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Comportamento 3 MIN DE LEITURA

Um Cântico para Leibowitz: o perigo de uma nova Idade das Trevas

Ficção mostra o risco que corremos ao tratar a ciência como arma ou inimiga.

Sergio Kulpas

Publicado

em

Foto: Alexander Antropov / Pixabay

O romance de ficção-científica “Um Cântico para Leibowitz” foi escrito por Walter M. Miller Jr. em 1960. A ação se passa em um monastério católico no deserto americano, séculos depois que uma guerra nuclear devastou o mundo. A narrativa mostra como a civilização humana busca se reconstruir depois da tragédia, que aniquilou toda a cultura e as conquistas científicas anteriores.

Um livro exemplar do período da Guerra Fria, “Cântico para Leibowitz” surpreende pela premissa. Uma ordem religiosa fundada por um cientista do século 20 tem a missão de preservar o conhecimento da civilização destruída pela guerra. Depois da catástrofe que vaporizou a maior parte das cidades do mundo, surge um movimento de “Simplificação”: hordas de sobreviventes ignorantes que consideram a cultura, as ciências e qualquer cientista como culpados pela mortandade. Isaac Edward Leibowitz era um engenheiro eletricista judeu que trabalhava para as Forças Armadas dos EUA na véspera do conflito. Depois da guerra, ele busca refúgio em um mosteiro beneditino da ordem cisterciense. Ali, Leibowitz se converte ao catolicismo e estabelece as metas para uma nova ordem monástica que tem o objetivo de preservar a cultura e a ciência para as gerações futuras. Os monges da “Ordem Albertiana de Leibowitz” criam uma abadia no meio do deserto do sudoeste americano e passam a esconder lá todos os livros que encontram. Outros monges se dedicam a memorizar volumes inteiros, para que depois sejam transcritos por irmãos copistas. Cria-se assim a “Memorabilia”, um repositório de conhecimento científico e cultural da civilização, que deve ser protegido pelos religiosos até que a humanidade tenha condições de resgatar essa herança.

Essa atividade dos monges lembra o enredo de “Fahrenheit 451”, escrito por Ray Bradbury em 1953. O romance de Bradbury é muito mais conhecido e já foi adaptado várias vezes para cinema e televisão. O ponto em comum é a hostilidade ao conhecimento e a cultura, que são vistos como subversivos e perigosos para regimes autoritários, ou como a causa de todos os males (no caso de “Cântico”).

A história de “Um Cântico para Leibowitz” se desenrola em três capítulos. “Fiat Homo” (“Faça-se o Homem”) se situa no século 26, quando o mundo está mergulhado nas trevas ainda radioativas da guerra nuclear. A espécie humana está reduzida a poucos agrupamentos, a maior parte são tribos selvagens e canibais, com muitos indivíduos deformados pela radiação. Roma, a cidade original do Vaticano na Itália foi destruída na guerra, e a sede da Igreja Católica é um povoado no meio dos antigos Estados Unidos, Nova Roma. Nesse primeiro momento, um noviço do mosteiro de Leibowitz encontra por acaso documentos em uma ruína que contém conhecimentos da civilização destruída pela guerra atômica.

O segundo capítulo é “Fiat Lux” (Faça-se a Luz”) começa no ano 3174, e mostra como os religiosos do mosteiro Leibowitz conseguiram preservar os livros e diagramas, permitindo que cientistas da nova era possam começar um Renascimento. Ainda é um período muito primitivo, com guerras tribais e pouca esperança, mas os monges perseveram em sua missão de preservar o conhecimento para as futuras gerações.

No capítulo final, “Fiat Voluntas Tua” (Faça-se a Vossa Vontade”), chegamos ao ano 3781. E há energia elétrica, internet e naves espaciais novamente nessa época. O mosteiro de Leibowitz não é mais um oásis no deserto remoto, faz parte agora de uma grande metrópole em uma nova nação. É claro que não existem mais os países de antes, e as pessoas não falam as mesmas línguas de hoje. Mas os mesmos comportamentos se repetem, e a ameaça de uma nova guerra nuclear paira no ar.

Essa é a mensagem essencial do romance, a visão do autor sobre os vícios recorrentes da humanidade. O conhecimento preservado a duras penas pelos monges por muitos séculos volta a alimentar as mesmas cobiças e ambições que destruíram o mundo 1500 anos antes. Diante da iminente destruição do mundo (novamente) a Ordem Albertina de Leibowitz decide colocar a Memorabilia em uma espaçonave e despachá-la para uma colônia em um sistema solar distante, levando juntos alguns monges dedicados.

A estupidez humana usa o conhecimento científico para seus propósitos, e depois despreza o saber devido às consequências da própria estupidez. A história se repete em ciclos, e há sempre uma Biblioteca de Alexandria prestes a ser incendiada pelo tirano de plantão.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.

Sergio Kulpas é escritor e jornalista, com 25 anos de atividade em redações. Passou pela Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo, Gazeta Mercantil, Diário do Comércio, Meio & Mensagem e vários sites especializados em comunicações e mídia.

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Comportamento 2 MIN DE LEITURA

Por que temos tanto medo de errar se dizem que errar é humano?

Como trabalhar esse sentimento que nos paralisa e impede de alcançarmos nossos objetivos

Publicado

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Foto: Andre Hunter / Unsplash

O medo de errar é um sentimento que aprendemos a carregar desde a nossa infância. Tudo começa quando fazemos algo de errado – ou não da maneira 100% correta – quando crianças e muitas vezes recebemos olhares de desapontamento ou desaprovação. Depois vamos para a escola onde somos avaliados por meio de provas e atividades nas quais os erros são vistos como fracasso e não colocados como um princípio para aprendizagem. De forma bem grosseira, o lema no colégio geralmente era ‘demonstre ser inteligente e faça de tudo para não parecer burro’.

Quantas vezes deixamos de perguntar uma dúvida para os professores com medo de sermos julgados pelos colegas? Ou mesmo hoje na fase adulta, durante as reuniões, quantas vezes deixamos de expor opiniões por achar que podem não ser relevantes?

O medo é um paralisador de conquistas e gera uma ansiedade enorme. Tememos os erros e procuramos evitá-los ao máximo mesmo que custe a nossa felicidade. Percebem? Muitas vezes escolhemos ficar dentro da zona de conforto, mesmo que signifique abandonar nossos sonhos ou que a situação esteja ruim – pois, de certa forma, já estamos familiarizados e acostumados com a situação. Então deixamos de arriscar, de ver o que poderíamos ganhar, conquistar, viver, pela possibilidade de fracasso. Possibilidade, o que significa que é um medo criado e não real.

Enfrentando os nossos medos

Particularmente, eu não gostava de expor minhas ideias em público, por medo de ser julgada, de não ser “boa o bastante”, mesmo que me custasse ter visibilidade, oportunidades, e hoje vejo minhas publicações ou participações em palestras e treinamentos, por exemplo, como uma conquista enorme. Percebo que muitas vezes nem tudo sai como planejado, mas essa é a graça. Estou aprendendo a deixar-me ser vulnerável e assim percebi que só com a prática conseguimos mudar algumas crenças que temos sobre erros e acertos.

Pense: Qual é o significado que a palavra ERRO tinha para você? E agora?

Abaixo listei algumas sugestões que podem ajudar você a lidar com situações críticas:

• Perceba de onde vem o medo. É uma questão de insegurança? Observar isso pode ajudar você a analisar o que falta / deve ser trabalhado para seguir em frente.
• Como estão seus pensamentos sobre a situação? Muitas vezes surgem os medos criados por imaginarmos tudo o que pode dar errado ao invés do contrário.
• Pergunte-se: Caso tudo dê errado, o que pode acontecer?
• O que você ganha enfrentando/trabalhando esse medo? O que você perde se não enfrentar?
• Trabalhe seu modelo mental a respeito de erros e acertos. Mude a forma como você enxerga seus erros.
• Se errar, seja gentil com você e entenda que faz parte do processo.

Novamente aqui entra a resiliência, que é a nossa capacidade de lidar com os nossos problemas, de superar obstáculos mesmo diante de situações adversas e aprender com isso. Falo sobre o tema aqui.

Cada tentativa falha, cada erro, cada luta nos mostra algo sobre nós mesmos e aprendemos com isso. Nossos erros, principalmente, são convites para reflexão. E mesmo as piores falhas são evidências de que tentamos, são provas da nossa bravura por nos deixarmos ser vulneráveis.

Lembre-se de um momento que você superou os seus medos. O que você aprendeu com ele?

Quero saber a resposta!
analucia@trevo360.com.br | @trevo360

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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Comportamento 2 MIN DE LEITURA

A polêmica dos corpos reais

Pensemos em tudo o que faríamos quando desprovidos de pressões estéticas.

Paula Akkari

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Foto: Lethu Zimu / Unsplash

No fim de dezembro, os feeds de notícias ficaram saturados pelos compartilhamentos de uma postagem de marca de cosméticos contendo uma mulher negra de biquíni com celulites à mostra.

Apesar de a imagem estar longe de ser original, é relativa novidade que a indústria da beleza se preocupe em divulgar imagens de corpos minimamente coerentes com a realidade. Eis a dinamicidade capitalista: o mercado é adaptável às demandas. Muitos nomes souberam se apropriar do desejo de desconstrução de ideais de aparência vigentes, posição em destaque desde a primavera feminista. Adicionalmente, muitas dessas empresas ganharam visibilidade devido aos elogios segmentos liberais dos movimentos.

Tais concepções, a serviço do capital ou não, refletem a incongruência do real com o (nem tão) antigo modelo estético, inevitavelmente fadado à falência. O que é feito para atrair um nicho consumidor é um dos sintomas da insustentabilidade dos padrões de ser.

Mas, haveria vitórias no microcosmo ou novidades transformadoras de épocas? A representatividade mostra-se insuficiente,  as ficções midiáticas alienantes compõem os processos de subjetivação de todos, sendo especialmente tóxicas para mulheres, pessoas negras, trans, gordas e/ou pobres. Quanto aos costumes relacionados à vaidade, são naturalizadas as mutilações, cirurgias e despesas demasiadas. O processo de gostar da própria imagem não é consequência delas, mas por diversas vias, um alvo cruelmente bombardeado.

Assim, cada episódio empoderador é passível de comemoração. Obviedades, infelizmente não redundantes, devem ser ressaltadas: corpos são de todos os tamanhos e cores; apresentam assimetria, odores, secreções, texturas, gorduras, estrias, celulites, espinhas, manchas, cicatrizes, pelos…

As constituições físicas, em suas autenticidades, são as materialidades no mundo, o intermédio de cada ser com o exterior. A elas devemos todas as experiências sensoriais, cada alimento saboreado, música ouvida, paisagem vista, orgasmo atingido.

Cuidar do corpo é um dos caminhos para a merecida paz com ele. Essa prática, diferente do modista “autocuidado” simpático ao status quo, consiste em promoção de saúde. Exemplos de ações caras são, conforme a viabilidade de cada rotina, dormir uma quantidade de horas diárias próximas a sete, manter a alimentação saudável (incluindo a ingestão do que gosta), entrar em contato com o sol com proteção e praticar atividades físicas – o hábito aumenta a disposição e a imunidade, diminui o estresse, melhora a postura e fortalece as articulações.

Os ambientes virtuais e físicos, ademais, são variáveis relevantes aos encaminhamentos. Nem toda toxidade é evitável, entretanto, vale deletar das redes sociais os perfis que obstaculizam desenvolvimentos e ignorar/rebater falas contraproducentes. Outra benevolência é a evitação ativa de comparações com terceiros – elas nem ao menos fazem sentido, afinal, são entre diferentes sujeitos.

Por fim, vale a reflexão a respeito do tempo e do esforço em encaixar-se em padrões já desmascarados, ou estar bem apesar deles. Como seria mais bela, criativa e simples a vida livre da ditadura em que estamos inseridos. Pensemos em tudo o que faríamos quando desprovidos de pressões estéticas. Pois façamos desde agora.

*O Jornal 140 não se responsabiliza pela opinião dos autores deste coletivo.
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