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Saúde

Diálogos da maconha

Imperdível. O Jornal 140 destaca os principais (e inusitados) trechos do programa Globo News Política com a senadora Mara Gabrilli e o ministro da Cidadania Osmar Terra sobe o tema.

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Ilustração de Gabriela Yaroslavsky/140 Design.

A cobertura da imprensa brasileira sobre as etapas da regulamentação do uso medicinal da Cannabis pela Anvisa tem crescido: foram 31.700 notícias encontradas na plataforma da News Monitor com a palavra “maconha” este ano, 6.606 até o dia 23 de outubro e 25.400 com a palavra “cannabis”. Os diálogos na TV brasileira, no entanto, são escassos. O Jornal 140 tem acompanhado o debate e publicou este ano uma entrevista com a médica Paula Dall Stella, o conteúdo mais acessado do Jornal 140 até hoje, em número de visitantes, comentários nas redes sociais e views no vídeo (leia a matéria e veja o vídeo aqui).

Para quem acompanha o assunto, o Jornal 140 transcreve abaixo partes dos diálogos civilizados e inusitados, do programa Globo News Política, exibido no dia 11 de outubro de 2019. O programa teve a participação da senadora Mara Gabrilli, do PSDB e do ministro da Cidadania Osmar Terra e foi intermediado pelo jornalista João Camarotti. O programa está disponível para assinantes das operadoras que tenham o pacote que inclui o canal Globo News no app Globosat Play (e que pode ser acessado em qualquer dispositivo, a qualquer tempo). Vejam vocês:

Osmar Terra: Trabalho com evidências científicas. A maconha tem 480 substâncias diferentes. Quem fuma maconha coloca para dentro estas mesmas 480 substancias. Valentim Gentil Filho, o psiquiatra que mais entende de esquizofrenia no Brasil, da USP, diz que se ele pudesse proibir uma única droga proibiria a maconha, tal o dano que ela causa a médio e longo prazo. O que se quer mesmo é abrir as portas para o plantio generalizado e o uso da droga no Brasil … fiz um levantamento de 21 mil estudos científicos em mais de 4,000 revistas no mundo, não li todos. 90% dos estudos apontam danos severos a médio e longo prazo.

O que não impede de se discutir coisas positivas. Uma das substâncias, o canabidiol, tem efeito cientifico benéfico comprovado. Temos de garantir o canabidiol para as pessoas que precisam.

Agora, se houver uma outra molécula que traga efeitos benéficos que se faça o mesmo. Até hoje, no entanto, os relatos de benefícios são muito pequenos. O número de pessoas beneficiadas é muito pequeno, são doenças raras.

A verdade é que há um lobby econômico poderoso tentando empurrar goela abaixo a maconha no Brasil como ocorre em alguns lugares no mundo. Querem fazer um investimento de 15 bilhões de dólares, são grandes empresas, eles estão preocupados com o lucro, não estão preocupados com a população.

Mara Gabrilli: ministro, são 15 milhões de brasileiros que tem doenças raras! Não podemos de forma alguma de desdenhar o número de pessoas que talvez se beneficiem de algum tratamento com cannabis medicinal. Discordo completamente do senhor e do Gentil. Conheço muito mais pessoas com problemas com outras drogas e bebidas. Existem 100 famílias com habeas corpus para plantar maconha no Brasil e mais 1.000 pacientes individuais plantando. A tendência disso é crescer e se multiplicar.

A regulamentação do plantio é importante porque não deixa isso na mão dos pacientes e muito menos nas organizações que vem fornecendo aos pacientes – mas se consegue controlar muito mais. Tem de seguir regras, segurança etc. Estamos falando de um medicamento.

O ministro fala que não há evidencias. Eu mergulhei em sistemas. Só nos EUA há 540 estudos nas fases 3 e 4.

Osmar Terra: Ha uma confusão: dizer que maconha é medicinal, é remédio. Maconha não é remédio. Tem 480 substancias etc. que causam câncer de testículo, câncer de pulmão mais do que o tabaco, causam retardo mental, esquizofrenia. Apenas o canabidiol não causa nada e traz benefícios. Tem um laboratório no Parana que já está fazendo o canabidiol sintético em fase de experimentação.

O que muitas pessoas estão fazendo é o óleo da planta, sem saber dose, sem saber nada.

Mara Gabrilli: Por isso que é preciso regulamentar! Mechoulam [Nota do Jornal 140: professor e Doutor em Química Raphael Mechoulam, da Academia de Ciências e Humanidades de Israel], fez um estudo em 1964 sem saber que a planta era o “demônio” que pintavam que mostrou que é a interação dos canabinoides que faz a diferença no corpo das pessoas. Aí pergunto para o ministro: você acha que Israel, um pais da maior seriedade, um pais que preserva muito a segurança pública, que já regulamentaram a cannabis medicinal há 20 anos, está viajando? Você acha que o Canadá está viajando? Os EUA, a Austrália, a Alemanha, até a Itália, Inglaterra, os países da América do Sul – já são 40 países evoluindo e falando de cannabis medicinal.

Estou tomando Mevatyl, que é o único remédio com autorização da Anvisa, que tem THC (que traz na bula o alerta de que se você é usuário da maconha não pode consumir o medicamento), como aparecem contraindicações nas bulas do Rivotril, da Gabapentina, de muitos outros medicamentos aparece a informação que não se pode beber. Sempre digo que o veneno é a dose e não a droga em si. Por isso é importante abrir a porta da pesquisa. O que se tem aqui é um cenário para fechar a porta para a pesquisa cientifica. Não estamos apenas falando em epilepsia refratária, de muitas e muitas doenças.

Como no meu caso, que tenho lesão medular, quebrei o pescoço, tenho muitos movimentos involuntários, os espasmos. Quanto mais forte eu fui ficando muscularmente, os espasmos vêm na mesma medida da minha forca. Eu tramitei o direito na Anvisa de portar canabidiol, paguei uma fortuna, importei da Inglaterra (o Purodiol, cannabidiol puro), e posso dizer que não foi legal para mim, desenvolvi uma epilepsia visceral, uma monoclonia por conta disso. Isso não quer dizer que não faça bem para outras pessoas. O que fez bem para mim? Foi a interação de vários canabinóides, e quando tomei em outras situações quando estava fazendo protocolos de pesquisa em outros países eu nunca me interessei para saber se tinha 40% disso 50% daquilo, eu simplesmente foi lá e tomei. Aliás eu tomo 50 suplementos nutricionais por dia, o que acho exagerado, mas que são prescritos pelo meu nutricionista.

Osmar Terra: Milhões de mães não concordam, viram os seus filhos irem para o mundo das drogas. Meninos que não tinham nenhuma doença, que eram saudáveis que ficaram incapacitados. Disseram para ele que maconha era remédio, que não tinha problema nenhum usar, começou a usar, ficou dependente, ou com psicose ou problemas graves de saúde e começou a usar outras drogas a partir daí. Foi o que aconteceu na Califórnia. 90% das pessoas que usavam pagavam 80 dólares pela receita e não tinham doença alguma, compravam para consumo recreativo e depois se generalizou o consumo recreativo com todos os problemas que causam isso. A maconha é hoje o maior problema de “ interdição”, incapazes de exercer qualquer função.

Mara Gabrilli: Pesquisamos em todo o mundo alguém que tenha morrido de fumar maconha e não existe isso que estamos discutindo. Todos os países que liberaram maconha medicinal não voltaram atrás.

Existem casos de pessoas viciadas em cocaína e crack que fizeram tratamento para diminuir o vício com canabidiol. Temos um sistema de endocanabinóide dentro de nós que espera a chegada desta substância.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.

Os artigos publicados em nome da Redação 140 são de responsabilidade dos responsáveis por este site de notícias. Entre em contato caso tenha alguma observação em relação às informações aqui contidas.

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Saúde

Produtos e produtores das violências

Violência é um conceito polissêmico, vigente na transgressão e constituição das leis, posto em prática tanto pela execução quanto abstenção de atividades.

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Foto: Randy Colas / Unsplash

Há uma combinação da baixa disponibilidade de recursos sublimatórios de pulsões destrutivas com as ações inescrupulosas dos poderosos para manterem suas posições. A situação é agravada com fatores sociais de risco como desigualdade, baixa mobilidade, gentrificação, equivocada condução da política de drogas e baixo acesso à saúde e educação. O resultado é uma tragédia anunciada: a persistência da violência, forma na qual as opressões, dominações e exclusões se realizam.

“Violência” é um conceito polissêmico, vigente na transgressão e constituição das leis, posto em prática tanto pela execução quanto abstenção de atividades.

Marilena Chauí apresenta a concepção de que são violentas todas as formas de ação, pensamento e sentimento que desconsideram o próximo como pessoa e o objetificam para manipulação. Por mais, aponta suas bases estruturais de hierarquia, verticalização e naturalização da relação mando-obediência. Também expõe dispositivos que as solapam: exemplos deles são os discursos do direito, com a tradição de localizar a violência em crimes contra a propriedade e vida e exigir provas, às vezes invisíveis, de todas as denúncias; do sociológico, quando considera-as um momento de anomia social, e dos meios de comunicação que descrevem-na como “onda” ou “crise”, separam “o outro violento” e o “eu não-violento” e distinguem “essencial” de “acidental”, produzindo a ideia de que a violência é alheia a si mesmo e superficial.

As repercurssões objetivas disso ocorrem nos âmbitos macropolíticos, como os econômicos e jurídicos. Enfim, são parte de um projeto político, ciclicamente, ocasionando mais violência ainda.

Quanto aos impactos subjetivos, agravados pela falta de perspectivas de mudanças nas contingências conjunturais – quando há, inclusive elogios às mais cruéis, como tortura e afins – é necessário destacar o que deveria ser obviedade: a violência alastra as mais perigosas e dolorosas consequências mentais e comportamentais.

Freud explica: após o cessar-fogo europeu em 1918, o pai da psicanálise publicou, em “Além do Princípio de Prazer” suas considerações sobre as neuroses traumáticas, quadros de sofrimento psíquico respondentes à barbárie até então vigente.  Na obra, alegou que “a terrível guerra que há pouco findou deu origem a um grande número de doenças deste tipo”.

As questões em pauta não são datadas. A literatura psicanalítica descreve e atualiza os conceitos de violência traumática. O trauma pode ser evidenciado de forma positiva (inclusive na forma de sonhos) resultando em produção de angústia. Há, contudo, um grupo de fenômenos relacionados a sua transmissão mais difíceis de detectar, que se passam nas entrelinhas, sobre os quais não se fala. Esses são ocasionados pela desautorização, culpabilização e falta de compreensão do luto, que se estagna.

O traumático que se passa no silêncio corrói as compreensões e enfim retorna. Uma ilustração é o clichê “o filho que apanha será o pai que bate”: nela, o passado se apresenta como um futuro acabado. Eis, portanto, a importância do reconhecimento, da partilha do sensível, que permitem a capacidade de olhar para o futuro sem imaginar que ele seja uma mera repetição da dor.

Assim, evidencia-se a necessidade de expandir a compreensão sobre a violência e refutar os  desonestos discursos restritivos que tentam circunscrevê-la à criminalidade e ao espaço público. Também é essencial autorizar os sofrimentos resultantes, tão dolorosamente convocados a um enterro sem luto. Por fim, resta atentar-se aos poderosos cujos interesses a mobilizam. E ter como prioridade vigiá-los (ou derrubá-los) antes que outros atos violentos sejam autorizados ou executados por eles e seus representantes.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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Saúde

O que são as massas?

Massa não é um termo exclusivamente relacionado à política, mas sim a experiências de grupo.

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Foto: Nicholas Green / Unsplash

A coloquialidade “massa de manobra” é frequentemente utilizada como ad hominem em discussões políticas – o que já seria uma aberração argumentativa mesmo sem finalidade de silenciar o interlocutor. Enquanto a informação ainda tem valor, a Psicologia propõe uma explicação sobre o tal fenômeno de massificação, levando ao seu reconhecimento e a possibilidades de organização alternativas.

“Massa” não é um termo exclusivamente relacionado à política, mas sim às experiências de grupo. Elas são diversas, indissociáveis do cotidiano; e não representações de fraquezas ou inautenticidades, conforme o senso comum sugere.

A coletividade pode ser confortável – Freud a compara, a níveis psíquicos, com a proteção paterna frente às turbulências da busca por autonomia. Em meio, pois, ao mal-estar na civilização e às questões identitárias, a mais simples prática de colaboração mostra-se muito atraente. Nesse contexto, exercícios como competições regradas entre grupos são lúdicas perto da sangrenta briga por sobrevivência individual. Torcer por um deles é estimulante como ter pão e circo. O amparo de encontrar seus desejos e sofrimentos compartilhados com os demais (portanto autorizados) é um alívio prazeroso.

O alarmante é a aglomeração que ultrapassa os limites desse princípio. Ademais, são terríveis os que incentivam esse movimento, assim como os interesses que mobilizam seus desejos. Em uma equação complexa com outras variáveis que não são acessíveis à consciência, a experiência de grupo pode se transformar no que há de mais periculoso na humanidade: a formação de uma totalidade homogênea, fortemente conectada por um caráter de ideologia (ou ficção coletiva). Isso é a massa. A história do século passado é uma explícita ilustração recente das consequências de sua manipulação por um líder inescrupuloso.

O processo de formação da massa envolve mais que a união de sujeitos em coletividades, mas as dissoluções de suas identidades individuais e suas identificações com figuras horizontais e verticais. Assim, em sua formação, coloca-se um líder – que pode ser uma persona, uma ideia ou um time – em posição vertical. Consequentemente, seus seguidores se reconhecem como tais, criando um vínculo identificativo horizontal. Juntos, eles agem como uma unidade viva, dócil e alienadamente a seguir a autoridade, em um processo freudianamente descrito como tomada adoção de uma figura parental que ocupa seus supereus e ideais de ego. Esse resultado de estrutura simbólica de pertencimento conduz à negação das diferenças e criação de inimigos comuns. Um deles é o “bode expiatório”, no qual o grupo projeta seus próprios aspectos sombrios e nele procura desmantelá-los.

Além do mais, com a introjeção da lei e identificação com a potência do pai primevo, o fenômeno ocasiona outros efeitos regressivos. Cita-se, assim, a desindividualização:  diluído na multidão, o indivíduo perde os anteriores parâmetros que estabeleciam a forma com que compreendia a si e a realidade externa. É feita sua substituição pela isenção de responsabilidade pessoal e delegação de formação de opiniões para o grupo e seus representantes. É nesse estado que acontecem outras reduções, como a das capacidades pensar e discriminar. Crescem, todavia, as covardias morais, ocasionando passagens para atos (como liberação de impulsos sexuais, agressivos e incivilizados) que não seriam realizados em casos de separação individual.

É evidente que as massas envolvem fatores de carências inconscientes e vazões a desejos particulares. Algumas contingências, entretanto, podem evitar suas manipulações como estratégia política. Uma vez que o autoritarismo e o controle social as incentiva, o clima desfavorável à vulnerabilidade é instigado via características opostas a estes, como descentralização no uso das informações, liberdade a seu acesso, independência para formação de opiniões individuais e diferenciação entre essas e decisões coletivas.

Por fim, há Freud em sua conclusão de Psicologia das Massas:

“A massa é extraordinariamente influenciável e crédula, é acrítica, o improvável não existe para ela. Pensa em imagens que evocam umas às outras associativamente, como no indivíduo em estado de livre devaneio, e que não têm sua coincidência com a realidade medida por uma instância razoável. Os sentimentos da massa são sempre muito simples e muito exaltados. Ela não conhece dúvida nem incerteza. Ela vai prontamente a extremos; a suspeita exteriorizada se transforma de imediato em certeza indiscutível, um germe de antipatia se torna um ódio selvagem.
Quem quiser influir sobre ela, não necessita medir logicamente os argumentos; deve pintar com imagens mais fortes, exagerar e sempre repetir a mesma fala.”

[Qualquer semelhança com os que divulgam a inverossímil ameaça “comunista”, divulgam notícias falsas (fake news) e repetem “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” não é mera coincidência.]

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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