução momentânea de produtividade e de capacidade laborativa e perda de emprego.

A longo prazo, as consequências revertem-se em históricos de trabalho inconsistentes (dinâmicas individuais oscilando entre períodos de empregos curtos e de desempregos longos), subemprego e redução permanente na produtividade e salário (PCSVDFMulher)”.

Ou seja, quando uma vítima sofre qualquer tipo de violência doméstica (física, sexual, psicológica, patrimonial ou moral), é, provável, que ela se torne uma má-funcionária, por não conseguir se concentrar nas suas atividades diárias, reduzindo sua produtividade e eficiência. Ou pior, ela pode ser retirada do mercado de trabalho, devido aos traumas de difícil superação, tendo, como consequência, a perda de renda e de poder aquisitivo.

Segundo a PCSVDFMulher, as mulheres vítimas de violência doméstica, que reportaram ter perdido dias de trabalho por conta da violência, faltaram ao emprego, em média, cerca de 18 dias seguidos. Assim sendo, se a funcionária possui a carteira de trabalho assinada, passando mais de 15 dias de afastamento do emprego, o ônus não será mais da empresa: a vítima, com razão, poderá solicitar o auxílio ao INSS – Instituto Nacional de Seguridade Social.

O mesmo ocorre no Sistema Único de Saúde, pois duas em cada três pessoas atendidas pelo SUS são em razão de violência doméstica e sexual. E 51,6% desses atendimentos são por reincidência (Agência Patrícia Galvão).

Nestes casos, o ônus será do Estado, e quem paga as contas do Estado? Nós: eu, você e todos os contribuintes.

De maneira análoga, os Estados Unidos gastam cerca de 5.8 BILHÕES de dólares, por ano, com o custo relacionado à violência doméstica. São quase 8 MILHÕES de dias de trabalho remunerados perdidos por conta da violência doméstica. Deste gasto, o custo direto de cuidados médicos e de saúde mental são de, aproximadamente, 4 BILHÕES de dólares e as perdas de produtividade representam 1 BILHÃO de dólares (Relatório do Centers for Disease Control and Prevention (CDC, 2003)).

Não devemos esquecer, que uma das formas de violência patrimonial é a completa dependência financeira do parceiro – de modo que, mesmo a vítima estando apta a trabalhar, não estará inserida no mercado de trabalho e nem procurando emprego, ocasionando um desperdício de mão de obra e de novos negócios.

A própria ONU Mulheres, em seu programa de “Princípios de Empoderamento das Mulheres”, incluiu como alicerce fundamental para uma economia saudável, a abolição da violência contra as mulheres. De forma que, segundo o proposto, as empresas devem auxiliar na causa e se envolverem como agentes de transformação social.

O gasto que, até então, era majoritariamente estatal, tornou-se conjuntamente privado – e não apenas pela perda, mas principalmente, por conta de projetos ativos e reais das empresas para mitigar a violência. São mais de 300 organizações brasileiras unidas neste movimento.

Todavia, esses custos de estrutura social são contabilizados e pulverizados em toda cadeia global de valor, que apesar do nobre e necessário objetivo em nome dos funcionários, resultam em um preço. O preço do produto que todos nós compramos.

Um exemplo diferente, com as ações custeadas por um fundo próprio, é a empresa Magazine Luiza. A gigante do varejo se tornou o modelo mais bem-sucedido brasileiro de luta contra a violência; visto que implementou, dentro da organização, um serviço de disque-denúncia, exclusivo para funcionários delatarem crimes de violência doméstica e familiar contra as mulheres. A empresa, ainda, fornece assistência jurídica e psicológica gratuita às funcionárias.

Em três meses de funcionamento, o Canal da Mulher, recebeu mais de 32 denúncias. Atualmente, a rede emprega mais de 10 mil mulheres!

Não obstante, será que as empresas devem ser agentes tanto quanto o Estado na luta por uma sociedade mais justa?

De fato, toda ajuda é imperiosa e bem-vinda. E, em qualquer setor, sempre haverá um custo para a coletividade, enquanto a violência doméstica não tiver sua legítima conscientização.

Algo a se pensar.

Por fim, e não menos importante, as vítimas de violência doméstica durante a infância são as que recebem os menores salários na vida adulta, provocando um padrão de traumas que se perpetua; uma herança nefasta.

Para mim, isso é a resposta e uma possível solução.

Podemos diminuir o ciclo e o ônus exacerbado que a violência doméstica gera aos demais players, focando, principalmente, na educação e, especialmente, para as crianças e adolescentes, para que diminuam/parem de reproduzir atitudes que vivenciam/vivenciaram.

E, congruentemente, políticas públicas e institucionais, como acesso à informação, ao auxílio integral e a publicidade nos veículos de comunicação, para evitarmos, assim, a inércia.

Aquela frase “em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher” deve ser renovada, urgentemente. É para meter a colher, sim, pois nenhum tipo de violência deve ser tolerado, visto que se abster impacta na sociedade diretamente.

Portanto, caro leitor, você pode não acreditar nos índices de violência doméstica e familiar, de feminicídio, dizer que tudo não passa de mimimi, mas, quer você queira ou não, você está pagando a conta, sim. TODOS NÓS!

Então, que tal a frase do filósofo Jean-Paul Sartre?

“A violência, seja qual for a maneira como ela se manifesta, é sempre uma derrota”. Para todos. Um preço a todos e a você.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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