Siga-nos nas Redes Sociais

Comportamento

Papo–furado, “Salve Jorge” e a invisibilidade das mulheres traficadas

Por isso, pergunto, qual é a terceira atividade criminosa mais rentável do mundo?

Julie Damame

Publicado

em

Foto: Kat J / Unsplash

Não é papo-furado. Mas, parte considerável da sociedade brasileira insiste em culpar as vítimas dos crimes de tráfico e exploração da prostituição com preconceito e falta de informação:

43% acreditam que o tráfico de mulheres é realizado com o consentimento das vítimas. 55% acreditam que as vítimas estão em busca de vida fácil (Percepção da Sociedade sobre o Tráfico de Mulheres (Datafolha/Associação Mulheres pela Paz, 2016)).

E, é nessa falta/falha de conhecimento/comunicação que acontecem circunstâncias que poderiam ser evitadas diariamente!

Por isso, pergunto, qual é a terceira atividade criminosa mais rentável do mundo? Sim, é o tráfico de seres humanos. A novela “Salve Jorge” (2012/2013), de autoria de Glória Perez, bem denunciou essa realidade.

Calcula-se um lucro anual de, aproximadamente, 32 bilhões de dólares. Mais de 2,4 milhões de pessoas são traficadas por ano, globalmente.

Cerca de 83% das vítimas são mulheres, entre 18 e 29 anos, pobres e com baixa escolaridade. Sendo a maioria para fins de exploração sexual (43%) (Datafolha/Associação Mulheres pela Paz, 2016).

Mas, esta não é a única finalidade. O trabalho análogo à escravidão, a servidão doméstica, a adoção ilegal de crianças e adolescentes, a venda de órgãos, pele, cabelo e ossos (!!!), também representam uma parcela significativa.

A autora Tânia Teixeira Laky de Sousa, do livro “Tráfico Internacional de Mulheres – nova face de uma velha escravidão”, discorre sobre a temática:

“Embora a maior quantidade seja para exploração sexual comercial de mulheres, nós temos um crime bárbaro que ninguém estuda, nem pesquisadores, pois é muito difícil chegar a ele. É o tráfico de órgãos, tecidos, ossos e cabelos. Antes, falávamos só de tráfico de órgãos, mas querem os ossos para transplantes dentários e cabelo vale ouro. Então, a pessoa é desmontada, como se fosse um desmanche de carro para venda de peças. Na Campanha da Fraternidade, que focou o tema do tráfico de pessoas, nós colocamos os valores dos órgãos. Coração vale 100 mil dólares, pulmão tanto, rim tanto, córnea tanto. A pessoa é desmanchada para o crime organizado. Além de que nós não trabalhamos no Brasil, a questão do desaparecimento de pessoas. Quer dizer que as pessoas desaparecem, são abduzidas, nunca mais aparecem… Ou, às vezes, somem e depois aparecem, sem que haja essa informação, ou as pessoas são mortas e enterradas como indigentes. Isso tem que ser verificado. Será que foram para o desmanche de órgãos?”.

A gravidade do assunto foi veemente reconhecida por instituições internacionais, em 2000, na célebre “Convenção de Palermo das Nações Unidas”. A partir daí, sua definição foi complementada pelo “Protocolo Adicional Relativo à Prevenção, Repressão e Punição do Tráfico de Pessoas, em Especial Mulheres e Crianças” e o “Protocolo Relativo ao Combate ao Tráfico de Migrantes por Via Terrestre, Marítima e Aérea”.

Em 2004, o governo brasileiro ratificou a Convenção de Palermo. E, pasmem, o Brasil foi considerado país de origem, destino e circulação, para o tráfico de pessoas. De modo complementar, em 2010, no relatório Globalização do Crime (ONU), o Brasil aparece como o “maior fornecedor de escravas sexuais da América Latina” (Pesquisa Nacional sobre Tráfico de Crianças, Mulheres e Adolescentes para Fins de Exploração Sexual – Pestraf).

A realidade é que sabemos disso, sim. Quem já não escutou sobre algum parente/vizinho/conhecido que casou com alguma menina, bem mais nova, simplesmente, para ser “bem cuidado”? Que acabou por negociar com os pais dela, que, em sua maioria, estão em situação de vulnerabilidade, com a abordagem de tomar conta ou em troca de alguns trocados? Ou, quem já não sofreu algum assédio suspeito para um “trabalho”/“intercâmbio” dos sonhos?…

Tantos são os casos, todos emblemáticos e pouco discutidos.

A novela “Salve Jorge” tentou expor esse crime invisível, baseando-se em histórias reais e sob a perspectiva da exploração sexual. Inclusive, a partir de três símbolos da luta contra o tráfico de mulheres, Simone Borges, Kelly Fernanda Martins e Ana Lúcia Furtado.

Simone, que pretendia trabalhar em um bar, na Espanha, a fim de juntar dinheiro para o enxoval do casamento, acabou sendo obrigada a se prostituir.

Kelly, que viajou para trabalhar como garçonete em Israel, logo na chegada, teve o seu passaporte confiscado pela máfia russa e foi forçada a manter relações sexuais com mais de 10 homens por dia, em jornadas de, aproximadamente, 13 horas.

Ambas mortas.

De modo semelhante, Ana Lúcia Furtado, prima de Kelly, passou pela prostituição no exterior, mas acabou resgatada, graças a uma advogada que acreditou na sua história. Ao voltar ao Brasil, narrou todo o seu drama à autora da novela, confirmando que conseguiram salvar um total de oito vítimas do tráfico e prostituição, todas mulheres brasileiras.

A descrição dos acontecimentos converge com o que é estudado pelos pesquisadores. Conforme o Relatório Global (2014), realizado pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes, os fluxos transregionais de tráfico de pessoas são detectados em países ricos, como os do Oriente Médio, da Europa Ocidental e da América do Norte. E os países de origem, das vítimas, são os do “Sul e Leste Global”, especialmente, as regiões do Leste e do Sul da Ásia, da América Latina, das Bahamas e da África.

Verifica-se uma correlação entre o PIB do país de destino e o do país de origem. Constata-se, portanto, que as vítimas, em sua maioria, têm uma expectativa de melhora de vida com o trabalho (e não em uma vida fácil, totalmente o contrário do que alguns pensam!). Querem emigrar devido a conflitos e guerras em seus países, às dificuldades econômicas, às instabilidades política e social, aos desastres naturais, à ineficácia das leis e ao desinteresse do Estado, entre outros (Global Report On Trafficking In Persons, 2014).

No caso específico do Brasil, nota-se que a insegurança socioeconômica e a baixa escolaridade refletem na decisão de mudança. Geralmente, as mulheres vítimas de exploração sexual são jovens e possuem filhos – o que repercute no ímpeto pela mudança e na maior facilidade em acreditar nas promessas.

A abordagem é muito semelhante em todas as espécies de tráfico de pessoas. Os aliciadores se aproximam das vítimas através de parentes, de redes sociais e/ou amigos. São pessoas que ostentam um estilo de vida luxuoso e com alto poder aquisitivo, atraindo suas “presas” por meio de promessas de melhores condições de vida, mediante empregos, prostituição lucrativa, casamento ou outros.

A vítima sofre ameaças, maus-tratos, estupros, abusos, negligências, exposições a doenças e humilhações periódicas dos clientes, aliciadores e chefes das organizações criminosas. Até mesmo, os aliciadores podem estar em conjuntura semelhante.

Não preciso nem comentar o tamanho dos traumas psicológicos e físicos que as vítimas sofrem. Se não acabarem, antes, mortas.

Exatamente por isso, no Brasil, diversas políticas públicas foram adotadas para o combate a esse tipo de crime, como a Política Nacional de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas (PNETP) e os planos nacionais. Ademais, contamos com os núcleos e comitês especializados, a cooperação jurídica internacional sobre os crimes transacionais, o “Ligue 180” (central para denúncias que funciona 24 horas) e os postos/centros de acolhimento.

Porém, tudo isso ainda não é suficiente. As políticas podem estar sendo executadas, mas não com a divulgação necessária. A sociedade brasileira sabe da existência do crime, todavia ignora que os criminosos estejam “logo aí” e em tamanha proporção!

Pesquisas confirmam que 87% dos brasileiros concordam que faltam informações sobre tema do tráfico na mídia (Datafolha/Associação Mulheres pela Paz, 2016).

Este é o papel – verdadeiro – que a novela “Salve Jorge” teve. Denunciar.

Independentemente, se nós não vemos esse fato de forma expressiva no nosso cotidiano, se nós pensamos que tudo não passa de “papo furado de marketing social”: tráfico de pessoas, especialmente de mulheres e crianças, existe. Em larga escala. Todos os dias. No mundo todo.

E o conhecimento disseminado sobre a matéria é o primeiro passo para afastarmos as possíveis vítimas de situações perigosas ou duvidosas.

Precisamos persistir e continuar falando sobre o tema. Todos nós somos responsáveis!

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.

Julie Damame é Fundadora do Projeto Impacto Mulher, palestrante e ativista dos direitos humanos e contra a violência à mulher. Formada em Relações Internacionais no Brasil e na Espanha, graduanda em Direito e pós-graduanda em Direito Penal e Criminologia. Especialista em Justiça Criminal e Transtornos Mentais nos EUA.

Continuar Lendo
Clique para comentar

You must be logged in to post a comment Login

Escreva um Comentário

Comportamento

A era do “capitalismo de vigilância”: a matéria-prima somos nós

Na nova era capitalista, a sociedade está separada em dois grupos: os que vigiam e os que são vigiados.

Sergio Kulpas

Publicado

em

Foto: Matthew Henry / Unsplash

Em seu livro “The Age of Surveillance Capitalism – The Fight for a Human Future at the New Frontier of Power”, a autora Shoshana Zuboff define o termo logo na introdução: “Ca-pi-ta-lis-mo de Vi-gi-lân-cia”, substantivo. 1) Uma nova ordem econômica que considera a experiência humana como matéria-prima gratuita para práticas comerciais ocultas de extração, previsão e vendas; 2) Uma lógica econômica parasitária onde a produção de bens e serviços está subordinada a uma nova arquitetura mundial de modificação de comportamentos; 3) Uma mutação selvagem do capitalismo marcada por imensas concentrações de riqueza, conhecimentos e poder, em níveis inéditos na história humana; 4) A estrutura fundamental de uma economia baseada em vigilância; 5) Uma ameaça tão significativa para a natureza humana no século 21 quanto o capitalismo industrial foi para o mundo natural nos séculos 19 e 20; 6) A origem de um novo poder instrumental que exerce domínio sobre a sociedade e apresenta tremendos desafios para a democracia do mercado; 7) Um movimento que que busca impor uma nova ordem coletiva baseada na certeza absoluta; e 8) Uma expropriação de direitos humanos essenciais que pode ser compreendida como um golpe de cima para baixo: a derrubada da soberania das pessoas.

Zuboff diz que o capitalismo de vigilância funciona através da oferta de serviços “gratuitos” que bilhões de pessoas usam de modo alegre e despreocupado, e que permitem que os donos desses serviços monitorem o comportamento dos usuários com um altíssimo (e alarmante) nível de detalhes. E na maior parte do tempo, essa extração de dados sensíveis ocorre sem o conhecimento ou permissão das pessoas.

A autora diz que o capitalismo de vigilância explora as experiências humanas como matéria-prima gratuita, que é minerada e transformada em dados comportamentais. Uma parcela desses dados é usada para aprimorar os serviços, mas o restante alimenta processos produtivos que usam “machine intelligence” para prever o que as pessoas vão fazer agora e no futuro. Esses produtos de dados pessoais são então comercializados em um “mercado de futuros” de informações comportamentais. Os capitalistas de vigilância estão se tornando imensamente ricos com esse comércio de dados, já que um grande número de empresas paga muito bem por essas previsões de comportamento.

Nesse cenário, empresas como Google, Facebook, Amazon e outras aparecem como predadores ferozes que fazem os capitalistas dos séculos 19 e 20 parecerem personagens românticos. Esses novos capitalistas lucram arrogantemente com apropriação de dados privados das pessoas, como se fosse um recurso natural gratuito, de coleta livre. E usam métodos patenteados e secretos para processar esses dados, mesmo quando os usuários negaram explicitamente a permissão para isso. Para completar, os produtos lucrativos são obtidos por meio de tecnologias deliberadamente ocultas, que se aproveitam da ignorância dos usuários.

Para tornar as coisas ainda mais complicadas, esse modelo de exploração emergiu a partir de um território praticamente sem leis. O Google decidiu por conta própria que ia digitalizar e arquivar todos os livros já publicados, sem se preocupar com questões de direitos autorais. Também decidiu que ia fotografar todas as ruas e casas do mundo, sem pedir permissão a ninguém. O Facebook criou os “Beacons”, relatórios de atividades online das pessoas, que eram publicados na timeline de outras pessoas, sem o conhecimento do usuário. Esses e muitos outros exemplos de violência digital na vida privada das pessoas, usando o lema “é mais fácil pedir desculpas depois do que permissão primeiro”. As empresas avançam agressivamente na coleta de dados pessoais, e quando são flagradas fazendo isso, emitem “comunicados oficiais” se retratando e prometendo melhorar. Mas não melhoram, e ainda criam novos meios para continuar com a mesma atividade antiética e ilícita.

É essa combinação de vigilância estatal com o reforço das empresas capitalistas que cria a atual divisão na sociedade humana: os “observadores” e os “observados”, vigilantes e vigiados, exploradores e explorados (o capitalismo em sua essência clássica). Essa dinâmica atual tem consequências muito funestas para a democracia, porque essas assimetrias de conhecimento se transformam em assimetrias de poder. As sociedades democráticas ainda mantêm alguns mecanismos de controle e supervisão sobre as atividades dos governantes, mas as mega-empresas capitalistas não estão sujeitas a praticamente nenhum controle.

Essa situação não oferece uma solução simples, porque mexe justamente com a lógica de acumulação de riquezas do capitalismo de vigilância. Não existe a menor possibilidade de “auto-regulamentação” por parte dessas empresas. E Zuboff escreve em seu livro que exigir proteção à privacidade por parte dos capitalistas de vigilância seria o mesmo que exigir que o velho Henry Ford no começo do século 20 produzisse cada automóvel “Model T” à mão, um por um. É como pedir que uma girafa encolha seu pescoço, ou que uma vaca pare de pastar. Essas exigências são ameaças existenciais aos mecanismos básicos que sustentam esse modelo de exploração econômica.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
Continuar Lendo

Comportamento

As espiãs nunca vistas

As mais temidas espiãs em tempo de guerra e que (quase) ninguém foi capaz de reconhecer.

Julie Damame

Publicado

em

Foto: RyanMcGuire / Pixabay

“Não seja comum”.

Essa pequena frase ficou na minha cabeça por dias, depois de eu ter assistido a série “The Bletchley Circle: San Francisco” (Assistam!). A série de suspense acompanha a vida de quatro mulheres que ocuparam altos cargos na 2ª Guerra Mundial, em equipes de decodificação, espionagem, construção de armamentos e estratégia, e que, após o conflito, com o retorno dos homens, foram dispensadas da atuação em atividades que envolvessem segurança nacional.

Decidiram, então, iniciar um trabalho de elucidação de crimes considerados irresolúveis, para provar o valor e a capacidade que elas possuíam, especialmente, para a sociedade.

A narrativa traz um elemento muito interessante: analisar a complexa situação das mulheres que ocuparam posições com responsabilidades ainda mais significativas que seus maridos e/ou conhecidos durante a guerra, e que, para o “bom funcionamento social”, tiveram que permanecer em silêncio no pós-guerra, por exigência dos seus governos.

A realidade pode até ter sido um pouco diferente da narrativa da série, especialmente porque a maioria dos que participaram dos programas de segurança nacional, em territórios inimigos, não voltou. Contudo, os livros “The Wolves at the Door: The True Story of America’s Greatest Female Spy” (Judith L. Person), “Sisterhood of Spies” (Elizabeth P. McIntosh) e “Young, Brave & Beautiful” (Tania Szabo)” bem comprovam o papel fundamental que essas mulheres ocupam na história.

Casos como o da Virginia Hall, Princesa Noor-un-Nisa Inayat Khan, Violette Reine Elizabeth Bushell, Barbara Lauwers, Amy Elizabeth Thorpe, Maria Gulovich, Julia McWilliams Child, Marlene Dietrich, Elizabeth P. McIntosh, Genevieve Feinstein, Mary Louise Prather, Juliana Mickwitz, Odette Sansom Churchill, Josephine Baker, Hedy Lamarr, Nancy Grace Augusta Wake, e de muitas outras mulheres, inspiram.

Elas são as personificações do “não seja comum”; ou melhor, o de ser o que quiser e não o que se espera de você. Inclusive, quanto a participação em serviços ditos como, majoritariamente, masculinos.

Entre as inúmeras espiãs conhecidas, Virginia Hall se destaca, por conta do vasto conteúdo que a Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA) dispõe a seu respeito, em seu site. Seguem alguns trechos que merecem menção (livre tradução):

“Natural de Baltimore, Virginia Hall Goillot é, talvez, mais conhecida por seu serviço heroico nas Operações Especiais Executivas Britânicas e no Escritório Americano de Serviços Estratégicos, durante a 2ª Guerra Mundial, contudo, é na CIA, que ela passou mais tempo. Uma das poucas mulheres relativamente seniores do serviço clandestino, ela trabalhou em vários setores da CIA até a sua aposentadoria compulsória, em 1966, quando tinha 60 anos. Virginia fez de TUDO, apesar de ter uma perna protética de madeira, que ela chamou de Cuthbert”.

“O historiador britânico M. R. D. Foot a apelidou de “agente indomável com um pé de bronze”. O oficial do Executivo de Operações Especiais (SOE), Philippe de Vomécourt, escreveu que ele serviu na França com essa “mulher extraordinária…com uma perna de madeira”. O autor francês Marcel Ruby disse que ela perdeu a perna em um acidente com um cavalo. Outros a fizeram perder um membro depois de cair embaixo de um bonde. O ex-oficial da CIA, Harry Mahoney, descreve uma missão da OSS, na qual ela saltou de paraquedas atrás das linhas inimigas com sua “perna de pau na mochila”. A autora e ex-oficial da OSS, Elizabeth P. McIntosh, escreveu que ela desembarcou na França de barco. A Gestapo, polícia secreta nazista, colocou sua imagem em um cartaz de “procurada” e, uma vez, como a “mais perigosa entre os espiões aliados” (Judith L. Pearson. Guilford, CT: The Lyon Press, 2005, página 324).

Sua reputação fala por si. Virginia escolheu um caminho cheio de sacríficos e dificuldades, mas sua vontade de atuar no meio diplomático, impulsionou seu desejo. Teve que se condicionar a andar sem mancar para não chamar atenção, aprendeu mais de quatro idiomas, ajudou a treinar batalhões para a resistência francesa, foi correspondente e informante, livrou espiões que haviam sido capturados e executou a maior rede de auxílio em território inimigo.

No final, “os britânicos fizeram dela, membro do Império Britânico. Os Estados Unidos, concederam a ela, o reconhecimento “Distinguished Service Cross”, por heroísmo extraordinário em conexão com operações militares contra o inimigo, a única mulher civil a receber essa medalha pelo serviço da Segunda Guerra Mundial”.

Infelizmente, pouco se conhece sobre o Brasil e suas espiãs também. Temos, como exemplos, Estela Borges Morato e Jean Sarkis.

A Conferência Nacional de Polícia Política, em 1943, tratou de assuntos como espionagem, contraespionagem, métodos de reconhecimento de agentes inimigos, técnicas de investigação e de interrogatório, e discutiu, sincronicamente, se o país poderia conceder às mulheres o papel de espiãs. Esse assunto foi muito bem analisado no artigo “Gênero e Serviço Secreto”, do autor Thiago da Silva Pacheco.

Essa conferência acabou chegando a uma despicienda conclusão: “Muitos dizem, sorrindo, que a mulher é um mal necessário. Não se pode viver com elas, mas tampouco viver sem elas. Esta última afirmação parece especialmente acertada no que se refere ao trabalho de espionagem. Verá o senhor que as mulheres tomavam uma parte importante em quase todos os trabalhos de espionagem mais importantes registrados na história” (Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro. Conferência Nacional de Polícia Política. Fundo DESPS, Notação 921, página 55).

Complementa Thiago: “Dependendo de seu desempenho, [as mulheres] poderiam alcançar status enquanto agente importante numa instituição fundamental para a sustentação do Estado, e até mesmo gozar de influência e respeito entre autoridades policiais e líderes dos grupos sociais postos sob vigilância”.

A título de comparação, em 1945, o governo brasileiro infiltrou Jean Sarkis no Partido Comunista. Ela acabou sendo presa como uma subversiva e, para não ser descoberta, recusou-se a usitar suas conexões com policiais para sair da prisão. Ficou encarcerada por dois anos, sofrendo severas punições.

Ao sair, Jean conseguiu o respeito do Partido Comunista e, ao mesmo tempo, uma posição de destaque na Polícia Política, sendo considerada uma das espiãs mais bem-sucedidas do país:

“A requerente, de fato, colaborou, eficiente e patrioticamente com as autoridades deste Departamento (…) nas suas tarefas, se houve com tão elevado espírito de renúncia que, por ocasião da prisão da comunista Maria Afonso Martins, em companhia de quem se achava, e do que resultou a condenação de ambas, preferiu não revelar sua posição neste Departamento, evitando, assim, que a situação daquela agitadora fosse atenuada. Cumpriu mais de dois anos de prisão, durante a qual continuou prestando relevantes serviços, pois, elevada à condição de heroína do partido, suas possibilidades em informar aumentaram, ensejando este Departamento diligências proveitosas” (Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro. Fundo Polícias Políticas. Pront. GB 22.327).

Ou seja, no Brasil ou no mundo, independentemente de quais foram as razões que possibilitaram às mulheres tais posições de trabalho – que, definitivamente, no início, eram puro retrato de uma estrutura social machista e conservadora –, permitiu que muitas delas pudessem quebrar tabus, abrir o mercado de trabalho para outras e redefinir seus papéis sociais à época.

Em 2018, quando Gina Haspel foi nomeada a primeira diretora da CIA, em meio a muita discussão por conta da sua trajetória profissional, ela admitiu, enfaticamente, sua dívida para com todas as “heroínas que nunca buscaram aplausos do público”. Por estas mulheres, mencionando Virginia Hall, foi possível sua nomeação, que desafiou barreiras e estereótipos de gênero.

Assim, apesar de serem espiãs nunca vistas, são parte de uma parcela de mulheres que segue nos permitindo ampliar nossos horizontes.

Precisamos dessas mulheres, cada vez mais.

Não sejamos comuns.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
Continuar Lendo

Trending