Siga-nos nas Redes Sociais

Saúde

Gestão como Doença Social

A dedicação exclusiva à corporação está levando os colaboradores à doença.

Isabel Franchon

Publicado

em

Foto: Francisco Moreno / Unsplash

Não são apenas os Psicopatas Corporativos que levam uma empresa a adoecer. O título acima é do livro de Vincent de Gaulejac, que entra profundamente na organização explorando temas como a moral nos negócios, os fundamentos da ideologia e o poder gerencial, além de lançar um olhar para a psicopatologia da empresa e do indivíduo que nela trabalha.

Ao falar sobre os Psicopatas Corporativos, abordei apenas um aspecto das infinitas dificuldades que encontramos nas empresas onde trabalhamos. A psicopatia é uma doença psiquiátrica, mas vários outros comportamentos disfuncionais corriqueiros são consequência dos modelos de gestão e da filosofia do lucro a qualquer custo: o ambiente e o empregado são apenas sintomas de um sistema que está se tornando opressor ao incentivar a competição sem limites, a obsessão pelos indicadores de desempenho (custo-benefício), a exigência da excelência, o medo de fracassar, a dedicação exclusiva à corporação.

Gaulejac é sociólogo, professor emérito na UFR de Ciências Sociais de Paris – Universidade Diderot, autor de cerca de vinte livros, conhecido por sua atuação em psicossociologia, tradição francesa na análise organizacional e sobre gestão. Portanto, crítico da linha gerencialista das escolas americanas.

Ele não acredita que a gestão é um mal em si, pelo contrário. “É totalmente legítimo organizar o mundo, racionalizar a produção, preocupar-se com a rentabilidade”. Mas é enfático ao completar que “com a condição de que tais preocupações melhorem as relações humanas e a vida social”.

Será que podemos afirmar, com tranquilidade, que a gestão a que estamos submetidos realmente melhora nossas vidas, nossas relações e a sociedade como um todo?

Passamos mais da metade do nosso tempo na empresa. O que sobra, mal dá para dividir entre a família, compromissos não delegáveis, transporte e obrigações. A ilusão de que ela nos dá tempo livre porque permite trabalhar de casa, day off, horário livre, não passa de ilusão mesmo – hoje, quem não está fisicamente na empresa responde às solicitações do trabalho o tempo todo através de celulares, tablets, computadores. “Quando transportamos nosso escritório conosco, tornamo-nos livres para trabalhar 24 horas durante 24 horas!”  diz Gaulejac. Sem contar, é claro, que ao incentivar o trabalho em casa a empresa repassa o custo.

99% dos meus clientes de Coaching apresentam sinais de estafa pela necessidade de se manterem conectados o tempo todo, atendendo às necessidades (ou pseudonecessidades) de seus gestores/empresas. O “comprometimento” é a base da relação, e vem acompanhado da adaptabilidade, liderança, flexibilidade e reatividade. Ou não se é parte da empresa.

Me lembro de uma Coachee, Joana, que me procurou na pior fase de sua vida. Inteligentíssima, trabalhando em um escritório de advocacia, estava doente de corpo e alma: a terapia e os médicos não davam conta de ajudá-la. Ocorre que a empresa estava doente, não ela. Nossas sessões, marcadas para as 9h00 da noite, às vezes começavam por volta de 10h30 simplesmente porque ela não conseguia sair do escritório. As demandas, às vezes insignificantes, chegavam de última hora; revisões desnecessárias e, como se não bastasse, sua gestora, de licença maternidade, chegava a fazer 20 ligações por dia além das mensagens e e-mails. Sempre em nome da avaliação de desempenho que acontecia a cada 6 meses.

Gustavo teve uma crise de ansiedade e foi parar no hospital. Motivo? Com a avaliação de performance agendada, que definiria o novo sócio do escritório, ouviu em uma conversa de corredor que “deixava a desejar”. Seu sentimento de ter falhado, ser diminuído, inapropriado, não alcançar as metas propostas, foram demais naquele momento.

Cláudio trabalhava com qualidade em uma empresa e era o responsável pelas certificações. Diariamente era incentivado a quebrar regras e maquiar as necessidades que atendiam à legislação para evitar custos. O pedido era acompanhado da frase “se você não fizer, outro vai fazer”.

Ana, depois de quase dois anos na empresa, foi aconselhada por sua gestora a não tirar férias porque correria o risco de se tornar desnecessária e ser substituída. Bárbara entrou em colapso porque era cobrada, a cada semana, a dominar um novo processo e transmiti-lo às equipes responsáveis de cada área, como se fosse um treinador.

Enfim, são dezenas e dezenas de histórias que levam sempre ao mesmo ponto: a gestão. Como diz Gaulejac “a gestão é, definitivamente, um sistema de organização de poder”. Portanto impõe normas, regras, e uma ordem a qual todos os agentes devem se submeter.

Na era da gestão somos chamados o tempo todo a gerenciar a nós mesmos, gerenciar nosso sucesso, nossos pensamentos, nossas relações, nosso conhecimento, nossa humanidade. Esse é o tema que invade a mídia e toma conta das empresas. É o “degrau” para o sucesso!

Para sobreviver é preciso ser, cada vez mais, eficaz e produtivo. Cada um é reconhecido conforme suas capacidades de melhorar o funcionamento da empresa e o conhecimento é medido conforme sua utilidade para o bem da organização.

“A gestão é, definitivamente, um sistema de organização de poder”, segundo Gaulejac. Portanto impõe normas, regras, e uma ordem a qual todos os agentes devem se submeter. O custo é alto. A submissão ao poder de pessoas que nem sempre estão preparadas para exercê-lo, a regras e normas que nem sempre fazem sentido e à cobrança constante por parte da empresa, levam os colaboradores a um esgotamento que se transforma em doença.

Depressão, Estresse e Burnout são as mais comuns, mas o aumento no índice de suicídios tornou-se preocupante.

O Estresse é a forma mais leve, mas relevante, porque pode ser o gatilho para uma síndrome mais séria. Ele acontece quando ao reagir diante de diferentes situações que exigem um grande esforço emocional, o corpo produz adrenalina e cortisol que, em níveis normais não causam problemas, mas se atingem picos elevados afetam a saúde. Segundo pesquisa do Instituto de Psicologia e Controle do Stress (IPCS), 34% dos 2.195 entrevistados tinham um nível elevado de estresse.

Já a Depressão é uma doença psiquiátrica crônica, segundo a OMS, podendo levar ao suicídio, e afeta mais de 300 milhões de pessoas no mundo. Preocupante é que o estresse crônico pode levar à depressão.

Diretamente relacionado ao trabalho, o Burnout se desenvolve gradualmente e se manifesta através de cansaço excessivo, insônia, dores de cabeça, dificuldade de concentração, alteração do apetite e dos batimentos cardíacos, além de irritabilidade e humor variável. Pesquisa feita pela International Stress Management Association (ISMA) no Brasil em 2018 mostra que 72% dos brasileiros sofrem com alguma sequela do Burnout e, destas, 32% sofrem de Burnout.

Entre as causas estão a carga excessiva de horário, conflitos de valor no trabalho, sentimento de injustiça, falta de reconhecimento, pouca autonomia nas decisões.

A conclusão é básica: quando os funcionários adoecem, a empresa adoece junto. Ou, para sermos justos, os funcionários adoecem porque a gestão é doentia.

A verdade é que estamos no século XXI e a maioria das empresas é conduzida no modelo do século XX. Ou pior, do século XIX ! Aliás, até Taylor, considerado o pai da administração científica, parece mais progressista do que muitos gestores atuais, ao considerar que o aumento dos salários e o aumento dos lucros deviam ser parceiros!

Refletir sobre isso me leva a lembrar do sociólogo italiano Domenico De Masi, para quem é necessário refundar os modelos de vida e de produção, não para impedir o progresso, mas de modo a criar uma felicidade mais difundida.

Autor do livro O Ócio Criativo, De Masi acredita que nessa nova sociedade o modelo de trabalho antigo já não serve. Tampouco as relações empresa/empregado. Analisando o clima, diz que o que envenena é o excesso de carreirismo e a competitividade exterior, a indiferença e a suspeita recíprocas, o medo, o convívio artificial forçado, as panelinhas, as alianças, a adulação em relação a quem tem poder e a capacidade de ignorar quem não tem. Vai mais longe ainda, ao dizer que “todos os executivos já sabem que são supérfluos por ao menos quatro ou cinco horas de cada dia de trabalho” – o que chama de Servilismo Zeloso.

Aliás, o overtime, numa referência à overdose, ou workaholic, como chamam os americanos, é uma patologia de dependência – a corporação, que quer absorver o funcionário o tempo todo, e este que não consegue afastar-se dela, pois não saberia o que fazer, desorientado.

O que vemos claramente é que muita força de trabalho se tornou supérflua dentro das empresas e, ainda assim, pessoas passam horas além do expediente, trabalhando – ou como se o fizessem – em detrimento de si próprios, de suas famílias, de sua saúde. O sistema tornou-se obsoleto: a maior força de trabalho é intelectual e não braçal.

De Masi é categórico ao afirmar que “a melhor maneira para se obter uma produtividade mais alta numa empresa, e uma maior quantidade de vida fora dela, é deixando o escritório assim que acabar o horário do expediente”.

No sistema de trabalho atual as empresas saem prejudicadas porque as pessoas diminuem ou perdem a sua capacidade criativa, essencial para o trabalho intelectual. O desperdício é de inteligência humana, que merece ser medida na qualidade das ideias que produz, em sua capacidade de criar, e não pela quantidade de e-mails que envia. O cansaço psíquico, ao contrário do físico, não permite um desligamento instantâneo. Mesmo porque a criatividade não tem hora para trabalhar.

Quem já não se sentiu assim? Esgotado, sem ideias, sem ânimo, vazio?

É dessas ideias que nasce a teoria do Ócio Criativo, que De Masi diferencia totalmente do vício de ficar sem fazer nada.

“Ociar não significa não pensar”

“O ócio criativo é aquela trabalheira mental que acontece até quando estamos fisicamente parados, ou mesmo quando dormimos à noite. Significa não pensar regras obrigatórias, não ser assediado pelo cronômetro, não obedecer aos percursos da racionalidade e todas aquelas coisas que Ford e Taylor tinham inventado para bitolar o trabalho executivo e torná-lo eficiente.”

A equação é direta: quanto mais tempo se passa dentro de um escritório, menos ideias se tem. O que se deve fazer é preencher o tempo com ações que sejam escolhidas pela vontade, não pela coação ou trabalho.  De Masi defende que uma parte do nosso tempo livre deve ser dedicada a nós mesmos, ao nosso corpo e à nossa mente; outra parte à família e aos amigos; e uma outra parte à coletividade, à construção de uma sociedade. Mas habituado a não dispor de seu tempo o homem sequer sabe como usá-lo fora da empresa. A maioria das pessoas sequer sabe como descansar ou se distrair.

Há quanto tempo você não vai ao cinema ou ao teatro? Não assiste a um show ou sai para encontrar amigos? Há quanto tempo não lê um livro inteiro e não apenas citações dele na internet? Há quanto tempo não se reúne com pessoas apenas para filosofar sobre a vida?

Eu poderia falar horas sobre Domenico De Masi, especialmente sobre esta obra citada, além de outras. Principalmente porque acredito que pode contribuir muito para a verdadeira humanização nas empresas – em nenhum momento ele sugere salas de recreação, jogos, lanches especiais, cartões corporativos, benefícios inimagináveis. Ele fala sobre a alegria de ser autêntico, de aprender, de criar, de contribuir verdadeiramente para a sociedade, de viver.

“Aquele que é mestre na arte de viver faz pouca distinção entre o seu trabalho e o seu tempo livre, entre a sua mente e o seu corpo, entre a sua educação e a sua recreação, entre o seu amor e a sua religião. Distingue uma coisa da outra com dificuldade. Almeja, simplesmente, a excelência em qualquer coisa que faça, deixando aos demais a tarefa de decidir se está trabalhando ou se divertindo. Ele acredita que está sempre fazendo as duas coisas ao mesmo tempo” (de um pensamento Zen, usado por De Masi)

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.

Coach e Consultora, trabalha com Desenvolvimento Pessoal/Profissional, treinamentos e mudança Cultural em empresas, abordando temas como Compliance & Ética, Liderança & Gestão, Alta Performance e Comunicação Interpessoal, entre outros.

Saúde

Produtos e produtores das violências

Violência é um conceito polissêmico, vigente na transgressão e constituição das leis, posto em prática tanto pela execução quanto abstenção de atividades.

Publicado

em

Foto: Randy Colas / Unsplash

Há uma combinação da baixa disponibilidade de recursos sublimatórios de pulsões destrutivas com as ações inescrupulosas dos poderosos para manterem suas posições. A situação é agravada com fatores sociais de risco como desigualdade, baixa mobilidade, gentrificação, equivocada condução da política de drogas e baixo acesso à saúde e educação. O resultado é uma tragédia anunciada: a persistência da violência, forma na qual as opressões, dominações e exclusões se realizam.

“Violência” é um conceito polissêmico, vigente na transgressão e constituição das leis, posto em prática tanto pela execução quanto abstenção de atividades.

Marilena Chauí apresenta a concepção de que são violentas todas as formas de ação, pensamento e sentimento que desconsideram o próximo como pessoa e o objetificam para manipulação. Por mais, aponta suas bases estruturais de hierarquia, verticalização e naturalização da relação mando-obediência. Também expõe dispositivos que as solapam: exemplos deles são os discursos do direito, com a tradição de localizar a violência em crimes contra a propriedade e vida e exigir provas, às vezes invisíveis, de todas as denúncias; do sociológico, quando considera-as um momento de anomia social, e dos meios de comunicação que descrevem-na como “onda” ou “crise”, separam “o outro violento” e o “eu não-violento” e distinguem “essencial” de “acidental”, produzindo a ideia de que a violência é alheia a si mesmo e superficial.

As repercurssões objetivas disso ocorrem nos âmbitos macropolíticos, como os econômicos e jurídicos. Enfim, são parte de um projeto político, ciclicamente, ocasionando mais violência ainda.

Quanto aos impactos subjetivos, agravados pela falta de perspectivas de mudanças nas contingências conjunturais – quando há, inclusive elogios às mais cruéis, como tortura e afins – é necessário destacar o que deveria ser obviedade: a violência alastra as mais perigosas e dolorosas consequências mentais e comportamentais.

Freud explica: após o cessar-fogo europeu em 1918, o pai da psicanálise publicou, em “Além do Princípio de Prazer” suas considerações sobre as neuroses traumáticas, quadros de sofrimento psíquico respondentes à barbárie até então vigente.  Na obra, alegou que “a terrível guerra que há pouco findou deu origem a um grande número de doenças deste tipo”.

As questões em pauta não são datadas. A literatura psicanalítica descreve e atualiza os conceitos de violência traumática. O trauma pode ser evidenciado de forma positiva (inclusive na forma de sonhos) resultando em produção de angústia. Há, contudo, um grupo de fenômenos relacionados a sua transmissão mais difíceis de detectar, que se passam nas entrelinhas, sobre os quais não se fala. Esses são ocasionados pela desautorização, culpabilização e falta de compreensão do luto, que se estagna.

O traumático que se passa no silêncio corrói as compreensões e enfim retorna. Uma ilustração é o clichê “o filho que apanha será o pai que bate”: nela, o passado se apresenta como um futuro acabado. Eis, portanto, a importância do reconhecimento, da partilha do sensível, que permitem a capacidade de olhar para o futuro sem imaginar que ele seja uma mera repetição da dor.

Assim, evidencia-se a necessidade de expandir a compreensão sobre a violência e refutar os  desonestos discursos restritivos que tentam circunscrevê-la à criminalidade e ao espaço público. Também é essencial autorizar os sofrimentos resultantes, tão dolorosamente convocados a um enterro sem luto. Por fim, resta atentar-se aos poderosos cujos interesses a mobilizam. E ter como prioridade vigiá-los (ou derrubá-los) antes que outros atos violentos sejam autorizados ou executados por eles e seus representantes.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
Continuar Lendo

Saúde

O que são as massas?

Massa não é um termo exclusivamente relacionado à política, mas sim a experiências de grupo.

Publicado

em

Foto: Nicholas Green / Unsplash

A coloquialidade “massa de manobra” é frequentemente utilizada como ad hominem em discussões políticas – o que já seria uma aberração argumentativa mesmo sem finalidade de silenciar o interlocutor. Enquanto a informação ainda tem valor, a Psicologia propõe uma explicação sobre o tal fenômeno de massificação, levando ao seu reconhecimento e a possibilidades de organização alternativas.

“Massa” não é um termo exclusivamente relacionado à política, mas sim às experiências de grupo. Elas são diversas, indissociáveis do cotidiano; e não representações de fraquezas ou inautenticidades, conforme o senso comum sugere.

A coletividade pode ser confortável – Freud a compara, a níveis psíquicos, com a proteção paterna frente às turbulências da busca por autonomia. Em meio, pois, ao mal-estar na civilização e às questões identitárias, a mais simples prática de colaboração mostra-se muito atraente. Nesse contexto, exercícios como competições regradas entre grupos são lúdicas perto da sangrenta briga por sobrevivência individual. Torcer por um deles é estimulante como ter pão e circo. O amparo de encontrar seus desejos e sofrimentos compartilhados com os demais (portanto autorizados) é um alívio prazeroso.

O alarmante é a aglomeração que ultrapassa os limites desse princípio. Ademais, são terríveis os que incentivam esse movimento, assim como os interesses que mobilizam seus desejos. Em uma equação complexa com outras variáveis que não são acessíveis à consciência, a experiência de grupo pode se transformar no que há de mais periculoso na humanidade: a formação de uma totalidade homogênea, fortemente conectada por um caráter de ideologia (ou ficção coletiva). Isso é a massa. A história do século passado é uma explícita ilustração recente das consequências de sua manipulação por um líder inescrupuloso.

O processo de formação da massa envolve mais que a união de sujeitos em coletividades, mas as dissoluções de suas identidades individuais e suas identificações com figuras horizontais e verticais. Assim, em sua formação, coloca-se um líder – que pode ser uma persona, uma ideia ou um time – em posição vertical. Consequentemente, seus seguidores se reconhecem como tais, criando um vínculo identificativo horizontal. Juntos, eles agem como uma unidade viva, dócil e alienadamente a seguir a autoridade, em um processo freudianamente descrito como tomada adoção de uma figura parental que ocupa seus supereus e ideais de ego. Esse resultado de estrutura simbólica de pertencimento conduz à negação das diferenças e criação de inimigos comuns. Um deles é o “bode expiatório”, no qual o grupo projeta seus próprios aspectos sombrios e nele procura desmantelá-los.

Além do mais, com a introjeção da lei e identificação com a potência do pai primevo, o fenômeno ocasiona outros efeitos regressivos. Cita-se, assim, a desindividualização:  diluído na multidão, o indivíduo perde os anteriores parâmetros que estabeleciam a forma com que compreendia a si e a realidade externa. É feita sua substituição pela isenção de responsabilidade pessoal e delegação de formação de opiniões para o grupo e seus representantes. É nesse estado que acontecem outras reduções, como a das capacidades pensar e discriminar. Crescem, todavia, as covardias morais, ocasionando passagens para atos (como liberação de impulsos sexuais, agressivos e incivilizados) que não seriam realizados em casos de separação individual.

É evidente que as massas envolvem fatores de carências inconscientes e vazões a desejos particulares. Algumas contingências, entretanto, podem evitar suas manipulações como estratégia política. Uma vez que o autoritarismo e o controle social as incentiva, o clima desfavorável à vulnerabilidade é instigado via características opostas a estes, como descentralização no uso das informações, liberdade a seu acesso, independência para formação de opiniões individuais e diferenciação entre essas e decisões coletivas.

Por fim, há Freud em sua conclusão de Psicologia das Massas:

“A massa é extraordinariamente influenciável e crédula, é acrítica, o improvável não existe para ela. Pensa em imagens que evocam umas às outras associativamente, como no indivíduo em estado de livre devaneio, e que não têm sua coincidência com a realidade medida por uma instância razoável. Os sentimentos da massa são sempre muito simples e muito exaltados. Ela não conhece dúvida nem incerteza. Ela vai prontamente a extremos; a suspeita exteriorizada se transforma de imediato em certeza indiscutível, um germe de antipatia se torna um ódio selvagem.
Quem quiser influir sobre ela, não necessita medir logicamente os argumentos; deve pintar com imagens mais fortes, exagerar e sempre repetir a mesma fala.”

[Qualquer semelhança com os que divulgam a inverossímil ameaça “comunista”, divulgam notícias falsas (fake news) e repetem “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” não é mera coincidência.]

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
Continuar Lendo

Trending