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Comportamento

Preço da violência doméstica: 1 bilhão

O preço da violência doméstica não é algo isolado. A sociedade desconhece que quem paga por toda violência doméstica somos todos nós.

Julie Damame

Publicado

em

Gabriel Benois / Unsplash

Sim, é isso mesmo. A economia brasileira perde, aproximadamente, 1 bilhão de reais, ao ano, em decorrência da violência doméstica (Universidade Federal do Ceará, em parceria com o Instituto Maria da Penha/2017).

Você paga por este 1 bilhão. Todos nós pagamos a conta da violência cometida por outros!

Essa violência que se sucede a cada 2 minutos. Todos os dias. Todos os anos.

Mas, como se correlaciona com o desenvolvimento econômico de um país?

Simples. Somos todos atores imprescindíveis e crescentes da economia. No Brasil, em 1982, a taxa de participação feminina no mercado de trabalho nacional era de 40,2%; em 2017, já havia alcançado uma porcentagem de 59,9% (Casa da Mulher Brasileira e Pesquisa de Condições Socioeconômicas e Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher – PCSVDFMulher). E, sendo as mulheres as maiores vítimas de violência doméstica, os efeitos, consequentemente, são devastadores, tanto para a sociedade quanto para as próprias mulheres e suas famílias:

A curto prazo, a violência doméstica afeta principalmente a habilidade e a produtividade da vítima no emprego, manifestando-se através de episódios de absenteísmo (ausência ao trabalho), atrasos, redução momentânea de produtividade e de capacidade laborativa e perda de emprego.

A longo prazo, as consequências revertem-se em históricos de trabalho inconsistentes (dinâmicas individuais oscilando entre períodos de empregos curtos e de desempregos longos), subemprego e redução permanente na produtividade e salário (PCSVDFMulher)”.

Ou seja, quando uma vítima sofre qualquer tipo de violência doméstica (física, sexual, psicológica, patrimonial ou moral), é, provável, que ela se torne uma má-funcionária, por não conseguir se concentrar nas suas atividades diárias, reduzindo sua produtividade e eficiência. Ou pior, ela pode ser retirada do mercado de trabalho, devido aos traumas de difícil superação, tendo, como consequência, a perda de renda e de poder aquisitivo.

Segundo a PCSVDFMulher, as mulheres vítimas de violência doméstica, que reportaram ter perdido dias de trabalho por conta da violência, faltaram ao emprego, em média, cerca de 18 dias seguidos. Assim sendo, se a funcionária possui a carteira de trabalho assinada, passando mais de 15 dias de afastamento do emprego, o ônus não será mais da empresa: a vítima, com razão, poderá solicitar o auxílio ao INSS – Instituto Nacional de Seguridade Social.

O mesmo ocorre no Sistema Único de Saúde, pois duas em cada três pessoas atendidas pelo SUS são em razão de violência doméstica e sexual. E 51,6% desses atendimentos são por reincidência (Agência Patrícia Galvão).

Nestes casos, o ônus será do Estado, e quem paga as contas do Estado? Nós: eu, você e todos os contribuintes.

De maneira análoga, os Estados Unidos gastam cerca de 5.8 BILHÕES de dólares, por ano, com o custo relacionado à violência doméstica. São quase 8 MILHÕES de dias de trabalho remunerados perdidos por conta da violência doméstica. Deste gasto, o custo direto de cuidados médicos e de saúde mental são de, aproximadamente, 4 BILHÕES de dólares e as perdas de produtividade representam 1 BILHÃO de dólares (Relatório do Centers for Disease Control and Prevention (CDC, 2003)).

Não devemos esquecer, que uma das formas de violência patrimonial é a completa dependência financeira do parceiro – de modo que, mesmo a vítima estando apta a trabalhar, não estará inserida no mercado de trabalho e nem procurando emprego, ocasionando um desperdício de mão de obra e de novos negócios.

A própria ONU Mulheres, em seu programa de “Princípios de Empoderamento das Mulheres”, incluiu como alicerce fundamental para uma economia saudável, a abolição da violência contra as mulheres. De forma que, segundo o proposto, as empresas devem auxiliar na causa e se envolverem como agentes de transformação social.

O gasto que, até então, era majoritariamente estatal, tornou-se conjuntamente privado – e não apenas pela perda, mas principalmente, por conta de projetos ativos e reais das empresas para mitigar a violência. São mais de 300 organizações brasileiras unidas neste movimento.

Todavia, esses custos de estrutura social são contabilizados e pulverizados em toda cadeia global de valor, que apesar do nobre e necessário objetivo em nome dos funcionários, resultam em um preço. O preço do produto que todos nós compramos.

Um exemplo diferente, com as ações custeadas por um fundo próprio, é a empresa Magazine Luiza. A gigante do varejo se tornou o modelo mais bem-sucedido brasileiro de luta contra a violência; visto que implementou, dentro da organização, um serviço de disque-denúncia, exclusivo para funcionários delatarem crimes de violência doméstica e familiar contra as mulheres. A empresa, ainda, fornece assistência jurídica e psicológica gratuita às funcionárias.

Em três meses de funcionamento, o Canal da Mulher, recebeu mais de 32 denúncias. Atualmente, a rede emprega mais de 10 mil mulheres!

Não obstante, será que as empresas devem ser agentes tanto quanto o Estado na luta por uma sociedade mais justa?

De fato, toda ajuda é imperiosa e bem-vinda. E, em qualquer setor, sempre haverá um custo para a coletividade, enquanto a violência doméstica não tiver sua legítima conscientização.

Algo a se pensar.

Por fim, e não menos importante, as vítimas de violência doméstica durante a infância são as que recebem os menores salários na vida adulta, provocando um padrão de traumas que se perpetua; uma herança nefasta.

Para mim, isso é a resposta e uma possível solução.

Podemos diminuir o ciclo e o ônus exacerbado que a violência doméstica gera aos demais players, focando, principalmente, na educação e, especialmente, para as crianças e adolescentes, para que diminuam/parem de reproduzir atitudes que vivenciam/vivenciaram.

E, congruentemente, políticas públicas e institucionais, como acesso à informação, ao auxílio integral e a publicidade nos veículos de comunicação, para evitarmos, assim, a inércia.

Aquela frase “em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher” deve ser renovada, urgentemente. É para meter a colher, sim, pois nenhum tipo de violência deve ser tolerado, visto que se abster impacta na sociedade diretamente.

Portanto, caro leitor, você pode não acreditar nos índices de violência doméstica e familiar, de feminicídio, dizer que tudo não passa de mimimi, mas, quer você queira ou não, você está pagando a conta, sim. TODOS NÓS!

Então, que tal a frase do filósofo Jean-Paul Sartre?

“A violência, seja qual for a maneira como ela se manifesta, é sempre uma derrota”. Para todos. Um preço a todos e a você.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.

Julie Damame é Fundadora do Projeto Impacto Mulher, palestrante e ativista dos direitos humanos e contra a violência à mulher. Formada em Relações Internacionais no Brasil e na Espanha, graduanda em Direito e pós-graduanda em Direito Penal e Criminologia. Especialista em Justiça Criminal e Transtornos Mentais nos EUA.

Comportamento

A conexão humana frente à era tecnológica

Entenda porque tanto se fala da importância das soft skills e o primeiro passo para desenvolvê-las

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Foto: Rémi Walle / Unsplash

Após séculos e mais séculos de transformações e revoluções industriais apenas um fator comum de extrema importância permanece o mesmo: o capital humano. Atualmente, apesar do foco dado ao futuro tecnológico com o surgimento da Inteligência Artificial, Machine Learning, Realidade Virtual, IoT (Internet das Coisas) e automação dos processos, as pessoas ainda são as responsáveis por gerenciar essas novas ferramentas e, não podemos esquecer, quem consome o mercado. Principalmente nessa era digital em um mundo VUCA (Volátil, Incerto, Complexo e Ambíguo), além de investir na capacidade dos colaboradores de acompanhar essas mudanças e se reinventar constantemente, as empresas devem prezar pela capacidade de conexão: conexão do indivíduo com ele mesmo, conexão com as pessoas e conexão com o negócio.

Se no surgimento das indústrias contratavam braços, com as revoluções industriais passaram a contratar mentes, agora contratam as pessoas pelo coração. Nunca se falou tanto no termo em inglês muito utilizado pelos RHs de empresas soft skills. Ao contrário do hard skills – competências técnicas – que podem ser aprendidas em uma sala de aula e facilmente avaliadas, o soft skills traduz as habilidades comportamentais como empatia, resiliência, comunicação, resolução de conflitos, tomada de decisão, liderança, entre outras, muito mais difíceis de serem mensuradas e desenvolvidas. Também são conhecidas como people skills (habilidades com pessoas) ou interpersonal skills (habilidades interpessoais), pois estão relacionadas à forma de se relacionar e interagir com as pessoas. São características pessoais que afetam diretamente na produtividade de toda a equipe.

Uma pesquisa da Você S/A revelou que somente 13% das demissões estão associadas às hard skills, enquanto 87% estão relacionadas a questões comportamentais, ou seja, à ausência de soft skills. Outra pesquisa, realizada pela Capgemini em 2017, diz que 60% das organizações estão insatisfeitas com as soft skills de seus colaboradores. O estudo verificou também uma crescente demanda por habilidades específicas entre os 1.250 executivos entrevistados (Capgemini, 2017):

Foco no cliente (65%): qualidade de atendimento e dedicação ao cliente;
Cooperação (64%): capacidade de trabalhar em equipe e assumir tarefas;
Aprendizagem contínua (64%): pensar “fora da caixa”, ou seja, aventurar-se além da zona de conforto para adquirir novos saberes;
Habilidade organizacional (61%): conhecimentos que os líderes devem dominar para lidar com situações complexas na rotina corporativa;
Habilidade de lidar com ambiguidade (56%): ser capaz de conviver com as ambiguidades e transformações inerentes ao meio corporativo é fundamental em um mundo cada vez mais VUCA;
Mindset empreendedor (54%);
Capacidade de promover mudanças (53%).

Está latente a importância do foco em mudança de comportamento. Por isso, é essencial – tanto para empresas quanto para os colaboradores – fazer um mapeamento para descobrir quais são as competências pessoais necessárias em cada cargo e também olhar para o momento e cultura da empresa para depois desenvolvê-las.

Como indivíduo, para identificar as próprias habilidades é preciso trabalhar o autoconhecimento, que pode ser feito de diversas formas como: refletindo sobre suas atitudes, pedindo feedback, por meio de avaliações de perfil comportamental, processos de desenvolvimento pessoal, que ajudam a reconhecer o seu potencial e desenvolvê-lo. Outra maneira é mergulhando em atividades que exijam essas habilidades e praticá-las sempre que surgir oportunidade. Por exemplo, quer praticar sua empatia, escuta ativa e flexibilidade? Procure conversar com pessoas totalmente diferentes de você ou que tenham opiniões contrárias. Faça tudo de forma consciente.

Para ajudar, as soft skills mais requisitadas são: Comunicação e Negociação, Liderança, Controle emocional e Resiliência, Trabalho em equipe, Solução de problemas, Gestão do tempo, Criatividade, Proatividade, Empatia, Pensamento crítico, Confiabilidade e Disposição para ensinar.

E aí? Por onde você pode começar?

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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Comportamento

O particular de cada dia

Ao final do ano, proponho uma meta: melhorarmos a nós mesmos.

Julie Damame

Publicado

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Foto: Aarón Blanco Tejedor / Unsplash

Ao final do ano, proponho uma meta: melhorarmos a nós mesmos. Não só quanto a nossa essência, subjetiva e/ou egoísta, mas, também, quanto à forma como impactamos – direta ou indiretamente – terceiros. Nossos julgamentos, nossos preconceitos, nossas crenças que, muitas vezes, mitigam/ferem certos grupos sociais. Até mesmo, sem que nós percebamos!

Por exemplo: quando ouvirmos/curtimos músicas com letras ofensivas e discriminatórias! O autor Diogo Silva Manoel, em seu artigo “Música para historiadores: [Re] pensando canção popular como documento e fonte histórica” (2014), conclui que “a canção é uma interlocutora de acontecimentos culturais e sociais no mundo contemporâneo”. Ou seja, quando celebramos ao som de músicas que segregam, inferiorizam ou geram violência, acabamos aceitando ou normalizando esse tipo de comportamento.

Convergindo na mesma ideia, Marcos Napolitano, no livro “História e Música” (2005), teoriza que a música serve como fonte para pesquisa e um recurso didático para o ensino de humanidade em geral (história, sociologia, línguas etc.). Desse modo, tem sido “termômetro, caleidoscópio e espelho não só das mudanças sociais, mas sobretudo das nossas sociabilidades e sensibilidades coletivas mais profundas”.

Particularmente, acredito que a análise social é possível de ser observada em qualquer gênero musical e em qualquer nacionalidade. No entanto, mesmo que a letra incorpore um padrão de comportamento social real, do cotidiano, não significa que este não seja inapropriado.

Igualmente ocorre quando assistimos a certos programas de televisão, filmes e séries. Quantas vezes não foi dado mídia a discursos machistas, misóginos, LGBTQIA+fóbicos ou racistas, até como piada?

            Ou, ainda, quantas vezes vemos personagens/papéis que representam e enaltecem a pluralidade sociocultural e econômica?

As pesquisadoras Claudia Rosa Acevedo, Jouliana Nohara e Carmen Lídia Ramusk, em “Relações raciais na mídia: um estudo no contexto brasileiro”, relatam que “geralmente, as interações entre a população negra e a branca dizem respeito às situações de trabalho ou negócios. Raramente elas estão representadas em ambientes familiares. Além disso, as pesquisas revelam que, na maior parte das vezes, existe um desequilíbrio de poder ou de status socioeconômico na interação entre brancos e negros. Tal desequilíbrio é operacionalizado a partir das diferenças entre vestimentas ou profissões”.

Seguem: “os negros são apresentados com vestimentas mais simples ou em profissões subalternas. Verificou-se também que, quando as interações são mais equilibradas, é mais comum que ocorram entre crianças dos dois grupos raciais ou ainda entre crianças negras e adultos brancos. As pesquisas específicas no contexto da propaganda revelam que são pouco frequentes as cenas em que os dois grupos interagem ou ainda em que o negro é apresentado sozinho ou com outros membros de seu grupo (Bowen & Schmid, 1997; Bristor e col., 1995; Da Silva & Rosemberg, 2008; Hae & Reece, 2003; Taylor e col., 2005; Taylor & Stern, 1997)[…]. De modo geral, os estereótipos são marcados por traços de sensualidade, erotismo, criminalidade e feiura (Chinellato, 1996; Da Silva & Rosemberg, 2008; Pinto, 1987)”.

Isto posto, será que não internalizamos certos comportamentos preconceituosos por conta das representações constantes a que somos submetidos? Influenciando nossas análises, compreensões de mundo, relacionamentos e discursos?

Todos esses questionamentos poderão ser levados como metas para o ano que vem, da mesma maneira que planejamos objetivos profissionais ou amorosos.

Inclusive, entendo que a mudança em nós mesmos seja fundamental para uma sociedade harmônica e progressiva. Pois, o nosso particular tem a capacidade de intervir na existência em si do outro. Todos os dias.

Destarte, devemos repensar atitudes, comportamentos e sistemas de consumo que não se atentam aos direitos humanos e à dignidade de grupos socioculturais e econômicos. Estejamos nós compreendidos a eles ou não.

E, por fim, a palavra fundamental para o sucesso da nossa meta: empatia. Que no fundo, nada mais é que: respeito e compreensão para com o próximo.

É uma palavra muito simples de se dizer, contudo, bastante difícil de se transmutar em atitudes diárias, mas façamos um esforço!

Feliz ano novo! Feliz novo você!

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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