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Literatura

Ensaio sobre a cegueira nunca se fez tão atual

Nos últimos tempos, os discursos mais acalorados e intolerantes estão ganhando os palanques ao redor do mundo.

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Foto: Reprodução / Ensaio sobre a cegueira

Já perdi as contas de quantas vezes eu li o livro “Ensaio sobre a Cegueira” do escritor português José Saramago. Essa obra entra facilmente no meu Top 5 de melhores leituras da vida, juntamente com “O Evangelho segundo Jesus Cristo”, do mesmo autor, “O Quarto de Despejo”, “1984” e “Os Miseráveis” (pretendo falar sobre todos esses no futuro).
O “Ensaio” foi publicado em 1995 e, já de cara, conquistou o mercado editorial devido a sua escrita concisa, dura e genial. Inclusive o Saramago foi laureado com o premio Nobel de Literatura justamente por esse livro.

Bom, vamos a historia: Em uma cidade sem nome, a população, aos poucos, começa a ficar cega. Contudo, não trata-se de uma cegueira tradicional, mas sim de uma cegueira branca. No inicio apenas tratavam-se de alguns casos isolados, contudo, a epidemia foi se espalhando por toda a cidade e, como medida paliativa, o governo decide confinar as pessoas em locais de quarentena. Nós acompanhamos algumas dessas pessoas que foram enviadas para uma dessas quarentenas. Apenas um detalhe: Dentro desse grupo, há apenas uma mulher que consegue enxergar.

É nesse cenário caótico que o Saramago nos coloca. O livro faz questão de tocar em pontos bastante pertinentes da sociedade e da natureza humana, entre eles: orgulho, vergonha, machismo, empatia e humildade. Além disso, na minha opinião, levanta dois questionamentos principais. São eles: Organização do ser humano em meio ao caos e a bondade (ou a perversidade) das pessoas. É nesses temas que eu vou focar nesse breve artigo.

A Organização em meio ao caos

Praticamente toda a historia se passa pelos olhos da Mulher do Médico, a única pessoa que consegue enxergar. Ela é a responsável por nos contextualizar sobre o que está passando com aquelas pessoas, sobre a situação do lugar em que se encontram e, acima de tudo, a Mulher do Médico serve como uma guia em meio ao caos que aos poucos vai se instaurando naquele lugar.

No começo da quarentena, quando os cegos não eram muitos, a organização era relativamente fácil. Havia um sentido de organização e ordem, tanto que há a nomeação, mesmo que seja informal, de um representante daqueles cegos. Esse representante é justamente o Médico. Com a ajuda de sua esposa, ele consegue servir de voz de autoridade para aquelas pessoas.

Contudo, com o passar do tempo, mais pessoas vão chegando na quarentena e como tratam-se de pessoas bastante diversas moralmente, eticamente e com as mais diversas vivencias e princípios, as coisas começam a se complicar. O Médico não consegue exercer mais a sua autoridade e a situação na quarentena começa a ficar insustentável.

Há algum tempo, em uma conversa com um amigo, estávamos discutindo até onde vai a civilidade humana. Ai ele me falou a seguinte frase: “A Educação e a civilidade acabam quando o espaço deixa de existir”. Essa frase me marcou muito e tem tudo a ver com o livro em questão.

Pois é juntamente isso que acontece com essas pessoas dentro da quarentena. As pessoas, aos poucos, vão se degradando, não só fisicamente, mas também moralmente. Tudo vira um verdadeiro caos. Contudo, acredito ainda que há um outro fator que permeia essa degradação da natureza humana. Esse fator é a suposto bondade (ou perversidade) da natureza humana.

A Bondade (ou perversidade) do ser humano

Há algum tempo, se alguém me fizesse a seguinte pergunta: “O ser humano, em sua essência, é bom ou mau?”, eu responderia que “o ser humano nasce bom, contudo, a sociedade é que o corrompe”. Obviamente, essa minha fala estaria em perfeito acordo com o filosofo Jean-Jacques Rousseau.

Porém, confesso que essa minha certeza está meio abalada em meio a tantas coisas que vem acontecendo em nossa sociedade. Ultimamente tenho pendido para o pensamento Thomas Hobbes, que argumenta que o ser humano é essencialmente mau.

O “Ensaio” levanta justamente essas questões. Quando as pessoas se veem no limite do seu “espaço”, sem governo, sem leis e sem ordem, elas voltam a ser praticamente animais irracionais. Temos um pequeno exemplo disso durante a distribuição de comida quando alguns dos cegos furtam parte dela para comerem sozinho. A reação dos demais foi o seguinte:

“(…) portanto, o que havia a fazer era esperar que eles voltassem lá de onde se tinham escondido, a lamber os beiços, e cair-lhes em cima, para que aprendessem a respeitar o sagrado principio da propriedade coletiva.” – Pag 108.

Percebem? Um grupo de pessoas está cogitando agredir o próximo porque esse próximo lhe furtou. E isso é só o começo da degradação humano e a “volta”, vamos dizer assim, aos velhos hábitos. Após esse episódio da comida, as coisas tornam-se drasticamente piores. Em certo momento, as pessoas estão divididas em alas. A ala 3 começa a regular a comida para as demais alas. No começo, eles exigem dinheiro e joias como pagamento pela comida, contudo, como essas coisas não duram para sempre, eles passam a trocar sexo pela alimentação.

“(…) os cegos malvados mandaram recado de que queriam mulheres. Assim, simplesmente, Tragam-nos mulheres.” – Pag 165

Acredito que, dentro do contexto do livro, esse foi o ultima estágio nessa “volta as origens”. Na minha opinião, Saramago partilhava da opinião do Hobbes, o ser humano é mau em sua natureza. Contudo, como eu disse, não tenho muita certeza sobre qual lado eu fico nessa questão (Rousseau X Hobbes). Fico nessa indecisão, pois, no livro, temos a Mulher do Médico que, na minha opinião, em sua natureza, é uma boa pessoa.

A natureza boa da Mulher do Médico pode ser observada quando ela decide dignificar a morte de uma das mulheres que, por sinal, morreu durante umas das sessões de estupro promovida pelos integrantes da ala 3.

“Queria um balde ou alguma coisa que lhe fizesse as vezes, queria enchê-lo de água, ainda que fétida, ainda que apodrecida, queria lavar a cega das insônias, limpá-la do sangue próprio e do ranho alheio, entrega-la purificada à terra, se tem ainda algum sentido falar de purezas de corpo neste manicômio em que vivemos, que às da alma, já se sabe, não há quem lhes possa chegar” – Pag 180.

Será que, essencialmente, a resposta está justamente no meio dessas duas posições opostas? Se fomos analisar mais a fundo, talvez o ser humano não nasça mau ou bom, mas sim neutro. O que realmente importa nessa balança é o meio em que essa pessoa está inserida. No caso da Mulher do Médico, talvez o meio de criação dela tenha sido muito diferente do meio que em foram criadas as pessoas da ala 3.

Paralelo com a Sociedade

Nos últimos tempos, os discursos mais acalorados e intolerantes estão ganhando os palanques ao redor do mundo. Sinto como se estivéssemos, dada as devidas proporções, é claro, vivendo na mesma quarentena que os nossos personagens estão. Diariamente temos exemplo de seres humanos que, na minha opinião, deveriam se ajudar, fazendo o contrário.

Temos um Estado que, em sua essência, deveria estar ao lado de toda a população, contudo, faz o contrario, ou seja, vira as costas para quem mais precisa em beneficio de uma parte que não representa o pais em sua totalidade.

Novamente, voltamos aquela questão sobre como, em teoria, o meio/sociedade modela os comportamentos da população. Discursos que até um tempo atras pareciam absurdo e conspiratórios, tornaram-se regra. As pessoas que até um certo tempo atrás eram tidas como moderadas, tornaram-se reacionárias. Tudo isso se deu pelo meio propício que nós criamos nos últimos anos.

Esperança

Apesar de todos os problemas que temos enfrentado, eu ainda tenho esperança. Talvez as pessoas só precisem de um meio próprio para cairem na real e passarem a olhar os outros com empatia e igualdade. Sem barbarie. Sejamos mais como a “Mulher do Médico”.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.

Apaixonado por pessoas, inovação, tecnologia e literatura, Caio Bogos está no 3o ano da faculdade de Sistemas de Informação na FIAP e trabalha na área financeira/projetos. Fundador da Puzzle, uma plataforma que visa ajudar as pessoas que tem contato com crianças autistas. Nas horas vagas, adora ler, ouvir musica e assistir filmes.

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Literatura

O morador de livros

Essa é a história de Chambacinaja

Paula Akkari

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Foto: Paula Akkari / Jornal 140

Essa é a história de Chambacinaja, o morador de livros.

Chamba nasceu há 46 anos. Seu nome faz referência a sua terra natal, Campo Grande, e a origem de sua mãe, indígena do Catimbó: “Chambá” da planta medicinal e “Inajá” da palmeira encontrada no centro-oeste.

Seu pai é caminhoneiro, percorreu todas as paisagens brasileiras. Com um ano de idade, viajaram juntos e só pararam na baixada santista. Estabeleceram-se na Vila Fátima, bairro periférico em São Vicente. Então, cresceu com o sonho de conhecer São Paulo. Um símbolo deste é sua lembrança de, aos 17 anos, assistir um comercial de televisão que mostrava Sampa nascendo e amanhecendo, e ter a certeza de que  “é isso o que eu quero para mim”.

Sua realização não se iniciou de forma agradável. Pouco antes da maioridade, foi institucionalizado na Febem. Devido aos estigmas, sem coragem de encontrar seus pais envergonhados, caiu na estrada sem despedidas, rumo à capital do estado.

Em moradas itinerantes, na metrópole se estabeleceu. Trabalhou na cozinha de uma fábrica de marmitex, na zona sul. E assim sustentou-se até a época do Plano Collor. Questões administrativas junto ao cenário econômico desfavorável aos trabalhadores culminaram em sua demissão. Considera este o marco de sua “grande epopeia”.

Eis que foi preso por porte de maconha. Afinal, se não há branquitute ou poder aquisitivo para pagar fiança ou suborno, vão-se 31 dias úteis em grades. “Fazem isso pra tirar dinheiro, não pra tirar gente perigosa da rua”. “Foi uma tortura” a cela lotada, o abuso de autoridade, a falta de condições. Tornou-se “saturado” da vida.

Em liberdade, recorreu ao único recurso  acessível, o paradoxal vício entorpecedor. Foi figurativa e literalmente às profundezas, dormia de dia no Buraco da Minhoca, debaixo da Praça Roosevelt, sobrevivia à noite. “Estava se castigando emotivamente”.

“Precisa querer sair”. Com ajuda de amigos, não sem dor, saiu. “Sentiu limpeza”. Conseguiu bicos como ajudante de entrega de gelo. Aprendeu a costurar.

Então, passou a vender as bolsas que produzia – inclusive, fez uma página para divulgar seu trabalho. Das muitas adversidades de sua rotina, uma foi especialmente transformadora: um assalto, a perda de todo o seu pouco. Chamba esforçou-se ativamente para não ter raiva, “não ajudaria nada”. Então vagou com pouco rumo em direção ao Ibirapuera, lugar que sempre achou bonito e que esperava despertar boas emoções, que estavam faltantes. No caminho, ao procurar alimento nas lixeiras, achou sete livros. E fez deles seus novos pertences.

Quando o andarilho encontrou uma rua onde sentiu a ilusão de segurança, nomeou uma esquina sua nova morada. O diferencial dela era a exposição dos seus exemplares no chão. Os passantes, novos amigos, acabaram gostando da ideia, e doaram alguns outros, junto a revistas, gibis e cadernos. Chambari descobriu-se sebo.

Ele mora nos livros e com eles. Faz permutas por trocados e conversas. Recebe feliz as novidades, para as quais sempre terá abertura. Aprendeu que as leituras são mundos, remédios e emoções.  Por “de médico e louco todo mundo ter um pouco”, sua estratégia para fazer indicações literárias é conhecer a demanda do outro, uma vez que “não poderia sugerir uma medicação se não sabe o que a pessoa está sentindo no momento”.

Embora tenha, conforme todas as suas possibilidades, construído um presente, seu futuro é incerto. “O governo não vai ser bom para as pessoas em situação de rua. Eles nem sabem o que fazem, batem, xingam, roubam, matam…” Para sobreviver, procura não pensar nas dores ou nos amigos que se foram. Fez-se necessário alienar-se para continuar vivo.

Por ora, é possível encontrar o homem e sua vitrine ambulante pelas ruas de São Paulo. E que sejam duradouras as sucessões de suas persistências invisíveis.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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Literatura

Dia da criatividade: 5 livros para te ajudar nesse processo

Sabia que dia 17 de novembro é comemorado o dia da criatividade? Se você está precisando de uma forcinha com a criatividade, confira a lista com 5 livros.

Êrica Blanc

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Foto: Êrica Blanc

Atualmente, tem dia para tudo, né? Dia das mães, dia dos pais, dos namorados, da gratidão, da coragem e até da criatividade. Isso mesmo, dia 17 de novembro é Dia da criatividade, essa coisinha que a gente corre tanto atrás. Sempre ficamos naquela de: criatividade é algo que nasce com a gente ou que a gente desenvolve? E como faz quando tiver bloqueio criativo? Como posso estar sempre com a criatividade em alta? Essa última pergunta, a resposta é bem simples, inclusive: só com milagre mesmo.

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*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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