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Psicanálise

Separatio: por que um rompimento amoroso pode doer em demasia?

As dores pós-término ou desejos de rompimento são temas frequentes nas análises

Paula Akkari

Publicado

em

Aliyah Jamous / Unsplash

O amor romântico – seja ele em forma líquida, confluente ou herdada do Trovadorismo – é um tema assíduo nas análises, contemplando desde questões de dores pós-término ou buscas de compreensão do desejo ambivalente de acabar uma relação. Ademais, é um paradoxo social o frequente descrédito dos sofrimentos amorosos, enquanto as paixões e seus encontros são vendidos como a validação das existências, incompletas até então.

Se as psicodinâmicas tratam de sujeitos em relação, cujas dinâmicas modalidades de sofrimento e subjetividades se localizam nos horizontes de suas épocas, é cara a compreensão de que as mesmas se encontram em estruturas machistas, classistas, racistas e heteronormativas. Ilustrações desse ponto são as depreciações das relações LGBTs, o peso sob as mulheres que escolheram não casar e a coibição dos homens a demonstrações de sentimentos. Também é essencial pontuar que, apesar de cada casal entender a felicidade conjugal de singular forma, o que esbarra na lei (como por exemplo violência contra a mulher) significa fim de relativismos.

Nesse contexto, infere-se que algumas experiências de separação agem como forças sociais que afetam outros âmbitos, objetivos ou imaginários, como o rompimento de um ideal maior ou abandono de um modelo de vida.

Enfim, apesar dos alicerces coletivos e das projeções e máscaras particulares, o que resulta em todo caso é a inevitabilidade de lidar com a falta, seja do outro ou do preenchimento do lugar que este ocupava. E da ausência, há um luto – com função, lugar e tempo. Simplesmente colmatá-lo não significa ser bem-sucedido sob as angústias e incompletudes do ser. Na abordagem psicanalítica, o luto por um fim de relacionamento é descrito por Caruso como “morte em vida: o outro morre em vida, morre dentro de mim”. Ademais, há outra dor, especialmente  narcísica: a do próprio exício na realidade do próximo, muitas vezes assistida. Assim, com essas desorganizações no ego e abalos na identidade, agem os mecanismos de defesa a males psíquicos (como a depressão). Estes escudos se mostram como agressividade – que simultaneamente permite desidentificação e união com o objeto -, indiferença e fuga para adiante. Por mais, em uma perspectiva Lacaniana, podemos descrever um processo gerador de sofrimento que consiste de forma concomitante em desinvestimento e superinvestimento: esvaziamento do Eu, com concentração de força na representação psíquica do amado perdido com a intenção de manter viva sua imagem mental.

Entretanto são processos; existem outros repletos de ressignificados, novamente com função, lugar e tempo. Um deles é a separação interna, que implica em desinvestir na relação perdida e investir no próprio eu. Essa fase consiste em recolhas de projeções e expectativas, percepções de aspectos positivos e negativos da relação, diferenciação do que é duradouro do transitório, entendimento de que é possível a reorganização sem desmantelamentos e a descoberta de novos interesses e afetos.

Dessa forma, percebe-se que as separações são complexidades cheias de contradições, que impactam os sujeitos e o que os orbita. Mas por fim, fica compreensão de que houve rompimento de um projeto amoroso, porém não de O amor.

Sugestões de leitura:

Amor & Separação – Reencontro com a Alma Feminina – Silvana Parisi (professora doutora cuja às aulas de seu curso “A Dimensão Amorosa – Um Enfoque Junguiano” tive a honra de comparecer.

A separação dos amantes: uma fenomenologia da morte – Igor Caruso

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.

Paula Akkari é estudante de Psicologia na PUC-SP e foi intercambista na Universidade do Porto. Além de possuir experiência na área da Educação, é Diretora de RH na PsicoPUCJr e escritora.

Psicanálise

O que é família para a psicanálise?

A psicanálise, uma vez referente a sujeitos em relações, persevera olhares em uma das mais cruciais combinações, a familiar.

Paula Akkari

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Ann Danilina / Unsplash

Em nome “da moral e dos bons costumes”, por um conservadorismo delirante, em um ridículo tom teocrático e autoritário, as famílias são frequentes alvos de ataques, justamente por aqueles que dizem defendê-las. Os agressores, em geral políticos que misturam o público com o privado e alienados “cidadãos do bem”, possuem algo em comum em suas preleções: a desinformação. Logo, eis a ciência, a leitura e a pesquisa como seus oponentes, tanto nos campos micro como macropolíticos.

A psicanálise, uma vez referente a sujeitos em relações, persevera olhares em uma das mais cruciais combinações, a familiar. É fato que outrora relatou-se um paradigma de família nuclear, heterossexual e burguesa. Entretanto também são incontestáveis as dinâmicas da sociedade com suas produções, seus produtos e suas novidades no campo dos sintomas. Assim, como Lacan sugere, “deve renunciar à prática da psicanálise todo analista que não conseguir alcançar em seu horizonte a subjetividade de sua época”.

Uma das ilustrações a esse argumento são as ponderações sobre a infância, fase fundamental para a constituição do sujeito. A família é a dose do mundo que o indivíduo primeiro conhece, na qual descreve-se a função materna e paterna. Esses conceitos não são referentes a papéis sociais construídos em torno das normativas concepções de “pai” e “mãe” – representações que muitos feminismos sabiamente estão a desconstruir. Nessa óptica, as funções, tais quais as da matemática, são móveis em relação aos elementos introduzidos, e tomadas por quem estiver ocupando seu lugar, independente do gênero, grau de parentesco ou ausência de um. O sujeito é acolhido, falicisado, tem objetos oferecidos e vê presença e ausência por quem exerce empiricamente a função materna. Já a função paterna é efetuada por quem castra a criança, dá suporte ao que a separa do encarregado da função materna e a aparta da identificação fálica, estruturalmente produzindo a metáfora nome-do-pai (a norma).

Ademais, vale citar uma situação famigerada que acomete os infantes, e é erroneamente difundida pelo senso comum: o Complexo de Édipo. Se Freud recorreu aos antigos gregos para a construção de seus conceitos, neste contou especialmente com a tragédia Édipo Rei, de Sófocles. Na narrativa, o protagonista mata seu pai e casa com sua mãe. O que acontece fora dos palcos não é uma repetição literal: na sua forma simples e positiva de triangulação, os meninos rivalizam-se com seus pais e desejam suas mães, em uma situação cuja dissolução resultará na instância psíquica superego. Contudo o mito espera reinterpretações, apoiadas em fatores ontogenéticos e operando contingentemente ao feminino, masculino, homem ou à mulher. A tradicional descrição do complexo é meramente esquemática, uma simplificação ao didatismo.

O próprio dicionário do Vocabulário de Psicanálise de Laplanche e Pontalis significa o termo como o conjunto organizado de desejos amorosos e hostis que a criança sente em relação aos pais, não apoia-se em “ideologias de gênero”. Em suma, enfatiza-se que, depois da fase edípica, o que será interiorizado e sobreviverá na estrutura da personalidade são os diferentes tipos de relações existente entre os membros dessa organização, sendo frutos do lugar no qual a criança é inserida em certos discursos, submissamente às expectativas inconscientes das figuras parentais; ou seja, independente de fatores biológicos.

Portanto, é evidente que as pessoas que cumprem funções nas famílias não o fazem devido suas anatomias. Todos os modelos familiares são “normais” e funcionais, sejam compostos com filhos biológicos, adotivos, casais homoafetivos ou mães solo. O porquê de a função materna ser comumente exercida por uma mãe e o da paterna tomada por um pai deve-se à história e seus desdobramentos, perpassando por complexidades como o acesso ao mercado de trabalho e sua divisão sexual, os dogmas religiosos, a heteronormatividade, o patriarcado e o machismo. Não há consequência patologizante na diversidade – e sim na sua recusa. Utilizar a psicanálise para justificar e difundir preconceitos é desonestidade intelectual.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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Psicanálise

Os pesadelos são avisos ou premonições? Como interpretar um sonho?

É possível refletir sobre as questões do sonho, do mundo onírico, sob diversas ópticas.

Paula Akkari

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É possível refletir sobre as questões do sonho, do mundo onírico, sob diversas ópticas. A seguinte proposta é discursar sobre as mesmas com base na Psicanálise, especialmente em um retorno a Freud.

Antes de dissertar sobre essa manifestação do inconsciente, ressalta-se que todos podem ler conteúdos de Psicologia, apesar de somente os profissionais poderem exercê-la. Ademais, é importante que o leitor não tenha intenções de se autoanalisar, afinal, esta não é uma atividade a ser feita sozinho, pois necessita do analista e da transferência entre ele e o analisando. Além disso, a autoanálise dos sonhos, apesar de tentadora, não deve ser realizada, uma vez que o sujeito esbarrará em sua própria resistência.

Dados estes entendimentos, uma breve história: foi Aristóteles o primeiro a remover o sonho do campo mistíco, convertendo-o em produto advindo da psiquê (alma). Assim, com o advento e crescente avanço das ciências tal como as conhecemos, o mesmo tornou-se declaradamente do interesse da Psicologia. Entretanto, seguiu-se a carência de esclarecimento e significação em relação a sua função biológica, assim como a possibilidade de interpretação de seus conteúdos com significados individuais. Até que eis a Psicanálise.

Uma vez citado um dos gregos, engata-se uma enunciação que norteará o início deste raciocínio psicanalítico, oposto ao deles: o trabalho do sonho não segue os princípios lógicos fundamentais. Se, segundo a lógica Aristotélica tão familiar a contemporaneidade, há os princípios de identidade (A é A), contradição (A é A e não pode ser não-A) e terceiro excluído (A é X ou não X), no sonho, não se pode universalizar tais afirmações, tampouco encerrá-las em silogismos (enunciado universal – enunciado particular = conclusão particular). No onírico, acontece junção e disjunção, ou seja, A pode ser A e também não-A, assim como A é X e A não é X.

Enfim, os sonhos são atividades psíquicas. Se transitam entre as mais simples realizações de vontades frustradas na vigília (comumente encontradas nos sonhos dos infantes), chegam até as ambivalências mais desconciliadas, sendo, portanto, além de frutos das vontades, resultado de conflitos desnorteadores.

Ao narrar esse produto, o referido é seu conteúdo manifesto, o que é acessível à consciência. Por mais, deve-se ter em mente que todas as lembranças dos sonhos estão sujeitas a uma objeção capaz de depreciar imensamente o seu valor a um olhar crítico: se tanto é omitido, como garantir o que não é falsificado? Dado o empenho na busca dial de coerência, por que não suspeitar se não se completa as deficiências de sentido com a lógica Aristotélica, predominante no contexto e tempo ao qual insere-se?

Pois, este fenômeno de deformação do sonho é denominado por Freud como elaboração onírica. Seus mecanismos de ação são descritos como condensação, que ocorre quando um elemento manifesto corresponde simultaneamente a vários outros combinados entre si; deslocamento, sendo um elemento latente substituído por uma alusão e não uma parte componente de si mesmo; e figurabilidade, a transformação de pensamentos em imagens visuais. Também se atesta a aparição de restos diurnos, imagens vistas durante o dia e consideradas desimportantes, esquecíveis, pela consciência.

Logo, como saber da matéria não captada, do conteúdo latente do sonho, aquele que é modificado para transformar-se em manifesto, cerceado pelos aparelhos de censura? Eis então a análise, com o trabalho interpretativo do analista, com contumaz utilização da técnica da associação-livre.

Dessa forma, é visto que, segundo as lentes da psicanálise freudiana, os sonhos são trabalhos psíquicos, manifestações do inconsciente. Esse mundo onírico é particular, rico e não totalmente acessível depois do acordar. Assim, não são avisos ou premonições, e sim gramáticas da ordem do mundo interno do sujeito. Por mais, suas interpretações são únicas, não contam com fórmulas exatas ou significados prévios, cabendo unicamente ao processo de análise do sujeito. Inclusive, muito podem agregar à terapia.

Sugestão de leitura: Freud – A Interpretação dos Sonhos.

Foto: Johannes Plenio / Unsplash

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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