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Universo Feminino 6 MIN DE LEITURA

Não somos impostoras!

As mulheres lidam com inúmeras dificuldades quando almejam cargos que necessitam de nível superior acadêmico, impedindo-as de alcançar o real sucesso.

Julie Damame

Publicado

em

Septian Simon/Unsplash

“Sinto-me uma fraude completa! ”.

Acredite, esta é uma das mais recorrentes frases que habitam os pensamentos das mulheres mais bem-sucedidas do mundo.

Reconhecer-se uma fraude, não admitir suas conquistas ou não se identificar com um determinado cargo profissional, define a chamada síndrome da impostora; uma perturbação que acomete muitas de nós, mulheres, e que faz com que nos sintamos incapazes de ocupar postos que, predominantemente, são conquistados por homens.

Durante a I Guerra Mundial, na Europa, e a partir da década de 70, no Brasil, as mulheres entraram para mercado de trabalho de maneira massiva. Até então, elas cumpriam, majoritariamente, as funções consideradas como típicas femininas – os cuidados para com a família, com o lar e os de higiene e beleza pessoal (BONIATTI, 2014).

Contudo, mesmo trabalhando “fora”, não fomos desobrigadas das funções domésticas. Ou seja, houve (e segue existindo) a acumulação de tarefas, caracterizando a dupla jornada de trabalho.

Para se ter uma ideia, no Brasil, em 2016, as mulheres se dedicaram aos cuidados com os familiares e/ou afazeres domésticos cerca de 73% a mais, em horas, que os homens (Indicadores Sociais das Mulheres no Brasil (ISMB– IBGE)).

Exaustivo, não?

Presentemente, muitas mulheres, em conversas informais com suas amigas, vangloriam-se: “Meu marido é ótimo, ele me ajuda muito em casa”. Esta constatação, por si só, transmite uma ideia equivocada de que a obrigação de cuidar da casa é somente da mulher. Subentende-se que todas as tarefas domésticas cabem a ela e que o companheiro a ajuda, se quiser. Quando, na realidade, a obrigação é de todos os membros da família.

Entretanto, gradativamente, a sociedade, como um todo, está vivenciando uma percepção mais solidária quanto a esse assunto.

Atualmente, a inserção das mulheres no mercado de trabalho é crescente, e se deve, de acordo com Bruschini e Puppin (2004), ao aumento do nível de escolaridade e à intenção de qualificação específica profissional. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE (2018), acrescenta, como motivos, a redução da fecundidade, a disseminação de métodos contraceptivos e o maior acesso à informação.

Será que essa acumulação de tarefas prejudica a performance da mulher no mercado de trabalho?

O próprio IBGE responde: “Mulheres que necessitam conciliar trabalho remunerado com os afazeres domésticos e cuidados, em muitos casos, acabam por trabalhar em ocupações com carga horária reduzida”.

Parece justo?

Creio que a resposta seja pessoal. Para mim, não deveria haver opção única: sucesso no trabalho ou no âmbito familiar. Nem o ônus exclusivo às mulheres para as tarefas domésticas. Se é possível a divisão de obrigações com parceiros ou terceiros, por que não escolher ambas as opções?

É claro que nada é tão simples assim. As mulheres lidam com inúmeras dificuldades quando almejam cargos que necessitam de nível superior acadêmico, impedindo-as de alcançar o real sucesso. Essas dificuldades podem ser intrapessoais (autocontrole, autoconhecimento, etc.), interpessoais (relações entre indivíduos) ou extrapessoais (problemáticas do setor, desigualdades no mercado de trabalho, etc.).

A mais famosa barreira intrapessoal é a conhecida “Síndrome/Fenômeno da Impostora”.

Em 1978, o termo foi idealizado por duas psicólogas norte-americanas, Pauline Rose Clance e Suzanne Imes, a partir de entrevistas feitas com mulheres altamente bem-sucedidas, a fim de compreender as dificuldades em atingir ou/e se obter sucesso.

Um dado muito interessante que surgiu com a tese e outras correlatas, foi que as mulheres, em sua vasta maioria, atribuíam seu sucesso a fatores temporários e externos (como sorte) e, ao mesmo tempo, os homens conferiam seus êxitos a atributos internos e pessoais (como habilidade e competência). E quando não obtinham sucesso, as mulheres se referiam à falta de habilidade ou aptidão para a função e, os homens, como imprevistos ou contingências do trabalho (Universidade Estadual da Geórgia – EUA).

Num primeiro momento, ficamos indignados e nos perguntando se é verdade para a maioria. E, quando visualizamos que o Brasil é o 10º país com mais empresas que têm mulheres líderes (15ª edição da International Business Report (IBR) – Women in Business 2019), e que o número proporcional é de 25% dos cargos de liderança dentro dessas empresas, torna-se mais compreensível que este tipo de pensamento seja verídico.

É sabido que uma divisão desigual de trabalho e funções de chefia compromete a autoconfiança do trabalhador, sobretudo, na escolha de responsabilidades e promoções. A “Síndrome do Impostora” afeta exatamente neste ponto. Inicia-se com a falta de confiança ou autoestima, e se conclui com a autossabotagem ou com a postergação nos resultados, dentre outros. A pessoa não se sente merecedora ou capaz de sucesso.

E, mormente pelas razões inerentes às desigualdades de posicionamento nos ambientes de trabalho, por quais motivos mais, as mulheres representam quase 70% das pessoas que sofrem dessa síndrome?

Segundo a Universidade Dominicana da Califórnia (EUA), uma série de condicionantes, inclusive sociais, é interiorizada pela mulher durante sua trajetória de vida, definindo a sua capacidade, ou não, para determinada atribuição. A dúvida permanece em se esses receios são próprios ou socialmente cunhados.

O Human Development Report, mostra que, em 2015, a participação das mulheres, no campo do trabalho formal, era de apenas 47%, enquanto a de homens constava como 72%, sem esquecermos que eles ocupam os cargos com maior valor agregado.

Mas, será que as mulheres estudam menos que os homens?    

Os dados da PNAD Contínua (2016) demonstram exatamente o oposto: “A maior diferença percentual por sexo encontra-se no nível “superior completo”, especialmente entre as pessoas da faixa etária mais jovem, de 25 a 44 anos de idade, em que o percentual de homens que completou a graduação, em universidades, foi de 15,6%, enquanto o de mulheres atingiu 21,5%, indicador 37,9% superior ao dos homens”.

Portanto, há uma qualificação desejada. Logo, a problemática deve ser psicológica, concomitantemente, com a uma estrutura sociocultural nocente.

De forma consoante, Carol Herrera, doutora em Ciências Humanas e especialista em Gênero e Comunicação, esclarece que “há estudos que explicam que as meninas, a partir dos 5 e 6 anos, já têm a sensação de pertencer a um grupo inferior. Para elas as mulheres podem fazer coisas boas, mas são os homens que se destacam”.

Notadamente, na fase adulta, autora Mara Furtado Vicente (2013) corrobora “as mulheres tendem a concentrar-se em profissões que coincidem com o estereótipo tradicional de feminilidade, enquanto os homens podem desempenhar qualquer profissão, obtendo até maior sucesso em termos salariais e de progressão na carreira, mesmo em ocupações tipicamente femininas”.

Estereótipos de gênero cumprem a função de afastar meninas de 16-18 anos de escolherem áreas como exatas ou tecnologia da informação, por frases como “isso não é coisa de mulher”. O mesmo, em larga escala, no mercado de trabalho, com afirmações validadas pela sociedade como absolutas, como por exemplo: “mulheres são sensíveis demais”, “não sabem ser chefes”, “até que está bom para uma mulher”, “não sabem lidar com problemas”, “não possuem punho firme”, “não são criativas” ou “não geram oportunidades, porque não querem”.

E, por fim, a significativa e impactante falta de autoconfiança por reconhecimento. Quantas vezes, independentemente da área (estereotipada ou não), vimos, ao crescer, nos meios de comunicação, mulheres que transformaram a sociedade?

E, sim, existem milhares delas! Porém, poucas são verdadeiramente divulgadas e/ou reconhecidas. Precisamos de mais inspiração, em nível global, do que podemos ser; para não termos a potencial sensação de sermos “fraudes”.

A verdade é que entramos para o mercado de trabalho e, posteriormente, com as experiências da vida, vamos acumulando tarefas (em sua maioria, sem a devida repartição) e, destarte, começamos a sofrer com barreiras que impedem o nosso sucesso, mesmo quando nos qualificamos.

A síndrome, em questão, é uma das barreiras intrapessoais. E a transposição deve partir de nós mesmas. Portanto, mesmo que nos sintamos uma “fraude” todos os dias, que isso não nos impeça de sermos altamente bem-sucedidas!

Não somos impostoras!

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.

Julie Damame é Fundadora do Projeto Impacto Mulher, palestrante e ativista dos direitos humanos e contra a violência à mulher. Formada em Relações Internacionais no Brasil e na Espanha, graduanda em Direito e pós-graduanda em Direito Penal e Criminologia. Especialista em Justiça Criminal e Transtornos Mentais nos EUA.

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Universo Feminino 5 MIN DE LEITURA

Deepfakes: manipulação digital na era da cybermisoginia

O que são Deepfakes? Qual é a razão das mulheres serem – novamente – as maiores vítimas de ataques?

Julie Damame

Publicado

em

Foto: Panda Security

“Tornou-se chocantemente óbvio que a nossa tecnologia excedeu a nossa humanidade”.

Infelizmente, a frase não é minha. É de Albert Einstein. Mas, toda vez que eu leio alguma matéria sobre como a revolução tecnológica transformou e/ou segue transformando as interações sociais, ressoa em mim como se fosse minha.

Faz tanto sentido e, ao mesmo tempo, é tão controversa.Em uma era em que esperávamos, entre as pessoas, aproximações ilimitadas e respeito às divergências e convivências virtuais, confrontamos-nos com um período de ódio, solidão e terror escalonado, graças às amarras e aos antigos conceitos, poderios e subjugações que conservamos.

Um estudo realizado pela Universidade de San Diego (Estados Unidos), em 2018, confirmou que os adolescentes mais expostos aos dispositivos eletrônicos manifestaram menores níveis de autoestima, satisfação com a vida e felicidade.

Igualmente, uma pesquisa produzida pela Universidade de Oxford (Inglaterra) e publicada pela Agência Brasil (2017), concluiu: “A relação entre o uso da internet e o comportamento suicida e de autolesão foi particularmente associado ao vício no acesso a essa tecnologia, altos índices de navegação e contato com sites onde havia conteúdo relacionado ao tema”.

Além disso, e infelizmente, conceberam-se novas conceitualizações como “cyberbullying”(violência praticada através da internet ou outras tecnologias para insultar/intimidar/difamar), “revenge porn” (pornografia da vingança -exposição de imagens ou vídeos íntimos de alguém por conta do sentimento de vingança), “slut shaming” ou “cybermisoginia” (culpabilização/constrangimento por ser mulher, especialmente nas redes sociais) para a era digital

De modo que, a sociedade precisará se inteirar e tratar tais impasses e dilemas cada vez mais. Em uma verdadeira dicotomia. E o mais curioso é que também persiste uma constante nesse sistema: as vítimas são sempre as mesmas, dentro ou fora do mundo virtual.

Por exemplo, para o diretor da organização Witness, Sam Gregory, as vítimas mais afetadas por assédio online (de qualquer tipo) são as mulheres. Em entrevista ao jornal Estadão, Sam contou que uma análise do grupo DeepTrace Labs comprovou que cerca de 96% dos deepfakes são pornográficos ou imagens de sexo não consensuais.

Com a terminologia exposta, indago: o que são Deepfakes? Qual é a razão das mulheres serem – novamente – as maiores vítimas de ataques?

Para isso, convidei o Rodrigo Sassi, fundador da Inpyx – Software & Data House, especialista em inteligência artificial e também colunista do jornal, para explicar um pouco sobre o que é e como funciona o Deepfake:

“A técnica do Deepfake se baseia na manipulação de vídeos por softwares com inteligência artificial com a finalidade de simular o rosto de uma pessoa em outra ou de alterar discursos.

Originalmente, surgiu para o humor e entretenimento em aplicativos como o SnapChat. Com o sucesso, o Instagram (do Facebook) inaugurou também diversos filtros para serem aplicados no próprio rosto: capacetes vikings, óculos super estilosos, possibilidade de trocar de rosto com seus amigos ou com o seu gatinho, e de virar um E.T!
Uma diversão completa e garantida.

Logo em seguida, os desenvolvedores de conteúdo perceberam o enorme potencial em acrescentar tal técnica em sátiras e críticas políticas. Destarte, começaram a colocar rosto de políticos e figuras públicas em situações inusitadas com discursos irônicos. Até então, era uma “brincadeira”, em formato de crítica social ou política sobre os líderes e governantes de todos os países. Não havia um tom de malícia exacerbado. Contudo, a evolução tecnológica dificilmente para por aí.

Sem pormenorizar, para criar um deepfake, você precisa ensinar para um sistema quais são todas as possíveis expressões de dois rostos, a fim de simular as representações de um rosto no outro ou suas manifestações.

Denominamos esse processo de “aprendizagem de máquina” e pode levar de alguns dias, até meses. Por exemplo, quando o Instagram lançou seus filtros de troca de rostos, o software já havia analisado e treinado em todas as suas fotos para poder aplicar no rosto do seu amigo.

A grande problemática do próprio desenvolvimento tecnológico e da capacidade de processamento dessas máquinas está na produção. Houve uma redução exponencial de tempo para criação desses vídeos!

O que antes levava 30 dias, hoje leva em torno de 4 ou 5, o que permite uma produção muito maior de materiais com menor custo. Além disso, verificou-se uma maior qualidade nos vídeos. Tornaram-se tão bons que são praticamente imperceptíveis aos olhos humanos!

Com essa agilidade na produção dos vídeos e alta qualidade do resultado, geraram aplicativos como o Zao, que coloca o rosto do usuário em filmes icônicos de Hollywood em apenas alguns cliques e que parecem autênticos.

Porém, não tardou para incluírem outros objetivos no uso do “deepfake” e suas produções. Objetivos além dos iniciais, objetivos que são altamente maliciosos e que causam profundos danos às vítimas.

São os casos de difamação e desmoralização de pessoas (conhecidas ou não) na internet. Sabe-se que as mulheres são alvos substanciais dessas montagens e que constantemente são vítimas de Revenge Porn (pornografia da vingança) com vídeos deepfakes. Ou seja, são ameaçadas e chantageadas com vídeos sexuais que nunca fizeram por, simplesmente, a título de exemplo, terminarem um relacionamento.

Inclusive, já lançaram um aplicativo no mercado para fazer as mulheres parecerem estar nuas. É lamentável.

O que antes tinha um viés de crítica social ou política e até mesmo de diversão; hoje, os deepfakes podem ser considerados os maiores armamentos na Guerra Contra a Verdade de acordo com a jornalista Nina Iacono Brown, da revista Slate.

Por essas e outras, o Facebook contratou mais de 50 especialistas com formação técnica, política, mídia, jurídica, cívica e acadêmica para orientar o desenvolvimento de um sistema de identificação de alteração em vídeos.

Ao identificar o conteúdo falso, será reduzido a exibição orgânica nos feeds, proibição do impulsionamento da postagem e ainda notificação ao usuário de que se trata de um vídeo falso e modificado por computador quando este tentar compartilhar.

Será que ao ampliarmos o método de combate aos deepfakes para outras empresas e meios de comunicação, melhoraremos o problema?”. Concluo e complemento o questionamento do Rodrigo: será que isso é suficiente? Ou, também, precisaremos de posicionamentos específicos sobre a matéria por meio de políticas públicas e legislações?

E mais, será que ao integrarmos as possíveis soluções resolveremos o problema de fato? Já houve alguma resolução nesse sentido no passado?

Afinal, como explanado, estamos na era da inovação, em tempos distintos e, ainda assim, as mulheres continuam sendo um grupo substancial de vítimas. Por isso, proponho uma discussão: o problema está no modo/meio como é exercido o crime ou em quem/por que exerce?

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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Universo Feminino 5 MIN DE LEITURA

As espiãs nunca vistas

As mais temidas espiãs em tempo de guerra e que (quase) ninguém foi capaz de reconhecer.

Julie Damame

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em

Foto: RyanMcGuire / Pixabay

“Não seja comum”.

Essa pequena frase ficou na minha cabeça por dias, depois de eu ter assistido a série “The Bletchley Circle: San Francisco” (Assistam!). A série de suspense acompanha a vida de quatro mulheres que ocuparam altos cargos na 2ª Guerra Mundial, em equipes de decodificação, espionagem, construção de armamentos e estratégia, e que, após o conflito, com o retorno dos homens, foram dispensadas da atuação em atividades que envolvessem segurança nacional.

Decidiram, então, iniciar um trabalho de elucidação de crimes considerados irresolúveis, para provar o valor e a capacidade que elas possuíam, especialmente, para a sociedade.

A narrativa traz um elemento muito interessante: analisar a complexa situação das mulheres que ocuparam posições com responsabilidades ainda mais significativas que seus maridos e/ou conhecidos durante a guerra, e que, para o “bom funcionamento social”, tiveram que permanecer em silêncio no pós-guerra, por exigência dos seus governos.

A realidade pode até ter sido um pouco diferente da narrativa da série, especialmente porque a maioria dos que participaram dos programas de segurança nacional, em territórios inimigos, não voltou. Contudo, os livros “The Wolves at the Door: The True Story of America’s Greatest Female Spy” (Judith L. Person), “Sisterhood of Spies” (Elizabeth P. McIntosh) e “Young, Brave & Beautiful” (Tania Szabo)” bem comprovam o papel fundamental que essas mulheres ocupam na história.

Casos como o da Virginia Hall, Princesa Noor-un-Nisa Inayat Khan, Violette Reine Elizabeth Bushell, Barbara Lauwers, Amy Elizabeth Thorpe, Maria Gulovich, Julia McWilliams Child, Marlene Dietrich, Elizabeth P. McIntosh, Genevieve Feinstein, Mary Louise Prather, Juliana Mickwitz, Odette Sansom Churchill, Josephine Baker, Hedy Lamarr, Nancy Grace Augusta Wake, e de muitas outras mulheres, inspiram.

Elas são as personificações do “não seja comum”; ou melhor, o de ser o que quiser e não o que se espera de você. Inclusive, quanto a participação em serviços ditos como, majoritariamente, masculinos.

Entre as inúmeras espiãs conhecidas, Virginia Hall se destaca, por conta do vasto conteúdo que a Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA) dispõe a seu respeito, em seu site. Seguem alguns trechos que merecem menção (livre tradução):

“Natural de Baltimore, Virginia Hall Goillot é, talvez, mais conhecida por seu serviço heroico nas Operações Especiais Executivas Britânicas e no Escritório Americano de Serviços Estratégicos, durante a 2ª Guerra Mundial, contudo, é na CIA, que ela passou mais tempo. Uma das poucas mulheres relativamente seniores do serviço clandestino, ela trabalhou em vários setores da CIA até a sua aposentadoria compulsória, em 1966, quando tinha 60 anos. Virginia fez de TUDO, apesar de ter uma perna protética de madeira, que ela chamou de Cuthbert”.

“O historiador britânico M. R. D. Foot a apelidou de “agente indomável com um pé de bronze”. O oficial do Executivo de Operações Especiais (SOE), Philippe de Vomécourt, escreveu que ele serviu na França com essa “mulher extraordinária…com uma perna de madeira”. O autor francês Marcel Ruby disse que ela perdeu a perna em um acidente com um cavalo. Outros a fizeram perder um membro depois de cair embaixo de um bonde. O ex-oficial da CIA, Harry Mahoney, descreve uma missão da OSS, na qual ela saltou de paraquedas atrás das linhas inimigas com sua “perna de pau na mochila”. A autora e ex-oficial da OSS, Elizabeth P. McIntosh, escreveu que ela desembarcou na França de barco. A Gestapo, polícia secreta nazista, colocou sua imagem em um cartaz de “procurada” e, uma vez, como a “mais perigosa entre os espiões aliados” (Judith L. Pearson. Guilford, CT: The Lyon Press, 2005, página 324).

Sua reputação fala por si. Virginia escolheu um caminho cheio de sacríficos e dificuldades, mas sua vontade de atuar no meio diplomático, impulsionou seu desejo. Teve que se condicionar a andar sem mancar para não chamar atenção, aprendeu mais de quatro idiomas, ajudou a treinar batalhões para a resistência francesa, foi correspondente e informante, livrou espiões que haviam sido capturados e executou a maior rede de auxílio em território inimigo.

No final, “os britânicos fizeram dela, membro do Império Britânico. Os Estados Unidos, concederam a ela, o reconhecimento “Distinguished Service Cross”, por heroísmo extraordinário em conexão com operações militares contra o inimigo, a única mulher civil a receber essa medalha pelo serviço da Segunda Guerra Mundial”.

Infelizmente, pouco se conhece sobre o Brasil e suas espiãs também. Temos, como exemplos, Estela Borges Morato e Jean Sarkis.

A Conferência Nacional de Polícia Política, em 1943, tratou de assuntos como espionagem, contraespionagem, métodos de reconhecimento de agentes inimigos, técnicas de investigação e de interrogatório, e discutiu, sincronicamente, se o país poderia conceder às mulheres o papel de espiãs. Esse assunto foi muito bem analisado no artigo “Gênero e Serviço Secreto”, do autor Thiago da Silva Pacheco.

Essa conferência acabou chegando a uma despicienda conclusão: “Muitos dizem, sorrindo, que a mulher é um mal necessário. Não se pode viver com elas, mas tampouco viver sem elas. Esta última afirmação parece especialmente acertada no que se refere ao trabalho de espionagem. Verá o senhor que as mulheres tomavam uma parte importante em quase todos os trabalhos de espionagem mais importantes registrados na história” (Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro. Conferência Nacional de Polícia Política. Fundo DESPS, Notação 921, página 55).

Complementa Thiago: “Dependendo de seu desempenho, [as mulheres] poderiam alcançar status enquanto agente importante numa instituição fundamental para a sustentação do Estado, e até mesmo gozar de influência e respeito entre autoridades policiais e líderes dos grupos sociais postos sob vigilância”.

A título de comparação, em 1945, o governo brasileiro infiltrou Jean Sarkis no Partido Comunista. Ela acabou sendo presa como uma subversiva e, para não ser descoberta, recusou-se a usitar suas conexões com policiais para sair da prisão. Ficou encarcerada por dois anos, sofrendo severas punições.

Ao sair, Jean conseguiu o respeito do Partido Comunista e, ao mesmo tempo, uma posição de destaque na Polícia Política, sendo considerada uma das espiãs mais bem-sucedidas do país:

“A requerente, de fato, colaborou, eficiente e patrioticamente com as autoridades deste Departamento (…) nas suas tarefas, se houve com tão elevado espírito de renúncia que, por ocasião da prisão da comunista Maria Afonso Martins, em companhia de quem se achava, e do que resultou a condenação de ambas, preferiu não revelar sua posição neste Departamento, evitando, assim, que a situação daquela agitadora fosse atenuada. Cumpriu mais de dois anos de prisão, durante a qual continuou prestando relevantes serviços, pois, elevada à condição de heroína do partido, suas possibilidades em informar aumentaram, ensejando este Departamento diligências proveitosas” (Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro. Fundo Polícias Políticas. Pront. GB 22.327).

Ou seja, no Brasil ou no mundo, independentemente de quais foram as razões que possibilitaram às mulheres tais posições de trabalho – que, definitivamente, no início, eram puro retrato de uma estrutura social machista e conservadora –, permitiu que muitas delas pudessem quebrar tabus, abrir o mercado de trabalho para outras e redefinir seus papéis sociais à época.

Em 2018, quando Gina Haspel foi nomeada a primeira diretora da CIA, em meio a muita discussão por conta da sua trajetória profissional, ela admitiu, enfaticamente, sua dívida para com todas as “heroínas que nunca buscaram aplausos do público”. Por estas mulheres, mencionando Virginia Hall, foi possível sua nomeação, que desafiou barreiras e estereótipos de gênero.

Assim, apesar de serem espiãs nunca vistas, são parte de uma parcela de mulheres que segue nos permitindo ampliar nossos horizontes.

Precisamos dessas mulheres, cada vez mais.

Não sejamos comuns.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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