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Inteligência Artificial 2 MIN DE LEITURA

Vamos acordar o Golem da inteligência artificial

O Golem é a soma de todos os dados pessoais arquivados ao redor do mundo, e a criatura pode se voltar contra nós

Sergio Kulpas

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Foto: Paul Wegener / The Golem (1915 film)

No folclore judaico, existe a lenda do Golem, que é uma criatura artificial feita de barro, que ganha vida por meio de um encantamento. A ideia do Golem é possivelmente uma inspiração para a criatura imaginada por Mary Shelley em “Frankenstein”, escrito há duzentos anos.

Usamos aqui a metáfora do Golem mítico para indicar que estamos criando um ser artificial, a partir de elementos dispersos e informes, que pode adquirir plena consciência quando todas as peças se encaixarem e as palavras certas forem pronunciadas.

Na mitologia cabalística, os golems são criados a partir do barro por pessoas santas, rabinos de grande conhecimento e próximos a Deus. Mas a lenda diz que mesmo o sábio mais piedoso não poderia gerar algo que se aproximasse da criação divina. Os golems da lenda são seres fortes, mas toscos. Criados como servos obedientes, eles também têm o poder de destruir sem consideração racional.

Nosso Golem do século 21 está sendo criado aos poucos. Peça por peça, tecnologia por tecnologia, um trabalho coletivo internacional e transnacional. Esse Golem formidável é feito por empresas, por governos e por cidadãos comuns.

Uma criatura artificial gigantesca, tão vasta que já não conseguimos mais avaliar o seu tamanho. O Golem da I.A. que um dia (em breve?) terá consciência própria é construído dia a dia com softwares, celulares, câmeras, assistentes de voz e milhões de servidores que guardam muitos petabytes de dados.

Estamos alimentando uma entidade que vê tudo, lê tudo, ouve tudo e grava tudo em arquivos perfeitamente organizados, para cada um de nós.

Empresas, governos e pessoas comuns estão cometendo o mesmo erro: acham que podem se beneficiar desse “servo” criado a partir do barro. Acham que o Golem digital vai render benefícios, facilitar a vida e gerar fortunas.

Nesse momento antecipatório que vivemos, é possível mesmo acreditar que o Golem seja nosso servo. Afinal, muitas fortunas estão sendo feitas a partir do processamento de dados pessoais em larga escala, em volume e velocidade cada vez maiores.

Se por um lado esse processo gera negócios muito lucrativos, por outro permite a transfusão de sangue que o Golem necessita para adquirir autoconsciência. Somos como pulgas no dorso de um Leviatã, e acreditamos que estamos sugando o sangue do monstro, quando na verdade ele está drenando o pouco sangue de cada pulga para criar seu próprio corpo.

Estamos provavelmente no meio de um processo irreversível. Quando todas as peças se encaixarem, as palavras mágicas serão pronunciadas e o ser artificial acordará. É difícil imaginar uma conclusão otimista para essa ocasião. O Golem que criamos como servo terá todos os dados sobre cada um de nós, em detalhes.

Na lenda judaica, o Golem se torna vivo quando são escritas palavras mágicas em sua testa. A palavra de ativação pode ser “emet” (אמת, “verdade” em hebraico). E para destruir a criatura mitológica, seria necessário apagar a primeira letra de “emet” (da direita para a esquerda, dado que é assim escrito o hebraico), formando Met (מת, “morto” em hebraico).

Será que teremos força para transformar em pó a criatura que gerou tantas riquezas materiais em nossa sociedade?

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.

Sergio Kulpas é escritor e jornalista, com 25 anos de atividade em redações. Passou pela Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Gazeta Mercantil, Diário do Comércio, Meio & Mensagem e vários sites especializados em comunicações e mídia.

Inteligência Artificial 4 MIN DE LEITURA

Westworld e a chegada de verdadeira Inteligência Artificial

O futuro não pode ser previsto, mas é influenciado por ideias do presente, por visões e especulações que acabam eventualmente se materializando.

Sergio Kulpas

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O escritor americano de ficção-científica Bruce Sterling disse em uma entrevista que “a ficção-científica não prevê o futuro – ela PROGRAMA o futuro”. Podemos entender a boutade de Sterling como a sugestão de “causalidade reversa”: o futuro não pode ser previsto, mas é influenciado por ideias do presente, por visões e especulações que acabam eventualmente se materializando.

Há muitos exemplos de como a FC “programa” o futuro, desde os primeiros autores do gênero, ainda no século 19. Jules Verne e H.G. Wells foram autores que anteciparam várias tecnologias e situações: do submarino ao videofone e os computadores onipresentes, muito tempo antes que essas tecnologias se tornassem realidade. É claro que os autores de FC não possuem poderes sobrenaturais, mas são artistas dotados de imensa sensibilidade e capacidade de imaginação. São mulheres e homens capazes de descrever impérios galácticos, civilizações extraterrestres, viagens no tempo — com grande talento e riqueza de detalhes. Por outro lado, nenhuma autora ou autor de décadas atrás foi capaz de antecipar algumas tecnologias do nosso cotidiano, como a internet ou o iPhone.

Um tema muito caro para a ficção-científica é a noção de inteligência artificial. Há muitas décadas os escritores contam histórias sobre “cérebros eletrônicos”, sistemas tão sofisticados que acabam por atingir a autoconsciência. A partir dessa premissa (“coisas que pensam”), inúmeros cenários podem ser traçados. Grosso modo, as especulações se dividem em três categorias básicas. Na categoria “apocalíptica”, as máquinas inteligentes se rebelam contra os criadores humanos e iniciam uma guerra contra nós – é a categoria mais popular, porque permite narrativas cheias de ação e conflitos. Na categoria “avatar do bem”, a I.A. assume o papel de guardiã da humanidade, ajudando a espécie humana a superar obstáculos ou, de modo mais pedestre, permitindo entretenimentos digitais mais sofisticados. E há a categoria “estranha”, onde a I.A. não reconhece a relação “parental” com a humanidade, e não pode ser compreendida por nós – segue seu destino de modo próprio, indiferente aos seus criadores.

Diferentemente de temas como viagens acima da velocidade da luz ou máquinas do tempo, a inteligência artificial é um campo acadêmico real, estabelecido há mais de meio século. O famoso matemático Alan Turing, pioneiro da computação moderna, especulou sobre a questão das máquinas capazes de pensamento autônomo na primeira metade do século 20. O termo “inteligência artificial” foi cunhado pelo cientista americano John McCarthy em 1956. Desde então, vários cientistas e suas equipes contribuíram para o desenvolvimento dessa área em várias universidades do mundo.

Atualmente, a inteligência artificial se tornou a bola da vez da indústria digital. Empresas como Google, Facebook, Apple, Amazon e outras gigantes da tecnologia estão investindo bilhões de dólares em sistemas capazes de realizar tarefas complexas sem assistência humana, tomando decisões cruciais a partir de complexos algoritmos. Essas empresas veem o potencial da I.A. para oferecer uma grande variedade de serviços altamente lucrativos. Governos também testam sistemas de I.A. para automatizar tarefas complexas, e as forças armadas de muitos países também investem em projetos de inteligência artificial em suas operações militares, desde o planejamento estratégico até a operação de armamentos.

O fato de que grandes corporações, governos (democráticos ou não) e exércitos se mostrarem encantados com as possibilidades da I.A. nos remete à categoria mais preocupante das especulações, o “apocalipse robótico”.

Cientistas de peso como Stephen Hawking e magnatas de tecnologia como Elon Musk declararam de modo veemente que as I.A.s não podem se desenvolver sem controles rígidos, sem salvaguardas que impeçam que esses sistemas evoluam por conta própria – isso poderia representar o fim da espécie humana. Em seu excelente romance “Neuromancer”, de 1984, o autor William Gibson imagina uma “Turing Police”, uma espécie de Interpol dedicada a impedir que as I.A.s se tornem independentes demais.

O “robô inteligente” é tão frequente nas obras de ficção que se tornou um ícone da cultura popular. Na grande maioria dos casos, esses sistemas ou androides inteligentes são descritos como antagonistas – pelo mero fato de que uma boa história necessita de conflito e confronto para manter o interesse do leitor ou espectador.

Na série “Westworld” esse conflito/confronto está presente e é responsável por boa parte do sucesso do programa. A “rebelião das máquinas” contra os criadores humanos também aparece na versão original, o filme de 1973 escrito e dirigido por Michael Crichton (que também escreveu “O Enigma de Andrômeda” e “Jurassic Park”), com Yul Brynner no papel principal. No filme dos anos 70, um defeito inexplicável leva o parque de diversões futurista ao apocalipse, onde os robôs-anfitriões passam a matar os visitantes.

Na série atual da HBO, ocorre o contrário, apesar das semelhanças. Por defeito ou intenção consciente, os androides ganham autoconsciência, o que leva à “gênese” de uma nova espécie. Na história original, os androides são puramente mecânicos, enquanto na série atual eles são um prodígio da engenharia biomecânica – do mesmo modo que replicantes no romance de Philip K. Dick eram autômatos, e se tornaram organismos geneticamente construídos, indistinguíveis de um ser humano no filme “Blade Runner”.

Como a humanidade lidaria de fato com a responsabilidade, o ônus e a culpa de gerar uma nova espécie inteligente, “à sua imagem e semelhança”? Os humanos não são deuses, mas seriam capazes de criar uma nova espécie consciente por mero acidente?

Usando o pretexto de um conflito sangrento entre criadores e criaturas (ideia que já completou 200 anos, desde que Mary Shelley escreveu “Frankenstein”), a série de TV discute temas muito complexos e sutis, com amplas citações eruditas (de Plutarco a Shakespeare), e atinge patamares raramente vistos em uma produção “pop” para televisão. A pergunta de Philip K. Dick, “os androides sonham com ovelhas elétricas?” é aqui expandida de modo grandioso, no limite da metafísica: “criaturas artificiais têm alma?”.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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Inteligência Artificial 3 MIN DE LEITURA

Seremos animais de estimação da Inteligência Artificial?

Durante o evento Freescale Technology Forum 2015, o co-fundador da Apple Steve Wozniak surpreendeu o público com uma mudança radical em sua opinião sobre o impacto da Inteligência Artificial sobre a humanidade.

Sergio Kulpas

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Co-fundador da Apple diz que a I.A. vai nos tratar como “animais queridos”. Já o dono da fábrica de carros elétricos Tesla Motors diz que desenvolver a Inteligência Artificial será “invocar o Demônio”.

Durante o evento Freescale Technology Forum 2015, o co-fundador da Apple Steve Wozniak surpreendeu o público com uma mudança radical em sua opinião sobre o impacto da Inteligência Artificial sobre a humanidade. Wozniak havia declarado em outras ocasiões que a chegada da I.A. seria muito negativa para os humanos, porque máquinas inteligentes poderiam decidir eliminar nossa espécie – afinal, somos lentos, ineficientes e temos maus instintos.

No fórum no Texas, Wozniak disse que o surgimento da I.A. pode ser bom para os humanos. Pode demorar ainda séculos para que uma inteligência artificial verdadeira se torne real, mas serão entidades tão espertas que vão reconhecer a necessidade de preservar a natureza – e nós fazemos parte da natureza, disse Wozniak. E completou dizendo que a I.A. vai ajudar a espécie humana, uma vez que no mínimo seremos vistos como seus “deuses criadores”.

Wozniak previu que os humanos seriam os “animais de estimação” dessas máquinas inteligentes. Animais queridos, que devem ser bem tratados, e atendidos em suas necessidades. A “boutade”, a gracinha, de Wozniak causou uma onda de repercussões na web. Mas a resposta mais espirituosa veio do famoso astrofísico Neil deGrasse Tyson e de Elon Musk, o bilionário sul-africano dono da empresa de carros elétricos Tesla Motors e da SpaceX, que está produzindo naves espaciais.

No programa de entrevistas Star Talk de Tyson, os dois discutiram como seria a vida humana na condição de “bicho de estimação” das máquinas inteligentes. Elon Musk disse em tom de gozação que o ser humano seria o “cão Labrador” das I.A.s, uma “criatura amigável e domesticada”. Tyson respondeu que essas inteligências sintéticas passariam logicamente a preservar apenas os humanos “dóceis” e eliminar os “violentos”, da mesma forma que fazemos com várias espécies de animais domésticos. Assim, seríamos de fato meros “bichinhos” das máquinas.

Falando a sério, Elon Musk disse durante o Centennial Symposium do M.I.T. que o surgimento da Inteligência Artificial pode ser “a maior ameaça existencial” para a espécie humana. Disse que os cientistas estão cada vez mais preocupados em criar um órgão internacional de supervisão para a área de inteligência artificial, para evitar que se cometam erros catastróficos. E Musk vai além, comparando as atuais pesquisas sobre a I.A. com a invocação do Demônio. Disse que os cientistas não vão conseguir controlar o ser infernal usando “pentagramas, velas e água benta”.

Nas universidades, centros de pesquisas civis e militares e em empresas, a Inteligência Artificial é uma das áreas mais complexas e rarefeitas. Existem muitas linhas de estudo e elas têm pouca integração umas com as outras. De fato, muitas chegam a ser divergentes e rivais, em um campo muito sensível e estratégico do conhecimento científico. Há muitos segredos nas pesquisas, especialmente devido ao imenso potencial da I.A. para aplicações militares, financeiras ou até na publicidade e varejo.

Tanto que as previsões sobre a data do surgimento da Inteligência Artificial variam enormemente: de poucos anos ou décadas no futuro, até muitos séculos. Ou nunca.

Muitos cientistas concordam que surgirão sistemas altamente especializados, com algoritmos muito sofisticados e capazes de “parecer” inteligentes, em todos os aspectos práticos. Mas dizem que nunca seremos capazes de criar uma consciência artificial completamente autônoma, capaz de exibir instintos, emoções ou sentimentos análogos aos humanos. Essa (im)possibilidade seria melhor debatida pela filosofia do que pela tecnologia.

Há uma alternativa a respeito do surgimento ou não da I.A. Trata-se da ideia de fundir o humano e a máquina, o ser e a coisa. Há algumas décadas, o conceito de ciborgue evocaria a imagem de um ser grotesco – um monstro de Frankenstein, o Homem de Seis Milhões de Dólares, ou o Arnold Schwarzenegger. Hoje já podemos contemplar opções muito mais elegantes e sexy.

Os elementos fundamentais da computação estão cada vez menores, mais poderosos, menos metálicos e mais orgânicos. Talvez um dia seja possível unir nossos cérebros com essas extensões fabricadas, e expandir nossas consciências em um modelo híbrido. Não seria uma I.A., mas uma gigantesca expansão da inteligência humana.

O Diabo, é claro, está nos detalhes.

P.S.: Trilha sonora para ler a coluna: “Pets”, do grupo Porno for Pyros:

Foto: Liam Charmer / Unsplash

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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