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Saúde

Qual o mérito de não envelhecer?

Dentre as crueldades da organização social capitalista, produtivista e excludente, a que acomete os idosos é das mais facínoras.

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Foto: Sven Mieke / Unsplash

“- Presidentes como Trump e George Bush cumpriram seus mandatos sem envelhecer

– Qual o mérito de não envelhecer?”

(Transcrição do Quadrinho de Daquiri, de Caco Galhardo, dia 05/10/19, na Ilustrada)

A gerofobia [do grego “gero” (velho) e “fobos” (temor)], principalmente quando associada a questões de gênero, classe e etnia, escancara a inevitabilidade da marginalização de grupos minoritários em meio à lógica dominante, alterocída – que constitui o outro não como semelhante, mas objeto a desfazer-se. Apesar de nesta o individualismo ser lei, pretere-se que a contraditória reprodução deste preconceito seja uma auto-agressão, só não literal por diferença temporal. Na falta de empatia, culpemos a dor narcísica: pensar na velhice não é apenas uma questão política, mas um encontro com os mais pessoais fantasmas.

Dentre as crueldades da organização social capitalista, produtivista e excludente, a que acomete os idosos é das mais facínoras. Nesta, as relações são dadas em um contexto de funcionalidade via comunidade humana. Membros de certas faixas etárias são fisiologicamente incompatíveis com o trabalho, portanto, não possuem força à venda, tampouco investimento sob seu capital humano. Assim, são inativos na geração de mais-valia ao capital, constituindo a sórdida população economicamente inativa, em soma com a impossibilidade de compor o exército de reserva. Como agravante, o presidente et caterva ataca o mínimo que permitiria o idoso a participar da vida social, o que não é benefício, mas direito: no cenário atual, as políticas públicas são compreendidas como desperdícios, mamatas. Uma ilustração de como isso é considerado um fardo é a culpabilização da aposentadoria por rombos econômicos obtusos – menos as gordas nos bolsos e cuecas de alguém no auge da virilidade, em cargo de poder.

A dimensão subjetiva da velhice e os estigmas perpassam por outros âmbitos, únicos em cada individualidade. A persistência dos lutos convida o idoso a pensar no seu dial como uma passiva espera. Deve-se, todavia, convir que, se todos os sujeitos, conforme suas possibilidades, são responsáveis pelos seus gozos, senhores e senhoras são sujeitos desejantes ativos. Viver há tempo é uma honra em país no qual a expectativa não excedia os 45,5 há menos de 80 anos (fonte: IBGE). As temidas e incertas dificuldades decorrentes disto são consequências, não fins. Citando um médico que cuida de um ente querido, “ficam doentes os que tiveram o privilégio de envelhecer”. Nesse contexto de longa esperança de vida, atualidades como as invenções tecnológicas, os auxílios à vida sexual, a psicoterapia, medicina e a atemporalidade das paixões, dos encontros e reencontros, são fatores de bem-estar e longevidade que muito podem agregar à população envolvida: “o novo sempre vem”.

Uma descrição das potências da terceira idade está na obra de Jung. Localizando as ressalvas em questões época, o “místico” foi um dos estudiosos dos processos humanos, autor da Teoria da Individuação, que aponta ganhos à alma conforme os anos e as experiências fluem. O terapeuta, que inclusive atendia preferencialmente sujeitos com mais de 42 anos, valorizava pessoas mais velhas nas análises, retratando a beleza desafiadora de estar com pessoas estabelecidas, que fizeram muitas escolhas e receberam várias demandas da vida: o tempo seria conveniente na procura do sentido último do si-mesmo. Em suma, a experiência de estar com um idoso ou ser um é uma peripécia arqueológica em um grande universo, uma volta a inúmeras aventuras, e por fim, um acerto de contas com a existência.

Em virtude às ambivalências apresentadas, infere-se a dor própria e social de haver existências com tantas riquezas em um mundo de miséria moral. Idosos do mundo, pessoas sujeitas ao envelhecimento, uni-vos.

(As sugestões de leitura são duas, uma de crônicas poéticas e outra de um romance ao lirismo: “Velhos são os Outros”, de Andréa Pachá e “A Máquina de Fazer Espanhóis”, de Valter Hugo Mãe.)

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.

Paula Akkari é estudante de Psicologia na PUC-SP e foi intercambista na Universidade do Porto. Além de possuir experiência na área da Educação, é Diretora de RH na PsicoPUCJr e escritora.

Saúde

Produtos e produtores das violências

Violência é um conceito polissêmico, vigente na transgressão e constituição das leis, posto em prática tanto pela execução quanto abstenção de atividades.

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Foto: Randy Colas / Unsplash

Há uma combinação da baixa disponibilidade de recursos sublimatórios de pulsões destrutivas com as ações inescrupulosas dos poderosos para manterem suas posições. A situação é agravada com fatores sociais de risco como desigualdade, baixa mobilidade, gentrificação, equivocada condução da política de drogas e baixo acesso à saúde e educação. O resultado é uma tragédia anunciada: a persistência da violência, forma na qual as opressões, dominações e exclusões se realizam.

“Violência” é um conceito polissêmico, vigente na transgressão e constituição das leis, posto em prática tanto pela execução quanto abstenção de atividades.

Marilena Chauí apresenta a concepção de que são violentas todas as formas de ação, pensamento e sentimento que desconsideram o próximo como pessoa e o objetificam para manipulação. Por mais, aponta suas bases estruturais de hierarquia, verticalização e naturalização da relação mando-obediência. Também expõe dispositivos que as solapam: exemplos deles são os discursos do direito, com a tradição de localizar a violência em crimes contra a propriedade e vida e exigir provas, às vezes invisíveis, de todas as denúncias; do sociológico, quando considera-as um momento de anomia social, e dos meios de comunicação que descrevem-na como “onda” ou “crise”, separam “o outro violento” e o “eu não-violento” e distinguem “essencial” de “acidental”, produzindo a ideia de que a violência é alheia a si mesmo e superficial.

As repercurssões objetivas disso ocorrem nos âmbitos macropolíticos, como os econômicos e jurídicos. Enfim, são parte de um projeto político, ciclicamente, ocasionando mais violência ainda.

Quanto aos impactos subjetivos, agravados pela falta de perspectivas de mudanças nas contingências conjunturais – quando há, inclusive elogios às mais cruéis, como tortura e afins – é necessário destacar o que deveria ser obviedade: a violência alastra as mais perigosas e dolorosas consequências mentais e comportamentais.

Freud explica: após o cessar-fogo europeu em 1918, o pai da psicanálise publicou, em “Além do Princípio de Prazer” suas considerações sobre as neuroses traumáticas, quadros de sofrimento psíquico respondentes à barbárie até então vigente.  Na obra, alegou que “a terrível guerra que há pouco findou deu origem a um grande número de doenças deste tipo”.

As questões em pauta não são datadas. A literatura psicanalítica descreve e atualiza os conceitos de violência traumática. O trauma pode ser evidenciado de forma positiva (inclusive na forma de sonhos) resultando em produção de angústia. Há, contudo, um grupo de fenômenos relacionados a sua transmissão mais difíceis de detectar, que se passam nas entrelinhas, sobre os quais não se fala. Esses são ocasionados pela desautorização, culpabilização e falta de compreensão do luto, que se estagna.

O traumático que se passa no silêncio corrói as compreensões e enfim retorna. Uma ilustração é o clichê “o filho que apanha será o pai que bate”: nela, o passado se apresenta como um futuro acabado. Eis, portanto, a importância do reconhecimento, da partilha do sensível, que permitem a capacidade de olhar para o futuro sem imaginar que ele seja uma mera repetição da dor.

Assim, evidencia-se a necessidade de expandir a compreensão sobre a violência e refutar os  desonestos discursos restritivos que tentam circunscrevê-la à criminalidade e ao espaço público. Também é essencial autorizar os sofrimentos resultantes, tão dolorosamente convocados a um enterro sem luto. Por fim, resta atentar-se aos poderosos cujos interesses a mobilizam. E ter como prioridade vigiá-los (ou derrubá-los) antes que outros atos violentos sejam autorizados ou executados por eles e seus representantes.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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Saúde

O que são as massas?

Massa não é um termo exclusivamente relacionado à política, mas sim a experiências de grupo.

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Foto: Nicholas Green / Unsplash

A coloquialidade “massa de manobra” é frequentemente utilizada como ad hominem em discussões políticas – o que já seria uma aberração argumentativa mesmo sem finalidade de silenciar o interlocutor. Enquanto a informação ainda tem valor, a Psicologia propõe uma explicação sobre o tal fenômeno de massificação, levando ao seu reconhecimento e a possibilidades de organização alternativas.

“Massa” não é um termo exclusivamente relacionado à política, mas sim às experiências de grupo. Elas são diversas, indissociáveis do cotidiano; e não representações de fraquezas ou inautenticidades, conforme o senso comum sugere.

A coletividade pode ser confortável – Freud a compara, a níveis psíquicos, com a proteção paterna frente às turbulências da busca por autonomia. Em meio, pois, ao mal-estar na civilização e às questões identitárias, a mais simples prática de colaboração mostra-se muito atraente. Nesse contexto, exercícios como competições regradas entre grupos são lúdicas perto da sangrenta briga por sobrevivência individual. Torcer por um deles é estimulante como ter pão e circo. O amparo de encontrar seus desejos e sofrimentos compartilhados com os demais (portanto autorizados) é um alívio prazeroso.

O alarmante é a aglomeração que ultrapassa os limites desse princípio. Ademais, são terríveis os que incentivam esse movimento, assim como os interesses que mobilizam seus desejos. Em uma equação complexa com outras variáveis que não são acessíveis à consciência, a experiência de grupo pode se transformar no que há de mais periculoso na humanidade: a formação de uma totalidade homogênea, fortemente conectada por um caráter de ideologia (ou ficção coletiva). Isso é a massa. A história do século passado é uma explícita ilustração recente das consequências de sua manipulação por um líder inescrupuloso.

O processo de formação da massa envolve mais que a união de sujeitos em coletividades, mas as dissoluções de suas identidades individuais e suas identificações com figuras horizontais e verticais. Assim, em sua formação, coloca-se um líder – que pode ser uma persona, uma ideia ou um time – em posição vertical. Consequentemente, seus seguidores se reconhecem como tais, criando um vínculo identificativo horizontal. Juntos, eles agem como uma unidade viva, dócil e alienadamente a seguir a autoridade, em um processo freudianamente descrito como tomada adoção de uma figura parental que ocupa seus supereus e ideais de ego. Esse resultado de estrutura simbólica de pertencimento conduz à negação das diferenças e criação de inimigos comuns. Um deles é o “bode expiatório”, no qual o grupo projeta seus próprios aspectos sombrios e nele procura desmantelá-los.

Além do mais, com a introjeção da lei e identificação com a potência do pai primevo, o fenômeno ocasiona outros efeitos regressivos. Cita-se, assim, a desindividualização:  diluído na multidão, o indivíduo perde os anteriores parâmetros que estabeleciam a forma com que compreendia a si e a realidade externa. É feita sua substituição pela isenção de responsabilidade pessoal e delegação de formação de opiniões para o grupo e seus representantes. É nesse estado que acontecem outras reduções, como a das capacidades pensar e discriminar. Crescem, todavia, as covardias morais, ocasionando passagens para atos (como liberação de impulsos sexuais, agressivos e incivilizados) que não seriam realizados em casos de separação individual.

É evidente que as massas envolvem fatores de carências inconscientes e vazões a desejos particulares. Algumas contingências, entretanto, podem evitar suas manipulações como estratégia política. Uma vez que o autoritarismo e o controle social as incentiva, o clima desfavorável à vulnerabilidade é instigado via características opostas a estes, como descentralização no uso das informações, liberdade a seu acesso, independência para formação de opiniões individuais e diferenciação entre essas e decisões coletivas.

Por fim, há Freud em sua conclusão de Psicologia das Massas:

“A massa é extraordinariamente influenciável e crédula, é acrítica, o improvável não existe para ela. Pensa em imagens que evocam umas às outras associativamente, como no indivíduo em estado de livre devaneio, e que não têm sua coincidência com a realidade medida por uma instância razoável. Os sentimentos da massa são sempre muito simples e muito exaltados. Ela não conhece dúvida nem incerteza. Ela vai prontamente a extremos; a suspeita exteriorizada se transforma de imediato em certeza indiscutível, um germe de antipatia se torna um ódio selvagem.
Quem quiser influir sobre ela, não necessita medir logicamente os argumentos; deve pintar com imagens mais fortes, exagerar e sempre repetir a mesma fala.”

[Qualquer semelhança com os que divulgam a inverossímil ameaça “comunista”, divulgam notícias falsas (fake news) e repetem “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” não é mera coincidência.]

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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