Siga-nos nas Redes Sociais

Cinema 3 MIN DE LEITURA

Coringa e os gritos da rua

O filme nos conduz à gênese da maldade, ao ovo da serpente, de como as mentes perturbadas conquistam espaço entre a plebe ignara

Publicado

em

Ilustração de Gabriela Yaroslavsky/140 Design.

Não se deve ter ilusões quanto a natureza do negócio: o cinema é uma atividade industrial desenvolvida por grandes estúdios com o objetivo de entreter o publico e apresentar resultados financeiros, como qualquer outra atividade econômica. Eventualmente, alguns produtos transcendem o principio do negócio e tornam-se mais do que isso – obras a serem discutidas, monumentos da psicologia e que refletem o incômodo das ruas. É o caso de Coringa (Joker).

O diretor Todd Philips, também responsável pelo roteiro ao lado de Scott Silver, faz bem na arte da manipulação do espectador ao contar a historia de um zé-ninguém (Joaquin Fenix) que tenta a sorte como comediante. Em Coringa, assistimos à revelação e transformação do sem-graça palhaço Arthur Fleck em uma crescente angustiante, ora torcendo por ele ora evoluindo ao lado dele com um sentimento de vingança ensandecido em um ato nada civilizatório. Mas como?

Como não se comover com a estória de um coitado que cresceu sendo espancado na rua e pelos namorados da mãe, esta também uma transtornada mental com problemas de narcisismo. O filme nos conduz à gênese da maldade, ao ovo da serpente, de como as mentes perturbadas conquistam espaço entre a plebe ignara. O roteiro da novela chega a ser irritante de tão repetido, desde Genghis Khan a Adolf Hitler, passando por Stalin e outros chefes populistas islâmicos (um acabou de ser reduzido a pó por uma bomba lançado de um drone), que também tiveram infâncias e passados dificílimos mas que se destacaram das multidões com uma combinação de discursos inflamados e carisma.

A receita é um eterno retorno – desde os tempos de Robin Hood, o ladrão “bom”, que bandeou para o mundo do crime por causa de injustiças contra ele. O diretor Anthony Wonke nos dá outra pista da genealogia de um terrorista, o cidadão britânico Mohammed Emwazi, o “Jihadi John”. Os autores do documentário, disponível no Now da NET, traz depoimentos e filmes dele desde os tempos de escola, sua transformação para o islamismo radical até se tornar um assassino impiedoso do grupo ISIS que se tornou mundialmente famoso por matar e decapitar seis estrangeiros sequestrados na Síria (Steven Sotloff, David Haines, Alan Henning, Peter Kassig, Haruna Yukawa e Kenji Goto), além de matar o jornalista James Foley.

Sem entrar na questão do espetáculo em si – o filme é ótimo e indigesto para estômagos e mentes fracas – me chamou a atenção a atuação minimalista do ator Joaquin Phoenix. É antológica a sua dança com as mãos, performance que me lembrou Kazuo Ohno, o mestre do teatro butô, que dizia que “é mais importante comunicar sem fazer nada do que comunicar com um grito”.

Mas os gritos estão nas ruas. Dia desses comentei sobre os protestos no Chile, que começaram por causa do aumento de míseros 3,75% da tarifa do metro. O mesmo ocorreu em S. Paulo em 2013 com a tentativa do prefeito Fernando Haddad de aumentar a tarifa de ônibus, que motivou uma serie de protestos violentos que se alastraram para todo o país.

Para quem, como eu que mora em S. Paulo, é impressionante como uma Gotham City noir lembra S. Paulo pela oferta de violência banal, pela quantidade de imbecis de todas as classes exibindo a sua verve demente ao empunhar seus carros como armas na mão, ultrapassando as faixas dos pedestres – e rindo nervosos. No dia seguinte em que assisti ao filme, fui enrolar o lixo em um caderno da Folha de S. Paulo (jornais impressos também são ótimos para esta finalidade) e levei um susto ao ver uma foto de um Coringa tipo black block em uma avenida no Chile ao lado de um incêndio – a vida é uma debochada cópia da arte, mas é o caso de refletirmos quem começou o que, e primeiro.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.

Fundador da Art Presse, 140 Online e do Jornal 140, empresário de comunicação, jornalista de formação e digital de paixão. Teve participação fundamental no lançamento da internet banda larga no Brasil em 1999. É autor do livro "Domingo no Sancho" (2018), Amazon Kindle.

Continuar Lendo

Escreva um Comentário

Cinema 1 MIN DE LEITURA

Sergio: Netflix divulga trailer com Wagner Moura no papel do diplomata brasileiro

Com Wagner Moura e Ana de Armas, o filme biográfico do diplomata brasileiro estreia em 17 de abril.

Publicado

em

A Netflix divulgou nesta quarta-feira (15), o primeiro trailer do filme biográfico que conta a história do diplomata brasileiro.

Durante o período caótico após a invasão dos EUA ao Iraque, o diplomata da ONU Sergio Vieira de Mello assume a missão mais complexa e perigosa de sua carreira. Wagner Moura e Ana de Armas estrelam este drama do diretor Greg Barker.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
Continuar Lendo

Cinema 1 MIN DE LEITURA

Democracia em Vertigem vai disputar o Oscar 2020

Documentário dirigido por Petra Costa e distribuído pela Netflix, foi indicado oficialmente ao Oscar 2020

Publicado

em

Foto: Divulgação / Netflix

Disponível na Netflix, o documentário da aclamada cineasta Petra Costa, narra o processo de impeachment da ex-presidente do Brasil, Dilma Roussef, e os acontecimentos que se desdobraram logo após o episódio. A 92ª edição do Oscar acontece no dia 9 de fevereiro.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
Continuar Lendo

Trending

  • Registrar
ou entre com
Lost your password? Please enter your username or email address. You will receive a link to create a new password via email.