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Literatura 5 MIN DE LEITURA

Ensaio sobre a cegueira nunca se fez tão atual

Nos últimos tempos, os discursos mais acalorados e intolerantes estão ganhando os palanques ao redor do mundo.

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Foto: Reprodução / Ensaio sobre a cegueira

Já perdi as contas de quantas vezes eu li o livro “Ensaio sobre a Cegueira” do escritor português José Saramago. Essa obra entra facilmente no meu Top 5 de melhores leituras da vida, juntamente com “O Evangelho segundo Jesus Cristo”, do mesmo autor, “O Quarto de Despejo”, “1984” e “Os Miseráveis” (pretendo falar sobre todos esses no futuro).
O “Ensaio” foi publicado em 1995 e, já de cara, conquistou o mercado editorial devido a sua escrita concisa, dura e genial. Inclusive o Saramago foi laureado com o premio Nobel de Literatura justamente por esse livro.

Bom, vamos a historia: Em uma cidade sem nome, a população, aos poucos, começa a ficar cega. Contudo, não trata-se de uma cegueira tradicional, mas sim de uma cegueira branca. No inicio apenas tratavam-se de alguns casos isolados, contudo, a epidemia foi se espalhando por toda a cidade e, como medida paliativa, o governo decide confinar as pessoas em locais de quarentena. Nós acompanhamos algumas dessas pessoas que foram enviadas para uma dessas quarentenas. Apenas um detalhe: Dentro desse grupo, há apenas uma mulher que consegue enxergar.

É nesse cenário caótico que o Saramago nos coloca. O livro faz questão de tocar em pontos bastante pertinentes da sociedade e da natureza humana, entre eles: orgulho, vergonha, machismo, empatia e humildade. Além disso, na minha opinião, levanta dois questionamentos principais. São eles: Organização do ser humano em meio ao caos e a bondade (ou a perversidade) das pessoas. É nesses temas que eu vou focar nesse breve artigo.

A Organização em meio ao caos

Praticamente toda a historia se passa pelos olhos da Mulher do Médico, a única pessoa que consegue enxergar. Ela é a responsável por nos contextualizar sobre o que está passando com aquelas pessoas, sobre a situação do lugar em que se encontram e, acima de tudo, a Mulher do Médico serve como uma guia em meio ao caos que aos poucos vai se instaurando naquele lugar.

No começo da quarentena, quando os cegos não eram muitos, a organização era relativamente fácil. Havia um sentido de organização e ordem, tanto que há a nomeação, mesmo que seja informal, de um representante daqueles cegos. Esse representante é justamente o Médico. Com a ajuda de sua esposa, ele consegue servir de voz de autoridade para aquelas pessoas.

Contudo, com o passar do tempo, mais pessoas vão chegando na quarentena e como tratam-se de pessoas bastante diversas moralmente, eticamente e com as mais diversas vivencias e princípios, as coisas começam a se complicar. O Médico não consegue exercer mais a sua autoridade e a situação na quarentena começa a ficar insustentável.

Há algum tempo, em uma conversa com um amigo, estávamos discutindo até onde vai a civilidade humana. Ai ele me falou a seguinte frase: “A Educação e a civilidade acabam quando o espaço deixa de existir”. Essa frase me marcou muito e tem tudo a ver com o livro em questão.

Pois é juntamente isso que acontece com essas pessoas dentro da quarentena. As pessoas, aos poucos, vão se degradando, não só fisicamente, mas também moralmente. Tudo vira um verdadeiro caos. Contudo, acredito ainda que há um outro fator que permeia essa degradação da natureza humana. Esse fator é a suposto bondade (ou perversidade) da natureza humana.

A Bondade (ou perversidade) do ser humano

Há algum tempo, se alguém me fizesse a seguinte pergunta: “O ser humano, em sua essência, é bom ou mau?”, eu responderia que “o ser humano nasce bom, contudo, a sociedade é que o corrompe”. Obviamente, essa minha fala estaria em perfeito acordo com o filosofo Jean-Jacques Rousseau.

Porém, confesso que essa minha certeza está meio abalada em meio a tantas coisas que vem acontecendo em nossa sociedade. Ultimamente tenho pendido para o pensamento Thomas Hobbes, que argumenta que o ser humano é essencialmente mau.

O “Ensaio” levanta justamente essas questões. Quando as pessoas se veem no limite do seu “espaço”, sem governo, sem leis e sem ordem, elas voltam a ser praticamente animais irracionais. Temos um pequeno exemplo disso durante a distribuição de comida quando alguns dos cegos furtam parte dela para comerem sozinho. A reação dos demais foi o seguinte:

“(…) portanto, o que havia a fazer era esperar que eles voltassem lá de onde se tinham escondido, a lamber os beiços, e cair-lhes em cima, para que aprendessem a respeitar o sagrado principio da propriedade coletiva.” – Pag 108.

Percebem? Um grupo de pessoas está cogitando agredir o próximo porque esse próximo lhe furtou. E isso é só o começo da degradação humano e a “volta”, vamos dizer assim, aos velhos hábitos. Após esse episódio da comida, as coisas tornam-se drasticamente piores. Em certo momento, as pessoas estão divididas em alas. A ala 3 começa a regular a comida para as demais alas. No começo, eles exigem dinheiro e joias como pagamento pela comida, contudo, como essas coisas não duram para sempre, eles passam a trocar sexo pela alimentação.

“(…) os cegos malvados mandaram recado de que queriam mulheres. Assim, simplesmente, Tragam-nos mulheres.” – Pag 165

Acredito que, dentro do contexto do livro, esse foi o ultima estágio nessa “volta as origens”. Na minha opinião, Saramago partilhava da opinião do Hobbes, o ser humano é mau em sua natureza. Contudo, como eu disse, não tenho muita certeza sobre qual lado eu fico nessa questão (Rousseau X Hobbes). Fico nessa indecisão, pois, no livro, temos a Mulher do Médico que, na minha opinião, em sua natureza, é uma boa pessoa.

A natureza boa da Mulher do Médico pode ser observada quando ela decide dignificar a morte de uma das mulheres que, por sinal, morreu durante umas das sessões de estupro promovida pelos integrantes da ala 3.

“Queria um balde ou alguma coisa que lhe fizesse as vezes, queria enchê-lo de água, ainda que fétida, ainda que apodrecida, queria lavar a cega das insônias, limpá-la do sangue próprio e do ranho alheio, entrega-la purificada à terra, se tem ainda algum sentido falar de purezas de corpo neste manicômio em que vivemos, que às da alma, já se sabe, não há quem lhes possa chegar” – Pag 180.

Será que, essencialmente, a resposta está justamente no meio dessas duas posições opostas? Se fomos analisar mais a fundo, talvez o ser humano não nasça mau ou bom, mas sim neutro. O que realmente importa nessa balança é o meio em que essa pessoa está inserida. No caso da Mulher do Médico, talvez o meio de criação dela tenha sido muito diferente do meio que em foram criadas as pessoas da ala 3.

Paralelo com a Sociedade

Nos últimos tempos, os discursos mais acalorados e intolerantes estão ganhando os palanques ao redor do mundo. Sinto como se estivéssemos, dada as devidas proporções, é claro, vivendo na mesma quarentena que os nossos personagens estão. Diariamente temos exemplo de seres humanos que, na minha opinião, deveriam se ajudar, fazendo o contrário.

Temos um Estado que, em sua essência, deveria estar ao lado de toda a população, contudo, faz o contrario, ou seja, vira as costas para quem mais precisa em beneficio de uma parte que não representa o pais em sua totalidade.

Novamente, voltamos aquela questão sobre como, em teoria, o meio/sociedade modela os comportamentos da população. Discursos que até um tempo atras pareciam absurdo e conspiratórios, tornaram-se regra. As pessoas que até um certo tempo atrás eram tidas como moderadas, tornaram-se reacionárias. Tudo isso se deu pelo meio propício que nós criamos nos últimos anos.

Esperança

Apesar de todos os problemas que temos enfrentado, eu ainda tenho esperança. Talvez as pessoas só precisem de um meio próprio para cairem na real e passarem a olhar os outros com empatia e igualdade. Sem barbarie. Sejamos mais como a “Mulher do Médico”.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.

Apaixonado por pessoas, inovação, tecnologia e literatura, Caio Bogos está no 3o ano da faculdade de Sistemas de Informação na FIAP e trabalha na área financeira/projetos. Fundador da Puzzle, uma plataforma que visa ajudar as pessoas que tem contato com crianças autistas. Nas horas vagas, adora ler, ouvir musica e assistir filmes.

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Literatura 2 MIN DE LEITURA

Maratona Literária: Livros para se ler em 1 dia

Final de ano é sempre uma ótima época para colocar em dia a leitura. Nesse artigo você vai encontrar dicas de alguns livros para ler em 1 dia.

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Foto: Annie Spratt / Unsplash

Final de ano. Sempre aproveito esse período de festas para fazer uma pequena maratona literária. Essa maratona consiste em alguns livros curtos, mas não menos impactantes, onde a leitura pode ser feita em 1 dia – logicamente dependendo de quantas horas a pessoa dedicar para a leitura.

Bom, resolvi listar aqui alguns livros que eu li nos anos anteriores para você aproveitar essa época.

Intermitências da Morte

Esse livro é incrível. Ao longo de menos de 200 páginas, o Saramago nos transporta para uma semi-distopia em que as pessoas simplesmente deixam de morrer. Logicamente, como na maioria das obras desse autor, ele utiliza-se de absurdo para nos fazer refletir sobre algumas questões centrais da sociedade, como, por exemplo, o papel da morte no curso natural da vida.

A Filha Perdida

Esse é um dos melhores livros da Elena Ferrante. Nessa história, uma mulher de cerca de 40 anos vai passar alguns dias na litoral da Itália e, ao longo desses dias, ela começa a ter contato com uma família que também está passando férias no mesmo lugar. Esse é o pano de fundo para um livro que fala sobre a maternidade, culpa e arrependimentos.

O Sol na Cabeça

Esse livro de contos é simplesmente um achado incrível. Trata-se da primeira obra do Geovani Martins. Os contos são um retrato incrível da vida de pessoas comuns nas comunidades do Rio de Janeiro. É incrível e visceral.
Recomendo o conto “Roleta-Russa”.

As Coisas

Outro livro de contos. Já virei fã do Tobias Carvalho desde o primeiro conto desse livro. Trata-se de uma visão muito naturalista e, ao mesmo tempo poética, de pessoas comuns vivendo os seus desejos e dilemas.
Recomendo muito a leitura do conto “Cantiga de Roda”.

O Estrangeiro

Um ode ao niilismo. É assim que eu defino esse livro que é um dos mais famosos do Albert Camus. A falta de esperança e apatia do personagem é simplesmente desesperadora e, ao mesmo tempo, magnética.

A Revolução dos Bichos

Leitura obrigatória para os tempos atuais. Trata-se de uma fábula simples que diz muito sobre os regimes autoritários. Fica a dica: Prestem atenção em quem vocês colocam no poder!

Bom, é isso. Aproveitem o final de ano e boas leituras!

 

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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Literatura 4 MIN DE LEITURA

O ano em que disse sim: 5 motivos para ler antes do ano novo

Por que não começamos essa nova década dizendo sim? Sim para tudo que nos aflige.

Êrica Blanc

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Talvez você saiba quem é Shonda Rhimes. Talvez, não. Para que não reste dúvidas, Shonda Rhimes é uma roteirista incrível, criadora de séries como How to get away with murder, Scandal e, a mais famosa, Grey’s Anatomy. Shonda também criou a Shondaland, uma produtora de televisão americana. Tem três filhas e o céu é o limite para ela. Mas, Shonda sofria com a auto sabotagem e negava absolutamente tudo que lhe fosse assustador. Tudo que lhe tirasse da zona de conforto. Tudo mesmo! Entrevistas, eventos, palestras, sessões de foto. Shonda tinha pavor só de pensar. Até que sua irmã mais velha soltou uma frase que doeu mais do que um soco no meio do rosto, “Você nunca diz sim para nada”. Era verdade? Óbvio! Por isso doeu tanto.

Era véspera de virada de ano, praticamente. O ano de 2014 estava batendo na porta e, como uma resolução de ano novo, Shonda prometeu que diria sim para tudo que lhe assustasse. Tudo. E, com essa promessa, ela embarcou em uma jornada de autoconhecimento, novas aventuras e, é claro, a criação de uma Shonda que lhe faz muito mais feliz. O ano em que disse sim é um registro dos “sims” mais importantes e que transformaram a vida dela em um ano. É um livro incrível, que pode transformar sua vida, tanto quanto transformou a dela. Tem resenha completa aqui, mas em 5 itens eu consigo te apresentar motivos básicos e necessários para você ler O ano em que disse sim agora mesmo.

Minorias, sintam-se representados!

Se você considerar que esse livro é escrito por uma mulher negra, provavelmente já sabe que ele vai falar bem diretamente com as minorias sociais. Em um bate-papo de igual para igual, mulheres, nerds, gordos, negros, LGBTQs podem se sentir devidamente representados. Por que Shonda é como nós, curando feridas que a pressão social causou. Shonda é um de nós, que alcançou o outro lado. O lado em que somos livres das pressões e da opinião alheia. E, melhor do que isso, nos ensina e nos pega pela mão, para chegamos lá, junto com ela.

Sim ao não, sim a conversas difíceis

Eu não sei você, mas saber que vou precisar passar por uma conversa difícil me afeta de um jeito absurdo. Esses dias mesmo, precisei encerrar contrato com uns clientes que senti que me destrataram e mesmo sabendo que eu estava no meu direito, minha ansiedade foi ao limite. Parecia que eu tinha levado um soco no estômago e meu corpo estava gelado, suando frio. Shonda não era diferente. Shonda dizia sim para todo mundo, só para não passar pelo processo difícil de dizer não para alguém. Mas, no O ano em que disse sim, ela aprende a dizer sim, ao não. E tudo se transforma. É bem legal acompanhar esse processo dela e entender como precisamos aplicar isso em nossa vida também, sem dor ou sofrimento. E, dependendo da reação da outra pessoa, a gente percebe que na verdade, a pessoa nem merecia o nosso esforço ou amizade.

Pare com a auto sabotagem agora mesmo

Esse é outro ponto que eu me identifico da cabeça aos pés. Por que, sendo bem sincera, a minha pior inimiga, é a minha própria cabeça. Crio monstros, antes de por projetos em prática e desisto sem tirá-los do papel. Ou seja, auto sabotagem é um demônio que preciso matar todos os dias. E percebo que isso não é um problema só meu. Muito provavelmente você aí, que está lendo isso, sabe que é assim e também precisa de um ano para dizer sim e sair dessa de uma vez. Acima de qualquer coisa O ano em que disse sim, começou por que Shonda se sabotava e sua irmã percebeu. Então, durante a leitura, a gente tem a chance de se reavaliar e começar a querer sair desse ciclo horroroso de auto sabotagem.

Sim, para a pessoa mais importante da sua vida: V-O-C-Ê

Você sofre por sempre colocar as outras pessoas em primeiro lugar? Você costuma ajudar os outros antes mesmo de se ajudar? Então, esse livro é para você. Nessa jornada de autoconhecimento da Shonda, a gente consegue entender melhor sobre como ter esse tipo de atitude é prejudicial para todos aqui. Shonda aprende a se pôr em primeiro lugar. Dizer sim a sua saúde. Dizer sim a cuidar do corpo, tanto quanto cuida da mente. A dizer não a coisas que lhe fariam mal. Dizer sim a novas possibilidades. Tudo isso transformou Shonda e lhe fez cada dia mais feliz. Lhe trouxe de volta a vida. Pois, no fundo, O ano em que disse sim é sobre amor. Amor mesmo. Amor por você.

O ano está virando mais uma vez, vamos dizer sim juntos?

Sejamos sinceros, 2019 está no fim. 2020 vem aí. Toda virada de ano pensamos em tudo o que queremos fazer diferente no ano em que está por vir. Tudo o que queremos mudar em nós, para sermos mais felizes. Por que não começamos essa nova década dizendo sim? Sim para tudo que nos aflige. Sim para nos colocarmos em primeiro lugar. Sim para termos responsabilidade emocional com nós mesmos. Sim para uma década mais feliz. Mais cheia de vida. Sim para sair do piloto automático e recuperar a alegria em cada um dos dias que estão por vir. Eu vou embarcar no MEU ano de dizer sim. Você vem comigo?

Conta nos comentários para o que você tem mais medo de dizer sim!

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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