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Coringa e os gritos da rua

O filme nos conduz à gênese da maldade, ao ovo da serpente, de como as mentes perturbadas conquistam espaço entre a plebe ignara

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Ilustração de Gabriela Yaroslavsky/140 Design.

Não se deve ter ilusões quanto a natureza do negócio: o cinema é uma atividade industrial desenvolvida por grandes estúdios com o objetivo de entreter o publico e apresentar resultados financeiros, como qualquer outra atividade econômica. Eventualmente, alguns produtos transcendem o principio do negócio e tornam-se mais do que isso – obras a serem discutidas, monumentos da psicologia e que refletem o incômodo das ruas. É o caso de Coringa (Joker).

O diretor Todd Philips, também responsável pelo roteiro ao lado de Scott Silver, faz bem na arte da manipulação do espectador ao contar a historia de um zé-ninguém (Joaquin Fenix) que tenta a sorte como comediante. Em Coringa, assistimos à revelação e transformação do sem-graça palhaço Arthur Fleck em uma crescente angustiante, ora torcendo por ele ora evoluindo ao lado dele com um sentimento de vingança ensandecido em um ato nada civilizatório. Mas como?

Como não se comover com a estória de um coitado que cresceu sendo espancado na rua e pelos namorados da mãe, esta também uma transtornada mental com problemas de narcisismo. O filme nos conduz à gênese da maldade, ao ovo da serpente, de como as mentes perturbadas conquistam espaço entre a plebe ignara. O roteiro da novela chega a ser irritante de tão repetido, desde Genghis Khan a Adolf Hitler, passando por Stalin e outros chefes populistas islâmicos (um acabou de ser reduzido a pó por uma bomba lançado de um drone), que também tiveram infâncias e passados dificílimos mas que se destacaram das multidões com uma combinação de discursos inflamados e carisma.

A receita é um eterno retorno – desde os tempos de Robin Hood, o ladrão “bom”, que bandeou para o mundo do crime por causa de injustiças contra ele. O diretor Anthony Wonke nos dá outra pista da genealogia de um terrorista, o cidadão britânico Mohammed Emwazi, o “Jihadi John”. Os autores do documentário, disponível no Now da NET, traz depoimentos e filmes dele desde os tempos de escola, sua transformação para o islamismo radical até se tornar um assassino impiedoso do grupo ISIS que se tornou mundialmente famoso por matar e decapitar seis estrangeiros sequestrados na Síria (Steven Sotloff, David Haines, Alan Henning, Peter Kassig, Haruna Yukawa e Kenji Goto), além de matar o jornalista James Foley.

Sem entrar na questão do espetáculo em si – o filme é ótimo e indigesto para estômagos e mentes fracas – me chamou a atenção a atuação minimalista do ator Joaquin Phoenix. É antológica a sua dança com as mãos, performance que me lembrou Kazuo Ohno, o mestre do teatro butô, que dizia que “é mais importante comunicar sem fazer nada do que comunicar com um grito”.

Mas os gritos estão nas ruas. Dia desses comentei sobre os protestos no Chile, que começaram por causa do aumento de míseros 3,75% da tarifa do metro. O mesmo ocorreu em S. Paulo em 2013 com a tentativa do prefeito Fernando Haddad de aumentar a tarifa de ônibus, que motivou uma serie de protestos violentos que se alastraram para todo o país.

Para quem, como eu que mora em S. Paulo, é impressionante como uma Gotham City noir lembra S. Paulo pela oferta de violência banal, pela quantidade de imbecis de todas as classes exibindo a sua verve demente ao empunhar seus carros como armas na mão, ultrapassando as faixas dos pedestres – e rindo nervosos. No dia seguinte em que assisti ao filme, fui enrolar o lixo em um caderno da Folha de S. Paulo (jornais impressos também são ótimos para esta finalidade) e levei um susto ao ver uma foto de um Coringa tipo black block em uma avenida no Chile ao lado de um incêndio – a vida é uma debochada cópia da arte, mas é o caso de refletirmos quem começou o que, e primeiro.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.

Fundador da Art Presse, 140 Online e do Jornal 140, empresário de comunicação, jornalista de formação e digital de paixão. Teve participação fundamental no lançamento da internet banda larga no Brasil em 1999. É autor do livro "Domingo no Sancho" (2018), Amazon Kindle.

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Dia da criatividade: 5 livros para te ajudar nesse processo

Sabia que dia 17 de novembro é comemorado o dia da criatividade? Se você está precisando de uma forcinha com a criatividade, confira a lista com 5 livros.

Êrica Blanc

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Foto: Êrica Blanc

Atualmente, tem dia para tudo, né? Dia das mães, dia dos pais, dos namorados, da gratidão, da coragem e até da criatividade. Isso mesmo, dia 17 de novembro é Dia da criatividade, essa coisinha que a gente corre tanto atrás. Sempre ficamos naquela de: criatividade é algo que nasce com a gente ou que a gente desenvolve? E como faz quando tiver bloqueio criativo? Como posso estar sempre com a criatividade em alta? Essa última pergunta, a resposta é bem simples, inclusive: só com milagre mesmo.

(mais…)

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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O homem que assistia séries demais

Desafiado a escrever sobre Euphoria, da HBO, nosso coletivista Paulo Gustavo acaba ficando positivamente surpreendido ao assistir uma série turca O Último Guardião que fala sobre o universo dos super-heróis.

Paulo Gustavo Pereira

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Foto: Alex Suprun / Unsplash

É interessante quando sou questionado sobre a quantidade de séries que assisto. A pergunta é invariavelmente, comparando com o tempo livre de quem pergunta, sempre questionando que não há tempo suficiente para ver tudo o que interessa. E é exatamente isso que é o ponto crucial no trabalho que faço ao analisar o conteúdo de séries para os textos e programas que faço. O que realmente é interessante de se assistir?

Como todo bom ser humano que cresceu vendo filmes e séries, há um momento em que ver uma série por obrigação de trabalho deixa de ser importante para ser crucial para o próximo episódio. Explico: tento ver o primeiro episódio para saber se a série tem algo diferente, uma história ou personagens que valham a pena continuar vendo. Dessa forma, já deixei de ver várias produções que viram “moda” e que, na minha análise, não trouxe nada de novo para meu HD.

Ao mesmo tempo, fico impactado quando descubro uma produção fora dos Estados Unidos, pátria-mãe das séries de TV. É uma surpresa ver que uma série turca O Ultimo Guardião que fala sobre o universo dos super-heróis; da mesma maneira que Kingdom, da Coréia, mostra uma luta da corte real do século 14 contra uma infestação de zumbis; ou mesmo a produção indiana Jogos Sagrados, onde a narração da história é feita por um personagem que morre no primeiro episódio.

É claro que não dá pra escapar das séries da moda, não por que não tenham qualidades, mas muitas vezes, é mais do mesmo. Quando muitos canais exibem séries sobre os bastidores do crime organizado ou não, descubro a beleza e a leveza de Coisa Mais Linda, da Netflix, com quatro personagens femininas que fogem felizmente do politicamente cansado empoderamento da mulher em qualquer lugar e qualquer tempo.

Quando a bola da vez chegou em Euphoria, da HBO, me chamou a atenção que a personagem principal era interpretada por Zendaya, que havia feito várias produções da Disney e recentemente se tornou o interesse amoroso de Peter Parker nos últimos dois filmes do Homem-Aranha, estrelado por Tom Holland. E mais: seria um papel totalmente diferente do que a atriz-cantora faria, algo que ela mesmo pedido para se desafiar como atriz. E não decepcionou.

Ao mesmo tempo, a Netflix lançou Sintonia, uma produção de fôlego, com roteiro muito bem escrito e com uma história que me atraiu, mesmo com vários clichês tradicionais sobre a luta de três jovens da periferia de São Paulo para subir na vida. Em Euphoria, a personagem de Zendaya tentava se descobrir no meio de uma continua adoração à drogas, desrespeito à família, e amizades complexas e confusas. Ou seja, as duas séries se comunicavam com o mesmo publico jovem, de maneiras diferentes.

Não vou entrar nessa análise mais formal sobre cada um dos pontos de cruzamentos entre Euphoria e Sintonia. O que importa nesse crossoover imaginário é que os personagens lutam para fazer a melhor escolha sobre seus futuros. E cada uma das tentativas, os leva a caminhos que podem afastá-los de seus reais destinos. Afinal, lutar para sobreviver a uma sociedade opressiva, sem a base adequada, deixa qualquer jornada heróica pendente de algo real. Não adianta lutar contra um vício se o viciado não quer enxergar suas próprias dores. Da mesma maneira, dizer que não existe saída para um jovem da periferia a não ser entrar para o crime,, a sublimar outros jovens que já lutaram e venceram essa guerra íntima.

Dito isso, não me surpreende que séries como The End of the F**ing World, Dark, The Rain e até mesmo Casa de Papel, serem as mais vistas pelos brasileiros na Netflix. Elas chamaram a atenção do publico não por que suas tramas são diferentes, mas por que elas estão ligadas a outras histórias mais identificáveis pelo telespectador. Casa de Papel fez sucesso no Brasil por sua mistura de Golpe de Mestre e Onze Homens e um Segredo. The Rain mostra jovens tentando superar os desafios de um futuro distópico como The 100. Ou mesmo as reviravoltas de um destino insólito da série alemã Dark, que fez muita gente mergulhar em universos paralelos e viagens no tempo, dois gêneros populares da ficção-científica, mesmo não entendendo metade da história.

O melhor de tudo é que a diversidade de produções que tem chegado ao Brasil na última década, especialmente com a chegada das plataformas streamings, tem ajudado o público a entender que não são apenas as séries de língua inglesa que fazem os próximos episódios divertidos. O que muito bom nessa história, independente do país de origem, é como se conta essa mesma história. O melhor exemplo disso é a série Criminal, que mostra o interrogatório de um suspeito, vista por policiais alemães, franceses, espanhóis e britânicos. Cada um no seu quadrado dramático e emocionante a cada episódio.16

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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